quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Feminicídio é violência de género


No blog Género Com Classe, li hoje um texto sobre feminicídio, que dá conta do assassinato de uma menina de 13 anos por um homem de 39 e do modo mistificador como os meios de comunicação social abordaram o terrível crime. As considerações que se seguem foram inspiradas nesse artigo.

 Nos inúmeros crimes em que mulheres são assassinadas pelos companheiros, maridos, amantes ou namorados, é extremamente frequente ignorar-se completamente a dimensão sexista e machista, para só se chamar a atenção para a dimensão passional, claro que esta tem sempre também uma componente machista mas é devidamente escamoteada pelos órgãos de comunicação social.

O modo como a comunicação social trata este tipo de acontecimentos parece resultar, pelo menos em parte, do facto de se continuar a encarar com enorme naturalidade a violência contras as mulheres.

Em primeiro lugar, estes crimes são interpretados como crimes passionais, uma espécie de crimes de amor, de muito amor, de amor exagerado ou mal colocado, mas, em qualquer dos casos, de amor. Ocorre lembrar que os media deveriam denunciar que o sentimento de posse do homem e a redução da “amada” a um objeto que, como não lhe pode pertencer, também não irá pertencer a mais ninguém, definem claramente uma mentalidade sexista e misógina, mas não o fazem.
Em segundo lugar, a tendência, mesmo que sub-reptícia, é para culpabilizar a própria vítima; são sempre as mulheres que enlouquecem os homens e dão aso ao seu furor assassino, coitados deles que não conseguem resistir-lhes. São sempre elas as responsáveis pelo “ato tresloucado” que sofrem. Os homens ou estão deprimidos por terem perdido o emprego, ou são desculpabilizados porque, coitados, não suportam a rejeição feminina.

Considerar que a mulher assassinada tem culpas no cartório e que afinal mereceu o destino que o “amador” lhe reservou faz parte do imaginário patriarcal e de toda a cultura machista e sexista que lhe subjaz. Culpabilizar a vítima é um estereótipo tão antigo quanto a própria história bíblica do pecado original de Eva, a eterna tentadora, ajuramentada com o próprio diabo, encarnado na serpente.  Ora é exatamente este caldo cultural que devia ser denunciado e que é completamente escamoteado pelos órgãos de comunicação social.
Em terceiro lugar, nunca este tipo de crime é reconhecido como crime de violência de género, violência contra as mulheres pelo facto de serem mulheres. Assim os media em vez de aproveitarem a oportunidade para educar as pessoas, agem em sentido contrário, dando uma explicação falsa ou no mínimo enviesada, desculpando os criminosos e contribuindo para que se mantenha esta monstruosa realidade.

domingo, 21 de outubro de 2012

Esfera pública - um acesso indispensável mas problemático


 A participação das mulheres na esfera pública, seja em cargos políticos seja em lugares públicos de liderança ou sequer de relevo, ainda hoje é diminuta. Vários fatores explicam esta situação, nomeadamente as crenças culturais prevalecentes acerca dos papéis sexuais e os estereótipos vigentes bem como a situação concreta em que ainda decorre a vida das mulheres.

No mundo ocidental, pretende-se enraizar a crise de valores na mulher e no seu desempenho enquanto mãe e dona de casa. Jornalistas, comentadores e políticos atribuem os males da nação às mães que não cumpririam com as suas obrigações de educadoras e seriam assim responsáveis pela desintegração social. Curiosamente, as mulheres são praticamente excluídas desse debate. A solução para o problema residiria no retorno aos valores tradicionais. Tudo se passaria como se a esfera privada tivesse de ser o suporte da vida da nação, enquanto as decisões que importam a esta seriam tomadas apenas pelos elementos masculinos. Este ideal cultural com as mães tendo a seu cargo a educação dos filhos limita obviamente a participação das mulheres na vida pública, confinando-as à esfera privada da vida doméstica, e reforça o conceito de esfera pública como um domínio do masculino.

Quem defende o retorno aos valores tradicionais pretende que a esfera pública é neutra; mas tal neutralidade é muito discutível. O facto de a ela terem acesso, com uma escandalosa predominância, elementos do sexo masculino afeta de modo decisivo a sua natureza porque uma esfera pública, assim constituída, embora pretenda defender valores universais, acaba por se constituir porta-voz de valores que interessam fundamentalmente à parte da humanidade que representa.

 Por outro lado, no mundo moderno e na civilização ocidental, a autoridade masculina está em crise, não tanto por vitória das mulheres, mas mais pelo facto de os homens terem abusado da autoridade que detinham sobre os elementos da esfera privada: crianças molestadas pelos pais biológicos ou por membros do clero, mulheres ou amantes assassinadas, assédio sexual nos locais de trabalho, são façanhas que põem em cheque uma autoridade que durante muito tempo foi reconhecida, porque vista como protetora dos mais fracos. Muitas mulheres tiveram de lançar mão dos seus próprios recursos e começaram a perceber que a autoridade masculina afinal defendia interesses que as transcendiam; puderam assim denunciar a falácia existente: a esfera pública apenas pretensamente defende valores universais, de facto não pode deixar de reflectir os interesses da parte masculina da humanidade que maioritariamente a constitui.

