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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As brincadeiras nunca são inocentes

Em post recente do blog Feminist Philosophers dá-se conta de uma brincadeira recorrente que atualmente se encontra na moda e que se chama: “Foder, casar ou matar”. Neste jogo os rapazes escolhem três raparigas e aplicam as respetivas «receitas», conforme os seus gostos e os atributos que lhes reconhecem.

Esta brincadeira, para além de toda a carga sexista que comporta, mostra bem como se tem evoluído muito pouco no que à matéria diz respeito, ou melhor até parece que, inconsoláveis com alguns progressos na conquista do espaço público por muitas mulheres, os nossos companheiros do sexo masculino tentam reconfortar-se continuando a objetificá-las grosseiramente.

Comentadores/as do blog referem que não há nada de novo neste jogo, de facto não há nada de novo, mas esse é que é o problema. Outras pessoas apontam o facto de que em versões que conheciam não aparecia a hipótese de matar e isto também nos deve levar a alguma reflexão.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Porque é que os «religiosos» são tão previsíveis!?

Mais um religioso, desta vez um rabi israelita, decretou, e a palavra está correcta, que as mulheres judias não podem/devem conduzir automóvel nem sequer aprender a conduzir porque tal comportamento é um atentado à modéstia e ao pudor que enquanto mulheres devem observar. Não se lembrou de dizer que tal proibição também vai diminuir a sua capacidade de se movimentarem e em consequência a sua independência e autonomia; mas claro que é esse o objectivo que ele e outros como ele pretendem atingir, só que para o tornar mais palatável escondem-se por detrás da religião e da moral. Uma vergonha, uma falta de ética e um desrespeito profundo pelos direitos humanos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Natureza da violência masculina

Ainda hoje, quando um marido, namorado ou companheiro maltrata ou mata uma mulher, continua a fazer-se passar a mensagem, mesmo que sub-repticiamente, que o fez por amor e não por poder; um amor excessivo, traduzido em ciúmes mórbidos, ou um amor que não aguentou a rejeição; deste modo, com tal percepção, aceita-se a violência masculina e, obviamente, criam-se condições para a perpetuar.

Mas, a violência masculina não é um fenómeno individual, atribuível a idiossincrasias destas ou daquelas pessoas, embora obviamente possa ter uma componente desse tipo, e, por isso, não deve ser encarada dessa maneira; ela é a consequência natural do sistema de dominação em que vivemos, no qual continua a imperar a supremacia masculina; é um fenómeno político, resultante do modo como a vida de homens e de mulheres se encontra organizada; se não se entender isto, não se vai resolver o problema, pode-se agir circunstancialmente, mas o remédio será ineficaz.

Mesmo nas nossas modernas sociedades é difícil encontrar mulheres que em uma ou outra circunstância da sua vida não tenham sofrido ou temido a violência masculina e é esta dimensão que importa não escamotear; todavia, apesar desta constatação, muitas mulheres jovens preferem pensar que a igualdade já foi alcançada e que os casos de violência masculina são esporádicos e pontuais; pensar assim é muito reconfortante, mas ilude a questão porque a violência existe de facto e a ameaça que representa, quanto mais não seja, limita os movimentos das mulheres e por isso é um real impedimento à igualdade. É muito doloroso ter esta consciência e por isso é tão fácil rejeitá-la. Um caso obvio de dissonância cognitiva.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sexismo na política


Sobre as recentes entrevistas às duas candidatas e a um candidato à Presidência do Brasil, publico, com a devida vénia, um excerto de um interessante texto do blog «cinema e outras artes» que fala por si quanto a prevalência do sexismo nas nossas sociedades.

