sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mulheres são escravas naturais?!

Aristóteles disse: «(a escravatura) é a condição de todos aqueles cuja função é mero serviço físico e que são incapazes de outra coisa melhor; esses são escravos naturais.»

No século XIX, havia um entendimento bastante amplo de que a função da mulher se reduzia à preservação da espécie e à criação dos filhos e cuidados com o lar; era esse entendimento que justificava que lhe fosse completamente vedado o acesso à participação na vida política, esta, dizia-se, não era a sua esfera - nem Deus nem a natureza a tinham capacitado para essas funções.
Não é necessária grande reflexão para se perceber que deste modo se transformavam as mulheres em autênticas servas domésticas, escravas naturais, como diria Aristóteles. Pessoas apenas capazes de serviço físico, serviço físico para preservar a espécie e serviço físico para prestar os concomitantes cuidados. Participar na vida pública, contribuir para a tomada de decisões que interessavam à sociedade, desenvolver-se enquanto ser livre e autónomo, isso estava completamente fora de cogitação
Em troca do serviço prestado, as mulheres recebiam comida, vestuário, abrigo e protecção, tal como os escravos. É certo que umas viviam em gaiolas douradas, outras em casebres, mas o estatuto não se alterava significativamente. Num caso ou no outro, não podiam abandonar os seus senhores – não podiam abandonar o domicílio conjugal nem requerer divórcio, esse direito era restringido aos maridos; os filhos que geravam eram propriedade dos maridos; não tinham o direito de propriedade nem mesmo sobre os bens que traziam para o casamento e se trabalhassem fora de casa, o salário pertencia ao marido que o podia administrar a seu bel-prazer. E isto ocorria não faz assim tanto tempo!
Hoje, em muitos países, as coisas são diferentes, mas mesmo assim ainda há mulheres que abdicam da sua participação na vida social e política para se colocarem na dependência dos maridos, esquecendo que afinal estão a seguir um padrão antiquíssimo que implica um enorme risco: o risco de sacrificarem a sua liberdade e de comprometerem a sua autonomia.
Claro que a escravatura das mulheres, pelo menos em tempos mais recentes, era atenuada por um tratamento mais humano do que aquele que normalmente era dispensado aos escravos tradicionais, mas isso não modifica substancialmente a situação e o facto desta não ser reconhecida como escravatura também não a altera, porque, realmente, que outro nome podemos dar a pessoas que não gozavam nem de direitos civis nem de direitos políticos e às quais era exigida subserviência e submissão?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sexismo, racismo e democracia – convivência improvável? Ou nem tanto assim!

Vem esta questão a propósito de Belford Bax (1854-1926), jornalista e socialista britânico, defensor das oprimidas classes trabalhadoras, paladino da democracia e, simultaneamente, antagonista enérgico do sufrágio feminino e da mistura racial.

Para compatibilizar o seu «amor» pela democracia com a rejeição do reconhecimento de direitos políticos às mulheres, Bax fundamentava-se em causas orgânicas, isto é, biológicas, não em causas sociais. Para ilustrar essas causas dava como exemplo, as crianças, que não têm acesso ao exercício de certos direitos precisamente por causas orgânicas, no caso, falta de maturidade biológica, mas também referia que, se na sociedade houvesse pessoas de uma raça considerada inferior, deveria ser-lhes vedado o mesmo direito com base nas mesmas causas e isso não interferia com a natureza democrática do regime. E, acrescenta, «a razão é óbvia – as raças inferiores estão em relação às superiores no mesmo nível que estão as crianças em relação aos adultos». Nesse sentido, para acautelar os interesses da sociedade, Bax preconizava uma espécie de regime de apartheid: «a verdadeira solução é que a raça organicamente inferior deve ser entregue a si mesma para resolver o seu próprio destino social»

Bax considera que excluir elementos organicamente inferiores ou organicamente diferentes da participação na vida política não elimina a natureza democrática do regime político pois que entidades tão diferentes como brancos e negros ou mulheres e homens não permitem que se fale em igualdade. Mesmo assim, em relação aos negros norte-americanos ainda defende uma ideia algo bizarra: nos estados do Norte seriam excluídos da participação, mas nos estados do Sul, onde constituíam a maioria, seriam os brancos os excluídos. E com esta ideia «tão liberal» e «revolucionária» pretende demonstrar quão democrático é e como aprecia a democracia. Já em relação as mulheres, sendo as condições diferentes, não considera qualquer alternativa, como veremos a seguir.