Por tudo isto, hoje em dia, as mulheres trabalhadoras continuam a enfrentar discriminação, desencorajamento e falta de apoio para as lides domésticas. Em numerosas situações o sucesso profissional dos homens repousa numa retaguarda protegida por mulheres que tomam a seu cargo a tarefa de lhes criarem um ambiente favorável a esse sucesso, ora é exatamente o contrário o que se passa com as mulheres trabalhadoras.

 

 

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ética sexual cristã


Os princípios fundamentais da ética sexual cristã foram elaborados por Tomás de Aquino (1224/ 1225-1274), doutor da Igreja, e ainda hoje fazem parte integrante da doutrina católica oficial.

Obreiro da síntese entre aristotelismo e cristianismo, Aquino vai tirar partido da imensa parafernália conceptual de Aristóteles para elaborar as suas teses. Na Suma Teológica formula uma teoria da sexualidade baseada no conceito aristotélico de Lei natural: Deus implantou nos humanos uma inclinação/instinto para o coito heterossexual e por isso os humanos quando se dedicam à atividade sexual estão a realizar o propósito divino e nada de mau há nisso porque o que é natural é bom, entre ser e dever ser não há rutura.

De acordo com a ontologia teleológica que perfilhou, a virtude de uma coisa consiste em respeitar a sua própria natureza, o seu fim ou telos. Todas as criaturas foram criadas para um determinado fim que está como que inscrito na sua própria natureza. Partindo da natureza de cada ser pode deduzir-se um princípio ético fundamental: para cada criatura o que é bom é cumprir o fim para que foi criada; aplicando o princípio teleológico à sexualidade, não vão restar dúvidas do que é eticamente aceitável e do que é eticamente condenável.

Estabelecida a relação causal entre sexo e reprodução, Tomás de Aquino vai só legitimar o sexo quando ele estiver aberto à reprodução. É natural que homens e mulheres se unam para garantir a preservação da espécie, por isso o único tipo de atividade sexual eticamente aceitável é a relação heterossexual porque é a que conduz à conceção de crianças. Segue-se que o sexo não procriativo, meramente recreativo, não é natural e por isso é um crime contra a natureza e também contra Deus que ordenou a própria natureza.

A finalidade, o telos, do sémen e da ejaculação é a “produção” de crianças e em última análise a perpetuação da espécie (na senda aristotélica ignora completamente o papel ativo da mulher na conceção). Quando a ejaculação não cumpre este propósito, a atividade sexual não é natural e é mesmo pecaminosa; com base nesta premissa, Tomas de Aquino execrava a masturbação, o sexo anal, o sexo oral e a bestialidade e, obviamente, o recurso a qualquer prática anticoncecional.

Para além dos crimes sexuais contra a natureza, reconhece os crimes sexuais contra os interesses da pessoa, tais como incesto, violação e  adultério (da mulher, claro). A violação, por exemplo, tem formalmente menor gravidade do que a masturbação ou a prática anticoncecional porque os pecados contra a natureza são pecados capitais enquanto os pecados contra os interesses da pessoa são apenas pecados veniais.

Parece chocante considerar mais grave a masturbação do que a violação; mas isto enquadra-se na lógica segundo a qual o que é natural é bom! A violação é um ato sexual procriativo, isso é o que mais importa, importa menos a violência e o abuso cometido contra uma pessoa, porque aí o sexo não contraria o desígnio divino!

Uma ética que pretende deduzir o dever ser do ser é filosoficamente irrelevante porque se limita a legitimar e a justificar o que entende ser a ordem natural das coisas; perverte o objetivo que deve presidir à reflexão ética que é o de contribuir para a construção de uma ordem social melhor, justa e virtuosa, qualitativamente diferente da que existe na natureza. Logo, parece plausível acreditar que, se se despende tanto trabalho e energia só para justificar o que existe na natureza, é porque aqueles que se entregam a essa tarefa têm privilégios que decorrem dessa ordem natural e não os querem perder.

Entendamo-nos, uma coisa é a ordem natural e outra a ordem social. A ordem natural é o dado, aquilo que à partida se apresenta; a ordem social é o construído; aquilo a que chegamos. O dado, em si mesmo, não é justo nem injusto, é neutro do ponto de vista ético, mas fazer dele a base para o justo e o injusto é pretender justificar desse modo uma ordem social que incorpora na sua estrutura aquilo que devia ser corrigido e contrariado.

A ética cristã, como outras éticas de matriz religiosa, ao pretender limitar o individuo à natureza, está a fazer aquilo que devia evitar a todo o custo, sob pena de entrar em contradição profunda, está a reduzir o ser humano à pura animalidade; por exemplo, ao pretender que uma mulher não controle a sua capacidade reprodutiva está a equipará-la a qualquer outra fêmea do reino animal, ora o que distinguiu o ser humano foi a capacidade de transcender a natureza e criar cultura.

