
É tão trivial que mal damos conta do sucedido: todas nós, no nosso quotidiano, fomos já confrontadas com os comentários dos nossos companheiros, filhos e outros familiares ou amigos sobre figuras femininas públicas que aparecem na televisão; esses comentários, apreciativos ou depreciativos, incidem invariavelmente sobre a aparência da personagem e não sobre as ideias que ela apresenta, distraindo a nossa atenção do que é dito para o que é visto - a figura, o vestuário, o penteado - e mostram quão prevalecente e invasivo continua a ser o mito da beleza.
O mito da beleza - a ideia de que o que é essencial numa mulher é a sua aparência física - explica porque as mulheres espectadoras têm tão pouca tendência a identificarem-se com figuras femininas que exercem funções de relevo na esfera pública; cumpre assim uma função nitidamente antifeminista, impedindo as mulheres de «sonharem» com papéis que não os tradicionais.
Um qualquer político, administrador de empresa ou intelectual é avaliado pelas suas opiniões, cultura e capacidade argumentativa, uma mulher em situação equivalente começa por sofrer uma devassa na sua aparência física e só depois, se é que isso acontece, é ouvida e avaliada por aquilo que diz. Temos pois boas razões para supor que muitas evitarão ocupar lugares de exposição pública precisamente porque pressentem que não se vão sentir à vontade com o injusto escrutínio a que inevitavelmente ficarão sujeitas.
Se sairmos dos media para a indústria do cinema e para a sua meca – Hollywood - também constatamos que nos inúmeros filmes produzidos, raros, muito raros mesmos, são aqueles em que a protagonista é uma mulher e em que mulheres, cuja vida mereceria ser contada porque se destacaram pelos seus méritos pessoais e contributo civilizacional, constituam o leitmotiv da história. Por outro lado, apenas mulheres jovens e de uma maneira geral belas são apresentadas; já em relação aos protagonistas masculinos, os critérios selectivos são completamente diferentes, tanto em termos de idade como de aspecto físico.
Para a publicidade aos mais diversos produtos ou para o exercício de cargos nas televisões, como, por exemplo, o de apresentadora, a tendência, escandalosamente dominante, é a de contratar mulheres jovens e belas, outros méritos são totalmente desvalorizados se estes dois critérios não forem assegurados.
Por tudo isto, importa denunciar a utilização do mito da beleza, importa mostrar como este implica discriminação injusta e serve a manutenção e replicação de uma sociedade sexista. As mulheres são inteligentes, cultas e interessadas nos problemas sociais, temos o direito de poder ouvir as suas opiniões e de considerar secundária a sua aparência física, mas, para isso, é necessário que esta não seja o critério essencial para as colocar nos meios de comunicação social. Como escreve Naomi Wollf: «Se rejeitarmos a afirmação insistente de que a aparência de uma mulher é o seu discurso, se nos ouvirmos umas às outras fora dos limites do mito da beleza, isso já será um passo político em frente.» (O Mito da Beleza, Rocco, 1992, p. 365.)