Bax começa por referir que lhe parece correcto, a fim de garantir o bem geral da sociedade, que sejam colocadas restrições às camadas sociais organicamente inferiores: «Penso que é claro, portanto que temos justificação para impedir qualquer tipo de pessoas do direito de voto, se elas, como classe, indiciarem uma inferioridade, baseada numa diferença orgânica, que é provável que torne a sua cooperação na vida política ou administrativa num perigo ou numa desvantagem para a comunidade no seu todo.» Isto para concluir que no caso de se provar que as mulheres têm uma diferença orgânica que as inferioriza em relação aos homens, devem ser impedidas de votar. E a tarefa que vai empreender é a de aduzir argumentos para mostrar que de facto há razões para se supor que as mulheres são inferiores aos homens, pelo menos em aspectos importantes.

Começa por citar os trabalhos de Cesare Lombroso, um cientista da época, hoje completamente desacreditado, para mostrar as diferenças ao nível do tamanho do cérebro que apontariam no sentido de uma menor capacidade intelectual.

Num outro registo, aponta a inexistência de mulheres que se tenham salientado nos domínios das mais altas criações do espírito humano: filosofia, ciências, invenções, etc. e, embora responda às objecções das feministas que apontavam a opressão e falta de oportunidade das mulheres, ele refere domínios da literatura em que se poderiam ter salientado mas em que também nada realizaram de importante, esquecendo que nesses domínios muitas mulheres escritoras dos séculos anteriores tiveram de publicar os livros sob pseudónimos masculinos o que prova bem como era difícil dedicarem-se a um mester aparentemente tão inofensivo.

Uma outra prova da inferioridade das mulheres seria a sua tendência para a histeria, um estado de excitação mental e emocional que logicamente não lhes permitiria o discernimento necessário para lidar com as questões políticas. Esquece mais uma vez que as perturbações histéricas, detectadas muito mais em mulheres do que em homens, na época, eram meros sintomas precisamente da situação de repressão de desejos e de necessidades que as mulheres vivenciavam. Hoje, por exemplo, deixamos completamente de ouvir falar, a sério, em tal tipo de perturbações histéricas.

Bax, ainda argumenta que as mulheres não têm sentido de justiça - o que viciaria o seu carácter moral - que decorreria da sua incapacidade para atingirem princípios abstractos e gerais: «Elas preocupam-se não com princípios mas com pessoas; elas odeiam e amam, não causas, mas homens.»

Por último, um receio, porventura o fundamento mais forte do seu antagonismo em relação ao sufrágio feminino: sendo as mulheres o que são, ou pelo menos o que ele pensa que são e que julgou ter provado com a variedade e força dos argumentos apresentados, há um argumento final que deveria desencorajar a concessão do voto às mulheres: se as mulheres puderem votar e se se unirem elas poderão derrotar o voto masculino porque são a maioria da população e as consequências obviamente só podem ser calamitosas: conceder o voto às mulheres significaria a sujeição de todo o sexo masculino.

domingo, 17 de outubro de 2010

Dona de casa - profissão em vias de extinção?


