segunda-feira, 26 de março de 2012

As mulheres e o cristianismo

Surgido no Império Romano, o cristianismo era inicialmente apenas um entre muitos outros movimentos religiosos em que a época era fértil e não tinha quaisquer ligações com o poder político.
Desde muito cedo, os cristãos, procurando fazer a diferença em relação ao paganismo e ao judaísmo, advogaram uma moralidade sexual austera que acabou por se tornar uma marca identitária do novo credo. Assim, a ética sexual cristã foi-se formando com a nítida pretensão de se demarcar da moral sexual pagã e judaica; apresentou-se como uma moral sexual muito mais exigente e muito menos permissiva que considerava a abstinência sexual uma virtude e via no celibato um estado mais perfeito do que o próprio casamento heterossexual.
Curiosamente era uma moral muito mais igualitária do que a pagã ou judaica pois que, por uma questão de coerência interna, tinha de rejeitar a poligamia e o divórcio (que favoreciam os homens), o adultério, tanto de esposas como de maridos, e a instituição da prostituição (também favorável aos homens). Segundo o ensinamento religioso, Cristo tinha condenado a prostituição mas não culpara as prostitutas
Inicialmente o cristianismo era um movimento milenar que pregava a salvação das almas. Para se prepararem para o juízo final, que não viria longe, muitos abandonavam bens, profissões, não casavam para se juntarem ao movimento, juravam castidade, ou mesmo, quando casados, levavam vidas de abstinência sexual.
Não foi por mero acaso que as hostes cristãs foram engrossadas sobretudo por mulheres e escravos, socialmente marginalizados, eram quem tinha mais a ganhar com este tipo de moralidade sexual. Para mulheres de todas as classes sociais o celibato era quase uma bênção pois representava uma possibilidade de liberdade que, de outro modo, não podiam antever. Se a sexualidade impunha e reforçava a hierarquia social e um estatuto desigual, evitar a sexualidade, negá-la, equivalia em certo sentido a negar essa desigualdade:

” Para escravos e mulheres de todas as classes, no mundo antigo, a escolha do celibato significava uma liberdade que de outra maneira não conseguiriam. Escapar à sexualidade significava libertar-se de um estatuto servil no qual mulheres e escravos viviam para conveniência dos maridos, pais, senhores, e governantes.” (Hard Bargaisn)

Claro que, como a autora de Hard Bargains insiste, o celibato só apresentou esta vantagem para as mulheres porque era defendido num contexto de desvalorização do físico e de enaltecimento do espiritual, se este não tivesse sido o contexto, as mulheres seriam desvalorizadas e ainda ficariam mais a mercê dos homens porque só seriam vistas como necessárias no contexto do casamento heterossexual.
Mas esta moral igualitária veio a ter de fazer concessões à sociedade real, afinal o mundo não acabava, como os milenaristas profetizavam, e os sacríficos perdiam sentido. Assim, quando finalmente o cristianismo se transformou na religião oficial do Imperio Romano do Ocidente, teve de fazer concessões políticas e de se harmonizar com os interesses da sociedade patriarcal, retirando completamente às mulheres alguma autonomia que inicialmente lhes conferira.
Não deixa todavia de ser interessante saber que potencialmente, até em relação às mulheres, o cristianismo se assumiu como uma ideologia progressista, pena é que rapidamente tenha degenerado, colocando-se ao serviço dos senhores de sempre.

quarta-feira, 14 de março de 2012

As jovens e o feminismo

Encontrei aqui um post interessante sobre a velha rejeição do feminismo por jovens mulheres que são ignorantes da história, o que não admira muito porque se tem feito tudo para apagar do passado o que não interessa ao statu quo. Mas mesmo assim não deixa de ser lamentável essa ignorância, sobretudo vinda de uma jovem que cursou uma universidade e até tirou um curso de filosofia, pergunto-me para que lhe serviu? A jovem em questão é Talyta Carvalho e o texto a seguir de Lélia Almeida é escrito a pensar nela:

