segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Dominação masculina e mecanismos que a perpetuam

Em “A Dominação Masculina”  (1999),  Pierre Bourdieu  identifica as diferentes instituições que a reproduzem e permitem que seja tão naturalmente aceite:
O trabalho de reprodução [da dominação masculina] esteve garantido, até época recente, por três instâncias principais, a Família, a Igreja e a Escola, que, objetivamente orquestradas, tinham em comum o fato de agirem sobre as estruturas inconscientes. É, sem dúvida, à família que cabe o papel principal na reprodução da dominação e da visão masculinas; é na família que se impõe a experiência precoce da divisão sexual do trabalho e da representação legítima dessa divisão, garantida pelo direito e inscrita na linguagem. Quanto à Igreja, marcada pelo antifeminismo profundo... ela inculca (ou inculcava) explicitamente uma moral familiarista, completamente dominada pelos valores patriarcais e principalmente pelo dogma da inata inferioridade das mulheres.... Por fim, a Escola, mesmo quando já liberta da tutela da Igreja, continua a transmitir os pressupostos da representação patriarcal (baseada na homologia entre a relação homem/mulher e a relação adulto/criança) e sobretudo, talvez, os que estão inscritos em suas próprias estruturas hierárquicas, todas sexualmente conotadas, entre as diferentes ... faculdades, entre as disciplinas ('moles ou duras' ...), entre as especialidades, isto é, entre as maneiras de ser e as maneiras de ver, de se ver, de se representarem as próprias aptidões e inclinações. (p. 103-104).

(…) ... se a unidade doméstica é um dos lugares em que a dominação masculina se manifesta de maneira mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o princípio de perpetuação das relações de força materiais e simbólicas que aí se exercem se coloca essencialmente fora desta unidade, em instâncias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas ações propriamente políticas, declaradas ou escondidas, oficiais ou oficiosas... (p. 138) 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Violência simbólica e dominação

  • Para quebrar uma longa ausência, quero partilhar convosco este texto tão lúcido, de Pierre Bourdieu, sobre violência simbólica sofrida por  tantos seres humanos neste nosso mundo, em que a injustiça é naturalizada e a violência se perpetua sem encontrar resistência:


“(..) jamais deixei de me espantar diante do que poderiamos chamar de 0 paradoxo da doxa: 0 fato de que a ordem do mundo, tal como está, com seus sentidos únicos e seus sentidos proibidos, em sentido próprio ou figurado, suas obrigações  e suas sanções, seja grosso modo respeitada, que não haja um maior numero de transgressões ou subversões, delitos e “loucuras"; (…) ou o que é ainda mais surpreendente, que a ordem estabelecida, com suas relações de dominação, seus direitos e suas imunidades, seus privilégios e suas injustiças, salvo uns poucos acidentes históricos, perpetue-se apesar de tudo tão facilmente, e que  condições de existência das mais intoleráveis possam permanentemente ser vistas como aceitáveis ou ate mesmo como naturais. Também sempre vi na dominação masculina, e no modo como é imposta e vivenciada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, resultante daquilo que eu chama de violência simbólica, violência suave, insensível i invisível a suas próprias vitimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente do desconhecimento e do reconhecimento ou, em ultima instancia, do sentimento.”

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

As correntes invisíveis mas violentas do machismo



"[As mulheres vivem] trancafiadas pelas correntes violentas do machismo – amarras estas que circundam sua vida desde o nascimento e que, com o auxílio de uma educação ideologicamente contrária à igualdade, responsável por construir papéis sociais taxativos ligados ao feminino e ao masculino, fazem com que permaneça sendo associada ao cuidado, ao afeto, à dedicação ao lar e à educação dos filhos, emparedada no espaço privado – restando apenas a elas a maternidade, a doçura e a subordinação, já que a bravura, inteligência e o poder de dominação e crescimento fora do espaço privado é destinado ao homem.”
( M. Isabel Trivilin, in Blog da Rea)

Reparei nesta palavras que encontrei num texto do Blog da Rea, muito por conta da foto de uma ‘menina’ ainda de tenra idade que comemora o seu aniversário agarrada a uma boneca - presumo que um presente. De quem? Será que até foi de outra mulher?

Por cá, são manuais escolares que são convidados a sair do mercado porque surgem em duas versões, uma para “meninas” e outra para “rapazes”!!!


Estejamos atentas: espreita-nos um verdadeiro retrocesso civilizacional.

sábado, 11 de março de 2017

MISOGINIA E CONTROLO DA NATALIDADE

No século XX, mesmo após a conquista do direito de voto, nas sociedades mais avançadas do Ocidente, uma outra batalha teve de ser travada que implicou a mobilização das mulheres e encontrou resistência feroz por parte de muitos sectores da sociedade (não so da maioria dos homens).

Com essa batalha, pretendeu-se libertar as mulheres do risco de gravidez indesejada, permitindo-lhes o controlo sobre a sua própria capacidade reprodutiva. Nessa conjuntura, o movimento feminista foi indispensável.

Mais uma vez, aqueles que se opunham a essa libertação puderam contar com a ajuda preciosa da ideologia judaico-cristã. Mesmo na Inglaterra a igreja anglicana denunciou o facto como uma profunda heresia. Nos Estados Unidos, quando no principio do século XX uma mulher tinha em média 3 filhos contra a média de 7 no inicio do século XIX, muitos e muitas sentiam-se  assustados e temiam a degenerescência da sociedade e da família. As próprias mulheres alinhavam nessa reação  e por exemplo, Elizabeth Blackwell, a primeira mulher norte-americana a obter o grau de médica percebia as práticas de controlo da natalidade como algo contra natura. e portanto desaconselhável.
O presidente Roosevelt considerava decadente o uso de preservativos e, antecipando o nazismo, apodava as mulheres que a eles recorriam de “criminosas contra a raça e objeto de desprezo pelas pessoas saudáveis.”