 

 

 

 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Juventude e beleza são importantes - mas só para as mulheres


Juventude e beleza são importantes - mas só para as mulheres!
Esta afirmação é mais do que comprovada, se conhecermos alguns dados relativos a atrizes e atores de filmes de Hollywood. Para encontrar papéis principais, as mulheres tem de ser belas, jovens e esbeltas. Em contrapartida os galãs continuam a ser galãs, mesmo quando se aproximam ou mesmo excedem os cinquenta, os casos são tantos que quase não seria preciso enumerá-los, mas não se resiste a apontar, a título de mero exemplo, George Clooney, Richard Gere, Harrison Ford, Robert de Niro, ou ainda Robert Redford, este último em idade bem avançada.

Para eles, as rugas, os cabelos grisalhos e a flacidez são sinal de distinção, para elas, de exclusão. E, o que é mais, continuam a contracenar com jovens atrizes que podiam ser suas filhas ou às vezes … netas.

Depois dos quarentas não há lugar para as mulheres na meca do cinema, pelo menos no que toca a papéis principais; assim, enquanto os espectadores do sexo masculino se podem identificar com “heróis” de cabelos brancos, barriga próspera e idade madura, as mulheres estão condenadas a fazerem os possíveis e impossíveis, numa tentativa tão desesperada quanto caricata, para se aproximarem das jovens esbeltas, lindas e jovens que lhes apresentam como modelo exclusivo.

Atrizes notáveis deixam de ter papéis; em contrapartida atores medíocres continuam a “vender” bem. Em 2009 a revista Spike publicou os nomes de atrizes que teriam passado o prazo de validade; agora, reparem, a lista inclui nomes como os de Nicole Kidman (43), Sarah Jessica Parker (45), Cameron Diaz (38), e Julia Roberts (43).

Este escandaloso tratamento diferencial de homens e mulheres ao nível do cinema é mais um sintoma do sexismo ainda reinante e mostra bem o mau negócio que a preocupação excessiva com a aparência representa para as mulheres, preocupação essa que afinal, bem vistas as coisas, lhes é imposta socialmente, embora também tenha de se reconhecer que muitas ficam de tal modo deslumbradas que não conseguem resistir-lhe, sem perceberem que, passados os anos áureos, só lhes resta a apagada e vil tristeza dos lugares menores e de uma certa forma de inexistência.

 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

Sexo, Amor e Romance nos Mass Media

Mary-LouGalician, autora de Sex, Love and Romance in the Mass Media, considerou que os mass media têm inculcado nas pessoas uma série de ideias feitas acerca do amor, autênticos mitos românticos. O problema mais grave com estes mitos é que, embora muitas pessoas os reconheçam enquanto tal, numa estrutura mais profunda do seu psiquismo “acreditam” neles e, assim, quando as expectativas irrealistas que eles veiculam chocam com a dura realidade preferem desistir dessa realidade a desistirem deles.
Apresento a seguir essas crenças que, embora tão caras e confortáveis, deveríamos escrutinar criticamente:

1. O amor à primeira vista existe realmente.

2. Quem ama adivinha aquilo que a pessoa amada pensa ou sente, mesmo que ela não verbalize.

3. Se houver amor, o sexo não vai constituir qualquer problema, será sempre maravilhoso.

4. O homem não deve ter estatura, idade, riqueza inteligência ou saber inferior a companheira.

5. Se uma mulher amar verdadeiramente um homem pode mudar o caráter deste para melhor, pode transformar um “bruto” num “príncipe”.

6. Um homem não espera que a mulher pareça um “ícone sexual”.

7. O que é preciso é haver amor, as diferenças de valores e de opiniões não importam.

8. O verdadeiro companheiro completa a amada, satisfazendo as suas necessidades e permitindo que os seus sonhos se tornem realidade.

9. Na vida real os atores são muitas vezes parecidos com os carateres românticos que personificam.

10. Dado que os retratos de romance dos mass media não são reais eles não nos afetam.

Se você espera isto do amor e subscreve algumas ou todas estas crenças, está na altura de parar para pensar!

domingo, 2 de setembro de 2012

Shulamith Firestone - uma mente brilhante

Morreu Shulamith Firestone (1945-2012), feminista radical, que na década de setenta, com apenas vinte e cinco anos, publicou a Dialética do Sexo.

Há muito que Firestone estava afastada da vida pública, vítima de perturbação mental, provavelmente agudizada pelas incompreensões que um trabalho tão revolucionário suscitou. O que sabemos e sabemos muito pouco, é que após a publicação se retirou do convívio dos mortais para acabar em fins de Agosto de 2012 por ser encontrada morta no apartamento onde residiu durante três décadas. Morreu como viveu, sozinha, solitária e totalmente incompreendida por homens mas também por mulheres que não lhe perdoaram ter denunciado como fonte de opressão aquilo que, apesar de todos os desconfortos, consideram ser o alicerce das suas vidas: a família nuclear heterossexual.

Em A Dialética do Sexo concebe uma utopia que libertaria as mulheres da opressão a que desde tempos imemoriais têm estado sujeitas. Mas as suas ideias, muitas das quais parecem corretas e pertinentes, constituíam então, como aliás ainda hoje, uma verdade inconveniente e como tal foram mais ou menos deturpadas e sobretudo silenciadas. Firestone está a milhas de distância do politicamente correto, não advoga compromissos, não acredita em panos quentes e assim, mesmo para muitas feministas, é uma voz incómoda. Mas de qualquer modo é a voz de uma mulher que, dotada de uma mente brilhante, esteve à frente do seu tempo.

