Sexo e sexualidade revestem-se da maior importância na vida das pessoas.O sexo, fonte de prazer, de proibições e de excessos, está
associado a poder e poder implica a estrutura hierárquica de domínio/submissão.
No campo da vida sexual, às
mulheres, historicamente, foi reservado o estatuto de submissão, mitigado é
certo, porque se lhes deixou a possibilidade de serem “sexy”, possibilidade
essa encorajada culturalmente.
Ser sexy é ser desejável e quem é
desejável sente que tem algum poder, como o sente quem é inteligente, culto ou
simplesmente rico, só que estas três fontes de poder, durante milénios
reservadas exclusivamente aos homens, são estáveis e permanentes, ao passo que ser
sexy é transitório, fugaz e extremamente contingente.
Hoje, que essas outras fontes de
poder - inteligência, que pressupõe desenvolvimento intelectual, cultura e riqueza - já estão abertas às mulheres, particularmente no mundo ocidental,
continua a encorajar-se as jovens a centrarem-se apenas na exploração da
vertente sexual, dos seus atributos físicos, da sua aparência, e elas deixam-se tentar facilmente já que não é preciso grande
esforço para ser sexy, ao passo que para ser culto, rico ou perito em alguma
coisa é bem mais problemático; assim, tendem a enveredar pelo caminho mais
fácil, com a pressão acrescida de ser esse o modelo que constantemente lhes vendem, quando, numa sociedade que quisesse favorecer a autonomia sexual de
mulheres e de homens, se
devia proceder exatamente ao contrário.
Assim, o primeiro preconceito que temos
de combater é o de que a sexualidade é espontaneidade; a sexualidade é
aprendida culturalmente e as consequências dessa aprendizagem podem ser
desastrosa para a autonomia e capacidade de autodeterminação sexual das
mulheres.
Dado o modelo aprendido, as mulheres vivem
a sexualidade de forma passiva; a cultura em geral e a religião em particular
tudo fazem para o promover, ao valorizarem a castidade sexual, a virgindade e a
pureza (para as mulheres) e ao criarem obstáculos para um acesso eficiente a
mecanismos contracetivos e, em muitos lugares, ao diabolizarem o aborto, mesmo
quando este se encontra enquadrado pela legislação.
São óbvios os interesses das
sociedades patriarcais neste tipo de sexualidade feminina e desde muito cedo as
meninas aprendem que devem ser recatadas, não promíscuas, e que devem associar
o sexo a casamento ou a uma relação estável. O modelo fornecido aos meninos é
exatamente o oposto deste.
Esta aprendizagem da sexualidade
pelas mulheres é mais importante do que podemos pensar, devo mesmo dizer que a
maior parte das mulheres nem sequer se apercebe da sua importância e, por isso,
não se rebela, tornando-se inconscientemente cúmplice de um sistema que aliás
seria muito difícil de vencer porque tudo se conjuga para ajudar a mantê-lo.
Ora a aprendizagem deste tipo de
sexualidade pelas mulheres é muito importante porque através da adopção desse
tipo de sexualidade é definido o seu lugar no mundo. Esta implicação têm-lhes
escapado e por isso nunca será de mais chamar a atenção para este fenómeno.
Aliás é tão importante para a
sociedade patriarcal reforçar e manter este modelo que, no preciso momento em
que a religião começou a perder a força cultural que durante tempos imemoriais possuiu
- estou a pensar no século XIX- logo, as
ciências em geral, e particularmente, a medicina, a psicologia e a sexologia
começaram ativamente a prescrever comportamentos apropriados para as mulheres e
estes muito pouco se afastavam daqueles que a religião sempre preconizava
(claro que era preciso mudar alguma coisa para manter tudo na mesma). Quer
dizer, numa altura em que a influência religiosa parecia declinar, apareceram
logo outros prosélitos da moralidade sexual, aplicada sobretudo às mulheres.
A partir da segunda metade do século XX, com a chamada revolução sexual, parecia que se ia assistir a uma modificação substancial no modelo de sexualidade proposto para as mulheres e de facto avançou-se alguma coisa, mas temo bem que esse avanço não esteja a dar-se no sentido da verdadeira autodeterminação sexual das mulheres e que mais uma vez, como ocorreu no século XIX, se esteja a vender gato por lebre (a mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma. Na próxima "lição" vou tentar clarificar estas minha safirmações.