Marcelo Mirisola publicou hoje, dia 8 de março, no Facebook, a matéria de Talyta Carvalho, uma filósofa de 25 anos onde ela diz que não deve nada ao feminismo e às feministas. A frase não é original, quem a disse assim, tal e qual foi Margaret Thatcher quando chegou ao poder. Não sei se a moça sabe o que a Dama de Ferro significou na história da Inglaterra e no aniquilamento das políticas de direitos humanos, trabalhistas e outros daquele país. O GNT está passando esta semana um documentário canadense que se chama "Quem Quer Ser Feminista?" falando sobre os diferentes momentos da história da luta das mulheres e entrevistando algumas feministas famosas. Naomy Wolf diz que o grande problema do feminismo hoje é para quem passar o bastão da luta já que as mulheres jovens não se interessam pelo ideário feminista numa falsa ilusão de que tudo já foi conquistado. Germaine Greer diz que a tendência de uma nova onda feminista sempre tende a negar a anterior e que, portanto, é compreensível que as jovens mulheres neguem o feminismo. O que é legítimo, elas que inventem o feminismo que bem entenderem ou que nunca mais falem neste assunto.
Marcelo Mirisola diz que a moça é corajosa, pergunta ás leitoras do face o que achamos de fazer uma entrevista com a jovem e publicá-la no Congresso em Foco, veículo onde ele é colunista e propõe que enviemos perguntas para a entrevista. Sugiro que ele entreviste a moça, e que possibilite que ela vire uma celebridade e, quem sabe, a candidata a calendário de oficina mecânica, como sói acontecer.
Mas vou fazer o meu dever de casa. Seguem as minhas sugestões de perguntas: Você já fez um aborto? Você já se sentiu constrangida, desconfortável, impotente junto a um parceiro que se negou terminantemente a usar camisinha com você? Você sabia que houve um momento na história do mundo em que as mulheres tiveram de se rebelar contra normas e padrões muito rígidos para poder estudar, dirigir um carro, não querer casar e ter filhos e fazer qualquer coisa que achassem mais interessantes? Você se sente inteiramente feliz e confortável com o seu corpo, sua sexualidade e isenta do bombardeio midiático que preconiza a beleza feminina jovem e bela e que trata as mulheres como retardadas e infantis? Você sabia que milhares de mulheres no mundo inteiro morrem na mesa de abortos mal feitos, de mutilação genital e nas mãos de homens que dizem matar por amor ou para defender a própria honra? Você acha que as mulheres devem votar e defender suas demandas, interesses, e os das suas filhas? O que você acha dos índices relativos á saúde mental que provam que as mulheres são supermedicadas por depressão e outras moléstias modernas por viverem situações de sobrecarga cada dia mais insuportáveis para grande parte delas? Você acha que os maridos devem sustentar suas mulheres? Você acha que as mulheres devem ficar em casa cuidando dos filhos? Você acha que em briga de marido e mulher não se mete a colher e que as mulheres que são estupradas, no fundo, provocaram esta situação?

domingo, 11 de março de 2012

A alma do zigoto

No século IV, no Concílio de Niceia, discutiu-se com “seriedade” e “pureza de intenções” a questão de saber se as mulheres tinham alma. No século XXI, em círculos religiosos, e ultimamente também em círculos políticos dos Estados Unidos, discute-se com igual “seriedade” e igual “pureza de intenções” a questão de saber se o zigoto tem alma. Quem discutia e discute são obviamente homens e ninguém levanta a questão do conflito de interesses, até porque nos nossos dias algumas mulheres fazem a fineza de concordar com eles dando força e respeitabilidade às suas decisões.

As almas - presume-se - são iguais perante O Todo-Poderoso que, por acaso, e é só por acaso, também é pensado à imagem do homem; têm todas igual valor e não se pode sacrificar uma em benefício de outra, se tal acontecesse o Todo-Poderoso ficaria muito ressentido. Claro que nisto da igualdade das almas continuo com a estranha sensação de que me estão a engrupir e que afinal deve haver algumas almas mais iguais do que outras, mas essas devem ser de homens e quem sou eu para me meter no assunto?!

