terça-feira, 17 de novembro de 2009
Publicidade sexista ou anti-sexista?
Bem, pelo menos uma coisa é certa, denuncia o sexismo e reconhece a objectificação da mulher na publicidade.Parece um avanço, já que obriga pelo menos quem vê a reflectir.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Relativismo cultural sim, mas devagar …
O novo Guia de Cidadania do Canadá toma uma posição clara relativamente aos direitos das mulheres enquanto direitos humanos, avisando desde logo que actos que atentem contra esses direitos cometidos e justificados em nome de um pretenso relativismo cultural não mais irão ser tolerados porque são práticas culturais bárbaras decorrentes de crenças que atentam contra valores fundamentais do Canadá; o texto é claro e especifica mesmo os comportamentos que constituem crime no Canadá e que deveriam constituir crime em qualquer parte do mundo: «No Canadá homens e mulheres são iguais perante a Lei… A abertura do Canadá e a sua generosidade não são compatíveis com práticas culturais bárabaras que toleram o abuso das esposas, os «crimes de honra», a mutilação genital feminina, ou qualquer outro tipo de violência com fundamento no género. Todos os culpados de tais crimes serão severamente punidos de acordo com as leis penais do Canadá.»
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
A luta contra os estereótipos de beleza
encontrei o tema e o vídeo aqui
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Se você quer ser dominada, então a violação deve ser a sua prática sexual preferida!
Quando iniciei este blog não me passava pela cabeça que me iria ocupar tão extensivamente com temas relacionados com a sexualidade. Pensava mesmo que poderia passar à margem deles e focar-me em outras situações que objectivamente prejudicam e maltratam as mulheres. Mas à medida que fui progredindo e lendo diferentes textos, comecei a sentir que iria ser impossível não entrar num tema, em que ainda por cima me sentia bastante ignorante; esta convicção foi reforçada quando encontrei uma referência de Catharine Mackinnon, segundo a qual: «A sexualidade está para o feminismo como o trabalho está para o marxismo, constituem aquilo que mais intimamente nos pertence, mas de que mesmo assim mais somos espoliad@s.»
Esta declaração deu-me que pensar, sobretudo no que tem a ver com a sexualidade feminina. É que em boa verdade, o que existe é sexualidade masculina que fornece o modelo e a norma do que é a sexualidade e as mulheres devem conformar-se e interiorizar essa norma e esse modelo. E o que é ainda mais grave, segundo me parece, é que nem a generalidade dos homens nem a generalidade das mulheres têm a consciência mínima de que este é um problema, de que ele existe e tem consequências nefastas na vida de muitas pessoas e que é mais uma tremenda injustiça e violência cometida contra as mulheres.
Durante muito tempo, a sexualidade foi aberta e declaradamente definida em termos masculinos e o acto sexual era descrito como culminando com a ejaculação masculina, sem a menor atenção ao que se passava com a mulher. Hoje as coisas não são postas tão cruamente, a não ser no registo pornográfico sexista, mas o que é certo é que o modelo de sexualidade apresentado como norma é o masculino. Este modelo é o de domínio/submissão, típico da sexualidade masculina heterossexual, que parte do princípio, que ninguém questiona, que em termos sexuais as mulheres querem o que os homens querem, não tem vontades próprias, desejam o que o macho deseja e se ele deseja dominar elas então desejam que ele domina e consequentemente desejam ser dominadas. Se as mulheres aceitarem este modelo, e tudo é feito para que tal aconteça, então a violação deve ser uma prática sexual a que nada há a opor, porque nela o domínio de um e a submissão de outra são totais. E nesta ordem de ideias, como algumas feministas defendem, entre sexo (heterossexual) e violação não haveria diferença de natureza, só de grau.
Curiosamente já tinha lido esta aproximação entre sexo e violação e não tinha percebido onde com ela se queria chegar, pois não estava a ver a ligação e, como acontece comigo o que com certeza acontece com outras mulheres que são tratadas com carinho e respeito pelos seus companheiros, parecia-me injusta e questionável tal ligação. Também nunca tive qualquer fantasia de querer ser dominada sexualmente e, como já tive oportunidade de dizer em outros textos, privilegio sempre a reciprocidade na relação sexual, mas quando encontro mulheres que não tem pejo em declarar para quem as quer ouvir que se querem submeter aos seus companheiros, que gostam de homens bem machos, leia-se dominadores, então sem qualquer piedade, o que me apetece dizer-lhes é que, nesse caso, a sua prática favorita deve ser a violação. Essas mulheres não percebem que estão a ser «a voz do dono», não tem sequer a sensibilidade para perceberem que desistiram de construir a sua própria sexualidade para se limitarem a interiorizar a sexualidade masculina. Eu compreendo, mas não perdoo. Sobretudo não perdoo que não se sintam mal consigo mesmas por se terem tornado cúmplices totais do sistema que as oprime.