«Pois se a insistência do bad cop Bonner quanto ao alegado autoritarismo de Dilma trouxe, latente, o culto ao estereótipo de que mulheres, mesmo no comando, devem ser “femininas” e “delicadas” – como se isso tivesse alguma importância no exercício de cargos administrativos - e a feminilidade delicada de Marina acabou por lhe render um tratamento que não poucas vezes soou paternal e leniente – como se de um ser essencialmente frágil e, fica implícito, medianamente competente se tratasse -, Serra, por outro lado, foi tratado como um autêntico patriarca.
A interação do casal de entrevistadores com ele – da qual o tímido o “ senhor me permita”, vocalizado por Bonner, é expressão cabal de subserviência - claramente reverenciou “o político experiente”, “o administrador”, “o realizador”, encarnações do poder fálico decidido e destemido, o qual, ao contrário do que ocorre, na visão do JN, com as candidatas mulheres, não precisa mostrar a que veio.
Se isso não é uma demonstração cabal de ideário machista, a se somar a interesses classistas e empresariais, eu sou o Pato Donald.»

domingo, 8 de agosto de 2010

Mães, esposas e objectos decorativos

Gisele Bundchen é uma jovem mulher do século XXI, mas a darmos créditos às suas afirmações e ao seu estilo de vida é de supor que para ela os três papéis apropriados para «a verdadeira mulher» sejam os de mãe, esposa e objecto decorativo, que ela se vangloria de desempenhar exemplarmente, ficando aliás com a fama, mas também com o proveito.

O texto a seguir explica melhor estas opções:
«Segundo Kate Millet, apenas três papéis têm sido tradicionalmente apropriados para as mulheres na nossa sociedade: o papel da mãe, o da esposa e o papel decorativo (apenas possível, incidentalmente, para as mulheres quando são jovens). Quem quer que não se ajuste em nenhum destes papéis é atirada para a categoria remanescente: a puta, o estupor. As carreiras que são consideradas mais apropriadas para as mulheres são precisamente aquelas que aparecem como extensões naturais destes três papéis aprovados. Trabalhar com crianças, com deficientes ou pessoas idosas, em alguma capacidade de cuidadora, é uma extensão óbvia do papel de mãe. Mulheres que funcionam como investigadoras associadas, secretárias, técnicas de laboratório ou assistentes durante toda a sua vida estão também a desempenhar o papel semelhante ao da esposa para os homens que servem. E mulheres cuja feminilidade é o seu valor de troca mais forte são objectos decorativos.» ( Sheilla Tobias, Faces of Feminism).
Kate Millet publicou Sexual Politics em 1969, mas, infelizmente, a sua análise ainda hoje, quatro décadas volvidas, é pertinente, como as proclamações retóricas da G.B. o demonstram. Depois não me venham dizer que estamos numa época post-feminista e que o feminismo é coisa do passado.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Gisele Bundchen: outra celebridade a dizer como as mulheres devem viver


Numa entrevista recente, Gisele Bundchen fez a seguinte declaração:
«Algumas pessoas aqui nos E. U. pensam que não têm de amamentar. E eu penso: vocês vão dar comida química às vossas crianças, quando elas são tão pequenas? Eu penso que devia haver uma lei mundial, na minha opinião, que estabelecesse que as mães deviam amamentar os seus bebes durante os primeiros seis meses.»

Ainda bem que a esta super-modelo não é reconhecida competência legislativa porque criar uma lei que estipule o que as mulheres devem fazer com os seus corpos é absolutamente inadmissível. De resto, confrontada com reacções negativas às suas declarações, ela veio amenizar, afirmando … bem, não era isso que queria dizer. Mas o estrago já estava feito.

Deste modo, não basta a constante pressão dos Media sobre as mulheres para as convencer a amamentar os filhos, fazendo passar a mensagem de que é má a mãe que não amamenta, lançando um anátema sobre o leite artificial porque é um produto químico, como se o leite materno também não fosse ele próprio um produto químico, numa nítida estratégia retórica de terrorismo psicológico.
Para além da constatação de que há muitas situações em que o leite materno é insuficiente para alimentar a criança - que se omite muito convenientemente - ainda se pretende continuar a prender as mulheres aos seus «sacrossantos» deveres, num claro desrespeito pelos condicionalismos das suas existências, pela sua individualidade, seus interesses, estilos de vida e necessidades enquanto pessoas. Se não se submeterem, então o remédio será policiar os seus corpos, como prescreve esta beldade dos tempos modernos, precisamente uma que tira lucros chorudos da exploração do seu.

