sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O feminismo e a esquerda

Passa-se com o feminismo e com as feministas algo de paradoxal. É óbvio que as ideias feministas se desenvolveram no contexto de ideologias de esquerda pois estas ideologias, ao afirmarem ideais de igualdade e de liberdade para os seres humanos em geral, independentemente da origem de classe, implicam contradição se não estenderem essa mesma igualdade e liberdade às mulheres. Se recuarmos às origens do movimento encontramos os ideais da Revolução Francesa dos fins do século XVIII, o movimento pela abolição da escravatura nos Estados Unidos em meados do século XIX, as lutas do movimento operário dos fins do século XIX e inícios do século XX e ainda a contestação radical dos anos sessenta. Em todos estes momentos, as mulheres reivindicaram para si em concreto aquilo que era exigido para todos em abstrato. Mas curiosamente, os homens de esquerda, com demasiada frequência para se poder considerar aleatório, mostraram-se francamente hostis à emancipação das mulheres. Basta lembrarmos alguns exemplos sugestivos, o caso de Rousseau, paladino dos ideais democráticos da época, e de Proudhon, defensor das classes trabalhadoras – ambos declaradamente misóginos -, os lideres da luta pela abolição da escravatura e a sua insistência em considerarem inoportuna a reivindicação do sufrágio feminino ou na década de sessenta a recusa dos jovens intelectuais progressistas em inscreverem a questão das mulheres na sua agenda politica centrada na contestação à guerra do Vietnam. A esquerda sempre considerou que a luta das mulheres não era prioritária, revelando enorme miopia politica pois não percebeu quão revolucionário seria esse movimento; muitos sectores da esquerda, politicamente progressistas mostraram-se socialmente reacionários. E não se julgue que são apenas politicos de esquerda a mostrarem tal insensibilidade, encontramos a mesma tendência em cineastas, autores literários consagrados, homens das artes plásticas, etc, etc, o que parece provar que de facto o feminismo se for bem sucedido vai minar o privilégio masculino e este é universal, isto é, dele aproveitam todos os homens de todos os quadrantes politicos, ignorantes ou cultos, ricos ou pobres.

Em contrapartida, vemos que a direita política não tem hesitado em apoiar mulheres para ocuparem cargos politicos importantes; percebendo que a ascensão das mulheres é uma questão de tempo, decide apoiar aquelas que não vão colocar em causa os interesses da direita e com isso só mostra que percebe muito mais de estratégia. Hoje por exemplo, há um certo numero de mulheres que ocupam cargos importantes na cena politica, mas a maioria são mulheres de direita, caso por exemplo de Cristine Lagarde ou de Angela Merkel. Com este lance a direita aproveita a energia de mulheres carismáticas para consolidar os seus objectivos e “lima os dentes” das autênticas feministas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Mulheres e criação artística

Para Camille Paglia, antifeminista contemporânea norte-americana, a produção cultural e a criação artística são prerrogativa masculina, são o símbolo de uma sexualidade agressiva e isso explica por que razão o número de mulheres que se tem destacado nestes domínios é irrisório com a consequente assunção de que essas mesmas mulheres seriam de alguma maneira pouco femininas porque a natureza feminina teria implicações completamente diferentes.

A tese de Camille Paglia repousa num determinismo biológico incompatível com um programa feminista progressista que vise o progresso no sentido de uma maior igualdade de oportunidades entre os sexos e se as coisas se passassem naturalmente dessa maneira, então o melhor seria desistir. Todavia, o que esta e outras explicações essencialistas têm em comum é que os factos que elas explicam podem ser explicados de maneira completamente diferente, isto é, há explicações concorrentes, porventura bem mais plausíveis. O que é facto é que as mulheres foram marginalizadas do domínio da criação artística como o foram de outras esferas de poder e tal marginalização não teve a ver com motivos de natureza biológica mas tão somente com a preocupação de as afastar de qualquer esfera da ação humana que lhes garantisse independência e desenvolvimento. Os exemplos são tantos e tão variados que dificilmente se pode negar esta afirmação; mesmo recentemente conhecemos casos de mulheres praticamente impedidas de desenvolverem os seus talentos por razões de imposição social e cultural e remetidas para a esfera doméstica de serviço à família, maridos e filhos incluídos.