Para além deste paralelismo de temas, há outras analogias entre o passado e o presente, e essas vão no sentido de indicar que a ”pureza de intenções” tem exatamente o mesmo conteúdo e a mesma substância que é o de colocar as mulheres no lugar que Deus e a Natureza lhes reservaram, num lugar em que a sua liberdade e poder para tomarem em mãos a própria vida é severamente limitado.

Esta questão da alma, o que quer que ela seja, e tenho a convicção de que é apenas um termo forte dotado de uma aura de absoluto para referir uma realidade fraca e relativa - a inteligência - é de extrema importância. Eu não sei como acabou a história do Concílio de Niceia mas suspeito que o resultado deve ter sido inconclusivo a avaliar pelo modo como as mulheres continuaram a ser tratadas. Também não deve ser fácil concluir acerca da alma do zigoto; mas é bom reparar que com o levantamento destas questões conseguiu-se o que à partida se queria: instalar a dúvida em muito boa gente que deverá agir em conformidade, estou a falar de legisladores, conselheiros de bioética e homens e mulheres em geral.

Se as mulheres não têm alma então verdadeiramente não são pessoas; se o zigoto tem alma então verdadeiramente o zigoto é uma pessoa. Como estamos na dúvida, vamos agir com cautela e não permitir que uma eventual alma sacrifique outra eventual alma porque afinal as almas são iguais e têm todas o mesmo valor; claro que o zigoto, não pode fazer nada à eventual alma da mulher, mas os seus procuradores podem.

Não se julgue que falar especificamente em alma, em vez de falar em inteligência, não é relevante; tem várias e assinaláveis vantagens para as tais pessoas de intenções piedosas. A alma é um termo de conotação religiosa, refere uma entidade distinta do corpo., uma entidade que lhe sobrevive. Além disso, os direitos das almas serão iguais - não se pode falar em mais e menos alma.

Falar em alma coloca a questão num campo muito favorável a quem pretende atingir o objetivo, à partida pouco digno, de limitar a liberdade de ação das mulheres; tem de se encontrar uma boa razão para tal malfeitoria e a alma serve às maravilhas essa função; se falássemos em inteligência, desejos aspirações, projetos, sentimentos, logo veríamos que não há qualquer semelhança entre os direitos da mulher e os direitos do zigoto; por isso é que é tão importante manter a terminologia e a respetiva semântica. E enquanto não se abandonar este território minado qualquer tipo de argumentação que tente defender que afinal há circunstâncias em que é preciso sacrificar o zigoto para conferir dignidade á mulher está votada ao fracasso. Os amigos do zigoto e inimigos das mulheres vão sempre conseguir rebater tal argumentação, a derrota da mulher e a vitória do zigoto estarão asseguradas.

sábado, 3 de março de 2012

Dificultar a contracepção também dá jeito!!!

O Senado norte-americano conseguiu rejeitar recentemente, por uma margem mínima de 51/48 votos, a aprovação de legislação cujo objetivo era dificultar extremamente a aquisição de fármacos anticoncepcionais.
É altura de percebermos claramente que a direita norte-americana não se satisfaz com a restrição do recurso ao aborto, fazendo passar legislação que obriga qualquer mulher que solicita um aborto legalmente enquadrado a submeter-se a um exame de ultra-som - numa perfeita manobra dissuasora. A direita vai mais longe e pretende mesmo pôr em causa um direito de saúde reprodutiva que as mulheres já davam por adquirido: o direito a controlarem a sua capacidade reprodutiva.
A direita há muito percebeu que o melhor meio de manter um sistema iníquo, em que as mulheres se encontram numa posição de dependência e de inferioridade em relação aos homens, é limitar a sua liberdade e as sua possibilidade de escolha no campo reprodutivo, não permitindo que se autodeterminem e tomem em mãos as suas próprias vidas; daí todo este encarniçamento contra o aborto e agora também, imagine-se, contra o controlo dos nascimentos. A vida humana é apenas mais uma capa e um simulacro hipócrita para alcançarem propósitos que deixou de ser politicamente correto revelar.
O que se está a passar nos Estados Unidos deveria alertar-nos para o que pode vir a acontecer na Europa e em outras partes do mundo; a luta é sempre a mesma, uma luta em que a reação não desiste em controlar a vida do indivíduo comum, procurando regressar nostalgicamente a um passado que julgávamos já enterrado.
O que se está a passar também deveria levar as mulheres a questionarem o que verdadeiramente se pretende quando se apela para valores morais, como o direito à vida, para lhes limitar a própria vida; infelizmente muitas mulheres, neste como em outros domínios, sofreram uma autêntica lavagem cerebral, são facilmente manipuladas e não percebem que enquanto não controlarem a sua sexualidade não serão verdadeiramente livres.
Quando se fala em direita tende a pensar-se em partidos políticos, mas será melhor começarmos a perceber que a direita política só consegue progredir nos seus intentos porque conta com uma direita social e com uma mentalidade em que, apesar de tudo, valores hipócritas e interesses inconfessáveis disfarçados se encontram acantonados. Curiosamente essa direita social é bem mais ampla do que a direita política e ingénuamente acaba por servir os interesses desta.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A função do sentimentalismo romântico