Li sobre esta interessante materia no blog Womanist Musings.

domingo, 18 de julho de 2010

Não há liberdade sem poder



A liberdade das mulheres depende da sua participação nas diferentes formas de poder e requer um conjunto de condições objectivas que a tornem de facto, e não apenas de direito, possível. E essas condições para serem preenchidas dependem da participação das mulheres nos diferentes órgãos de poder político em paridade com os homens, bem como da sua participação na vida económica e cultural nos mesmos termos. Enquanto o mundo e os órgãos de decisão pertencerem aos homens em proporções avassaladoras, como ainda hoje se verifica, os obstáculos reais vão permanecer e os progressos talvez continuem a verificar-se, mas num ritmo extremamente lento, havendo a possibilidade de retrocessos. É para estes aspectos que o texto de Natasha Walter chama a nossa atenção e é melhor não fazermos ouvidos moucos!

«As mulheres moveram montanhas no sentido de despertarem a consciência das pessoas para a violência sexual e doméstica. Se ainda se encontram em desvantagem na obtenção de justiça para as mulheres que são violadas ou para encontrar protecção para as mulheres em risco nas suas próprias casas não é porque os seus argumentos não são comoventes e convincentes, mas sim porque não há um número suficiente de mulheres nas forças policiais e nos órgãos judiciais para dar todo o peso à palavra da mulher; não há mulheres em número suficiente no Parlamento e nos Serviços Civis para desenhar legislação que faça sentido para as mulheres. Somente quando as mulheres estiverem tão bem representadas quanto os homens nas forças policiais e nos tribunais se encontrará justiça para as mulheres. Somente quando as mulheres tiverem os mesmos papéis no Parlamento e nos Governos, a legislação tratará com igualdade homens e mulheres. Somente quando mulheres e homens tiverem igual independência financeira, as mulheres serão capazes de escapar de relações abusivas, quando o pretenderem; e, se decidirem ficar, saberão que essa é a sua escolha. Enquanto o suporte da desigualdade material não for suprimido, as mulheres não serão livres.” (Natasha Walter: The New Feminism, Virago Press, London, 1999, p. 223-224).

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ainda o mito da beleza: talento e fealdade não combinam?

Bem, a resposta só é afirmativa se fores mulher, para os homens as coisas não se passam da mesma maneira. A este propósito Tania Gold, comentarista do Guardian, escreveu, referindo o caso específico da talentosa embora pouco atractiva Suzan Boyle:

«Porque é que o choque é tão grande quando mulheres «feias» conseguem fazer outras coisas que não apenas ficarem em casa chorando e desejando serem outra pessoa? Aos homens permite-se que sejam feios e talentosos. Alan Sugar parece um saco de farinha. Gordon Ramsey tem uma cara ressequida. Justin Collin é uma espécie de primo da Família Adams. Graham Norton lembra um macaco; e poderíamos continuar por aqui fora. Mas uma mulher precisa de ter a beleza brilhante e vazia de um brinquedo ou então ficar fora do ecran: não queremos olhar para ti, a não ser no noticiário, onde podes chorar porque qualquer espécie terrível de tragédia se abateu sobre a tua pessoa.»

Todas as personagens masculinas referidas por Tania Gold são figuras mediáticas apreciadas e reconhecidas apesar de desprovidas de atractivos físicos e isso não provoca qualquer estranheza. Em flagrante contraste, uma mulher talentosa nas mesmas circunstâncias é rejeitada ou apenas pontualmente aceite como uma ave rara, a excepção que confirma a regra.

domingo, 11 de julho de 2010

Como o mito da beleza pode prejudicar os interesses das mulheres


É tão trivial que mal damos conta do sucedido: todas nós, no nosso quotidiano, fomos já confrontadas com os comentários dos nossos companheiros, filhos e outros familiares ou amigos sobre figuras femininas públicas que aparecem na televisão; esses comentários, apreciativos ou depreciativos, incidem invariavelmente sobre a aparência da personagem e não sobre as ideias que ela apresenta, distraindo a nossa atenção do que é dito para o que é visto - a figura, o vestuário, o penteado - e mostram quão prevalecente e invasivo continua a ser o mito da beleza.