Em vez de assestarem baterias contra os remanescentes das estruturas patriarcais que, apesar de todos os desenvolvimentos, ainda subsistem, as anti-feministas contemporâneas culpabilizam as feministas e o feminismo por terem incentivado as mulheres a prosseguirem carreiras profissionais que, dizem, se revelam desgastantes, e defendem que as mulheres se devem centrar nos seus papéis tradicionais.
Em vez de lutarem pela humanização do mercado e das condições de trabalho e pelo empenhamento dos homens na partilha equitativa das tarefas domésticas, em vez de exigirem apoio estatal a creches e a jardins de infância de qualidade, contestam todas as medidas propostas pelas feministas neste sentido. Hasteando o fantasma do colectivismo na educação das crianças, consideram negligentes as mães que têm crianças pequenas mas entendem prosseguir as suas carreiras.
Afirmam que, bem no fundo, o que as mulheres querem é criar os seus filhos e cuidar dos seus maridos e que isso as realiza, continuando assim a defender a tese de que a essência da mulher é ser mãe e esposa e que as feministas fizeram um mau serviço ao sexo feminino ao inculcarem nas mulheres a ideia de que tal projecto não preenche as suas vidas.
Claro que encontram receptividade por parte de muitas mulheres que têm profissões mal remuneradas e ainda por cima arcam com as tarefas domésticas naquilo que ficou consignado como dupla jornada de trabalho. Além disso, as anti-feministas contemporâneas cooptaram a linguagem do feminismo e acenam-lhes com os conceitos de liberdade e de escolha, tentando fazer passar a ideia de que uma mulher pode escolher entre a carreira profissional e a vida doméstica e a segunda escolha é tão ou mesmo mais digna e enriquecedora do que a primeira. Mas aqui está a escamotear-se um aspecto fundamental e é o de que, para além do prazer que podemos tirar do trabalho dito socialmente produtivo em termos de relações interpessoais e de abertura de outros horizontes, o trabalho remunerado dá à mulher capacidade de independência e de autonomia e não a prende irremediavelmente a uma situação que pode vir a querer alterar. Conheço algumas mulheres que optaram por ficar em casa, apesar de capacitadas com títulos universitários e que vieram a descobrir mais tarde, com os filhos criados e os maridos «esfriados» e à procura de companhias mais estimulantes, que afinal fizeram a aposta errada. Só que então se torna difícil e em alguns casos impossível retomar uma vida que abandonaram à partida.
Hoje, mesmo a vida familiar heterossexual alterou-se profundamente, os casais decidem ter normalmente um ou dois filhos, e a frequência do infantário começa cedo com benefícios para as crianças. Constata-se ainda que as escolinhas são normalmente muito atractivas para as crianças que aprendem e brincam com outras num ambiente muito mais estimulante do que aquele que encontram em casa. Por outro lado, as tarefas domésticas ocupam um número reduzido de horas não tendo qualquer comparação com o que se passava há algumas décadas atrás. Por tudo isto, as pretensões das anti-feministas revelam-se completamente deslocadas e só poderiam fazer algum sentido se o relógio da história andasse para trás como elas gostariam que acontecesse.

P.S. Quando falo em anti-feministas não se pense que estou a invocar uma entidade abstracta, elas andam por aí bem activas, a título de exemplo, conheçam Danielle Crittenden e Wendy Shalit que fizeram carreiras profissionais prósperas e lucrativas a aconselharem as mulheres a desistirem das carreiras.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mulheres e capacidade política

Vem este texto a propósito do ataque empreendido, não só pelas pessoas comuns, mas também por cientistas, intelectuais e filósofos, contra a reivindicação do sufrágio para as mulheres. Um dos argumentos utilizados invocava a manifesta falta de capacidade das mulheres para os assuntos políticos. David Ritchie, na época, denuncia brilhantemente a hipocrisia do argumento e a falácia circular em que repousava:

“É hipócrita negar a capacidade política das mulheres simplesmente porque a sua incapacidade política foi diligentemente cultivada através dos séculos, mas este é sempre o tipo de argumento favorito dos campeões do privilégio: primeiro para impedir uma raça, classe ou sexo de adquirir uma capacidade e depois para justificar a recusa de direitos com base nessa ausência de capacidade – encerrar um pássaro numa gaiola apertada e depois argumentar que ele é mantido nela porque é incapaz de voar.”

David G. Ritchie, Darwinism and Politics, 1890.

sábado, 9 de outubro de 2010

Auguste Comte - intelectuais progressistas e misoginia

Augusto Comte (1798 - 1857), o fundador do Positivismo e da Sociologia, um dos mais prestigiados intelectuais do século XIX, também não mostrou grande apreço pelas mulheres e pela justeza das suas reivindicações, embora tenha sido mais ambivalente e ambíguo em relação ao assunto do que Proudhon, como se pode constatar pelas atitudes variáveis e contraditórias que assumiu ao longo davida.