domingo, 8 de novembro de 2009
A pornografia constrói as mulheres como coisas para uso sexual
O texto de Catharine Mackinnon, que a seguir traduzo, reflecte sobre a pornografia, sua natureza e consequências; é um texto publicado em 1995 e podem dizer que já não traduz a realidade, porque entretanto a pornografia, face à demanda feminina de consumo, se alterou. Mas, embora aceite que ocorreram alterações no sentido de atenuar a carga sexista que comporta, penso que no essencial não se modificou e que o modelo permanece nas suas características essenciais. A crítica de Mackinnon à pornografia não se funda na moralidade tradicional nem no pretenso carácter obsceno do relato pornográfico, tem o seu fundamento na convicção, para a qual as narrativas pornográficas que abundam no mercado fornecem argumentos, de que a pornografia inferioriza as mulheres e, reforçando o modelo sexual de domínio – submissão, reforça o estatuto que a sociedade sexista lhes atribui.
Sabemos das tentativas de produção de filmes porno não sexistas, por pessoas que, não vendo qualquer hipótese de se eliminar a pornografia sexista, supõem que o melhor antídoto é mais pornografia, de sentido diferente, como quando se combate um fogo com a técnica do contra-fogo. A intenção é positiva e louvável e recuso-me a adiantar mais sem ter a experiência directa desse tipo de filmes. Mas a pornografia que continua facilmente disponível, nomeadamente através da Internet continua a ser sexista, e a insistir na representação intensiva e extensiva da mulher como objecto sexual.
Para qualquer espectador que se esforça por ser imparcial - se é que isso é possível, a pornografia é uma mistificação, é uma mentira, porque as mulheres, nomeadamente as actrizes porno, não estão a sentir prazer, estão a fingir prazer o que é uma coisa completamente diferente, e estão a fingir prazer de situações que objectivamente não é suposto provocarem sensações de prazer, mas que são erotizadas, isto é que são apresentadas como se dessem prazer. A pornografia constrói assim a sexualidade feminina e também a masculina, mostrando modelos que uns e outras devem seguir para terem prazer. Que os homens tenham prazer através das práticas mostradas, não existem dúvidas, já em relação às mulheres, o que muitas dizem e há que não desvalorizar o seu testemunho, é que tais práticas não lhes dão prazer e são mesmo desagradáveis ou repugnantes.
A pornografia não sexista pode revestir interesse se ajudar as mulheres a construírem a sua sexualidade em termos completamente diferentes daqueles que conhecemos e que a pornografia sexista vende. E essa tarefa, que tem até de passar pela construção de nova linguagem para referir a actividade sexual, é muito necessária se queremos uma sociedade justa e psicologicamente saudável.
Vejamos pois o texto de Mackinnon:
A partir do testemunho da pornografia, o que os homens querem é mulheres dominadas, mulheres espancadas, mulheres torturadas, mulheres degradadas e conspurcadas, mulheres assassinadas. Ou, para sermos just@s com o registo mais suave (soft core), mulheres sexualmente acessíveis, possuíveis, que estão ali à sua disposição, querendo ser possuídas e usadas, talvez com uma ligeira sugestão de escravidão. Qualquer acto de violentação das mulheres - violação, espancamento, prostituição, abuso sexual de crianças, assédio sexual, é apresentado como sexualidade, é tornado sexy, divertido e libertador da verdadeira natureza da mulher na pornografia. (…)
As mulheres são transformadas em e postas em paralelo com qualquer coisa considerada inferior ao humano: animais, objectos, crianças e – claro, outras mulheres. (…)
A pornografia é um meio através do qual a sexualidade é socialmente construída, é um lugar de construção, um domínio de exercício. Constrói as mulheres como coisas para uso sexual e constrói os seus consumidores para quererem desesperadamente a posse, a crueldade e a desumanização. A própria desigualdade, a própria sujeição, a própria hierarquização, a própria objectificação, o abandono em êxtase da capacidade de auto-determinação, é o conteúdo aparente do desejo sexual das mulheres e é o que é desejável. (…)
Se a pornografia não se tivesse tornado sexo para os homens e do ponto de vista dos homens, seria difícil explicar porque é que a indústria pornográfica arrecada biliões de dólares por ano vendendo-a como sexo principalmente para homens; porque é que é utilizada para ensinar sexo às prostitutas infantis, às esposas, filhas e namoradas recalcitrantes, a estudantes de medicina e a agressores sexuais; porque é que quase universalmente é classificada como uma subdivisão da «literatura erótica»; porque é que é protegida e defendida como se fosse o próprio sexo. E porque é que um eminente sexólogo manifesta o receio de que, se a perspectiva feminista se reforçar contra a pornografia na sociedade, os homens tornar-se-ão «eroticamente inertes»: não havendo pornografia, não há sexualidade masculina.”