O mito da beleza - a ideia de que o que é essencial numa mulher é a sua aparência física - explica porque as mulheres espectadoras têm tão pouca tendência a identificarem-se com figuras femininas que exercem funções de relevo na esfera pública; cumpre assim uma função nitidamente antifeminista, impedindo as mulheres de «sonharem» com papéis que não os tradicionais.
Um qualquer político, administrador de empresa ou intelectual é avaliado pelas suas opiniões, cultura e capacidade argumentativa, uma mulher em situação equivalente começa por sofrer uma devassa na sua aparência física e só depois, se é que isso acontece, é ouvida e avaliada por aquilo que diz. Temos pois boas razões para supor que muitas evitarão ocupar lugares de exposição pública precisamente porque pressentem que não se vão sentir à vontade com o injusto escrutínio a que inevitavelmente ficarão sujeitas.

Se sairmos dos media para a indústria do cinema e para a sua meca – Hollywood - também constatamos que nos inúmeros filmes produzidos, raros, muito raros mesmos, são aqueles em que a protagonista é uma mulher e em que mulheres, cuja vida mereceria ser contada porque se destacaram pelos seus méritos pessoais e contributo civilizacional, constituam o leitmotiv da história. Por outro lado, apenas mulheres jovens e de uma maneira geral belas são apresentadas; já em relação aos protagonistas masculinos, os critérios selectivos são completamente diferentes, tanto em termos de idade como de aspecto físico.

Para a publicidade aos mais diversos produtos ou para o exercício de cargos nas televisões, como, por exemplo, o de apresentadora, a tendência, escandalosamente dominante, é a de contratar mulheres jovens e belas, outros méritos são totalmente desvalorizados se estes dois critérios não forem assegurados.

Por tudo isto, importa denunciar a utilização do mito da beleza, importa mostrar como este implica discriminação injusta e serve a manutenção e replicação de uma sociedade sexista. As mulheres são inteligentes, cultas e interessadas nos problemas sociais, temos o direito de poder ouvir as suas opiniões e de considerar secundária a sua aparência física, mas, para isso, é necessário que esta não seja o critério essencial para as colocar nos meios de comunicação social. Como escreve Naomi Wollf: «Se rejeitarmos a afirmação insistente de que a aparência de uma mulher é o seu discurso, se nos ouvirmos umas às outras fora dos limites do mito da beleza, isso já será um passo político em frente.» (O Mito da Beleza, Rocco, 1992, p. 365.)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sexismo: a Banalidade do Mal

«Especificamente, o mal do sexismo não é perpetrado por monstros ou pervertidos (embora haja actos monstruosos cometidos por homens individuais); não, o sexismo é o crime de pessoas vulgares, principalmente, de homens vulgares que, na sua vulgaridade, são incapazes de pensar ou não desejam pensar, questionar-se a eles próprios, responder às questões acerca das suas próprias vidas.
A inconsciência do sexismo é manifesta no uso de clichés triviais («as mulheres são para estar em casa», «as mulheres merecem-na [a violação] e muitos outros); no uso de linguagem burocrática, no uso de linguagem que revela a incapacidade ou a não vontade do falante de universalizar, no sentido ético do termo (isto é, de se comprometer a ser tratado do mesmo modo que trata os outros); no carácter reducionista de muitas afirmações sexistas («tudo o que querem é poder»; quando as mulheres dizem Não querem dizer Sim»); na falta de vontade de serem informados acerca do que está a acontecer, especialmente a dor inconcebível que é provocada diariamente pelo sexismo, e por aí fora.”
Ignacio L. Götz: The Culture of Sexism, Praeger Publishers, Westport, CT. Publication, 1999, p.73.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Burqa genital

A Academia Americana de Pediatria propôs recentemente (a notícia é de 21 de Maio de 2010) que as famílias que praticam a mutilação genital feminina pudessem ter a assistência de médicos para efectuarem o ritual de circuncisão feminina, que consistiria apenas num corte «simbólico» e não profundo do clitoris, uma espécie de equivalente da circuncisão masculina. Mas Ayaan Hirsi Ali considera que tal proposta, independentemente das intenções dos médicos norte americanos, torná-los-ia cúmplices na perpetuação de uma grave injustiça.