Em reforço desta explicação há o facto de pelo menos a partir de certa altura, séculos XVIII e XIX, terem começado a surgir grandes escritoras (embora muitas usassem pseudónimos masculinos) enquanto as mulheres continuavam ausentes nos domínios da pintura, escultura, música ou arquitetura. Como explicar esta diferença a não ser pelo facto da escrita se poder processar no remanso do lar, na esfera da vida privada onde as mulheres encontravam obstáculos superáveis, enquanto os outros domínios artísticos implicavam incursão na esfera pública que lhes estava vedada?

Como poderia a sociedade encarar uma pintora que, como era frequente com os pintores, utilizasse modelos nus e frequentasse as academias e o convívio com os colegas masculinos? Ou como poderia uma mulher aprender a arte da arquitetura, dirigir os operários de uma obra, negociar com os proprietários, etc. etc?

A divisão social do trabalho sempre tem desfavorecido as mulheres no sentido destas poderem dar vazão à sua criatividade. Resta ainda dizer que os modelos que ainda hoje são propostos às meninas e mulheres continuam a procurar distraí-las de outro tipo de realizações que não sejam as ligadas aos tradicionais papéis femininos. Portanto, não surpreende que haja tão poucas mulheres nos campos da criação artística, o que surpreende é que ainda apareçam algumas.

domingo, 4 de setembro de 2011

Marx e a questão das mulheres

Embora haja entre marxismo e feminismo uma certa tensão, não podemos deixar de reconhecer que Marx foi uma voz sensível à injustiça com que as mulheres eram (e em muitos aspectos continuam a ser) tratadas. O marxismo é acima de tudo um humanismo - o ser humano está no centro do pensamento marxista. Marx aposta na criatividade do ser humano e na sua capacidade de moldar o mundo exterior e, apesar de reconhecer que os seres humanos estão sempre condicionados pela sociedade em que vivem e pela classe social a que pertencem, acredita que têm potencial para se libertarem.
Marx rejeitou a discriminação contra as mulheres e denunciou a legislação que as proibia de disporem dos seus próprios bens sem a intervenção e o consentimento dos maridos. Acreditava que eram possíveis novas relações entre homens e mulheres desde que se verificassem transformações profundas nas relações de produção e na forma de organização do trabalho. Em várias ocasiões teve oportunidade de mostrar a sua solidariedade para com as mulheres.
Quando, em 1853, a conhecida novelista Lady Bulwer-Lytton tentou publicar as suas ideias políticas - que não coincidiam com as do seu ilustre marido - não só não o conseguiu como foi internada num asilo para alienados mentais; nessa altura Marx publicou um artigo em que a defendia e condenava o sexismo.
Quando escrevia sobre problemas dos trabalhadores não se limitava a referir a situação dos operários; com frequência reportava a situação de mulheres e mesmo de meninas injustamente tratadas, como aconteceu, por exemplo, com o caso de uma menina de nove anos que, tendo caída exausta no chão da fábrica, foi em seguida acordada e obrigada a retomar o trabalho.
Diferentemente de muitos intelectuais de esquerda - caso flagrante do misógino Proudhon - Marx entendia que a verdadeira revolução social só seria conseguida se pudesse contar com a emancipação das mulheres. Esta atitude de Marx é tanto mais de admirar se pensarmos que, mesmo no século XX, o chauvinismo masculino foi uma constante nos movimentos revolucionários liderados pelas elites de esquerda.
Por último, mas não menos importante, Marx criticou a família patriarcal, mostrando como esta reproduzia, ao nível da unidade familiar, as relações de opressão existentes na sociedade mais vasta: a mulher era a escrava e o marido o senhor, o marido era o burguês e a mulher o proletário.

sábado, 3 de setembro de 2011

Artemisa Gentilesch – uma mulher num universo masculino

Ainda hoje há quem defenda, como a anti-feminista Camila Paglia, que a Arte e a criação artística são prerrogativa masculina, de modo que será bom começarmos a dar atenção às mulheres que, contra todas as probabilidades, se conseguiram afirmar num universo cultural definido à partida como masculino. Tal foi o caso de Artemisa Gentileschi (1593-1652), pintora italiana da primeira fase do barroco.
Gentileschi foi a primeira mulher a integrar a Academia da Arte do Desenho de Florença; focou-se em heroínas bíblicas que retratou de um ponto de vista feminino. Assim, por exemplo, influenciada por Caravaggio pintou como ele a cena de Judith com a cabeça de Holofernes. Holofernes era um general assírio apostado em destruir o lar de Judith, uma bela viúva que ele desejava sexualmente. Esta, aproveitando o acesso fácil que tinha à tenda do general, acabou por decapitá-lo. A cena inspirou inúmeros pintores em várias épocas; mas a representação da figura feminina por Artemisa Gentileschi revela uma força e uma determinação que parecem faltar na pintura do mestre e que também não encontramos em outros pintores que trataram o mesmo tema.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Suécia – política sexual e nova moralidade