Catharine Mackinnon: Sexuality, Pornography, and Method: "Pleasure Under Patriarchy"
Podemos resumir o conteúdo deste texto nos seguintes pontos:
1. A pornografia é para os homens a verdade acerca do sexo (é preciso dizer que se está a falar da pornografia sexista e da generalidade dos homens). A verdade dos homens é que a mulher é objecto sexual e é nesse contexto que os excita.
2. É a redução da mulher a objecto que fornece o enquadramento para a sua dominação sexual, elemento importante da sua dominação social.
3. Mas os homens não querem apenas dominar as mulheres, querem que elas gostem de ser dominadas.
4. E aqui a pornografia fornece os instrumentos de violência simbólica ao erotizar e transformar em sexo inúmeras situações de violência, com a correspondente mensagem: ser sexualmente dominada pelo homem é sexy, responder positiva e gratamente a todos os desejos e fantasias do homem é sexy; rejeitar em êxtase a sua própria capacidade de auto-determinação é sexy.
5. As imagens pornográficas mostram constantemente mulheres revelando excitação e prazer por tudo quanto fazem aos homens e por tudo quanto os homens lhes fazem, sendo que tudo gravita ao redor da «imponência» do pénis. Mesmo as situações que objectivamente não é suposto provocarem sensações de prazer são erotizadas, isto é são apresentadas como se dessem prazer, a avaliar pelos sons emitidos pelas personagens, pelas suas expressões faciais ou pelas expressões verbais utilizadas.
6. A pornografia é assim um poderoso instrumento de construção da sexualidade: a sexualidade é uma construção social de poder masculino, definida pelos homens e «imposta» às mulheres. A pornografia constrói as mulheres como coisas e constrói os homens como sujeitos que vão usar sexualmente as mulheres.
7. As mulheres aprendem a sexualidade com os seus companheiros e estes são socializados com o modelo sexual de domínio/submissão que é expresso através da própria linguagem. Deste modo, as mulheres são privadas da possibilidade de terem experiências suas e dos próprios termos que eventualmente as pudessem descrever: são «obrigadas» a verem-se e a referirem-se a si próprias nos termos que os homens e a linguagem sexista estipularam.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Misoginia no local de trabalho
Mori Cameron (44), a primeira mulher guarda da Torre de Londres em 524 anos acusou três colegas de a terem assediado sexualmente quando se encontrava (sozinha) no seu posto. A queixa está a ser investigada e dois deles foram entretanto suspensos de funções.O uniforme de Cameron foi vandalizado e foram deixados comentários insultuosos no seu cacifo. Parece que os homens continuam a reagir negativamente ao acesso das mulheres a um estatuto profissional igualitário e que o cavalheirismo descamba em misoginia sempre que a oportunidade se oferece.
O episódio é tanto mais grave quando seria de esperar um comportamento digno e irrepreensível de elementos do exército britânico que são escolhidos para este cargo depois de terem prestado provas exigentes e após um longo período de exercício de funções.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Complexo de Édipo e misoginia
Comecemos por lembrar que vivemos em sociedades moldadas pelos valores do judaísmo e do cristianismo – adquiridos por processos de impregnação cultural, que projectam no sexo uma tremenda carga negativa e lembremos ainda que, apesar de todos os avanços, as mentalidades resistem sempre à mudança, sobretudo quando se trata do núcleo duro das nossas emoções e sentimentos. Isto dito, para realçar que por mais modern@s que sejamos, continua a haver muito de atávico e de atrasado em nós.