Comte considerava essenciais as diferenças entre homens e mulheres, mas vacilou entre a valorização dessas diferenças e um outra entendimento que implicava inferiorização. Segundo Mary Pickering, essas mudanças de opinião “reflectem, por um lado, o seu próprio relacionamento com a esposa e outras mulheres … ; por outro, apontam para tensões no culto da domesticidade do século XIX. Tais inconsistências de pensamento, particularmente no que respeita à representação das mulheres, revelam um foco de contestação na cultura em geral.”*

Comte oscilou entre uma atitude de devoção e de enlevo em relação as mulheres, que revelou quando jovem adulto, influenciado por Olympes de Gouges autora da Déclaration des Droits de la Femme (1791) e por Condorcet, o único filósofo que aberta e declaradamente assumiu posição a favor dos direitos da mulher. Nessa época da sua vida, considerou as mulheres vítimas da opressão masculina e do abuso de poder do mais forte, reduzidas, quando pobres, à opção entre vender o próprio corpo ou trabalhar nas profissões mais mal pagas. Chegou mesmo a condenar o Código Napoleónico por legalizar o sistema patriarcal e negar direitos de cidadania às mulheres. Mais tarde, no fim da vida parece ter reassumido esta postura.

Em consonância com as ideias que perfilhava na juventude, casou, contra a vontade dos pais, com uma mulher inteligente e determinada, Caroline Massin, filha ilegítima de dois actores, mas em breve mostrou que na prática não conseguia aceitar as implicações da igualdade, defendidas em teoria, de modo que, para ultrapassar aquilo que hoje designamos de dissonância cognitiva, acabou modificando a teoria.
Numa carta a um amigo, exprime a opinião de que homens de mérito deviam casar com donas de casa, intelectualmente medíocres, mas com um carácter obediente, condições que considera indispensáveis para assegurarem a felicidade no matrimónio; estas advertências parecem revelar que o casamento com Caroline não corria bem e que Comte atribuía tal facto ao carácter forte e determinado da esposa, insubmissa e «controladora».

Comte ainda lamentou e criticou as mulheres independentes que revelavam, em sua opinião, moralidade duvidosa e escassos hábitos domésticos e até mesmo tendências para o ateísmo. Quer dizer o criador do positivismo e defensor da independência de pensamento achava que tais atitudes nas mulheres eram muito inconvenientes e em paralelo promoveu o ideal da mulher como um anjo, submissa, generosa e sempre pronta a sacrificar-se pela família e a suportar o seu «homem», na qual a inteligência e o conhecimento eram qualidades irrelevantes ou até mesmo nocivas.

Paralelamente ao anti-feminismo, Comte reagiu contra o liberalismo na convicção de que esta corrente política implicaria o individualismo e, por uma lógica interna, a própria emancipação das mulheres. Desse modo, enfatizava que a igualdade sexual e o individualismo acabariam por minar a família que considerava ser o fundamento da vida social.

Com estas posições nitidamente conservadoras e apostadas na manutenção do statu quo, Comte foi mais um intelectual de esquerda a defender arranjos sociais que implicavam que a mulher mantivesse o seu ancestral estatuto de apêndice e subsidiária do homem.

*Mary Pickering, Angels and Demons in the Moral Vision of Auguste Comte, in Journal of Women's History. Volume: 8. Issue: 2. 1996, p. 10

domingo, 3 de outubro de 2010

Proudhon - Intelectuais progressistas e misoginia

“A tradição de todas as gerações mortas sobrecarrega como um pesadelo o cérebro dos vivos” (Karl Marx)

Esta observação de Marx vale para intelectuais politicamente progressistas, mas socialmente conservadores, com horizontes tacanhos no que as mulheres diz respeito e aplica-se como uma luva a homens considerados na época tais como Pierre Joseph Proudhon (1809-1875).
Proudhon, o fundador do anarquismo francês, expôs com minúcia e sem qualquer rebuço ideias profundamente reaccionárias em relação as mulheres, mesmo se levarmos em conta as coordenadas da época.
As mulheres, dizia, eram fisicamente inferiores aos homens e sexualmente passivas. Os seus atributos físicos, ancas largas e seios volumosos, predestinavam-nas para a tarefa da procriação que seria definidora da sua identidade e função social. O cérebro menos volumoso demonstraria inferioridade intelectual; por isso, tudo apontava para a necessidade de protecção e, consequentemente, de obediência ao homem: “ O génio “é virilidade” de espírito acompanhada de poder de abstracção, generalização, criatividade e capacidade de formar conceitos; a criança, o eunuco e a mulher são carentes destes dotes em igual medida.”