O sentimentalismo romântico - que goza de acolhimento extremamente favorável nos Media - é um poderoso instrumento de socialização das mulheres que se torna tanto mais importante quanto mais se caminha para a sua emancipação previsível.

Com o sentimentalismo romântico pretende-se reduzir o horizonte das mulheres ao amor, levando-as a abdicarem voluntariamente de qualquer outro tipo de realização, ou, pelo menos, a secundarizarem-no.

O sentimentalismo romântico apresenta três componentes que se interligam e reforçam mutuamente: o erotismo; a privatização sexual e o ideal de beleza; os três, atuando subrepticiamente, visam a que as mulheres não ponham em causa o lugar que desde sempre ocuparam na sociedade.

Do erotismo, o homem é o beneficiário e a mulher o objeto de culto; o erotismo funciona no sentido de despertar o desejo sexual do homem pela mulher, mas apenas se espera que ela sinta prazer em ser desejada. É um erotismo de um só sentido e confirma a mulher como objeto sexual que se sente encantada por o ser e que não aspira a firmar-se como sujeito.

A privatização sexual das mulheres tem como objetivo o estabelecimento de identidade entre individualidade e sexualidade; com ele pretende-se que as mulheres não sejam capazes de distinguir a sua própria personalidade individual do seu sexo, são reduzidas ao sexo e assim ignoram os seus interesses comuns enquanto pessoas.

O ideal de beleza imposto conduz a que todas as mulheres pareçam iguais, se despersonalizem, sujeitando-se à tirania da moda.

Com tudo isto, como diz Shulamith Firestone, na sua linguagem corrosiva, as mulheres “parecem iguais; pensam igual e, pior que tudo, são tão estúpidas que acreditam que não são iguais”.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Inveja do pénis ... ou egocentrismo masculino?!

Já abordei aqui várias vezes a famigerada teoria freudiana da inveja do pénis, mas hoje não resisto a referir a percepção que Kate Millet nos dá dela.

Millet considerou o conceito freudiano de “inveja do pénis” como um caso flagrante de egocentrismo masculino: os homens, em vez de celebrarem o poder feminino de dar à luz uma criança, interpretaram-no como uma tentativa patética de possuir um pénis de substituição. De facto, Freud, acima de tudo um “maravilhoso “ contador de histórias, afirmava que a mulher tinha inveja do pénis e só conseguiria ultrapassar esse sentimento de frustração quando desse à luz uma criança … do sexo masculino.

Quer dizer, um evento tão importante, até socialmente, como é o de dar à luz uma criança, transforma-se numa coisa bem mais comezinha: a procura do órgão sexual masculino.