Com tudo isto, o que estava em causa era manter as mulheres dependentes e mesmo à mercê dos homens. Era impensável que a mulher pudesse, contrariando as Escrituras e o destino que estas lhe reservavam, controlar o seu corpo e entregar-se à atividade sexual sem receio de gravidez. Isso era sinónimo de autonomia e embora todos dissessem adorar as mulheres, pretendiam que elas continuassem no lugar que lhes cabia. 


Todavia, quando em 1955 foi descoberta a pílula anticoncepcional, apesar de todos os entraves que então se colocaram, ameaçando-se as mulheres com doenças graves, percebeu-se que era uma questão de tempo, mas esta batalha já tinha tido o seu desfecho.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MISOGINIA e MASSACRE EM CAMPINAS


Nos primeiros minutos de 2017, o massacre cometido em Campinas ceifou brutalmente 12 vidas humanas , das quais nove eram de mulheres.
Márcia Tiburci reflete sobre o acontecido na entrevista que a seguir transcrevemos e que foi publicada por BBC Brasil, 05-01-2017. 


- Nas cartas que o autor da chacina deixou, há um discurso repleto de ódio contra as mulheres, chamando todas elas de "vadias". Dos 12 mortos, 9 eram mulheres. O que isso representa?

Esse elemento no discurso do assassino faz parte de um contexto mais geral, a meu ver. A gente chama isso de misoginia. Esse discurso não é novo: ele só nos choca no fato de ser tão declarado e de aparecer numa maneira tão tosca.
O caráter brusco desse discurso, que tem autorização para dizer tudo isso sem preocupação, isso é o que o torna mais chocante. Mas se você for ler discursos mais rebuscados na mídia tradicional, na Bíblia, nos textos clássicos da História, você encontra o mesmo tipo de conteúdo, a mesma estrutura simbólica de ódio às mulheres. Como há um ódio histórico aos judeus, aos negros.
O ódio no contexto do machismo é estrutural. Não tem machismo sem ódio. Todo machismo carrega em si um afeto odiento. Seja como repulsa, como inveja, como necessidade de fazer calar.

Muitos estão tratando o assassino como psicopata. O que acha disso?

Ele poderia ser, de fato, a partir de um ponto de vista psiquiátrico, medido como um psicopata. Mas não temos esse registro comprovado. A gente tem que tomar muito cuidado com isso, com esse diagnóstico que surge no senso comum.
O importante aqui é que do ponto de vista sociológico, filosófico, a gente não vive sozinho, a gente tem influência do meio em que vivemos. Eu diria que esse cidadão seria, no nível do senso comum, apenas um pobre coitado que realiza algo que é da ordem do desejo coletivo. É um desejo forjado por uma estrutura social machista e que nesse momento perde seu freio.
Um dos exemplos que perde o freio social, a noção da lei. Ele confronta a lei de uma maneira jocosa, interpreta a lei à luz da sua própria ignorância e usa essa ignorância como um aval, uma justificativa.
Mas ele não inventou essa matança sozinho. Ele pode ter maquinado essa chacina sozinho, mas não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave.
Podemos analisar esse lugar do encontro entre a atitude particular e um contexto percebendo a semelhança entre o discurso que ele profere e o discurso que a gente vê no senso comum. Esse indivíduo pensa a partir do senso comum. É importante perceber que as ideias não são nossas, eu tenho ideias com relação ao mundo, eu absorvo os conceitos do mundo, as ideias do mundo, e nós vivemos em um mundo machista, misógino.
Ele, em que pese sua culpa, é mais um cidadão que foi destruído pelo machismo. Não é mais vítima do que as vítimas que ele causou, mas ele é também vítima de um sistema dos quais todos nós somos vítimas. A gente não deve colocar a culpa no indivíduo, a culpa é de um sistema de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados.
Esse cidadão rompeu com o bom senso, com a racionalidade, mas ele estava buscando a compensação.
Eu, como professora de Filosofia, acho que as pessoas não devem nesse momento achar que elas não têm nada a ver com isso. Elas têm algo a ver com isso, nós todos temos, porque todos nós participamos de uma cultura assim. Onde nós como cidadãos estamos errando? Esse cidadão pode fazer o que fez? Ele achou que estava acima da lei.


Muitas pessoas comentaram que o autor da chacina seria uma personificação dos comentários que se lê nas redes sociais - o discurso dele traz esses elementos de ódio que encontramos nas redes. Qual é o perigo de tornar "naturais" esses discursos?

A naturalização faz parte da história da cultura. O feminismo irrita porque ele é um questionamento do machismo naturalizado, estrutural. Então todo o questionamento relativo àquilo que foi naturalizado incomoda.
As naturalizações servem pra acobertar alguma coisa. Nesse caso, um sistema de privilégios dos homens. Nesse sistema de privilégios, os homens não querem olhar para uma mulher como alguém de igual para igual. Então esse indivíduo assassino olhava para mãe do seu filho como uma pessoa que não tinha direito nenhum, a reduzia a uma vadia. Ele se colocava como cidadão de bem, correto, de tão correto acima da lei.
A grande questão pra se colocar hoje é: como nós chegamos a essa ideia de que nós podemos fazer tudo o que a gente achar certo. Ele rebaixa a cidadã, mas rebaixa (também) a lei.

Mas ele não inventou isso sozinho. Ele é uma evidenciação, uma metonímia da sociedade nesse momento. É a parte que fala pelo todo.

sábado, 12 de novembro de 2016

MISOGINIA E RACISMO NA SUBIDA DE TRUMP AO PODER

DE ARTIGO DE JUDITH BUTLLER:

Nos Estados Unidos há duas questões que os eleitores, da esquerda ao centro, estão a colocar: quem são essas pessoas que votaram em Trump? E por que não nos preparamos para esse resultado? A palavra "devastação" aproxima-se um pouco do sentimento difuso neste momento entre aqueles que eu conheço. 