Segundo Proudhon, o papel da mulher esgota-se na função reprodutiva, ela é o instrumento de que a natureza se serve para preservar a espécie; socialmente a sua responsabilidade é cuidar da saúde e do bem estar das crianças e essa é a razão de ser da sua existência, o homem tem de se sacrificar para a manter e fá-lo apenas para assegurar essa função que ela deve cumprir.

Para qualquer mulher apenas se apresentam duas opções: ou mãe ou prostituta: “Qualquer mulher que sonha com a emancipação perdeu por esse facto a saúde da sua alma, a lucidez do seu intelecto, a virgindade do seu coração.”
Assim Proudhon reconhece ao marido o direito de matar a esposa em determinadas circunstâncias que podiam incluir adultério, impudência, traição, alcoolismo ou devassidão, gastos perdulários, furto e persistente insubordinação.” Como se vê um leque de tal modo amplo que parece dar carta branca ao marido para dispor a seu bel prazer da vida da esposa.
Àqueles que defendiam os direitos das mulheres, Proudhon chamava “eunucos literários” e dizia que: “as consequências inevitáveis (da emancipação das mulheres) são o amor livre, a condenação do casamento e da feminilidade, inveja e ódio secreto aos homens e, para coroar o sistema, inextinguível lascívia: tal é invariavelmente a filosofia da emancipação da mulher.”

Estas observações foram proferidas por alguém que aprendemos a estimar a partir dos bancos da escola como um benfeitor da humanidade, só se esqueceram de nos dizer que nós, mulheres, não estávamos incluídas nessa humanidade!!

domingo, 26 de setembro de 2010

Ruth Whitney Lyman - quem são as anti-sufragistas

Ruth Whitney Lyman escreveu um ensaio sobre o ideal anti-sufragista mas, muito de acordo com os princípios que defende, decidiu apagar-se como pessoa, pois assina como Mrs. Herbert Lyman, autenticamente um apêndice do sr. Herbert Lyman, seu esposo. Vejamos o que nos diz acerca das diferenças entre as sufragistas e as anti-sufragistas:

“A diferença fundamental é esta: as sufragistas (como os socialistas) insistem em considerar o indivíduo como a unidade da sociedade enquanto as anti-sufragistas insistem em que esta é a família. O individualismo é o que é importante para as sufragistas, para as anti-sufragistas é a solidez das relações familiares. O sufragismo está baseado na consciência de sexo do indivíduo e no antagonismo entre os sexos, o que conduz à afirmação de que a mulher pode apenas ser representada por ela própria e que as mulheres neste momento são uma classe não representada. Mas de facto as mulheres não são uma classe, mas um sexo, perfeitamente distribuído pelas várias classes sociais.
O anti-sufragismo está fundado na concepção da cooperação entre os sexos. Homens e mulheres devem ser considerados como sócios, não competidores, e a família a ser preservada como uma unidade, deve ser representada como tendo uma cabeça política. O homem da família deve ser quem representa, porque o governo é primariamente para garantir a protecção da vida e da propriedade e repousa na força política da maioria que deve ser capaz de, em caso de necessidade, forçar as minorias a obedecer à sua vontade. Esta é a única base na qual uma democracia pode perdurar.” (Mrs Herbert Lyman: The Anti-suffrage Ideal, in Ernest Bernbaum; Anti-suffrage Essays, p. 119)

Como se pode constatar a tónica é colocada entre o indivíduo e a família, entre o individualismo e a «solidez das relações familiares. As anti-sufragistas valorizam sempre a família, mesmo quando esta implica o sacrifício do indivíduo mulher, porque o homem, na relação familiar, não é minimamente beliscado enquanto indivíduo.
Para que o homem mantenha, na família, o status de individuo autónomo que sempre tem tido, é preciso que a mulher se anule como pessoa, porque uma pessoa - e aqui estou a seguir Kant - é um fim em si mesmo e não um meio ao serviço de um qualquer outro fim. Só numa união familiar que respeite os indivíduos é que a personalidade ética de mulheres e de homens se encontra assegurada, mesmo que isso represente compromissos e abdicações de parte a parte.