A carga negativa que o sexo suscita transporta consigo um sentimento de culpa e desde cedo aprendemos que tudo o que com ele se relaciona é feio, obsceno e tabu. Os homens, tal como as mulheres, experimentam este sentimento de culpa que os leva a considerar o sexo degradante, e como para tudo, sempre que se pode, é bom encontrar um bode expiatório, como puderam, foram muito expeditos em projectar na mulher, no objecto do seu desejo sexual, essa carga negativa. A sua preocupação com o sexo é tão obsessiva e a tendência para reprimir o desejo sexual tão forte que, para se desculpabilizarem, precisam de perceber as mulheres como seres desprovidos de espiritualidade, puramente carnais e apostadas em os seduzir e corromper, por isso tem de as degradar, desvalorizar e culpabilizar. Se o sexo é degradante, se as mulheres são objectos sexuais e se reduzem ao sexo, então as mulheres são seres degradantes e obviamente inferiores. Toda esta construção mental, que nem sempre é muito óbvia, revela-se claramente se pensarmos num exemplo simples e bastante comum: não se considera indigno ou menos respeitável o homem que tem sexo com prostitutas, mas, em contrapartida, estas são percebidas como criaturas desprezíveis sobre as quais recai um tremendo estigma social. Não é o homem que é desprezível, por desejar sexualmente a mulher e por pagar para conseguir satisfazer o seu desejo, é a mulher que é desprezível por satisfazer esse desejo a troco de uma remuneração.
Há ainda um outro aspecto que em minha opinião lança alguma luz sobre esta curiosa tendência que os homens (muitos, com certeza mesmo mais do que imaginamos) têm para degradar e desrespeitar as mulheres, reduzindo-as à condição de objecto sexual mais ou menos desprovido de valor, em conformidade com os seus atractivos físicos e idade. Este aspecto tem alguma relação com o famoso complexo de Édipo que Freud descreveu.
Freud considerou que o desenvolvimento psicológico das crianças do sexo masculino passa por uma fase - que designou de Complexo de Édipo, na qual o menino «ama» a mãe e detesta o pai que surge como rival do carinho e atenção que a mãe lhe prodigaliza. Mas se evoluir normalmente acabará por resolver este complexo e por se tornar um adulto equilibrado.
Ora o que é que o complexo de Édipo poderá ter a ver com o desrespeito e depreciação das mulheres pelos homens? A resposta, embora puramente especulativa, parece revestir algum poder explicativo: pode supor-se que em muitos homens o complexo de Édipo vai deixar sempre uma marca, eles aprenderam a desistir do amor físico pela mãe, mas, assim como não puderam amar fisicamente a mãe, pela qual sentiam carinho e respeito, também não vão ser capazes de amar fisicamente qualquer mulher pela qual nutram sentimentos equivalentes. Como é que resolvem a situação? Amando fisicamente uma mulher que desrespeitem nem que para tal tenham de a levar a aderir (adesão extorquida) a comportamentos e atitudes que eles próprios consideram degradantes. Isto em certa medida poderia explicar toda a parafernália de actos pretensamente eróticos, mas intrinsecamente violentos e degradantes, que a pornografia vende com tanto sucesso.
Uma última nota: a depreciação e repressão da actividade sexual é uma constante de todas as culturas que repousam numa concepção dualista do ser humano enquanto composto de espírito e de corpo da qual decorre a desvalorização do corpo e de todas as actividades que com ele directamente se relacionam.