Decididamente uma fantasia bem contada que, consciente ou inconscientemente - e aqui Freud fazia bem em se psicanalisar - servia às mil maravilhas para manter as mulheres acantonadas nos seus papeis tradicionais de esposas e de mães, considerados desse modo imprescindíveis para se realizarem como pessoas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A ditadura da aparência

As palavras de Shulamith Firestone acerca do vestuário e adereços usados pelas jovens mulheres do seu tempo, ressoam hoje aos meus ouvidos plenas de atualidade, quando revejo as imagens femininas que constantemente nos são apresentadas na TV mas também em diferentes lugares públicos, mesmo onde menos esperaríamos encontrá-las, isto é, nos locais de trabalho. Firestone escreveu estas considerações nos finais da década de sessenta nos Estados Unidos, mas é constrangedor perceber como cerca de quatro décadas depois muito pouco, se é que alguma coisa, parece ter mudado.

“As mini saias não são práticas, requerem atenção constante à postura das mulheres, ênfase constante na sua natureza sexual. Saltos altos, cintos de ligas, nylons e todos os outros acessórios da mulher moderna chique podem parecer mais naturais, mas de facto são quase tão desconfortáveis como eram os corpetes e os espartilhos Porque embora as mulheres lutem por uma aparência mais natural, elas ainda lutam. Hoje as jovens estão tão preocupadas com a imagem como sempre estiveram. Continuam a ser objetos sexuais; apenas os estilos mudaram.” (S. Firestone, in The New York Radical Women, 1968)

É frequente vermos mulheres jovens, e mesmo menos jovens, que se apresentam nos lugares públicos com saltos altíssimos que seguramente lhes tolhem os movimentos, além dos danos que provocam à saúde; com roupas demasiado justas, com os mesmo inconvenientes e que passam a imagem de que as mulheres se aceitam como objetos sexuais já que não desdenham, bem pelo contrário, evidenciar as caraterísticas sexuais que são apelativas para os homens.

Será que estas mulheres não percebem que afinal estão a ser muito pouco modernas?
Não percebem que estão a repetir estereótipos antiquíssimos? Que estão a aceitar "alegremente"o estatuto de objetos sexuais?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Sequestrar as mulheres para que os homens não pequem?!

O Rabi Dov Linzer, em artigo publicado recentemente no New York Times, reflete sobre o caso de um menina de 8 anos que foi cuspida e chamada de puta por um grupo de homens adultos – judeus ortodoxos, escandalizados com a “impropriedade” do seu vestuário, não compatível, em sua opinião, com as exigências de discrição e modéstia que o sexo feminino deve observar. Vale a pena ler as palavras sábias que este corajoso rabi escreveu:

”O que se encontra por detrás de acontecimentos tão perturbantes? Dizem-nos que resultam de uma preocupação religiosa com a modéstia; que as mulheres devem ser cobertas e sequestradas de modo a que os homens não tenham pensamentos sexuais impróprios. Parece pois que uma doutrina religiosa que começa com os pensamentos sexuais dos homens acaba com os homens a controlarem os corpos das mulheres. …

Os homens ultra ortodoxos de Israel que estão a exercer controlo sobre as mulheres afirmam que estão a honrar as mulheres. De facto dizem: Nós não tratamos as mulheres como objetos sexuais, como acontece no Ocidente; as nossas mulheres são mais do que corpos e é por isso que os seus corpos devem ser cobertos.”

Todavia as suas acções objetificam e hiper-sexualizam as mulheres. Pensem nisto. Ao dizerem que as mulheres devem esconder os seus corpos, estão a dizer que a mulher é um objeto que pode perturbar os pensamentos sexuais dos homens. Assim qualquer mulher que passe ao alcance do seu campo de visão é percebida na base do quanto do seu corpo está coberto. Não é percebida como uma pessoa completa, apenas como uma possível indutora ao pecado.

No fundo estamos a falar da mentalidade de censurar a vítima. Transfere-se a responsabilidade de controlar os impulsos sexuais do homem para a mulher que ele pode ou não encontrar. Esta é afim da mentalidade pressuposta na afirmação: ela estava a pedi-las … Por isso a responsabilidade é da mulher; para proteger os homens dos seus pensamentos sexuais as mulheres devem remover a sua feminilidade da presença pública, libertando-se da mais pequena evidência da sua própria sexualidade.”