Não sabíamos o quão generalizada era a raiva contra as elites, o quão profunda era a raiva dos homens brancos contra o feminismo e o movimento pelos direitos civis, o quão muitas pessoas estão desmoralizadas pela desapropriação econômica, o quão exaltadas as pessoas estão pelo isolacionismo e pela perspectiva de novos muros e belicosidade nacionalista. Este é o novo "chicote branco"? Por que não o vimos surgindo?

Assim como os nossos amigos no Reino Unido, depois do Brexit, estamos agora céticos sobre as pesquisas: quem é entrevistado e quem não é? As pessoas dizem a verdade quando questionadas? É verdade que a grande maioria dos eleitores eram homens brancos e que muitas "pessoas de cor" pularam a rodada? Quem é esse público irritado e anulador que prefere ser governado por um louco do que por uma mulher? Quem é esse público zangado e niilista que culpa a candidata do Partido Democrata pelas devastações do neoliberalismo e do capitalismo desregulado? Temos que pensar agora sobre o populismo, direita e esquerda, e misoginia – o quão profundamente isso realmente pode chegar.

Para melhor ou pior, Hillary é identificada com a política do establishment. Mas o que não se deveria subestimar é a raiva e o ódio profundamente arraigados contra Hillary, em parte resultado de uma grande misoginia e da repulsa contra Obama, alimentadas por um longo racismo fervoroso. Trump desencadeou a raiva reprimida contra as feministas, figuradas como uma polícia censora; contra o multiculturalismo, visto como uma ameaça aos privilégios brancos; contra os imigrantes, figurados como uma ameaça à segurança. A retórica vazia da falsa força triunfou, sinal de um desespero mais difuso do que julgávamos.

Mas, talvez, estejamos vendo uma sublevação contra o primeiro presidente negro, junto com a raiva contra a possibilidade da primeira mulher presidente por parte de muitos homens e algumas mulheres brancas. Para um mundo cada vez mais descaracterizado como pós-racial e pós-feminista, estamos vendo agora como a misoginia e o racismo anulam o julgamento e um compromisso com os objetivos democráticos e inclusivos – são paixões sádicas, ressentidas e destrutivas que dirigem o nosso país.

Quem são elas, essas pessoas que votaram nele, mas quem somos nós, que não vimos o seu poder, que não previmos isso, que não conseguimos entender que as pessoas votariam em um homem com discurso racista e xenófobo, com uma história de ofensas sexuais, de exploração dos trabalhadores, de desprezo pela constituição, pelos migrantes e com um plano imprudente de aumento da militarização? 

Será que estamos cegos à verdade por causa da nossa própria forma isolada de pensamento esquerdista e liberal? Ou será que de algum modo ingênuo acreditávamos na natureza humana?  (…)
Naturalmente, nós ainda não sabemos que parte da população realmente votou. Mas ficamos com a questão sobre como a democracia parlamentar nos trouxe um presidente extremamente antidemocrático e se temos que nos preparar para sermos mais um movimento de resistência do que um partido político."


Transcrição com algum cortes e adaptações, do texto publicado na Newsletter de IHU de 11/11/2016, em que a filósofa norte-americana Judith Butler procura explicar a ascensão de Trump ao poder.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Porque as mulheres "gostam" de ser oprimidas

As mulheres gostam de ser oprimidas porque aprenderam a apreciar essa situação, através de uma coisa que se chama opressão psicológica em que, resumidamente, se pode dizer que o opressor consegue a cumplicidade do oprimido. 

A opressão psicológica facilita qualquer forma de dominação pois se a pessoa, através dela, internalizou  que é inferior, o dominador não precisa de recorrer a violência física para conseguir o que pretende e a dominação adquire uma aparência de legitimidade e de naturalidade.

A opressão psicológica das mulheres é conseguida através de três instrumentos específicos: a objetificação sexual, a estereotipização e a dominação cultural. Em qualquer dos casos, a mensagem que estas formas de opressão transmitem é que as mulheres são inferiores.

Na objetificação sexual a pessoa é identificada com o corpo e reduzida ao corpo - esta identificação é degradante porque é redutora; com ela “domesticam-se” as mulheres, reduzem-se a uma dimensão de vida biológica e animal. Um exemplo simples ilustra este aspeto. Todas conhecemos a situação, agora bem menos frequente, da jovem mulher que na rua é apreciada por desconhecidos pelos seus atributos físicos, que assobiam ou pronunciam piropos. Aparentemente inofensivo! Mas não tanto assim. através dessas expressões de “agrado” a jovem constrói uma identidade na qual a aparência física desempenha um papel importante e essa identidade compele-a a tratar do físico com um cuidado e uma tirania inusitada que um homem pode bem dispensar, orientando as suas energias para assuntos bem mais interessantes  e compensadores; parece que a mulher não tem mais nenhuma fonte de auto estima: não é inteligente, curiosa, amigável etc etc. Isto leva a mulher a perceber-se como é percebida, depois a publicidade faz o restante serviço com os estereótipos de beleza feminina etc. 

Na estereotipização, a mulher é reduzida a um estereótipo:  infantil, doce, submissa, mais intuitiva do que racional etc.. Mas, se eu sou definida por um estereotipo, então não sou respeitada na minha individualidade, pois pretendem que me comporte como acham que uma mulher se deve comportar; limitam a minha liberdade de ser quem quero ser: é a minha autonomia e capacidade de auto determinação que é posta em causa; tudo se passa como se uma mulher independente de alguma estranha maneira deixasse de ser mulher.