Como se pode constatar, a grande maioria dos blogs, mesmo os de vocação feminista, nem sequer deram a notícia do seu desaparecimento, o que prova bem o poder das ideias e o receio de que afinal estas também sirvam para mudar o mundo, se forem devidamente divulgadas e assimiladas. Neste meu blog já dediquei vários textos à divulgação do pensamento de Firestone, mas o caso é isolado, não tem audiência que preocupe quem quer que seja, e até serve para mostar que afinal há pluralismo informativo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A mulher é complementar do homem! Ouvi bem?

A futura constituição da Tunísia inclui um artigo no qual a posição da mulher é definida como complementar da do homem. Este artigo está gerar controvérsia, fruto de justificados receios.

A teoria da complementaridade entre os sexos, elaborada no século XVIII, não pressupunha o conceito de igualdade mas sim o de diferença e implicava para a mulher um estatuto limitado já que a definia em função dos interesses do núcleo familiar e esquecia “discretamente” a sua individualidade. Nessa altura, mesmo filósofos como o esclarecido Kant aceitavam o princípio estabelecido pelo costume de que as mulheres eram dependentes de pais, maridos ou irmãos, uma espécie de menores perante a lei. Mas isto foi há mais de dois seculos. Querer restabelecer esta teoria em pleno século XXI só pode ter a ver com a tentativa de fazer a história andar para trás, até porque a Tunísia foi um país que esteve na vanguarda do mundo árabe quando em 1956 aboliu a poligamia, permitiu o divórcio e o direito das raparigas à educação e estabeleceu a idade mínima para o casamento.

Associações ligadas aos direitos humanos na Tunísia exigem a eliminação deste artigo da constituição que pelos visto até teve o aval de partidos de esquerda embora tudo leve a crer dever ser o resultado da pressão exercida do partido islamita que ainda recentemente, através da sua fação mais radical exigiu que fosse retirada a nacionalidade tunisina à atleta Habiba Ghribi, medalha de prata em Londres, por ter usado o tipo de vestuário comum a todas as participantes na corrida, considerado indecente por aqueles que exigem um vestuário feminino em conformidade com as regras “do recato e da modéstia”

Estes incidentes, o mais grave dos quais parece ser a tal tentativa de introduzir o princípio da complementaridade, fazem-me mais uma vez suspeitar de que afinal a tão aplaudida primavera árabe ainda vai desembocar em rigorosa invernia.
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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Sexo e reciprocidade em Kant

Segundo Kant, a atividade sexual humana, como a animal, é de raiz instintiva; encontra-se ao serviço da perpetuação da espécie e, a fim de que esse objetivo seja conseguido, tem de ser gratificante para o indivíduo.

Como qualquer outra atividade instintiva, é de natureza apropriativa: assim como para satisfazermos a fome ou a sede nos apropriamos de alimentos e bebidas (coisas), para satisfazermos a necessidade sexual, apropriamo-nos do sexo de outra pessoa. Mas o sexo não é dissociável da pessoa, por isso, diz Kant, quando nos apropriamos do sexo, tratamos a pessoa como se fosse uma coisa e esse comportamento, não sendo eticamente admissível, transforma a atividade sexual em algo degradante.

Admitido isto, pergunta como podemos minorar os inconvenientes dessa atividade instintiva tão forte e avassaladora e considera que só será possível legitimar a atividade sexual estipulando deveres para aqueles que se lhe entregam; deverão fazê-lo num quadro normativo expresso no contrato de casamento monogâmico: eu posso tratar o outro como um objeto de desejo a partir do momento em que o outro me possa tratar também como um objeto de desejo, isto é, só o consentimento e a reciprocidade legitimam a objetificação.

Kant desenvolveu estas considerações sobre sexo nos finais do século XVIII, ou seja há mais de dois séculos, mas, se tirarmos o invólucro do casamento monogâmico, perfeitamente descartável sem atraiçoar o principio ideológico, restam duas ideias plenas de atualidade, (1) a atividade sexual humana comporta uma dimensão ética porque, quer queiramos quer não, somos animais, mas falantes e racionais, capazes de investir significado no que fazemos e, portanto, (2) percebemos que o sexo, na medida em que implica entrar em relação com o outro, como qualquer outra atividade interpessoal, não pode ignorar os legítimos interesses do outro, isto é os seus direitos, simétricos dos nossos.

Eu acho que esta visão do sexo revela extraordinária lucidez, tão mais surpreendente quanto vem de alguém cuja experiência sexual foi escassíssima, para dizer o mínimo, e que alimentou e expressou sentimentos misóginos; apesar destas limitações óbvias, Kant, personalidade extremamente inteligente e arguta, conseguiu ver mais longe do que muitos outros e, embora nem sempre devidamente reconhecido, ficamos a dever-lhe algo importante.