Nas últimas décadas, o Estado sueco adoptou um determinado número de medidas de política sexual que têm vindo a contribuir para alterar profundamente o modo como se encara a moralidade sexual.
Na Suécia a educação sexual da população adolescente é há bastante tempo uma realidade incontroversa; as relações sexuais antes do casamento são encaradas com enorme naturalidade e os contraceptivos encontram-se facilmente disponíveis. A gravidez na adolescência tem um índice diminuto e o número de abortos também é muito baixo.
As despesas com a maternidade e com as crianças são suportadas pelo Estado que desse modo se substitui aos companheiros ou maridos provedores. Um outro pormenor importante é que essas ajudas estatais encontram-se ligadas à ocupação profissional da mulher pelo que a maternidade só é incentivada quando a mulher já se encontra no mercado de trabalho. Ter filhos fora de uma relação estável é uma opção, não um acidente.
Este enquadramento político cria condições objetivas para a emancipação das mulheres e altera completamente a moralidade sexual. Assim, determinadas virtudes, que durante milénios foram particularmente enaltecidas, deixaram de fazer sentido, caso da virgindade feminina antes do casamento ou da castidade. Tanto uma como outra foram impostas pela sociedade dominada pelos homens e iam ao encontro do interesse destes no sentido de garantirem a paternidade legítima dos seus filhos.
Como as mulheres não precisam do dinheiro de companheiros provedores para se sustentarem e sustentarem os seus filhos também não precisam de condescender em relação ao comportamento de castidade que tantos homens apreciam nas mulheres. Têm assim uma vida sexual mais ativa e livre pois por esse estilo de vida não pagam o preço que pagariam se dependessem economicamente dos homens.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mulheres e lugares de liderança





Excerto de uma conferência proferida por Sheryl Sandberg, na Universidade de Barnard em Agosto de 2011, onde se constata, através de números, como as mulheres continuam afastadas de lugares de direcção e se deduz que em boa parte este fenómeno tem as suas origens na desigual distribuição das tarefas e responsabilidades domésticas.
“As mulheres não estão a atingir lugares de topo nas suas profissões em nenhum lugar do mundo. Os números são bastante eloquentes: de 190 chefes de Estado apenas 9 são mulheres. De entre os lugares nos parlamentos apenas 13% são ocupados por mulheres. No sector empresarial as mulheres que se encontram em lugares de direcção são apenas de 15 ou 16%. Os números não se modificaram desde 2002 e vão no sentido errado. Inclusivamente em instituições sem fins lucrativos, um mundo que por vezes supomos governado por mulheres, apenas 20% ocupam lugares de direcção..
Como vamos resolver este problema? Como mudaremos estes números? …
Fazer com que as pessoas de ambos os sexos se encarreguem das tarefas domésticas é fundamental, se queremos que aja paralelismo e que as mulheres trabalhem fora.
Os estudos mostram que os lares com salários semelhantes e iguais responsabilidades têm metade dos divórcios. (…) Mas também mostram que se uma mulher e um homem trabalham a tempo inteiro e têm uma criança a mulher faz o dobro do trabalho em casa e dedica três vezes mais tempo a cuidar da criança do que o homem. De modo que ela tem três empregos ou dois e ele só tem um.”
Pode ler o texto na íntegra aqui

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mulheres e liderança



“A Drª Alice Eagly, especialista em género e liderança, declarou recentemente que os seus estudos mostram que as mulheres têm mais probabilidades do que os homens de possuírem capacidades de liderança associadas ao sucesso. Isto é, as mulheres são mais dispostas para a mudança do que os homens – preocupam-se mais com o desenvolvimento dos colaboradores, ouvem-nos e estimulam-nos a pensar «fora da caixa», são mais inspiradoras e mais éticas.
Assim, pode perguntar-se porque é que são os homens que dominam posições de liderança e porque é que mulheres altamente qualificadas não chegam ao topo? Como a dr. Eagly refere, as mulheres têm de ultrapassar obstáculos para atingirem posições de liderança enquanto aos homens é oferecido «livre trânsito”. A nossa imagem de líder é “masculina” e por isso mais frequentemente selecionamos ou promovemos homens. Os homens controlam a contratação e favorecem homens em relação a mulheres. E temos relutância em modificar o statu quo.” *