Pela dominação cultural, a mulher é compelida a aceitar e a assimilar os valores que a cultura dominante transmite e esta é masculina, porque enquanto mulheres que vivem desde sempre em contacto intimo com os homens, as mulheres não tem uma cultura alternativa. Ora a linguagem, a arte, a literatura e a cultura popular, com maior ou menor intensidade, são sexistas no sentido em que de uma maneira geral manifestam a supremacia masculina e as mulheres não tem acesso a outra cultura, logo estão tentadas a ter delas próprias uma percepção sexista e, à conta da cultura, a subordinação das mulheres vai parecer natural, parece que gostam de ser submissas!!!
Têm de rir das piadas mais broncas, sobre as sogras, sobre a fera amansada, a violação da rapariga feia que deveria ter ficado grata ao violador, da loira burra, tem de rir-se de si mesmas enquanto mulheres porque todas essas piadas discriminatórias são sobre mulheres.

Concluindo, objetificação sexual, estereotipização e dominação cultural mantém as mulheres no lugar considerado desejável por quem manda, por isso é tão importante que haja mais mulheres que também mandem. Por isso é que a derrota de Hilary Clinton é uma derrota de todas nós e a prova provada de que a misoginia, a que nem as mulheres escapam, e o medo ainda fazem parte do cardápio de um número muito considerável de pessoas.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Pedestal do Capacho


Embora com absoluta falta de tempo, não queria deixar de vos contemplar com esta admirável pérola de misoginia, muito comum entre os que dizem adorar as mulheres. O dito é referido por Gisele Halimi, que já foi ministra da justiça de um governo socialista francês; ao discutir aquilo a que chama tática do ‘pedestal do capacho,  cita Sacha Guitry que:

 “Admitiu, cheio de boa vontade, que as mulheres são superiores aos homens desde que não procurem ser iguais a eles”

Sintético, mas profundo, deve dar muito que pensar aos e às chamadas sexistas benevolentes; e acreditem que muitas mulheres incorporam o grupo, sempre ansiosas de ocupar um pedestal mesmo que este seja o do capacho. 

sábado, 27 de agosto de 2016

BURKINI E MISOGINIA


O uso do burkini tem inegavelmente um valor simbólico, representa algo que transcende o facto de ser uma simples peça de vestuário; representa uma certa concepção da mulher e do corpo feminino, como devendo, por modéstia e por observância de  um preceito religioso,  resguardar-se do olhar dos homens (que não o do próprio - leia-se do seu dono).

Quem usa o burkini são mulheres muçulmanas, se o fazem porque gostam ou porque acham que devem, ou porque alguém  as obriga ( e há muitas maneiras de obrigar …), para o caso em análise, é-me perfeitamente indiferente; o que sei é que me afrontam e afrontam a paisagem ao imporem-me os sinais exteriores do seu estatuto de subserviência em relação à religião que professam e em relação aos homens que reverenciam. Que o fizessem nas praias dos seus países de origem, até compreendia porque aí de facto não teriam outra opção, mas que aproveitem a tolerância do Ocidente para exporem os símbolos de uma visão intolerante do mundo e da vida é o que me perturba e incomoda profundamente. 

Karl Popper, que não era de todo um totalitarista, aconselhava a não se tolerar o intolerante; por isso não deixo de me espantar com o número e a qualidade de algumas vozes que se levantam contra a proibição do uso deste estranho símbolo de opressão e de dominação. 

Transformar isto num caso - que consideram altamente inapropriado - de dizer as mulheres o que devem ou não devem usar, impondo-lhes portanto um ou outro tipo de vestuário, é pura e simplesmente ignorar completamente os contextos, desvirtuar a questão e usar de má fé, é como se costuma dizer ‘virar o bico ao prego’. 

Transformar isto num caso de liberdade de expressão: as mulheres muçulmanas são proibidas de se expressar da maneira que é mais consentânea com as suas convicções …  ressuma igual má fe; mas então porque não permitir que sejam usados nas praias, escolas, tribunais, cinemas etc. etc. símbolos suásticos? Quer dizer, proíbem-se  estes pelo que simbolizam, mas esquece-se o que o burkini simboliza e considera-se a sua interdição nas praias um atentado às liberdades individuais. Aja paciência!!!


Outros falam mesmo em misoginia, como se não percebessem que o uso desta farpela, esse sim,  é claramente resultante de uma visão misógina da mulher e do corpo feminino. 

No fundo, o que sobressai é uma tremenda confusão de ideias que não augura nada de bom para o progresso do Ocidente e dos seus valores.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Clitoris - o segredo do orgasmo feminino



Encontrei um artigo muito interessante e educativo sobre o clitoris e sua importância para a sexualidade feminina. Peço desculpa por não o apresentar traduzido, devido a falta de tempo, mas como já muita gente lê inglês, espero que possam tirar proveito dele.

“ Paul Verlaine celebrated it in his 1889 poem Printemps as a “shining pink button”, but thanks to the sociomedical researcher Odile Fillod, French schoolchildren will now understand that it looks more like a hi-tech boomerang. Yes, the world’s first open-source, anatomically correct, printable 3D clitoris is here, and it will be used for sex education in French schools, from primary to secondary level, from September.

From Fillod’s sculpture, pupils will learn that the clitoris is made up of the same tissue as the penis. That it is divided into crura or legs, bulbs, foreskin and a head. That the only difference between a clitoris and a penis is that most of the female erectile tissue is internal – and that it’s often longer, at around 8 inches.

“It’s important that women have a mental image of what is actually happening in their body when they’re stimulated,” Paris-based Fillod says. “In understanding the key role of the clitoris, a woman can stop feeling shame, or [that she’s] abnormal if penile-vaginal intercourse doesn’t do the trick for her – given the anatomical data, that is the case for most women.”

