Está na hora de nos perguntarmos sobre o
futuro do amor romântico: será que ele vai subsistir ou estará condenado a
desaparecer?
A cultura popular dominante nas
sociedades do Ocidente continua a desenvolver-se como se nada estivesse para mudar:
canções, filmes, novelas televisivas continuam a apostar no ideal romântico e a
comover audiências, nomeadamente audiências femininas. Os apaixonados alimentam
ainda a secreta esperança de um amor para sempre, malgrado todas as aparências,
visíveis no enorme aumento de divórcios. Mas as pessoas mais avisadas sabem que
o amor romântico teve um começo no tempo e no espaço e nada impede que tenha um
termo; esteve ligado na sua emergência a determinadas condições sócio
económicas e nada permite supor que se mantenha, se as condições que lhe deram
origem se modificarem substancialmente.
Historiadores, sociólogos e filósofos
lembram-nos que o ideal romântico começou a ser difundido quando, nas primeiras
décadas do século XIX, na sequência da revolução industrial, se verificaram
alterações profundas na unidade familiar que se simplificou, restringindo os
laços de afinidade a um número reduzido de pessoas – pais e filhos – e
substituiu a família alargada dos séculos precedentes que exercia um controlo
muito mais constringente sobre todos os membros família, sobretudo os mais
jovens.
Na ausência desse cimento aglutinador, começou
a desenvolver-se a ideia de que os matrimónios se deviam basear no amor
romântico, caraterizado por uma série de clichés, ainda hoje bem presentes; um
deles era o da necessidade de existir paixão entre os elementos do casal, coisa
que no passado, contrariamente, era vista como elemento perturbador da
estabilidade e dos interesses da família alargada, o que facilmente se
compreende, se recordarmos que a maioria dos casamentos era de conveniência.
Também então o desejo erótico – dos homens, claro - era canalizado para fora do
matrimónio e tornado possível pela existência de instituições várias,
nomeadamente a prostituição. Agora, a atração erótica passa a ser canalizada
para o ideal romântico da pessoa amada e é ligada ao casamento.
No século XIX, sobretudo para a
burguesia, que por sua vez se há-de tornar num modelo para as classes
inferiores, dois conceitos ganham foros de cidadania, o de individualidade e o
de intimidade. Porque o mundo lá fora é frequentemente um ambiente agressivo e
hostil onde a pessoa não é reconhecida na sua identidade individual, torna-se
mais importante a esfera privada onde ela pode ser valorizada e apreciada. Por
sua vez, a afirmação do indivíduo e do individualismo tornam mais premente a
escolha pessoal que vai passar a ocupar um lugar importante no ritual do
casamento de onde tinha estado desde sempre ausente. Se no passado o casamento
era um “negócio” da família, agora passa a ser uma questão de escolha e desse
modo dependente da atração sexual recíproca, sublimada e disfarçada através do
ideal romântico.
Os sociólogos dão uma ajuda e explicam
que casamento de amor foi a “instituição” que permitiu a integração dos
indivíduos num mundo novo, completamente diferente do dos séculos precedentes,
onde a nota dominante passa a ser o isolamento dos indivíduos e a fragmentação
social.
Nesse tipo de sociedade, fragmentada e
individualista, as pressões externas para manter a união do casal começam a
enfraquecer, mas em certa medida continua a ser necessário manter a
estabilidade das uniões para efeitos quando mais não seja da criação das novas
gerações; assim torna-se necessário substituir o dever e os constrangimentos
familiares por um novo tipo de pressão, e é neste contexto que surge o ideal
romântico de amor; por outro lado, num meio onde as coisas mudam com demasiada
rapidez, a paixão romântica permite ao casal construir uma ligação que
considera preciosa porque o amado e só o amado dá ao amante o sentimento de que
é uma pessoa única e insubstituível e lhe fornece um porto de abrigo para a
impiedade de um mundo onde, se não a hostilidade, pelo menos a indiferença o
esperam. É através do amor que a vida parece ganhar sentido.
Antony Giddens, um filósofo
contemporâneo que se debruçou sobre o tema, reconhece que o amor romântico
exerceu uma função importante no quadro da emergência da sociedade capitalista,
conferindo sentido à vida das pessoas; mas considera que esse papel não mais é necessário
e que o surgimento de novas condições contribuirá necessariamente para o
declínio do ideal romântico que será substituído por aquilo a que chama amor
confluente.
Giddens aponta mesmo o fracasso do amor
romântico e o seu potencial destrutivo, pois, em seu entender, contribuiu para
alimentar falsas espectativas e acabou criando mais infelicidade do que
seria desejável. Por outro lado, a mística romântica, criando sentimentos de
culpa nas pessoas, não permitiu que explorassem a sua liberdade a vários
níveis, nomeadamente ao nível da liberdade sexual.
Hoje segundo Giddens, já não há lugar
para o amor romântico, porque para as pessoas, mercê de vários e convergentes
movimentos de libertação, a atração erótica passou a gozar de uma legitimidade
que nunca conheceu antes e o controlo da reprodução tornou-se acessível. Desse
modo, estabeleceu-se um novo tipo de relação amorosa - o “amor
confluente”; característico do amor confluente é a “relação pura”, uma relação
que apenas se mantem enquanto for gratificante para o casal e corresponder ao
que dela esperam em termos de satisfação sexual recíproca; é pois uma relação
contingente; não há nenhum compromisso indestrutível nem nenhum tipo de
obrigação moral, estão juntos enquanto se sentirem bem juntos.
Este tipo de relação amorosa foi possível
porque há maior liberdade dos homens e sobretudo das mulheres, passando a
existir aquilo que Giddens designa de plasticidade sexual que é o contrário da
rigidez sexual anteriormente existente, quando o número de parceiros e de práticas
sexuais era bem mais limitado. Hoje as pessoas sentem-se muito mais
independentes e também já perceberam que o ideal de "fusão de almas" do amor
romântico é uma ratoeira que aprisiona homens e sobretudo mulheres, incapazes
de exprimirem verdadeiramente a sua liberdade e autonomia.