Para as anti-sufragistas as mulheres não são uma classe e por isso não há necessidade de que tenham representação política e desse modo consideram que um regime não deixaria de ser democrático por esse facto; mas temos de ver o que caracteriza uma classe e se entendermos que essa caracterização implica a existência de interesses comuns que têm de ser acautelados, então as mulheres constituem, pelo menos por enquanto, uma classe, embora, dados os condicionalismos da sua existência, uma classe que se encontra fragmentada por outras classes sociais e por isso é que a luta tem sido tão difícil.
As anti-sufragistas acusam as sufragistas de estabelecerem uma relação de hostilidade com os homens, o que em parte é falso e em parte é mistificador. Antes de mais, muitas sufragistas, por exemplo, mantiveram casamentos sólidos e felizes, embora algumas tenham reescrito os votos de casamento para anularem as tradicionais cláusulas da obediência feminina. Por outro, a hostilidade surge sobretudo por parte de alguns homens que entendem não dever abdicar do seu estatuto de superioridade. Portanto há aqui um equívoco, não são as sufragistas que são hostis, são alguns, muitos homens, que são hostis a mulheres que exigem o que eles não reconhecem como direitos.
As anti-sufragistas defendem não apenas a família mas sobretudo a família patriarcal, na qual a figura do chefe de família permite a eliminação do voto para as mulheres pois obviamente se elas votassem apenas iriam duplicar o voto masculino. Entendem que o destino da mulher é casar, a «solteirona» é percebida como uma aberração da natureza. Além de que, se num governo é preciso força para fazer cumprir as leis e se só o homem é forte só ele deve governar, mas isto é esquecer a diferença que há entre força e direito e sem essa diferença nem precisávamos de ter evoluído para as formas modernas de governação, ainda devíamos estar na idade da pedra lascada e recorrer apenas ao cacete para dirimir os conflitos.
Mas se aceitarmos que as mulheres são pessoas, então elas, porque são pessoas diferentes dos homens em alguns aspectos, devem estar igualmente representadas nos órgãos de legislação e de decisão política e, por isso, o voto e a participação em cargos políticos são aspectos essenciais, contrariamente ao que pensam as anti-sufragistas.

Resumindo: (1) as anti-sufragistas não reconhecem que as mulheres são pessoas e consequentemente (2) não consideram necessário que elas tenham voz na governação do país; afirmam ainda (3) que elas não constituem uma classe e, por isso, o facto de não estarem representadas politicamente não retira democraticidade a um regime político.

Se você não se considera uma pessoa, então esteja à vontade, alinhe com as anti-feministas de hoje que são as lídimas representantes das anti-sufragistas de ontem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As quatro magníficas

A Suiça atingiu um marco histórico com a eleição de Simonetta Sommaruga para um governo no qual dos setes ministérios quatro são desempenhados por mulheres. Tal aconteceu apenas quarenta anos depois de ter sido concedido o direito de voto às mulheres suiças (1971), o que, comparativamente com outros países, merece ser assinalado. Mas não nos deixemos deslumbrar, no parlamento suíço a representação das mulheres não excede os trinta por cento e o mundo dos negócios continua a ser avassaladoramente dominado por homens.
Uma nota positiva: Simonetta Sommaruga já se pronuciou a favor de medidas que não permitam a discriminação de minorias, sejam religiosas, etnicas, culturais ou quaisquer outras.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Josephine Marshall Dodge - Quem eram as anti-sufragistas

Josephine Marshall Dodge (1855-1928) nasceu numa família ilustre, descendente directa dos primeiros colonizadores – brancos, de ascendência anglo-saxónica e protestantes – o pai era um industrial próspero, proprietário de manufacturas de couros, além de político influente.
Depois de uma infância e adolescência felizes e da frequência de escolas de elite, Josephine casou em 1875 com Arthur Dodge, também pertencente a uma família com pergaminhos, dinheiro e influência política. Estabeleceram residência em Nova Iorque e tiveram seis filhos.
Em 1896, Arthur morreu com apenas 43 anos e Josephine, continuando a tradição filantrópica do marido, fundou uma instituição de caridade que cuidava de crianças de mães trabalhadoras.
Em 1899 testemunhou no Alabama contra uma lei de sufrágio feminino limitado e em 1911 fundou a National Association Opposed to Woman Suffrage e tornou-se a sua primeira presidente. Foi também Editora do Woman´s Protest no qual publicou vários artigos em que justificava a oposição ao sufrágio feminino: considerava que o voto para as mulheres era desnecessário pois já possuíam direitos civis reconhecidos pelos diferentes Estados, já havia leis de protecção ao trabalho infantil e o salário mínimo para as mulheres estava acautelado.
A fundação da National Association Opposed to Woman Suffrage revelou-se muito útil para quem se opunha ao sufrágio feminino pois dava aos legisladores um argumento forte: as mulheres estavam divididas, umas queriam o voto, outras não, logo não havia motivo para ele ser concedido, pois tanto peso teriam as que o reivindicavam como aquelas que se lhe opunham.
Em 1917, Josephine deixou o cargo de Presidente da Associação que passou a ser ocupado pela esposa de um senador ferozmente anti-sufragista e remeteu-se para o lugar, menos visível, de vice-presidente.