*Texto traduzido do blog Psychology Today.

sábado, 6 de agosto de 2011

O feminismo e a melindrosa questão do aborto


Em Alas, a blog, coloca-se a questão de decidir se pode considerar-se feminista alguém que, na questão do aborto, adere à posição pró-vida. Pelo interesse do tema, resolvi fazer uma tradução livre do texto aí apresentado:


“Não tenho problema em aceitar que mulheres «que genuinamente acreditam que o aborto implica eliminar uma vida humana, também podem ser feministas. Mas ao mesmo tempo, ser uma feminista, implica opor-se com consistência a políticas que prejudicam o bem-estar, autonomia e igualdade das mulheres. De outro modo, ser feminista perderia o sentido.
Pode alguém pró-vida ser feminista? Penso que sim, se «pró-vida» for definido como alguém que acredita que preservar a vida fetal é essencial. Se as ‘feministas pró-vida’ forem pessoas que consideram essencial tanto o preservar a autonomia das mulheres como a vida fetal, essas pessoas deverão dedicar-se a procurar baixar o índice de aborto – mas quererão fazer isso através de meios que valorizam a autonomia das mulheres, usando meios não coercivos para reduzir a procura por aborto. Isso não significa que elas tenham de aceitar índices de aborto elevados. No mundo real, os países que praticam tais políticas, Bélgica e Suíça, por exemplo, têm níveis de aborto incrivelmente baixos. Não há conflito entre querer liberdade para as mulheres e querer preservar a vida fetal.
Em contraste, uma feminista pró-vida que é a favor da proibição do aborto – com o enorme prejuízo que essa proibição implica para autonomia, liberdade e igualdade das mulheres e a despeito do facto de que essa proibição não preserva a vida fetal melhor do que outras políticas – está a tratar a autonomia das mulheres como se fosse algo não essencial. (…) Se pessoas que atiram pela janela a autonomia e a igualdade das mulheres são feministas então o termo perdeu todo o sentido.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Das desvantagens do modelo sexual de domínio/submissão


Continuar a insistir num modelo sexual de domínio/submissão, com homens ativos/dominadores e mulheres passivas/submissas, não é de modo nenhum irrelevante para a manutenção da ordem social existente, uma ordem que ainda é, sem sombra de dúvida, de supremacia masculina. Não perceber as implicações sociais deste modelo sexual é muito comum e acontece com as próprias mulheres, as primeiras a não entenderem como os seus desejos foram moldados pela cultura dominante em que cresceram e foram educadas.
A prostituição, a pornografia, mas também a violência doméstica, a violação e até mesmo o assédio sexual, cada um destes 'instrumentos’ cumpre à sua maneira uma função: a de mostrar as mulheres como objetos passivos manipulados pelos homens, destinados a satisfazer os seus interesses e necessidades. Neste contexto torna-se muito mais difícil a afirmação social e o sucesso das mulheres em campos como a economia, a cultura ou a política; desse modo, a desigualdade mantém-se e replica-se, sem ser necessário fazer intervir outras medidas, porventura, hoje, politicamente incorretas, e atribuindo-se a situação a constrangimentos naturais.
Senão vejamos, se as mulheres gostam de ser sexualmente dominadas, como o modelo pretende e nos quer fazer crer, então não se encontra uma justificação forte para punir a violência doméstica pois esta será mera expressão da agressividade e dominância masculina que as próprias mulheres aceitam e desejam no campo sexual. O mesmo se passa com a violação e com a presunção de que no fundo qualquer mulher gosta de ser dominada logo gosta de ser violada que é apenas uma outra forma de dominação. De resto, o que é que a pornografia main stream faz que não seja erotizar constantemente a dominação masculina e a submissão feminina! Por outro lado, não é a prostituição a prova provada de que as mulheres estão disponíveis para satisfazerem os homens a troco de dinheiro, para serem usadas e abusadas como objetos?
Tudo isto permite que se contem histórias incríveis mas infelizmente verídicas como a de um magnate brasileiro, rei já não sei de quê, que nos seus oitenta gosta de se mostrar acompanhado por mulheres jovens e bonitas. Instado se esperava que elas gostassem dele respondeu: sabe, eu gosto muito de camarões, mas, quando vou ao restaurante e encomendo, não pergunto aos camarões se gostam de mim, limito-me a comer e a pagar.
Muito instrutivo, não?! Mas voltemos a aspetos mais teóricos. Postular essências metafísicas, neste caso de homens dominadores e de mulheres submissas, é um exercício filosófico, mas não é, como erroneamente se supõe, um exercício inócuo, os filósofos, contrariamente a uma opinião muito divulgada, não dão ponto sem nó. É que se aceitarmos essas essências, temos de aceitar as consequências que delas decorrem e que procurei evidenciar atrás, é uma questão de lógica que nos ensina a extrair consequências a partir de premissas, se não desejamos aceitar a conclusão como verdadeira temos de denunciar a falsidade da premissa de que partiu, mas, se aceitarmos a premissa como verdadeira então a conclusão (lógica) também será verdadeira.