Em primeiro lugar não há de facto equivalência entre o corte, mesmo que superficial do clitoris e a circuncisão masculina, esta apenas remove parte da pele e não o pénis, o mesmo não acontece com a prática da mutilação genital feminina. Por outro lado, as intenções presentes num caso e no outro são completamente diferentes, pois no caso das meninas o que se pretende é garantir que elas cheguem virgens ao casamento, diminuindo-lhes a libido e assegurando posteriormente a sua fidelidade conjugal. Daí que como Ayaan Hirsi Ali salienta, os pais das famílias que recorrem a esta prática não iriam ficar satisfeitos com o simples «corte simbólico» e iriam recorrer posteriormente a práticas de mutilação mais severas e mesmo à prática de coser parcialmente a abertura da vagina, deixando um pequeno orifício para a saída da urina e do sangue menstrual.
Assim, reconhecer legalmente a prática da «mutilação simbólica» não só não irá prevenir outras ofensas mais graves e severas, bem pelo contrário será como que uma espécie de plano inclinado para a sua aceitação. Portanto a única atitude correcta parece ser a de continuar a criminalizar a mutilação genital feminina, ponto final, sem excepções e sem reconhecimentos simbólicos; esta será a maneira possível de lutar contra uma tal injustiça que atinge milhões de mulheres. A própria Ayaan Hirsi Ali, autora de Nomad : From Islam to America, A Personal Journey Through the Clash of Civilizations, sabe do que está a falar, por experiência pessoal:

domingo, 18 de abril de 2010

O feminismo continua a fazer todo o sentido

A todas aquelas que dizem «eu não sou feminista mas…» e que parecem não entender a necessidade do movimento feminista, lembro estas declarações do Funda das Nações Unidas para a População, que embora datadas de 2000, ainda hoje, dez anos decorridos, permanecem actuais e nos avisam de que a luta contra a injustiça e a opressão sofrida pelas mulheres e pelas crianças continua a ser uma prioridade e que o feminismo continua a fazer todo o sentido.

«…Existem profundas desigualdades económicas e culturais que marginalizam efectivamente metade da população mundial. Esta metade realiza a maior parte do trabalho no mundo, todavia ganha uma fracção mínima do rendimento mundial. Esta mesma metade é frequentemente alvo de violência, é privada de educação e de cuidados de saúde e é-lhe negado um papel na vida civil. Esta metade é composta por mulheres e crianças. A discriminação que têm de suportar, apenas em consequência do género a que pertencem é universal; ocorre virtualmente em todos os países, no lar, no local de trabalho, nos lugares de culto e nos tribunais.»

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A liberdade das mulheres depende da sua participação nas diferentes formas de poder

A libertação das mulheres requer um conjunto de condições objectivas que a tornem de facto, e não apenas de direito, possível. E essas condições para serem preenchidas dependem da participação das mulheres nos diferentes órgãos de poder político em paridade com os homens, bem como da sua participação na vida económica e cultural nos mesmos termos. Enquanto o mundo e os órgãos de decisão pertencerem aos homens em proporções avassaladoras, como ainda hoje se verifica, os obstáculos reais vão permanecer e os progressos talvez continuem a verificar-se, mas num ritmo extremamente lento e com avanços e retrocessos.
A imagem acima documenta duas coisas, uma é a de que, mesmo no mundo ocidental, o número de mulheres nos órgãos de poder político é diminuto, parece-me que conto trinta homens e apenas duas mulheres na foto do governo de Israel, em cima, e mesmo estas duas foram apagadas digitalmente da fotografia que foi publicada por um jornal israelita ultra-conservador que se recusa a publicar imagens de mulheres.
É para estes aspectos que o texto de Natasha Walter chama a nossa atenção e é melhor não fazermos ouvidos moucos e pensarmos que, assim como foi imprescindível aceder ao direito de voto para alterar a nossa situação, também vai ser preciso aceder ao poder político pleno bem como ao económico e cultural para que não mais se repitam situações infamantes como a documentada nesta imagem!


«As mulheres moveram montanhas no sentido de despertarem a consciência das pessoas para a violência sexual e doméstica. Se ainda se encontram em desvantagem na obtenção de justiça para as mulheres que são violadas ou para encontrar protecção para as mulheres em risco nas suas próprias casas não é porque os seus argumentos não são comoventes e convincentes; mas sim porque não há um número suficiente de mulheres nas forças policiais e nos órgãos judiciais para dar todo o peso à palavra da mulher; não há mulheres em número suficiente no Parlamento e nos Serviços Civis para desenhar legislação que faça sentido para as mulheres. Somente quando as mulheres estiverem tão bem representadas quanto os homens nas forças policiais e nos tribunais se encontrará justiça para as mulheres. Somente quando as mulheres tiverem os mesmos papéis no Parlamento e nos Governos, a legislação tratará com igualdade homens e mulheres. Somente quando mulheres e homens tiverem igual independência financeira, as mulheres serão capazes de escapar de relações abusivas, quando o pretenderem; e, se decidirem ficar, saberão que essa é a sua escolha. Enquanto o suporte da desigualdade material não for suprimido, as mulheres não serão livres.”
Natasha Walter: The new Feminism, Virago Press, London, 1999, p. 223-224.