Poderá dizer-se, como o fez Alan Soble, um expert na matéria, que Kant ignorou a verdadeira natureza humana, que quis preservar para o ser humano uma dignidade e um valor próprios e que quis colocar no sexo aquilo que não lhe convém nem se lhe adapta. Sexo, pretende Soble, nada tem a ver com reciprocidade nem com respeito, nem pelo outro nem sequer por si mesmo, sexo é animal e natural, ponto final, parágrafo, muda de linha. Mas Soble esquece que no ser humano tudo o que é natural é também cultural e, se assim é, não podemos descartar tão facilmente as nossas responsabilidades para com nós próprios e para com os outros.

Parafraseando Linda LeMonchek, que não queria discutir o dualismo cartesiano na cama, ninguém quer discutir reciprocidade na cama, mas não pode sentir, nem de perto nem de longe, que ela está em falta, porque, se isso acontecer, pura e simplesmente não alinha, ou não deve alinhar; ponto final, parágrafo, muda de linha.

P.S. Claro que há considerações de Kant sobre sexo com as quais não concordo, Claro que Kant revelou em vários escritos disposições nitidamente misóginas; mas os aspetos acima referidos constituem, em minha opinião, o núcleo do seu pensamento sobre esta matéria e de certo modo contém as potencialidades positivas que assinalei.

sábado, 25 de agosto de 2012

"Amor confluente" e desigualdades estruturais

Anthony Giddens (1938) é um sociólogo britânico contemporâneo que em The Transformation of Intimacy se debruça sobre o amor e a relação amorosa heterossexual. Conceitos-chave do seu trabalho são os de “amor confluente”, “relação pura” e “plasticidade sexual”.

Segundo Giddens, a erosão das tradições no mundo contemporâneo, visível sobretudo na cultura Ocidental, permitiu aos indivíduos definirem com muito maior liberdade pessoal o que querem para as suas vidas e fazerem escolhas que os definem e que constroem a sua própria identidade. Neste novo contexto, surgiu aquilo a que ele chama “amor confluente” que se carateriza pelo facto de a relação amorosa ser uma “relação pura”, isto é, uma situação em que as pessoas mantêm a relação por ela própria e não por interesses estranhos: filhos, interesses familiares ou económicos; as pessoas apenas se mantém juntas enquanto a relação se revela gratificante, enquanto ambas as partes se sentem satisfeitas e decidem permanecer juntas.

Em sua opinião, este tipo de relação exige igualdade entre as partes, ambas responsáveis pela manutenção da relação; neste tipo de relação, as preocupações com o corpo e com a exploração do prazer sexual são fundamentais. Neste aspeto, as mulheres teriam conseguido uma autêntica revolução na sua autonomia sexual procurando o seu prazer de modo não decidido pelos homens, tornada possível graças à dissociação entre prazer e procriação, e permitiu que a sexualidade fosse definida como um meio de auto realização, como uma forma de expressão e de intimidade – aquilo a que chama “plasticidade sexual”.

Giddens é otimista pois pensa que estas transformações na vivência da intimidade amorosa criam condições de igualdade entre homem e mulher e têm repercussão a nível da vida social. Quer dizer, aquilo a que ele chama amor confluente, plasticidade sexual e relação pura têm em sua opinião potencial para operar transformações a nível da vida social. Uma relação pura bem-sucedida, mesmo supondo alguma tensão entre as partes, cria condições de estabilidade psicológica e de segurança ontológica. Contra quem insiste na natureza opressiva da intimidade, Giddens insiste que esta pode operar transformações no sentido da democratização das relações pessoais, no sentido da igualdade de género.

Todavia, esta visão otimista não é corroborada por algumas feministas, como por exemplo, Christine Delphy muito cética quanto a possibilidade de se operarem modificações a nível do social e das estruturas patriarcais se se começar pela família e pela relação heterossexual. Giddens parece estar bem-intencionado, mas também parece ignorar uma das mais persistentes teses das autoras feministas, a de que a opressão tem na origem e no seu cerne estruturas opressivas e não relações individuais. Mas, se aceitarmos a existência de um movimento dialético, podemos supor que mudanças a nível das relações individuais também podem potenciar mudanças sociais.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"Caça às bruxas"


Transcrevo, com a devida vénia, o artigo de Rosangela Angelin publicado no blog da Revista Espaço Académico:

http://espacoacademico.wordpress.com/2012/08/04/a-caca-as-bruxas-uma-interpretacao-feminista/

A “caça às bruxas é um elemento histórico da Idade Média. Entre os séculos XV e XVI o “teocentrismo” – Deus como o centro de tudo – decai dando lugar ao “antropocentrismo“, onde o ser humano passa a ocupar o centro. Assim, a arte, a ciência e a filosofia desvincularam-se cada vez mais da teologia cristã, conduzindo, com isso a uma instabilidade e descentralização do poder da Igreja. Como uma forma de reconquistar o centro das atenções e o poder perdido, a Igreja Católica instaurou os “Tribunais da Inquisição”, efetivando-se assim a “caça às bruxas“. Mas quem eram, enfim, estas mulheres que fizeram parte de um capítulo tão horrendo da história da humanidade, e por que o feminismo retoma as bruxas como um dos seus principais símbolos?