Por tudo isto eu gostaria que uma mulher pensasse duas vezes antes de dizer que para ela o homem tem de ser dominador e que é assim que se sente sexualmente estimulada; ou melhor, ela até pode sentir isso, pois ninguém manda nos seus desejos, mas pode perceber que não é responsável por eles e se eles a colocam numa situação de vulnerabilidade é melhor começar a pensar em substitui-los por outros, é uma tarefa tremendamente difícil, mas se calhar não impossível. Nenhuma pessoa gosta de ser dominada; nem mesmo os animais, experimente prender os movimentos ao seu cão ou gato e aguarde… Você pode é gostar da ideia de que é dominada porque lhe inculcaram essa ideia na sua cabeça, a convenceram de que gosta, de que é assim que deve ser e foi condicionada a associar o prazer sexual a essa ideia. O fisiologista russo Pavlov, a propósito de cães, explicou muito bem como é que estes mecanismos funcionam. Nós não somos cães, mas somos animais, às vezes, para meu gosto, demasiado amestrados.
Está na hora de parar para pensar e dar um pontapé em ideias feitas para nos tramar.

sábado, 23 de julho de 2011

Porque é tão difícil resistir à objetificação


Vem este post a propósito daqueles que insistem em considerar que o facto de os homens objetificarem as mulheres é algo natural, normal e desejável tanto para os homens como para as mulheres. A reflexão que se segue procura lançar alguma luz sobre tão momentoso tema e é inspirada na leitura de Simone de Beauvoir.

Dada a ambiguidade da existência humana, Beauvoir faz-nos perceber que ser um ser humano, independentemente do sexo, é sempre correr o risco de auto-objetificação; esse risco é particularmente exacerbado para as mulheres, porque em relação a elas, diferentemente do que acontece com os homens, tudo na sociedade e na cultura as convida a desistirem de se afirmarem como indivíduos dotados de autonomia e de capacidade para transcenderem a experiência imediata, numa palavra, tudo as convida a desistirem de viver uma vida genuinamente humana.
Cada ser humano é simultaneamente um sujeito dotado de consciência, capaz de transcender o dado, e um objeto corpóreo que pode ser, e é, alvo dos juízos dos outros. A separação sujeito/objeto, referida por Beauvoir e também por Sartre, embora desprovida de uma base ontológica - tal como Descartes a tinha entendido - subsiste porque o eu consciente expressa-se através do corpo e o corpo é o que os outros vêem. Beauvoir não aceita o bi-substancialismo nem o dualismo antropológico; para ela, como para Sartre, no ser humano, mente e corpo são indissociáveis, mas o que ocorre é que do ponto de vista fenomenológico - do que aparece - eu experiencio-me como um sujeito, mas os outros experienciam-me como um objeto, isto é, a nossa experiência é uma experiência de dualismo. Ou, se quisermos reciclar a terminologia, é uma experiência de uma certa tensão entre imanência e transcendência, a primeira prende-nos ao dado, a segunda impele-nos a ir mais além.
Negar-se a encarar esta realidade, afirmando uma subjetividade pura ou negando-a totalmente - aquilo que Sartre designa de má fé – foi, segundo Beauvoir o que ocorreu ao longo do processo histórico com o homem a perceber-se como sujeito e a procurar, por contraponto, perceber a mulher como objeto. Para as mulheres, como os homens tendem a objetificá-las, a primeira reação é anteciparem-se ao lance e objetificarem-se a elas mesmas, mas com isso só simplificam a tarefa, desistindo de assumir uma existência autêntica, independentemente do risco e da angústia que possa comportar.
Posto isto, malgrado todas as dificuldades, para que as mulheres se realizem como seres humanos é necessário não apenas que os homens parem de as objetificar como elas próprias têm de resistir à tentação de se objetificarem a si mesmas e têm de procurar assumir-se como sujeitos responsáveis pela sua vida, com uma palavra a dizer àcerca de si mesmas e do mundo que as rodeia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mais mulheres nos órgãos diretivos das empresas