sábado, 31 de outubro de 2009
Misoginia é a prática, sexismo a teoria
O termo «misoginia» significa literalmente ódio às mulheres, mas, mais do que um sentimento, deve antes ser entendido como um mecanismo de controlo que usa a violência e a opressão como instrumentos. Os homens e as mulheres que consideramos misóginos vão sempre negar que odeiam as mulheres, o que não podem negar é que querem que elas sejam controladas, sobretudo nas diversas manifestações da sua sexualidade e na sua capacidade reprodutiva e para tal não hesitam em usar violência verbal ou mesmo física, tentando ridicularizar e depreciar as mulheres para assim «mostrarem» a sua inferioridade e desse modo justificarem a supremacia e o controlo masculinos. As mulheres misóginas - expressão aparentemente paradoxal, assimilaram e interiorizaram os valores machistas e desse modo não percebem que se tornaram cúmplices do sistema opressor. Estão muitas vezes na primeira linha quando se trata de definir as atitudes que a «verdadeira» mulher deve adoptar ou quando se trata de desculpabilizar os homens por pretenso excessos que estes possam cometer, «provocados» pela aparência, por exemplo vestuário, ou por comportamento que considerem inapropriado, por exemplo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Esquecem que estão a utilizar um argumento antiquíssimo que encontramos nos textos bíblicos que identifica a mulher como a eterna sedutora e corruptora do homem e por isso culpada ab inicio dos piores crimes. Por outro lado elas próprias assimilaram a visão do sexo como algo mau, que os homens desde sempre endossaram; estes, sentindo-se culpabilizados por experimentarem desejo por algo que consideram mau, pelo mecanismo do bode expiatório projectam na mulher toda essa negatividade e culpabilidade que o sexo lhes provoca. Por exemplo, muitas mulheres são as primeiras a desculpar a promiscuidade sexual dos homens – mesmo quando estes são casados, e a punirem severamente o mesmo comportamento nas mulheres – mesmo quando estas são solteiras. Mas um pouco de reflexão permite-nos concluir que uma mulher promíscua – que tem relação com vários parceiros sexuais sem que isso envolva qualquer compromisso afectivo ou social, só pela experiência em si ou pelo prazer que ela lhe possa causar – revela, pela sua atitude a intenção de controlar a sua própria sexualidade, de procurar o seu prazer através de experiências diferentes e variadas e não se guardar para um único companheiro. Ora, como as mulheres que interiorizaram sentimentos misóginos não são capazes de deles se libertarem, atacam aquelas que furaram o bloqueio e muitas vezes dirigem esses sentimentos hostis contra si próprias o que explica também porque é que tantas sofrem de distúrbios digestivos, tem uma auto-imagem negativa ou entendem que o sofrimento que experimentam não é injusto.
Os homens e as mulheres misóginas bem como as sociedades misóginas - podemos tomar como exemplo extremo dos nossos dias a sociedade afegã, sempre protestam respeito pelas mulheres mesmo quando lhes batem ou ameaçam matá-las, justificando-se com o facto de elas não se conduzirem de acordo com a cartilha machista que é entendida como um autêntico manual de bom comportamento. A percepção que têm da mulher é a de um ser menor que, tal como uma criança, precisa de ser controlada para o seu próprio bem: assim como o pai que bate no filho quando ele faz uma asneira, também o marido que bate na mulher tem o mesmo tipo de razão, num caso ou no outro recusam ver aqui qualquer sintoma de ódio. Mas afinal não respeitam as mulheres o que respeitam e exaltam é um ideal de mulher que construíram nas suas cabeças pretendendo que todas se devem conformar a esse ideal, quando isso não acontece o respeito e a adoração descambam em desprezo e hostilidade e a mulher cai do belo pedestal em que a colocaram.
Tudo isto significa que o problema central com que as mulheres se vêem confrontadas não é tanto a misoginia mas sobretudo o sexismo nas suas diversas modalidades pois a misoginia é um produto lateral do sexismo, a misoginia é apenas o instrumento que é utilizado quando o sexismo é posto em causa, quando a mulher se rebela contra o papel que a sociedade sexista para ela estipula e, paralelamente, a tonalidade hostil que a acompanha apenas serve para justificar o recurso a esse instrumento de controlo, quando os mecanismos mais subtis falharam.
Resumindo, podemos dizer que a supremacia masculina, característica dominante da sociedade patriarcal, exige que os homens controlem as mulheres, o que será mais fácil se as convencerem de que elas necessitam de ser controladas e de que limitar-lhes a liberdade é uma forma de as protegerem. Para as controlarem, têm de as discriminar (sexismo) e, por último, para as discriminarem precisam de sentir que elas são inferiores (misoginia). Podemos assim dizer que o sexismo é a teoria e a misoginia é a prática e que esta pela violência de que se reveste requer um fundamento afectivo de hostilidade em relação às mulheres.
«Mulheres Presentes na História»
«Mulheres Presentes na História» é um movimento feminista organizado na Bolívia, que luta pela paridade na representação política da Assembleia Legislativa Nacional, consciente de que só através dessa representação podem ser defendidos os direitos das mulheres e denunciados os atropelos aos mesmos. Foi este movimento que conseguiu anteriormente que pelo menos 33% da Assembleia fosse composta por mulheres e que hoje vai mais além reclamando a justa cota dos 50% já que mais de metade da população boliviana é feminina.
No velho continente, tudo evidencia que estamos mais acomodadas e particularmente em Portugal não conseguimos ir além dos 33% . As nossas modestas ambições e o pouco empenhamento em qualquer tipo de luta ou de movimento organizado não parecem levar-nos a parte nenhuma. Ora, enquanto não percebermos que a união, a organização e o empenhamento numa luta que defina objectivos ambiciosos mas viáveis é imprescindivel, as mudanças serão necessáriamente muito mais lentas e pouco significativas.