domingo, 11 de abril de 2010

Igreja, violência sexual e papeis sexuais tradicionais

O texto de Christine Gudorf, professora de Teologia na Universidade de Columbia, que a seguir traduzo, contém algumas ideias fortes de como as igrejas podem contribuir para a erradicação da violência sexual; resumidamente pode dizer-se que C. Gudorf propõe que as igrejas:

Condenem explicitamente os textos que aceitam ou perdoam a violência sexual;
Apresentem uma imagem da mulher como sendo tão racional, digna e responsável quanto o homem;
Promovam activamente a educação das pessoas no sentido destas tomarem consciência e condenarem a violência sexual;
Deixem de definir masculinidade e feminilidade em termos de domínio/submissão;
Resistam à homofobia e estimulem modelos de trabalho cooperativo que envolvam tanto homens quanto mulheres.
São bons conselhos, mas infelizmente este texto já foi escrito em 1993 e dá ideia que caíram em saco roto, o que é lamentável dado o potencial que as igrejas têm para influenciar as pessoas, tanto para o bem como para o mal.

«É necessária uma condenação consciente de todas as fontes de aprovação da violência sexual. Isso implica que se aceite criticar a Escritura, os padres da Igreja, os teólogos e todos os ensinamentos da Igreja que são omissos no reconhecimento e na condenação da violência sexual e que, por vezes, até a perdoam. Passos da Escritura e da teologia que apresentam mulheres e crianças como despojos legítimos numa guerra, apropriadas e sexualmente controladas por pais, maridos e senhores, ou que compreendem a violência contra as mulheres como uma injúria aos seus proprietários mais do que a elas próprias, devem ser criticados e rejeitados.
As igrejas devem compensar as falhas da Escritura, da tradição e do ensinamento da Igreja apresentando uma imagem consistente das mulheres como seres racionais com dignidade, capacidade de auto-determinação e responsabilidade equivalentes à dos homens. Uma preocupação autêntica com a violência sexual deveria produzir um certo número de mudanças na vida da Igreja e nos seus ensinamentos. Em primeiro lugar, as igrejas poderiam explicitamente condenar a violência sexual, nos púlpitos, em sessões de educação de adultos, nas escolas dominicais, em programas para a juventude.
As igrejas deviam renunciar à tradição de definir masculinidade e feminilidade em termos de domínio/ submissão. O entendimento de que um «verdadeiro» homem tem controlo sobre ele próprio e sobre os outros, de que a masculinidade pode ser medida pela amplitude desta regra, de que um «verdadeiro» homem está sempre pronto para o sexo e de que o seu pénis é mais uma arma para obter tanto sexo como controlo, deve ser firmemente rejeitada.
Do mesmo modo, as igrejas deviam rejeitar a concepção de feminilidade que encoraja as mulheres a serem vítimas passivas, fisicamente fracas, temerosas de conflito, deferentes e dependentes dos homens.
Renunciar aos papéis sexuais tradicionais vai requerer que se repense as expectativas de ministros ordenados e de leigos assim como o entendimento das congregações sobre a liderança em geral. A aptidão para trabalhar cooperativamente com ambos os sexos deve ser um requisito básico para um ministro. Igualmente importante para o ministério é a resistência à homofobia que serve para reforçar uma compreensão muito perigosa de masculinidade e de feminilidade e do sexo como uma actividade de domínio/submissão.
A igreja deve ser um lugar no qual modelos cooperativos de tomada de decisões entre os sexos devem ser promovidos e desenvolvidos.»