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A homossexualidade no mundo grego – uma prática tolerada e mesmo institucionalizada

A sociedade ateniense do tempo de Platão - que podemos entender como uma espécie de modelo do mundo grego - discriminava profundamente as mulheres: os jovens recebiam educação específica, mas o mesmo não acontecia com as jovens, destinadas exclusivamente ao casamento e à maternidade.
A prática do infanticídio feminino era tolerada e em consequência dessa prática, o número de mulheres era muito inferior ao dos homens. As mulheres casavam muito jovens, por volta dos dezasseis anos, com homens muito mais velhos. e eram como que sequestradas no gineceu, impedidas sequer de socializarem com os maridos na altura das refeições.
O tipo de casamento instituído não pressupunha companheirismo, alias impossível de implementar numa relação profundamente assimétrica de homens adultos cultos e ativos na esfera pública com mulheres jovens, ignorantes e confinadas à monotonia da esfera privada.
Numa cultura em que o casamento não pressupunha companheirismo, a homossexualidade e a prostituição não levantavam qualquer problema, as esposas não esperavam fidelidade dos seus maridos e como não tinham o escape do adultério investiam a sua afetividade nos filhos; os maridos por sua vez, procuravam em outras paragens o que não encontravam em casa.
Neste contexto, não surpreende que muitos homens jovens e adultos se vissem privados de manter relações heterossexuais durante a fase mais activa da sua vida e por isso fica mais compreensível a prática de um modelo de homossexualidade que se tornou caraterístico da época clássica, um modelo que alguns autores referem como homossexualidade oportunística.
Esse modelo, tal como nos é transmitido pelos diálogos platónicos, nomeadamente o Symposium, apresenta aspetos peculiares que precisamos de conhecer; é entre um homem adulto e um adolescente, uma relação assimétrica em termos de idade e obviamente em termos de poder, vista como uma espécie de iniciação do jovem, protegido, instruído e aconselhado pelo homem mais velho. Previsivelmente, esse jovem, uma vez entrado na idade adulta, retomaria a prática em relação aos mais jovens; também previsivelmente casaria e teria descendência.
Este modelo de relação sexual, aparentemente pouco ortodoxo, tinha a vantagem de reforçar a estrutura hierárquica de poder vigente na sociedade; no sexo como na vida pública cidadãos adultos dominavam jovens, mulheres e escravos, que não gozavam de direitos de cidadania, mantendo-se assim a relação de domínio submissão: a sexualidade, quer a heterossexual quer a homossexual, promovia e reforçava a desigualdade social.
Ao mesmo tempo, permitia salvar ”a honra do convento”, no caso da confraria masculina que se sentia justificada para poder execrar qualquer adulto do sexo masculino que prosseguisse uma prática homossexual contrária às normas aceites, desempenhando por exemplo, um papel “passivo” na relação sexual
Posta cruamente a questão, a escassez e o sequestro das mulheres bem como o facto de serem companhias intelectualmente pouco estimulantes “empurrava” os cidadãos gregos para a prática oportunística da homossexualidade, mantendo intacta, pelas caraterísticas que essa prática assumia, a estrutura hierárquica e profundamente desigual da sociedade Todos ficavam contentes, no melhor dos mundos possíveis !!!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Capitalismo é por inerência anti-feminista?

Quem sente alguma perturbação e mal-estar com a injustiça e a desigualdade social tem dificuldade em olhar com simpatia para o regime capitalista; até pode perceber que ele apresenta algumas vantagens, mas não aceita que sirvam para justificar todo o arsenal de injustiças que comporta.
Todavia, para além desta reação emocional, uma feminista também percebe ou pressente que o capitalismo é por inerência anti-feminista. Constata que o regime patriarcal e o regime capitalista sempre conviveram muito bem, e por vezes alimenta a esperança de que o derrube deste implique o desaparecimento daquele. Mas atenção não há nenhuma garantia de que a falência do capitalismo - difícil de prever no atual contexto - implique a implosão do sistema patriarcal.