Tomei este vídeo do blog Género con Clase onde originalmente o visionei.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Quando é que a relação sexual é moralmente correcta?
«Há dois séculos, Immanuel Kant (1724-1804) deu um contributo significativo para uma perspectiva racional sobre a ética ligada ao sexo, quando defendeu que é moralmente errado tratar as pessoas como simples meios para o que cada um deseja e não também como fins em si mesmas. De facto, Kant compreendeu que não conseguimos evitar tratar as pessoas como meios. O que é errado é usá-las meramente como meios, sem reconhecer o seu valor como fins em si mesmas. (…) Em relação ao sexo, Kant disse que fora de uma relação de amor, as pessoas são tratadas como objectos sexuais. Ele deve ter sido a primeira pessoa a denunciar o uso das pessoas como objectos sexuais. Kant sustentou que, fora do casamento, as pessoas são usadas como meros objectos de desejo sexual. Não precisamos de concordar com Kant de que o casamento é o único modo de evitar o uso das pessoas como meros meios. (…) O elemento básico acerca da incorrecção de usar uma pessoa como um simples meio sustenta-se por si mesmo. A falta moral acerca da qual Kant escreveu continua a ser uma falta. Porquê? Usar uma pessoa como mero meio para os fins de uma outra cria uma relação na qual a pessoa não é respeitada como pessoa e a sua liberdade e desenvolvimento pessoal não são favorecidos. Em tal relação, há uma falta de reciprocidade e mutualidade. Estas faltas tornam a relação sexual moralmente errada. Respeitar totalmente a personalidade e liberdade do outro, ajudá-lo a crescer em capacidade para realizar o seu potencial respeitando o direito do outro a ser ele próprio e não um mero apêndice de cada um, evitar o que quer que o fira e prejudique, aprender a falar em conjunto e a discutir os desacordos honestamente – estas são algumas coisas que tornam uma relação sexual moralmente correcta.»
Don Marietta: Philosophy of Sexuality
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
O clitoris - esse ilustre desconhecido
"Há alguma esperança para as vítimas de mutilação genital feminina – isto se você for cidadã de um país como a França ou os Estados Unidos. A Newsweek reporta o trabalho da Drª. Marci Bowers, que realiza operações reconstrutivas em mulheres que sofreram ablação do clitoris; 80% das mulheres que se submeteram à operação viram os seus sentimentos de prazer restaurados. Foi a primeira vez que ouvi falar em tal possibilidade. O clitoris é um órgão maravilhoso e tem sido mantido no esquecimento, como a investigação recente revelou. Por isso não é impensável que haja opções de restauração. Porque não pensei nisso antes? Felizmente o Dr. Pierre Foldès pensou. Há cerca de vinte anos, quando começou, descobriu:
«Foi para mim chocante constatar através da minha investigação que não havia nada, absolutamente nada acerca deste órgão, ao passo que havia centenas de livros sobre o pénis e várias técnicas cirúrgicas para lhe aumentar o comprimento, alargá-lo ou repará-lo. Ninguém estava a estudar o clitoris porque ele é associado ao prazer das mulheres. Os detalhes anatómicos sobre ele eram muito escassos. Era como se não existisse. Tive de começar do nada.»
Mas agora as coisas começam a mudar”
Postado por Feminist Philosophers
P. S. Dadas as características sexistas da língua inglesa, como aliás de todas as outras, só através de investigação no Google descobri que Dr. Marci Bowers é uma cirurgiã e não um cirurgião como inicialmente pensei, curiosamente, ou não, a Drª Marci Bowers é transexual.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O papel dos media na transmissão cultural
«A premissa de que – TV, filmes, discos e pornografia não têm efeito na realidade – é de facto completamente idiota. Os humanos são animais culturais. E toda a gente sabe isso. É por esse motivo que as pessoas objectam contra as descrições racistas ou homofóbicas ou mesmo contra a ausência de modelos positivos de papeis para as minorias. Porque tudo isso faz parte da nossa transmissão cultural, de como nós partilhamos, trocamos e ensinamos valores e ideias.
Contudo este misterioso conhecimento evapora-se quando o assunto é caro ao coração de cada um – como a pornografia ou a violência ou as descrições caricatas de mulheres. Então, como por um passe de mágica, diz-se que os filmes e a pornografia existem no vácuo, num outro mundo: não há qualquer transmissão cultural, nem valores nem qualquer impacto nos humanos que os consomem. É absolutamente inacreditável.»