1. A “caça às bruxas”
A “caça às bruxas” durou mais de quatro séculos e ocorreu, principalmente, na Europa, iniciando-se, de fato, em1450 e tendo seu fim somente por volta de 1750, com a ascensão do Iluminismo. A “caça às bruxas” admitiu diferentes formas, dependendo das regiões em que ocorreu, porém, não perdeu sua característica principal: uma massiva campanha judicial realizada pela Igreja e pela classe dominante contra as mulheres da população rural (EHRENREICH & ENGLISH, 1984: 10). Essa campanha foi assumida, tanto pela Igreja Católica, como a Protestante e até pelo próprio Estado, tendo um significado religioso, político e sexual. Estima-se que aproximadamente 9 milhões de pessoas foram acusadas, julgadas e mortas neste período, onde mais de 80% eram mulheres, incluindo crianças e moças que haviam “herdado este mal” (MENSCHIK, 1977: 132).

1.1. Quem eram as bruxas
Ao buscarmos uma definição do termo “bruxa” em dicionários, logo pode-se perceber a direta vinculação com uma figura maléfica, feia e perigosa. Neste sentido, também os livros infanto-juvenis costumam descrever histórias onde existe uma fada boa e linda e uma bruxa má e horrível. [1]
Ao analisarmos o contexto histórico da Idade Média, vemos que bruxas eram as parteiras, as enfermeiras e as assistentes. Conheciam e entendiam sobre o emprego de plantas medicinais para curar enfermidades e epidemias nas comunidades em que viviam e, consequentemente, eram portadoras de um elevado poder social. Estas mulheres eram, muitas vezes, a única possibilidade de atendimento médico para mulheres e pessoas pobres. Elas foram por um longo período médicas sem título. Aprendiam o ofício umas com as outras e passavam esse conhecimento para suas filhas, vizinhas e amigas.
Segundo afirmam EHERENREICH & ENGLISH (1984, S. 13), as bruxas não surgiram espontaneamente, mas foram fruto de uma campanha de terror realizada pela classe dominante. Poucas dessas mulheres realmente pertenciam à bruxaria, porém, criou-se uma histeria generalizada na população, de forma que muitas das mulheres acusadas passavam a acreditar que eram mesmo bruxas e que possuíam um “pacto com o demônio”.
O estereótipo das bruxas era caracterizado, principalmente, por mulheres de aparência desagradável ou com alguma deficiência física, idosas, mentalmente perturbadas, mas também por mulheres bonitas que haviam ferido o ego de poderosos ou que despertavam desejos em padres celibatários ou homens casados.

1.2. A “caça às bruxas e o “Tribunal da Inquisição”
Com a ascensão da Igreja Católica, o patriarcado imperou, até mesmo porque Jesus era um homem. Neste contexto, tudo o que a mulher tentava realizar, por conta própria, era visto como uma imoralidade (ALAMBERT, Ano II: 7). Os costumes pagãos que adoravam deuses e deusas passaram a ser considerados uma ameaça. Em 1233, o papa Gregório IX instituiu o Tribunal Católico Romano, conhecido como “Inquisição” ou “Tribunal do Santo Ofício”, que tinha o objetivo de terminar com a heresia e com os que não praticavam o catolicismo. Em 1320 a Igreja declarou oficialmente que a bruxaria e a antiga religião dos pagãos representavam uma ameaça ao cristianismo, iniciando-se assim, lentamente, a perseguição aos hereges.
A “caça às bruxas” coincidiu com grandes mudanças sociais em curso na Europa. A nova conjuntura gerou instabilidade e descentralização no poder da Igreja. Além disso, a Europa foi assolada neste período por muitas guerras, cruzadas, pragas e revoltas camponesas, e se buscava culpados para tudo isso. Sendo assim, não foi difícil para a Igreja encontrar motivos para a perseguição das bruxas.
Para reconquistar o centro das atenções e o poder, a Igreja Católica efetivou a conhecida “caça às bruxas”. Com o apoio do Estado, criou tribunais, os chamados “Tribunais da Inquisição” ou “Tribunais do Santo Ofício”, os quais perseguiam, julgavam e condenavam todas as pessoas que representavam algum tipo de ameaça às doutrinas cristãs. As penas variavam entre a prisão temporária até a morte na fogueira. Em 1484 foi publicado pela Igreja Católica o chamado “Malleus Maleficarum”, mais conhecido como “Martelo das Bruxas”. Este livro continha uma lista de requerimentos e indícios para se condenar uma bruxa. Em uma de suas passagens, afirmava claramente, que as mulheres deveriam ser mais visadas neste processo, pois estas seriam, “naturalmente”, mais propensas às feitiçarias (MENSCHIK, 1977: 132 e EHRENREICH & ENGLISH, 1984: 13).