A exemplo da Noruega, que já nos idos de 2003 adotou medidas para reforçar a presença feminina nas administrações das principais empresas do país, e da Finlândia, que tornou obrigatória a justificação por parte de empresas que não apresentem representação feminina nos seus órgãos decisórios, a Comissão Europeia parece ter acordado finalmente para o problema e por 543 votos a favor, 109 contra e 29 abstenções aprovou medidas tendentes a contribuírem para a sua resolução, assim, se necessário, prevê mesmo o estabelecimento de quotas para o ano de 2012 para que se atinja uma percentagem de 30% em 2015 e de 40% em 2020 em órgãos de direção das empresas dos Estados membros.
Rodi Kratsa, vice-presidente do Parlamento Europeu, no debate prévio à aprovação das medidas, reforçou a ideia de que a presença de mulheres nos órgãos administrativos das empresas não é só uma questão de ética e de igualdade de oportunidades mas também é um elemento estrutural para a competitividade das empresas e para o crescimento económico dos países.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Educação e estereótipos de gênero


A experiência sueca de educação pré-escolar que se propõe atingir uma educação neutral do ponto de vista de gênero tem levantado alguma celeuma no país e mesmo no estrangeiro por parte de pessoas que se mostram muito preocupadas com eventuais prejuízos que pode provocar nas crianças face à definição/indefinição de papéis de gênero.
Um dos argumentos invocado por quem se opõe à experiência insiste em que a diferenciação de papéis não precisa de ser acompanhada de inferiorização do papel feminino em relação ao masculino; assim por exemplo, brincar com bonecas ou brincar com carrinhos, diz-se, é igualmente valioso. Mas, se refletirmos um pouco, percebemos a fragilidade do argumento: veremos que estas brincadeiras só aparentemente são igualmente avaliadas porque enquanto a primeira apenas prepara e condiciona a menina para um papel, considerado natural, a outra antecipa um percurso de vida que nada terá de natural, orientado para eventuais profissões e intervenção no espaço público. Parece necessário e importante preparar as meninas para o seu futuro papel de mães mas não se considera que uma preparação equivalente deva ser ministrada aos meninos.
O que se verifica é que a diferenciação de papéis tem sido acompanhada da desvalorização do papel feminino e é preciso romper este ciclo, que toda a nossa cultura favorece; se uma mulher se limita ao papel de esposa e de mãe encontra-se automaticamente em desvantagem em relação ao homem porque, ao não transcender essa condição, não se afirma como um ser autónomo e criativo.
Outros acusam os métodos pedagógicos utilizados na Egalia e em outros-jardins-de infância suecos de visarem condicionar mentalmente as crianças, como se só aí existisse condicionamento mental. Esquecem que todas as sociedades ensinam relações de género só que o fazem seguindo o modelo de dominância masculina que nunca perturbou essa ‘boa gente’, agora tão incomodada quando se procura ensinar igualdade nas relações de género.
Jay Belsky, especialista em psicologia infantil na Universidade da California, mostrou-se muito preocupado com a eventualidade de os meninos, impedidos de correrem e de brincarem com paus, que imaginam serem espadas, perderem características masculinas. Este psicólogo ignora que educar os jovens para serem ’verdadeiros homens’ de acordo com um padrão de masculinidade que valoriza não apenas a assertividade, mas também a agressividade, é prepará-los para serem agentes de violência doméstica e social, para engrossarem a população prisional e para virem a ter pela frente uma baixa perspetiva em termos de longevidade. Ignora que as sociedades em que as relações de género são mais igualitárias não só apresentam melhores índices de saúde física e mental como vivem relações familiares menos conflituosas e mais compreensivas.
Tudo leva a crer que o condicionamento mental só é bem aceite e não levanta qualquer problema quando é aquele que a sociedade patriarcal realiza com enorme sucesso através de uma panóplia de instrumentos educativos formais e informais que moldam rapazes e raparigas no decurso do processo de aculturação. Tentar interferir com a norma de dominação masculina ainda vigente na sociedade patriarcal, esse parece ser o crime da Egalia e dos outros jardins-de-infância que seguem o novo modelo educativo.