domingo, 19 de setembro de 2010

Molly Elliot Seawell - quem eram as anti-sufragistas

Molly Elliot Seawell (1860-1916) nasceu em Gloucester, Virgínia, numa família de ilustre linhagem, descendente dos primeiros colonizadores. O pai, advogado e orador, era primo do Presidente John Tyler, a mãe, nativa de Baltimore, era filha do Major William Jackson que tinha combatido na guerra de 1812. Passou a infância e juventude na mansão da família, na plantação The Shelter, e ela própria relata o estilo de vida aí adoptado como sendo mais parecido com o do século XVIII. O pai, homem culto e erudito, orientou a sua educação, estimulando-a a ler livros de história, enciclopédias, Shakespeare e os poetas românticos.
Com a morte do pai, quando ela mal tinha completado os vinte anos, a família transferiu-se para Washington onde Molly iniciou a sua carreira literária, começou a publicar novelas sob pseudónimos mas também ensaios e artigos. Nunca casou e levou uma vida activa e auto-suficiente.
Embora culta, independente e senhora da sua própria vida desde muito nova, revela uma visão socialmente conservadora, mesmo reaccionária, em relação às mulheres e aos negros. Nas obras de ficção, denuncia racismo mais ou menos aberto, expresso num tom condescendente e paternalista que se revela nas descrições que faz das personagens negras.
A sua atitude em relação ao casamento é convencional, apresentado como uma espécie de destino para a mulher a que todavia ela se conseguiu eximir pois nunca casou nem teve filhos.
Sempre manifestou hostilidade em relação ao feminismo e ao voto para as mulheres, considerando que nelas a faculdade criativa está completamente ausente. Tem mesmo um ensaio a que deu o título "On the Absence of the Creative Faculty in Women"; argumentou contra a concessão de voto para as mulheres em artigos e no livro The Ladies' Battle (1911), defendendo o velho chavão de que as sufragistas odiavam os homens e de que tinham tendências socialistas e até comunistas, como vemos um velho argumento para diabolizar as feministas que ainda hoje colhe.
São dela estas palavras reveladoras do «apreço» em que tinha as mulheres:

“ Tem de reconhecer-se, como uma proposição geral, que nunca nenhuma mulher fez o que quer que seja no mundo do intelecto que tenha revelado o germe da imortalidade. Isto equivale a dizer que o poder criativo está completamente ausente na mulher.” Critic, 292

“É um facto singular que todas as mulheres cuja pretensão ao génio tem sido seriamente considerada gozaram de enorme reputação na sua época – mas é chocantemente verdade que a posteridade em nenhum caso endossou esse veredito dos contemporâneos “ p.293

«Durante milhares de anos, as mulheres cozeram pão, lavaram e costuraram neste planeta – e, mesmo assim, todos os mecanismos para aligeirar o seu trabalho foram postos nas suas mãos pelos homens … as mulheres, deixadas a si mesmas, teriam permanecido na barbárie.” 294

Como vemos, uma lídima antepassada da não menos ilustre Camille Paglia que nos nossos dias, em Sexual Personae, escreveu:” Se a civilização tivesse repousado nas mãos das mulheres, ainda estávamos a viver nas cavernas” p. 38