1. 3. Os “crimes” praticados pelas bruxas
No contexto da “caça às bruxas” havia várias acusações contra as mulheres. As vítimas eram acusadas de praticar crimes sexuais contra os homens, tendo firmado um “pacto como demônio”. Também eram culpadas por se organizarem em grupos – geralmente reuniam-se para trocar conhecimentos acerca de ervas medicinais, conversar sobre problemas comuns ou notícias. Outra acusação levantada contra elas, era de que possuíam “poderes mágicos”, os quais provocavam problemas de saúde na população, problemas espirituais e catástrofes naturais (EHRENREICH & ENGLISH, 1984: 15).
Além disso, o fato dessas mulheres usarem seus conhecimentos para a cura de doenças e epidemias ocorridas em seus povoados, acabou despertando a ira da instituição médica masculina em ascensão, que viu na Inquisição um bom método de eliminar as suas concorrentes econômicas, aliando-se a ela.

1.4. Perseguição e condenação à fogueira
Qualquer pessoa podia ser denunciada ao “Tribunal da Inquisição”. Os suspeitos, em sua grande maioria mulheres, eram presos e considerados culpados até provarem sua inocência. Geralmente, não podiam ser mortos antes de confessarem sua ligação com o demônio. Na busca de provas de culpabilidade ou a confissão do crime, eram utilizados procedimentos de tortura como: raspar os pêlos de todo o corpo em busca de marcas do diabo, que podiam ser verrugas ou sardas; perfuração da língua; imersão em água quente; tortura em rodas; perfuração do corpo da vítima com agulhas, na busca de uma parte indolor do corpo, parte esta que teria sido “tocada pelo diabo”; surras violentas; estupros com objetos cortantes; decapitação dos seios. A intenção era torturar as vítimas até que assinassem confissões preparadas pelos inquisidores. Geralmente, quem sustentava sua inocência, acabava sendo queimada viva. Já as que confessavam, tinham uma morte mais misericordiosa: eram estranguladas antes de serem queimadas. Em alguns países, como Alemanha e França, eram usadas madeiras verdes nas fogueiras para prorrogar o sofrimento das vítimas. E, na Itália e Espanha, as bruxas eram sempre queimadas vivas. Os postos de caçadores de bruxas e informantes eram financeiramente muito rentáveis. Estes, eram pagos pelo Tribunal por condenação ocorrida e os bens dos condenados eram todos confiscados.
O fim da “caça às bruxas” ocorreu somente no século XVIII, sendo que a última fogueira foi acesa em 1782, na Suíça. Porém, a Lei da Igreja Católica que fundou os “Tribunais da Inquisição”, permaneceu em vigor até meados do século XX. A “caça às bruxas” foi, sem dúvida, um processo bem organizado, financiado e realizado conjuntamente pela Igreja e o Estado.

2. O feminismo e o resgate da imagem das bruxas
Diante de tantas mortes de mulheres acusadas por bruxaria durante este período, podemos afirmar que o ocorrido se tratou de um verdadeiro genocídio contra o sexo feminino, com a finalidade de manter o poder da Igreja e punir as mulheres que ousavam manifestar seus conhecimentos médicos, políticos ou religiosos. Existem registros de que, em algumas regiões da Europa a bruxaria era compreendida como uma revolta de camponeses conduzida pelas mulheres (EHRENREICH & ENGLISH, 1984: 12). Nesse contexto político, pode-se citar a camponesa Joana D`arc, que aos 17 anos, em 1429, comandou o exército francês, lutando contra a ocupação inglesa. Esta acabou sendo julgada como feiticeira e herege pela Inquisição e queimada na fogueira antes de completar 20 anos. Diante disso, configurava-se a clara intenção da classe dominante em conter um avanço da atuação destas mulheres e em acabar com seu poder na sociedade, a tal ponto que se utilizava meios de simplesmente exterminá-las.
O feminismo busca resgatar a verdadeira imagem das bruxas em nossa história, analisando não somente os aspetos religiosos, mas também políticos e sociais que envolveram a “caça às bruxas” na Idade Média. No olhar feminista, as bruxas, através de seus conhecimentos medicinais e sua atuação em suas comunidades, exerciam um contrapoder, afrontando o patriarcado e, principalmente, o poder da Igreja. Em verdade, elas nada mais foram do que vítimas do patriarcado (ALAMBERT, Ano II, n° 48: 7). Atualmente, as mulheres ainda continuam sendo discriminadas e duramente criticadas por lutarem pela igualdade de gênero e a divisão do poder social e econômico, que ainda é predominantemente masculino, continuando vítimas do patriarcado. Por isto, as bruxas representam para o movimento feminista não somente resistência, força, coragem, mas também a rebeldia na busca de novos horizontes emancipadores.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Faço o que me dizem e como o que me dão!!

A crença de que a natureza feminina implica uma componente masoquista, ainda hoje amplamente difundida, parte do pressuposto de que as mulheres têm uma predisposição biológica para o masoquismo.

Comportar-se passivamente, todavia, não é de modo algum sinónimo de felicidade ou sequer de prazer; qualquer ser humano, em princípio, aprecia a atividade, aprecia poder dispor de si, tomar iniciativas, etc. etc. Esta caraterística, visível nas crianças desde os primeiros anos do seu desenvolvimento, é frequentemente contrariada pelos adultos a pretexto de perigos vários e neste particular caso as meninas e as jovens são muitas vezes fortemente condicionadas a aceitarem um amplo leque de limitações; temos assim que em boa verdade são socialmente predispostas desde a mais tenra infância para o masoquismo.