É certo que o capitalismo lucra com a situação de opressão em que a vida da maior parte das mulheres continua a decorrer:

(1) Tem à sua disposição mão-de-obra barata, descartável na primeira oportunidade, encontrando então bons argumentos para a dispensar.
(2) Pode legitimar os baixos salários que na generalidade dos casos auferem, ao considerar que de alguma maneira as mulheres são inferiores.
(3) Pode isentar a estrutura económica de um encargo de peso e permitir-lhe que contabilize lucros, de outra maneira bem inferiores, ao considerar que tomar conta das crianças e da casa, atividades imprescindíveis para a existência de qualquer sociedade, são tarefas das mulheres que “naturalmente” não devem ser pagas.

Portanto, deixemo-nos de panos quentes: o capitalismo tem tudo a ganhar com a continuação da opressão das mulheres. Mas a história tem-nos mostrado que a opressão das mulheres não favorece apenas o sistema capitalista, favorece também a metade masculina da humanidade e, dado o caráter predatório da natureza humana, temos boas razões para supor que o problema não será resolvido com uma mudança na estrutura económica da sociedade.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O que os homens de ciência têm dito sobre as mulheres

Podemos começar com Aristóteles - o homem que inventou a ciência - para percebermos que afinal a ciência também tem sexo e este é masculino.
Na opinião do conceituado filósofo, a mulher carecia de qualquer coisa, era uma deformidade da natureza, acusava uma deficiência: a fêmea humana não tinha calor suficiente para transformar o sangue menstrual em sémen; desse modo, o seu contributo para a concepção era diferente do do homem num sentido que nitidamente a inferiorizava: o homem contribuía com o sémen, mas a mulher limitava-se a fornecer o receptáculo no qual o novo ser se ia desenvolver, e o sangue menstrual tinha apenas valor como elemento nutritivo. Na terminologia aristotélica, o homem fornecia a forma e a causa eficiente, a mulher, apenas a causa material. Aristóteles, todavia, não ficava por aqui e mimoseava as mulheres com outras pérolas de misoginia; afirmava que «a coragem de um homem reside no comando, a da mulher na obediência»; e que «a matéria está para a forma, como a mulher para o homem e o feio para o belo.

Alguns séculos depois, Galeno, atribuía o estatuto social inferior da mulher à sua natureza, uma natureza mais fraca que a predispunha para a submissão.

Na época moderna, Harvey reconheceu que a mulher contribuía com o óvulo para a concepção e desse modo rebateu Aristóteles, mas mesmo assim concedia que o papel do homem era superior. Na mesma época, Descartes, o criador da filosofia moderna, afirmava que era o sémen masculino que dotava o novo ser de alma.

No século XIX, as proclamações da ciência sobre a natureza das mulheres ganharam todo um outro impacto em virtude do prestígio que a ciência adquiriu ao pretender basear as suas conclusões em observações e experiencias rigorosas. Passou a ser uma autoridade que ninguém se lembrava de contestar, e tornou-se o novo ídolo e a nova religião. Novas ciências surgiram, entre as quais a biologia e a psicologia vão ocupar um lugar de destaque, mas também a sociologia e a antropologia. A teoria evolucionista de Darwin forneceu muito naturalmente o enquadramento teórico no qual as diversas ciências se dispuseram a trabalhar. Darwin enfatizava a desigualdade sexual com base em naturezas diferentes e considerava que a situação das mulheres não era problemática.

Nos nossos dias, a sociobiologia e a psicologia evolucionista procuram não desmerecer esta ilustre e antiquíssima tradição e, ao enraizarem determinadas praticas sociais na biologia, transformam o sexismo numa inevitabilidade.

Como podemos ver, apesar de toda a ‘objetividade’ todo o cuidado é pouco pois os factores culturais desde sempre contaminaram os produtos científicos e confirmaram frequentemente a visão do mundo e da vida que favorece certos setores da sociedade em detrimento de outros.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sexismo sim, mas esclarecido !!