Christine E. Gudorf: The Worst Sexual Sin: Sexual Violence and the Church. The Christian Century. Volume: 110. Issue: 1. January 6, 1993.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Violência sexual – arma para manter a ordem social existente

O medo da violência sexual é uma arma poderosa para manter a ordem social no que às mulheres diz respeito porque é um meio de lhes limitar a liberdade de movimentos e de prescrever os comportamentos que nelas serão aceitáveis. Esses comportamentos poderão ir desde o uso da burka ou do véu até à exigência de vestuário considerado não provocativo da libido masculina. Quer dizer, mais uma vez o ónus recai sobre as mulheres pois não se considera que seja necessário os homens restringirem os seus comportamentos agressivos, só é preciso não os provocar.

A sociedade, mesmo em países ditos evoluídos, é complacente para com a violência sexual de muitas maneiras; uma das mais eficientes é culpabilizar a vítima e compreender o agressor, do qual desse modo se desvia a atenção. Seguindo esta estratégia, as pessoas ficam com a consciência tranquila e ao mesmo tempo, dá-se às mulheres uma falsa sensação de segurança, a sensação de que nada lhes acontecerá se se comportarem de acordo com a cartilha machista que defende o duplo padrão em matéria de sexo e que enaltece a mulher recatada e modesta. Mas, esquece-se que deste modo está a estimular-se, ainda que indirectamente, a violência sexual.

Culpar a vítima de violência sexual é de alguma maneira desculpar essa mesma violência, é considerar que há casos em que ela se justifica. Ora, seja qual for a circunstância, em nenhuma situação é admissível o recurso à violência sexual, e, portanto, quem a desculpabiliza está a ser conivente com ela e é bom que comece a perceber que tem uma quota parte de responsabilidade na matéria; e com isto, estou a apontar o dedo a instituições e a muitas pessoas respeitáveis, mulheres incluídas.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Violência sexual e práticas sociais

«A nossa sociedade tolera a violência sexual de inúmeras maneiras. Como as teólogas Beverly Harrison e Carter Heyward sugerem, nós erotizamos a dominação. É sexy para um homem ser maior, mais velho, mais forte, mais rico e socialmente mais poderoso do que uma mulher; o reverso decididamente não é sexy. A nossa sociedade incorpora a dominação e a submissão na sexualidade de um modo que desculpa a violência.

Há um sem número de circunstâncias nas quais sexo sob coação não é olhado como violação, mas como o direito de um homem: se a mulher se veste de forma provocante, se está sob o efeito do álcool ou drogas, se o convida para saírem, se aceita que ele gaste dinheiro com ela, se vai ao apartamento dele, se vai a uma festa, se ele é ou foi casado com ela.
Trinta e nove por cento de alunos do liceu, reportados num estudo, disseram que se justificava forçar a relação sexual se a jovem estivesse bêbada ou pedrada. Num outro estudo, setenta e cinco por cento de alunos universitários disseram que usavam álcool ou drogas para conseguirem sexo.

Os homens parecem não ser capazes de distinguir coerção de consentimento. (…) Esta dificuldade de distinguir entre consentimento e coacção impede oito em cada nove vítimas de reportarem que foram violadas.
Censurar a vítima de violência sexual é um lugar-comum, não só porque torna desnecessário para a sociedade examinar seriamente o nível de violência dominante, mas também porque dá às mulheres (e às crianças e a quem as ama) a ilusão de segurança. Se as vítimas de violação, incesto ou violência física provocam esses comportamentos, então mulheres e crianças «bem comportadas» e responsáveis nada têm a temer.»

Christine Gudorf: The Worst Sexual Sin: Sexual Violence and the Church. The Christian Century. Volume: 110. Issue: 1. January 6, 1993.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

«Masculinidade» vergonhosa

No Guardian de 15 de Janeiro último, foi publicado um artigo que refere uma investigação conduzida por uma associação de defesa de mulheres vulneráveis na qual foram entrevistados 103 homens em Londres acerca do seu «uso» de prostitutas.

A um dos entrevistados, jovem, bem parecido e inteligente, perguntou-se quantas vezes ele pensava que as mulheres a quem ele pagava tinham prazer no sexo. Respondeu «Eu não quero que elas tenham qualquer prazer, eu pago e é trabalho delas dar-me prazer: Se elas gozassem sentir-me-ia ludibriado.» Questionado sobre se achava que as prostitutas eram diferentes das outras mulheres, disse: «O facto de elas estarem preparadas para fazer um trabalho que outras não estão … significa que há qualquer capacidade dentro delas que permite que o façam sem se sentirem desgostosas».