A ideia de que o masoquismo é inerente à natureza feminina ganhou força no século XIX e contou com a autoridade de Freud que lhe forneceu a respetiva formulação teórica. Recorria-se então a essa predisposição para explicar a passividade das mulheres tanto nas relações sexuais como nas relações sociais. O masoquismo seria a causa e a passividade o efeito, mas podemos bem perguntar se esta relação não estaria equivocada no sentido e se não se estaria a pôr o carro à frente dos bois, confusão afinal mais frequente do que se pode imaginar. De qualquer modo, por motivos de pura conveniência pragmática, importava convencer as mulheres de que adoravam a passividade, adoravam ser dominadas, apreciavam ser tratadas como coisas, sobretudo se essas coisas fossem consideradas valiosas.

Mas como todos os seres humanos e também todos os mamíferos, pelo menos os que nos são mais próximos, gostam de ação, de domínio, de poder, quando se diz que alguns não gostam, o melhor é tentar descobrir a quem é que esse não gosto aproveita. Ora não é preciso escavar muito para descobrir que esse não gosto das mulheres pelo exercício do poder convém, e muito, aos homens. Por isso, não é de estranhar que, quando a partir do século XIX a relação de forças se começou a alterar, com a industrialização e o acesso das mulheres a postos de trabalho remunerados, se procurasse conferir um estatuto científico a essa crença. Afinal se até era científico, a partir daí o que é que as mulheres poderiam fazer? Podiam apenas fazer como o D. João VI da nossa história pátria que à pergunta: Juraste a Constituição, que fazes agora João? Respondeu com bonomia e sentido crítico: faço o que me dizem e como o que me dão!

Resumindo, as mulheres perceberam que o melhor seria fazer da necessidade virtude; como não podiam dominar e tinham de se submeter, como não podiam ser ativas e tinham de ser passivas, então, seria "mais sensato"apreciarem a submissão, amarem a passividade e a orientação de outrem, aceitarem “livremente” a escravidão!

O curioso é que ainda hoje, jovens, pretensamente evoluídas, saem a terreiro para defender este papelão que a sociedade lhes reservou e falam em companheiros dominadores aos quais gostam de se submeter.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ser sexy - projeto de vida


No meu último texto, abordei o tema da alienação feminina, considerando que a objetificação sexual era um dos fatores que exprimia e contribuía para essa alienação. Um estudo recente fornece evidência empírica neste mesmo sentido.

Nas nossas sociedades, o que é natural, porque habitual, é que as jovens se percebam a elas mesmas como objetos sexuais. Continuam a ser estimuladas a preocuparem-se excessivamente com a aparência física como se o seu valor residisse precisamente em serem bonitas, atraentes e sobretudo sexy. Os modelos que os media lhes apresentam são sobretudo de cantoras, atrizes e manequins, nada de cientistas, muito menos astronautas ou sequer simples técnicas em qualquer campo profissional. Aparentemente ninguém vê nada de mal nem de mais nisso e, desse modo tão simples, tão natural e “inevitável”, sem qualquer intervenção direta ou proibição, o futuro continua eternamente adiado.

O mais espantoso ainda é observar-se como a idade em que as mulheres são convidadas a objetificarem-se tem recuado espantosamente. Investigações recentes mostram que desde os seis anos a maior parte das meninas tendem a pensar-se a si mesmas como objetos sexuais. Um estudo levado a cabo em Galesburg, no Knox College, revelou que, confrontadas com dois modelos de bonecas, uma, vestida com mini-saia, decote, sapatos altos e outros adereços, era preferida pela larga maioria das inquiridas a outra boneca vestida bem mais simplesmente com jeans e sapatos confortáveis. Na maioria dos casos, as meninas tendiam a identificar-se com a boneca sexy, aquela com a qual gostariam de parecer-se. É de supor que essa identificação era motivada pela crença de que ser sexy as tornaria mais populares, com as vantagens sociais que daí adviriam.

Ser popular é desejo de meninas, mas também de meninos; todavia, enquanto o caminho aberto às meninas para atingir esse objetivo passa por ser sexy, o mesmo não acontece com os meninos, para os quais ser popular é ser bom jogador, atleta, ou brilhante em outra qualquer atividade.

Neste mesmo estudo, composto por três amostras de meninas, duas recrutadas em escolas públicas e outra num estúdio de dança local, verificou-se que, para as meninas deste terceiro subgrupo, a boneca não sexy era a mais frequentemente escolhida; Como hipótese explicativa apontava-se o facto de que o dedicarem-se a uma atividade física, no caso a dança, estimulava uma maior apreciação pelo próprio corpo e uma autoimagem mais positiva, com a perceção de que ser sexy não é a única função do corpo e, porventura, não é a função mais importante.

Muitos fatores parecem explicar a tendência das meninas a valorizarem o corpo enquanto objeto sexual. Para começar os media e os modelos que propõem, mas também o exemplo das próprias mães. Em qualquer dos casos, um contexto extremamente difícil de mudar.