“It’s also vital to know that the equivalent of a penis in a woman is not a vagina, it’s her clitoris. Women get erections when they’re excited, only you can’t see them because most of the clitoris is internal. I wanted to show that men and women are not fundamentally different.”

Fillod had been working with Toulouse-based V. Ideaux, creators of an anti-sexist web TV series, to create a modern sex education video when it struck her that the clitoris was never presented correctly in school textbooks. This catalysed her to develop her 3D model at the Fab Lab, of the Cité des Sciences et de L’Industrie in Paris.
Fillod’s 3D clit has come in the nick of time. This June, Haut Conseil à l’Egalité, a government body monitoring gender equality in public life, published a damning report on the state of sex ed in France. The report revealed that sex education is rife with sexism. Current official guidelines state that young boys are more “focused on genital sexuality”, while girls “attach more importance to love”.
Clitoris activism is hot in France right now. The feminist group Osez Le Féminisme has been vocal in combatting the silence around it since 2011. While in Nice, a group of sex-positive feminists, Les Infemmes, has created a “sensual counter culture” fanzine called L’Antisèche du Clito or The Idiot’s Guide to the Clit. There are funny drawings of “Punk Clit,” “Dracula Clit” and “Freud Clit”, as well as facts about the organ.

Meanwhile, jeweller Anne Larue has created a bronze clitoris pendant in conjunction with Les Infemmes artist Amandine Brûlée. “The clitoris has been the hidden, shameful organ for so long,” says Larue. “My necklace brings it to the light of day.” She reassures that the more timorous should not be worried about wearing it: “For the uninitiated, it looks like an octopus or a neolithic goddess.”
The Australian doctor Helen O’Connell is often credited as being the first person to show the complete anatomy of the clitoris to the modern world in 1998. In fact that achievement belongs to LA-based activist-artist Suzann Gage, who realised, while looking for images of the clitoris to illustrate a book called A New View of a Woman’s Body in 1981, that her best information came from medical textbooks of the 1800s – when anatomical drawings were done from cadavers. So images of the clitoris might have existed for a long time but, on realising that it played no direct part in reproduction, the medical profession chose to ignore it. 
Fillod has hopes that doctors as well as school teachers, will use her sculpture to learn – and teach – the truth about the female body. “France has the reputation for being sexually sophisticated, but often it’s about male sexuality.” However, she is optimistic about the future. “Understanding that they have an erectile system just like men, I think women will start to experiment more. They will understand that pleasure is not some magic that only a partner knows how to give.”

The Australian doctor Helen O’Connell is often credited as being the first person to show the complete anatomy of the clitoris to the modern world in 1998. In fact that achievement belongs to LA-based activist-artist Suzann Gage, who realized, while looking for images of the clitoris to illustrate a book called A New View of a Woman’s Body in 1981, that her best information came from medical textbooks of the 1800s – when anatomical drawings were done from cadavers. So images of the clitoris might have existed for a long time but, on realizing that it played no direct part in reproduction, the medical profession chose to ignore it.

Fillod has hopes that doctors as well as school teachers, will use her sculpture to learn – and teach – the truth about the female body. “France has the reputation for being sexually sophisticated, but often it’s about male sexuality.” However, she is optimistic about the future. “Understanding that they have an erectile system just like men, I think women will start to experiment more. They will understand that pleasure is not some magic that only a partner knows how to give.”

encontrei este artigo no Guardian, neste endereço

quarta-feira, 11 de maio de 2016

MISOGINIA - o mais velho preconceito do mundo


Diferentemente do racismo, a misoginia não é percebida pelos homens como um preconceito, mas como algo quasi inevitável. … A misoginia tem sido parte do que o historiador do holocausto, Daniel Goldhagen, designou de ‘senso comum’ da sociedade. Foi um preconceito demasiado óbvio para ser percebido. 

Em diferentes civilizações, em diferentes tempos, o registo histórico é claro: sempre se considerou como perfeitamente normal que os homens condenassem as mulheres ou expressassem diretamente desgosto por elas, simplesmente por serem mulheres. Todas as maiores religiões do mundo e os mais renomados filósofos mundiais olharam para as mulheres com desprezo.
[Nos nossos dias] no vocabulário corrente do rap as mulheres são ‘cadelas’ e ‘putas’.  (mas não é só o rap). Grupos como os Rolling Stones [por exemplo] em 1976 publicitavam um album ‘Black and Blue’, com a imagem de uma mulher violentamente agredida, amarrada a uma cadeira. Embora o flagrante desprezo do rap pelas mulheres tenha vindo a ser atacado tanto por mulheres negras como por outros movimentos, é claramente um produto da cultura de alienação e frustração no qual a misoginia ainda prevalece como parte do ‘senso comum’ da sociedade. “

Texto adaptado de Jack Holland. “A Brief History of Misogyny: The World's Oldest Prejudice.” 

sábado, 9 de abril de 2016

Misoginia na Grécia antiga e em Roma


No mundo grego, a misoginia era de tal modo intensa e pervasiva que excluía completamente as mulheres da vida pública. Péricles, o maior estadista ateniense  do século V a. C. resumiu de forma exemplar essa atitude; segundo palavras suas, uma boa mulher era  aquela de que não se falava, nem sequer para elogiar. Por isso, não é de estranhar que não tenham chegado até nós quaisquer nomes de mulheres da época; pura e simplesmente foram ignoradas e não lhes conhecemos qualquer protagonismo. O gineceu era o seu espaço  e a sua prisão.
Já no mundo romano, o panorama é algo diferente, conhecemos, embora normalmente pelos ‘piores’ motivos, os nomes de várias mulheres, de entre as quais se destacaram: Messalina, lembrada pelos excessos sexuais; Agripina, ambiciosa e sedenta de poder; Semprónia, prostituta de alto gabarito, conspiradora e revolucionária; Cleópatra, sedutora e política hábil. Claro que estas memórias foram transmitidas por homens que nem sequer se deram ao trabalho de esconder a flagrante misoginia que estas mulheres, no mínimo corajosas, tiveram de desafiar. 
As mulheres romanas tinham de vencer vários obstáculos, desde logo, o infanticídio feminino, que, tal como acontecia na Grécia, era permitido. Depois as leis do casamento que as colocavam na completa sujeição de seus maridos e senhores, com poder de vida e de morte sobre as suas pessoas.
O adultério e o consumo de vinho eram crimes suscetíveis de serem  punido com a pena de morte.
O historiador Valerius Maximus elogia o aristocrata Metellus, que matou a mulher ao surpreendê-la a beber vinho - provavelmente sem qualquer moderação - nos seguintes termos: 