Muitos outros entrevistados acreditavam que os homens «precisam de violar, se não puderem pagar pelo sexo de que necessitam. Um disse: «Por vezes tu podias violar alguém, em vez disso podes procurar uma prostituta.» Outro colocou a questão desta maneira: «Um homem desesperado, que precisa desesperadamente de sexo para se aliviar, pode ser capaz de violar.»
A partir daqui conclui-se que não são as feminstas como Andrea Dworkin ou a própria entrevistadora as responsáveis pela ideia de que todos os homens são potenciais violadores – por vezes os próprios homens o reconhecem.

P.S. Este texto foi traduzido e adaptado do post do blog Feminist philosophers de 19 de Janeiro de 2010.

Podem ler o artigo do Guardian aqui:


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Prostituição e tráfico de mulheres

A imagem reporta um negócio asqueroso a decorrer em plena Oxford Street, Londres. Gigolos tentam vender uma mulher como escrava sexual. À esquerda, observando o negócio está a mulher, uma jovem lituana, de vinte e poucos anos, guardada por alguém que não aparece na foto. Mas esta jovem foi afortunada, a polícia conseguiu libertá-la e a quadrilha de traficantes albaneses foi presa e condenada a penas que somaram 63 anos de cárcere. Outras têm menos sorte. Estima-se que em 2003, no Reino Unido 4000 mulheres foram traficadas e introduzidas no mundo da prostituição.

Estas notícias deviam fazer pensar quem não vê nada de ruim neste «negócio» e considera que a prostituição não é condenável porque afinal decorre de um simples contrato entre prostituta e cliente, se a prostituta tem intermediário, o que podemos fazer? Afinal não é isso que acontece em muitos negócios? Só as feministas puritanas é que são umas chatas por quererem estragar a festa! *
* Este texto é uma adaptção livre do post publicado pelo blog The Cult of the Dead Fish

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Selvajaria à solta na Somália

Terça-feira passada, na Somália, uma jovem de 20 anos, embora divorciada, foi acusada da prática de adultério por manter relações sexuais com um homem solteiro de 29 anos. O castigo aplicado foi o apedrejamento até à morte; enterrada até à cintura, o espectáculo ocorreu na praça pública perante uma multidão de cerca de 200 pessoas. O homem foi punido com 100 chibatadas.
A região onde este e outros «crimes» análogos têm ocorrido é a zona sudeste da Somália, dominada pelas milícias al-Shabab que pretendem restaurar a Lei Islâmica na sua «pureza» original, que neste particular proíbe uma mulher que tenha sido casada, mesmo se obtém o divórcio, de ter relações extra-conjugais.
Grupos de direitos humanos têm denunciado sem sucesso estes crimes, o mais revoltante ocorreu no ano passado quando uma menina de 13 anos, que já tinha sido casada, foi apedrejada até à morte. Esses grupos ainda alegaram que a menina tinha sido violada, mas os extremistas muçulmanos disseram que ela era mais velha e que não tinha havido violação.
A Somália, em pleno século XXI, para além de outras práticas macabras como a pirataria, continua a ignorar os direitos humanos, particularmente na pessoa das mulheres e a cometer impunemente as maiores atrocidades perante uma comunidade internacional que assobia para o ar. Até quando?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Misoginia no local de trabalho

Mori Cameron (44), a primeira mulher guarda da Torre de Londres em 524 anos acusou três colegas de a terem assediado sexualmente quando se encontrava (sozinha) no seu posto. A queixa está a ser investigada e dois deles foram entretanto suspensos de funções.

O uniforme de Cameron foi vandalizado e foram deixados comentários insultuosos no seu cacifo. Parece que os homens continuam a reagir negativamente ao acesso das mulheres a um estatuto profissional igualitário e que o cavalheirismo descamba em misoginia sempre que a oportunidade se oferece.
O episódio é tanto mais grave quando seria de esperar um comportamento digno e irrepreensível de elementos do exército britânico que são escolhidos para este cargo depois de terem prestado provas exigentes e após um longo período de exercício de funções.