Susan J. Douglas, no livro Enlightened Sexism: The Seductive Message that Feminism's Work is Done chama a nossa atenção para um fenómeno que ocorre quotidianamente diante dos nossos olhos, mas que porventura passa desapercebido à maioria. A esse fenómeno chama “Enlightened Sexism” – sexismo esclarecido.
Susan J. Douglas interpreta este fenómeno como uma resposta ao que é percebido como a ameaça de um novo regime de género. Nesse contexto, a mensagem do sexismo esclarecido, passada à saciedade pelos media de informação e de entretenimento, bem como pela moda e pela publicidade, é a de que estamos numa era pos-feminista pois a igualdade e a emancipação das mulheres já são uma realidade e por isso não há qualquer problema em trazer de volta os estereótipos sexistas, enquadrados no velho e antiquíssimo paradigma do eterno feminino.
A mensagem que se vende é a de que explorar rostos, corpos, atavios e sexualidade dá as mulheres verdadeiro poder sobre os homens e ainda por cima é um poder que eles não ressentem, antes apreciam. Ser poderosa não é ter independência económica, não é realizar-se profissionalmente, não é ter capacidade de decisão e de intervenção na esfera pública, mas sim ter aquilo que as mulheres sempre tiveram: capacidade e dotes para explorar a sua aparência física e dela tirar dividendos. Assim sendo nem sequer se percebe para que foi preciso o feminismo, mas ninguém se lembra de tirar esta conclusão tão óbvia.
As adolescentes e as mulheres jovens são o alvo privilegiado desta forma sofisticada de sexismo porque são as mais vulneráveis e no imediato as que tem mais condições de tirar dele algum partido. Gastarem a sua energia para agradarem aos homens, competirem com as outras mulheres e consumirem os produtos que as vão tornar irresistíveis é o programa e o plano de vida.
O sexismo sofisticado veste as roupagens do feminismo; as mulheres agora podem escolher e se quiserem escolher ser objetos sexuais o problema é delas e ninguém tem nada com isso. Mas a intenção não declarada é a de desfazer os estragos que o feminismo fez, lembrando constantemente às mulheres e às jovens que o importante é serem femininas e não tentarem ser iguais aos homens. Ser feminina é preocupar-se com a aparência, preocupar-se em agradar, rivalizar com as outras mulheres e considerar secundária a carreira profissional e o investimento pessoal em outra coisa que não sejam cosméticos, cirúrgias estéticas e outros atavios. E neste embróglio as jovens não percebem que apenas se lhes está a dar a oportunidade de serem aquilo que as suas avós foram e que despertou em algumas o desejo e a luta pela mudança.
Para além da valorização da aparência, mostrar às mulheres a importância do seu ‘destino biológico’ é outro trunfo que o sexismo sofisticado utiliza com extrema habilidade. Mais uma vez se esquece que esse sempre foi o modelo da “verdadeira mulher”, já no período da luta pelo sufrágio feminino. Temos assim que mamas de silicone, dietas e preocupação obsessiva com as crianças e a maternidade compõem hoje a receita do sexismo sofisticado a ministrar às jovens mulheres. Com tal dieta a sociedade pode descansar pois não há razão para preocupações e as coisas vão continuar no seu correto lugar. Afinal, mais uma vez foi preciso mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma.
A conclusão que Susan J. Douglas formula resume bem o “estado da arte”: “Com tudo isto o que os media realçam é que as mulheres se definem pelos seus corpos. Não há nada de novo nisto, certamente, mas era algo que milhões de mulheres julgavam ter enterrado nos idos de 70 do século passado. Na verdade é precisamente porque as mulheres não mais têm de exibir os traços de personalidade tradicionalmente femininos como serem passivas, dóceis vulneráveis, abertamente emocionais, tolas e deferentes para com os homens, que devem exibir traços hiper-femininos diferenciadores. (…)
Esta é agora a nossa missão: correr a cortina e mostrar como estas fantasias, a despeito de todas as mudanças, nos distraem do nosso persistente status de cidadãs de segunda classe.” (Susan J.
Douglas, Enlightened Sexism)