“Não apenas ninguém o acusou de crime como nem sequer o censurou. Todos consideraram tratar-se de um exemplo excelente de uma pessoa que tinha punido justamente alguém que violava as leis da sobriedade. Na verdade, qualquer mulher que procura imoderadamente o consumo de vinho fecha a porta a todas as virtudes e abre-a a todos os vícios.”

O mesmo historiador louva Gaius Sulpicius Gallus por se ter divorciado da mulher por esta expor os seus cabelos em público, mostrando assim falta de decoro, ao  não reservar as suas belezas para o marido (resta dizer que só os homens tinham o poder e o direito de se divorciarem das respetivas mulheres).


Estas duas breves histórias documentam a misoginia romana de que, como é sabido, ainda hoje remanescem práticas em países de tradição muçulmana, tais como o apedrejamento das mulheres até à morte por adultério e o uso do véu islâmico.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Feministas são pessoas ...


“Feminismos não são isentos de relações de poder, e do atrito entre essas relações costumam sair faíscas de tretas. Mas me parece que o incêndio se dá porque o feminismo, infelizmente, também não está livre da monolética. (E a monolética vem a ser um neobobismo meu, para significar a anti-dialética, ou seja: dois monólogos concomitantes, sem que uma interlocutora escute, de fato, a outra.)

Feministas discordam umas das outras o tempo todo, e na maioria das vezes tudo corre bem: o discurso até progride por conta dessas divergências. Mas algumas feministas se digladiam por causa de suas divergências. Eu gostaria muito que não fosse assim, mas é. Feministas são – imagine você – pessoas.

Algumas pessoas são maravilhosas: divertidas, inteligentes, generosas. Outras pessoas são horrorosas: agressivas, bitoladas, egoístas. No entanto a maioria das pessoas não é nenhuma coisa nem outra, mas sim uma combinação do que é bom, ruim, belo e feio. Feministas são seres humanos, com defeitos e qualidades, que erram e acertam.
(…)
Mas estar cansada de algumas atitudes demonstradas por algumas feministas não invalida o movimento. Vou te contar um segredo: as feministas não precisam ser perfeitas. (Eu especulo, inclusive, que a expectativa pela “feminista perfeita” não passe de uma extensão da ideia machistinha de que as mulheres tenham que ser perfeitas. Mas essa é outra conversa.)

Seria bacana se sempre nos respeitássemos entre nós? Certamente. O patriarcado já gosta bastante de nos silenciar, de tornar nossa fala abjeta, ou nos condenar quando pisamos na bola e nos engasgamos com um conceito mal-articulado.

Mas o feminismo sempre vai ser um lugar de problematização, questionamento, desconstrução de privilégios e insights dolorosos. Seria lindo se conseguíssemos, sempre, discordar com elegância e seguir adiante. Mas é inevitável que, às vezes, uma problematização seja feita de forma agressiva. Algumas pessoas são agressivas. E feministas – já sabe – são pessoas.”

Excerto de um artigo publicado  na CartaCapital, 11-02-2016, de Joana Burigo


sábado, 23 de janeiro de 2016

Misoginia nos nossos dias

A misoginia só pode ser inteiramente entendida se for entendida enquanto fenómeno político; perde conteúdo quando reduzida ao domínio de relações individuais porque, mais uma vez, estamos perante uma situação em que é o macro fenómeno que permite elucidar o micro fenómeno, não o contrário. 

Assim como os conflitos laborais são conflitos de classe - não se trata do fulano B, trabalhador individual, ter alguma coisa contra o fulano A (dono da empresa) - também a misoginia tem de ser entendida no mesmo sentido; na misoginia também não é um indivíduo C que odeia em geral as mulheres (as mulheres enquanto classe); mas é o sistema social e político que está todo ‘armadilhado’ para desvalorizar as mulheres em geral, as mulheres enquanto classe.

O sistema funciona de modo a mascarar formas não institucionais de dominação dos homens sobre as mulheres, funciona de modo a tornar as mulheres deferentes e submissas em relação aos homens, sem que elas mesmas se dêem conta dessa subserviência. Consegue ainda mostrar as relações entre homens e mulheres como amigáveis e como relações entre iguais.

A hostilidade só é patenteada em determinadas situações, na maioria dos casos há apenas opiniões menos favoráveis às capacidades das mulheres, pelo menos em domínios preponderantemente masculinos. Todavia, alguma atenção à publicidade e ao entretenimento, por exemplo, mostra como são mantidos os estereótipos e permite compreender por que é que, quando ‘o leite azeda’, o ódio aparece em todo o seu esplendor.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

SEXO E MORALIDADE


A história de Lucrécia, contada pelo historiador romano Tito Lívio, ilustra de modo flagrante a íntima ligação entre sexo e moralidade. Lucrécia, esposa de reconhecida virtude, foi violada por Tarquínio, o último rei de Roma, que exerceu pressão direta (força física) ou ameaçou matá-la e de seguida encenar o envolvimento dela com um escravo. Lucrécia acabou por se suicidar tendo proclamado: “como pode uma mulher viver bem se perdeu a sua castidade?” A família vingou-se e Traquínio viu-se obrigado a fugir.