Mas o livro no qual de forma mais persistente ataca o sufragismo é o The Ladies' Battle utilizando argumentos constitucionais e ataques ad hominem .
Diz ela que votar não é um direito é um privilégio e, enquanto tal, deve ser concedido apenas àqueles que o merecem, no caso vertente, os homens porque são só eles que podem pela força assegurar, se necessário, o cumprimento das decisões que foram objecto de votação.
Acrescenta ainda que com o voto as mulheres perderiam o privilégio de serem sustentadas pelos homens; aqui também estamos perante um argumento que, devidamente reciclado, será retomado por Phillys Schlafly, setenta anos depois, quando empreendeu a luta contra o ERA: se as mulheres tiverem os mesmos direitos, então os homens deixam de se sentir na obrigação de as protegerem.
Os ataques ad hominem às sufragistas carreiam a velha alegação de que elas são ignorantes quanto aos problemas da governação, não percebem nada de política e estão a colocar em risco a santidade do casamento dado que o voto das mulheres pode semear a discórdia na família.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Milread Lewis Rutherford - Quem eram as anti-sufragistas

Milread Lewis Rutherford (1851- 1928) autora de vários livros sobre o Sul dos Estados Unidos, nasceu em Athens numa família patrícia próspera com uma linhagem que remontava aos primeiros colonizadores. O avô materno, um dos homens mais ricos e influentes do seu tempo, era dono de uma extensa plantação que em 1840 contava com 209 escravos, o que o tornava o maior proprietário de escravos da região.
Milread, que em 1914 integrou a Associação contra o Sufrágio Feminino da Geórgia, defendia o ideal de domesticidade que remetia as mulheres para a esfera da família e para os papeis tradicionais, mas pessoalmente desafiou completamente este padrão: nunca casou, escreveu e publicou inúmeros livros, ensinou e palestrou em locais públicos e levou uma vida activa de intervenção na esfera pública que repudiava para o seu sexo.

Em relação à questão racial, a sua atitude paternalista e a sua concepção romântica da escravatura levavam-na a afirmar que, embora os escravos tivessem sido trazidos à força de África, eram felizes nas plantações.
Com as suas ideias anti-feministas e racistas, que divulgou através de livros, panfletos e palestras, ajudou a retardar a conquista do voto para as mulheres e a pavimentar o caminho para o regime de segregação racial que vigorou nos Estados Unidos até 1964. O seu contributo no sentido de preservar as estruturas tradicionais está bem resumido nestas palavras: “Rutherford representou a tentativa do Novo Sul de conjugar modernidade com fidelidade a uma compreensão conservadora das hierarquias de raça e de género.” (Georgia Women: Their lives and Times” by Ann Short Chirhart, Betty Wood, p. 272)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Abigail Adams - precursora feminista

Não deixa de ser curioso ter de introduzir Abigail Adams em termos dos papeis sociais de esposa e de mãe que ela desempenhou, mas, na época, século XVIII e inícios do século XIX, era virtualmente impossível sair desse padrão. Assim temos que Abigail Adams (1744-1818) foi esposa de John Adams, segundo Presidente dos Estados Unidos, e mãe do sexto presidente do mesmo país. Mas, para alem de esposa e de mãe, Abigail foi uma mulher determinada e enérgica que, com os recursos que tinha à disposição, tentou fazer a diferença e, no seu caso, a diferença consistiu em tentar influenciar o marido no sentido deste aprovar medidas legais que atenuassem a injusta situação em que as mulheres, particularmente as casadas, se encontravam.
Há uma carta dela para o marido que denuncia bem como essas injustiças a preocupavam e como tentava intervir no sentido de lhes por cobro:

“Lembre-se das Senhoras e seja mais generoso e favorável para com elas do que os que o antecederam. Não coloque um poder tão ilimitado nas mãos dos maridos. Lembre-se que todos os homens serão tiranos se puderem. Se não for dada uma atenção e cuidado particulares às senhoras, estamos determinadas a fomentar uma rebelião e não nos sentiremos limitadas por quaisquer leis para a feitura das quais não fomos ouvidas ou representadas.”
Abigail Adams, 1776 ( carta dirigida ao marido John Adams)

Alguns aspectos a salientar: Abigail tem a noção correcta de que todo o poder corrompe e que dar aos maridos tamanha autoridade sobre as esposas era legalizar o abuso. Lembremos que, na época com o casamento, a mulher deixava de ter existência legal e, por exemplo, não tinha sequer direito de propriedade sobre os bens que trazia para o casamento que passavam a pertencer ao marido.
Interessante é também a ideia de que não se pode exigir obediência a uma lei para a qual não se contribui através de representação, havendo nesse caso infracção do contrato social entre governados e governantes.