Este acontecimento foi objeto de numerosas pinturas e narrativas dramáticas, e até mesmo de comentários filosóficos. Kant, pr exemplo, já em fins do século XVIII, um filosofo tão reto e irrepreensível teve o 'descaramento' de reprovar Lucrécia por não ter resistido antes de se sucidar.

A história de Lucrécia ilustra a ligação intima que a sociedade e também os seus mentores têm estabelecido entre comportamento sexual e valor ético da pessoa, sobretudo no que às mulheres diz respeito. Hoje temos dificuldade em ver, ou pelo menos em justificar, esta ligação que se manteve, pelo menos no nosso país, até aos fins do seculo XX e que execrava a mulher solteira não virgem ou a mulher casada adúltera, consideradas não dignas de respeito social e moral. Aqui no ocidente, particularmente nos países de tradição latina como Portugal, uma jovem que tivesse tido relações sexuais com o namorado era considerada desonrada; era assim que as pessoas se lhe referiam. A mulher honesta devia ser casta e tal significava ter relações só com o marido. Para a mulher a “pureza sexual” era condição sine qua non para ser considerada uma “pessoa” honesta.
 
 Ainda hoje, malgrado alguns avanços, esta mentalidade está presente bastando para tal lembrar o assassínio frequente de mulheres pelos seus companheiros.
Erradicar esta mentalidade é tarefa complicada, mas podemos sempre perguntar:
O que é que uma determinada prática sexual ou o que é que um determinado comportamento sexual têm a ver com a bondade ou maldade, com a generosidade ou com a lealdade ou com a probidade da pessoa humana?
 

 



domingo, 31 de maio de 2015

Da natureza do desejo sexual


Continuo a explorar ideias sugeridas pelo vídeo de Flávio Gikovate a que assisti há tempos.

Não o acompanho na tese que defende acerca do desejo sexual. Gikovate distingue o desejo sexual masculino do desejo sexual feminino, dizendo, entre outras coisas, que o desejo sexual masculino é visual, isto é, que é despertado pelas caraterísticas visuais do objeto e que o desejo sexual feminino não tem essa componente visual pois a mulher excita-se por se sentir desejada, quer dizer, não deseja ativamente.
Eu não nego que isto seja verdade, só defendo que é assim porque foi, e continua a ser, construído assim. Se dermos atenção aos estímulos eróticos, na publicidade, filmes e outros meios de veicular mensagens, verificamos que têm como público-alvo os homens e são constituídos por mulheres, ou partes de mulheres (estranho, não é?!) apresentadas como lânguidas, recetivas, expectantes, numa palavra passivas. Em contrapartida, não existe (ainda) um erotismo cujo público-alvo sejam as mulheres. Se calhar isso acontece porque os donos da comunicação social são, na sua esmagadora maioria, homens, preocupados muito naturalmente com os seus interesses, não com os interesses das mulheres.
Enquanto mulher, não só não aprecio homens feios, mal cuidados e barrigudos, como aprecio homens bonitos, com corpos bem desenhados e atitude sensual; mas também devo lembrar que sempre ouvi dizer que os homens não precisam de ser bonitos, foi essa a mensagem que me chegou quando era adolescente e jovem e penso que ainda hoje é dominante.

Claro que esta mensagem é muito confortável para os homens que precisam de perder muito pouco tempo com aparências e que desse modo se podem concentrar em adquirir outros bens mais duradouros e eficientes. Só é pena que as mulheres, bloqueadas e manipuladas por mecanismos de vária ordem, não percebam que deviam preocupar-se mais em desenvolver a sua inteligência e em adquirir saberes do que em gastar tempo e energia com ninharias que apenas lhes conferem, quando conferem, um poder efémero.

domingo, 15 de março de 2015

Sadomasoquismo e ética

Quando se defende que nada há de errado nas práticas sadomasoquistas desde que pressuponham consentimento e correspondam ao desejo da pessoa que vai estar no lugar de ‘vítima’, esquece-se que de facto essas práticas são eticamente condenáveis, pelo menos à luz de duas das mais consideradas teorias éticas, a utilitarista e a rawlsiana, pois estas duas teorias, embora divergentes em muitos aspetos, concordam na consideração de que “o bem é a satisfação de um desejo racional” e que qualquer comportamento eticamente valioso tem de perseguir o bem.

Se nós acordarmos em que o ser humano é um agente racional e é capaz de escolhas racionais, temos de aceitar que não é racional alguém desejar sofrer violência física ou violência simbólica, por exemplo, querer ser degradado e humilhado; portanto, as práticas sado masoquistas, independentemente do consentimento e do desejo, têm de ser avaliadas negativamente do ponto de vista ético.

Um outro aspeto tem a ver com o desejo e com o facto dele nem sempre ser racional porque pode acontecer que decorra de uma construção social, conseguida através de mecanismos subtis e com objetivos que nos escapam. Corremos sempre o risco de formarmos desejos que só aparentemente são nossos, se estivermos desatentos e não exercermos uma atitude crítica/racional. Ora, se temos desejos irracionais é nossa obrigação moral combatê-los em vez de tentar satisfazê-los sob a alegação de que são nossos, gostamos e não prejudicam ninguém, porque de facto prejudicam e nós somos a primeira vítima pois a nossa autoestima vai ser duramente atingida.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sexo, poder e agressividade


De Flávio Gikovate parece-me interessante o livro: “A Libertação Sexual: rompendo o elo entre o sexo, o poder e a agressividade”. De entre aqueles que recentemente têm refletido sobre sexo, eis-nos perante um dos poucos que abandona o tipo de análise politicamente correta para ir ao cerne das questões, mostrando que, afinal, como diz o ditado, “o rei vai nu” e que a tão propalada revolução/emancipação sexual está muito perto de mais uma mistificação, cujo propósito terá sido o de “mudar alguma coisa para que tudo pudesse ficar na mesma. 

A ligação sexo, poder e agressividade continua presente na relação heterossexual, genericamente falando, e sobretudo nas práticas sadomasoquistas que “alguém” parece querer revitalizar, vide a publicidade do filme mais recentemente badalado.

Diz Gikovate, citando Ortega y Gasset, que, sendo uma das capacidades mais importantes da inteligência humana a de dissociar, está mais que na hora de dissociar sexo de agressividade. Todavia essa dissociação só será possível a partir do momento em que os justos, que constituem uma minoria de pessoas, se sobrepuserem aos generosos e aos egoístas. Repare-se que Flávio Gikovate está a ir contra o senso comum que tem a tendência a associar generosidade a justiça; ora não é preciso nem desejável que haja generosos porque são estes que alimentam os egoístas; o que é preciso é que haja pessoas justas e um princípio básico de justiça é o de respeitar a autonomia, logo a liberdade de cada um. Deste modo, a velha, consolidada e alimentada propensão das mulheres para serem generosas – masoquistas - (a fim de agradarem aos mais poderosos: pais, irmãos, filhos, maridos), é aquilo que alimenta o egoísmo dos sádicos que tiram prazer do domínio que têm sobre elas, julgando-se fortes na justa medida em que conseguem exercer esse poder.

Por tudo isto, as mulheres precisam começar a gostar de si mesmas, a satisfazerem os seus legítimos direitos, nomeadamente o direito a serem autónomas, nos vários domínios das suas vidas e, particularmente, no domínio da autonomia sexual.


Será importante que não deixem que as coisas lhes aconteçam. Mas que façam as coisas acontecerem! Todavia, não esqueçam que, embora a liberdade seja poder para se autodeterminarem, as escolhas que venham a fazer não são neutras, não têm todas o mesmo valor pois há escolhas que podem limitar a  liberdade da pessoa humana.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sexo e agressividade

Acabei de assistir a um vídeo muito interessante em que Flávio Gikovate discorre sobre amor e sexo e vou tentar dar conta de algumas das ideias que retive e de outras que desenvolvi a partir das que aí são expressas.

A primeira constatação a que se chega quando se reflete sobre sexo é que existe uma ligação entre sexo e agressividade tão antiga quanto a própria humanidade; essa ligação é comprovada, entre outras coisas, pela matriz sexual da linguagem do insulto e pela própria linguagem que descreve comummente o ato sexual em termos de violência e de conflito. Por outro lado, embora possa envolver duas ou mais pessoas, o sexo é egoísta e visa à gratificação de um instinto que é do indivíduo; implica um estado de excitação e de inquietação que se procura acima de tudo apaziguar, alcançando uma gratificação pessoal.

Dada a constatação acima referida entre sexo e agressividade e sexo e egoísmo, tem de aceitar-se que o sexo não só não é parte do amor como desrespeita o sentimento amoroso; este, resultando e acompanhando uma relação interpessoal, implica cuidado com o outro, respeito pelo outro.
Também, dada a ligação entre sexo e agressividade, fica meio difícil falar, como se fala, em libertação sexual. A emancipação sexual, para ser autêntica tem de pressupor a capacidade de dissociar sexo de agressividade; mas essa dissociação só será possível se se der uma mudança cultural ou, como também se diz, uma mudança das mentalidades. Como ainda não se deu, o sexo continua a ser uma questão muito mal resolvida e por isso é que se fala tanto dele.


De modo que, da tão apregoada revolução sexual, cujo início se reporta aos anos sessenta, como diz Flávio Gikovate, e eu não podia estar mais de acordo, o que sobrou foi o direito de as mulheres se exibirem mais. Eu acrescentaria que foi também o “direito”, altamente duvidoso, se entendermos o direito como um determinado tipo de interesse, de as mulheres alinharem em práticas sexuais, que até nem lhes agradam, pela necessidade que ainda sentem de agradarem aos homens e pelo receio de serem apodadas de puritanas e de antiquadas se o não fizerem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O sexo mais seguro do mundo

“Eis a coisa mais natural do mundo - a nossa própria mão nos nossos genitais, fazendo algo que nos dá prazer e não prejudica ninguém, praticando o sexo mais seguro no mundo – no entanto sentimo-nos culpadas como se fossemos ladras, o nosso sentido do eu diminuído quando deveria sentir-se elevado pelo controlo e amor-próprio.
A masturbação não é, apesar de tudo, uma habilidade difícil, como aprender a tocar violino. A mão move-se automaticamente entre as nossas pernas a partir do primeiro ano de vida. Algo, alguém ‘se colocou’ entre ela e os nossos genitais tão cedo que a maior parte de nós nem consegue lembrar-se.
Uma mensagem foi impressa no nosso cérebro, um aviso tão impregnado de medo que, muito tempo depois de sermos crescidas, mesmo depois de termos permitido que um homem introduzisse um pénis dentro de nós, para tocar os nossos genitais, experimentamos sentimentos de ambivalência acerca de nos tocarmos a nós próprias. Podemos fazê-lo, mas é um ato físico contra uma pressão mental - esse delicado movimento dos nossos dedos apenas é efetivo quando a mente nos liberta. Doce como o orgasmo é, nós não ficamos com um sentido fortalecido de feminilidade. Ganhamos a batalha, mas perdemos o estatuto de Boas Raparigas.
Costumava considerar-se a masturbação o grande tabu para as mulheres porque representava satisfação sexual fora de uma relação. A masturbação significava uma medida de autonomia e ninguém queria que as mulheres tivessem demasio controlo sobre si próprias.”
Nancy Friday: Women on Top: How real Life has Changed Women´s Sexual Fantasies, p. 19.