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sábado, 9 de outubro de 2010

Auguste Comte - intelectuais progressistas e misoginia

Augusto Comte (1798 - 1857), o fundador do Positivismo e da Sociologia, um dos mais prestigiados intelectuais do século XIX, também não mostrou grande apreço pelas mulheres e pela justeza das suas reivindicações, embora tenha sido mais ambivalente e ambíguo em relação ao assunto do que Proudhon, como se pode constatar pelas atitudes variáveis e contraditórias que assumiu ao longo davida.

Comte considerava essenciais as diferenças entre homens e mulheres, mas vacilou entre a valorização dessas diferenças e um outra entendimento que implicava inferiorização. Segundo Mary Pickering, essas mudanças de opinião “reflectem, por um lado, o seu próprio relacionamento com a esposa e outras mulheres … ; por outro, apontam para tensões no culto da domesticidade do século XIX. Tais inconsistências de pensamento, particularmente no que respeita à representação das mulheres, revelam um foco de contestação na cultura em geral.”*

Comte oscilou entre uma atitude de devoção e de enlevo em relação as mulheres, que revelou quando jovem adulto, influenciado por Olympes de Gouges autora da Déclaration des Droits de la Femme (1791) e por Condorcet, o único filósofo que aberta e declaradamente assumiu posição a favor dos direitos da mulher. Nessa época da sua vida, considerou as mulheres vítimas da opressão masculina e do abuso de poder do mais forte, reduzidas, quando pobres, à opção entre vender o próprio corpo ou trabalhar nas profissões mais mal pagas. Chegou mesmo a condenar o Código Napoleónico por legalizar o sistema patriarcal e negar direitos de cidadania às mulheres. Mais tarde, no fim da vida parece ter reassumido esta postura.

Em consonância com as ideias que perfilhava na juventude, casou, contra a vontade dos pais, com uma mulher inteligente e determinada, Caroline Massin, filha ilegítima de dois actores, mas em breve mostrou que na prática não conseguia aceitar as implicações da igualdade, defendidas em teoria, de modo que, para ultrapassar aquilo que hoje designamos de dissonância cognitiva, acabou modificando a teoria.
Numa carta a um amigo, exprime a opinião de que homens de mérito deviam casar com donas de casa, intelectualmente medíocres, mas com um carácter obediente, condições que considera indispensáveis para assegurarem a felicidade no matrimónio; estas advertências parecem revelar que o casamento com Caroline não corria bem e que Comte atribuía tal facto ao carácter forte e determinado da esposa, insubmissa e «controladora».

Comte ainda lamentou e criticou as mulheres independentes que revelavam, em sua opinião, moralidade duvidosa e escassos hábitos domésticos e até mesmo tendências para o ateísmo. Quer dizer o criador do positivismo e defensor da independência de pensamento achava que tais atitudes nas mulheres eram muito inconvenientes e em paralelo promoveu o ideal da mulher como um anjo, submissa, generosa e sempre pronta a sacrificar-se pela família e a suportar o seu «homem», na qual a inteligência e o conhecimento eram qualidades irrelevantes ou até mesmo nocivas.

Paralelamente ao anti-feminismo, Comte reagiu contra o liberalismo na convicção de que esta corrente política implicaria o individualismo e, por uma lógica interna, a própria emancipação das mulheres. Desse modo, enfatizava que a igualdade sexual e o individualismo acabariam por minar a família que considerava ser o fundamento da vida social.

Com estas posições nitidamente conservadoras e apostadas na manutenção do statu quo, Comte foi mais um intelectual de esquerda a defender arranjos sociais que implicavam que a mulher mantivesse o seu ancestral estatuto de apêndice e subsidiária do homem.

*Mary Pickering, Angels and Demons in the Moral Vision of Auguste Comte, in Journal of Women's History. Volume: 8. Issue: 2. 1996, p. 10

domingo, 3 de outubro de 2010

Proudhon - Intelectuais progressistas e misoginia

“A tradição de todas as gerações mortas sobrecarrega como um pesadelo o cérebro dos vivos” (Karl Marx)

Esta observação de Marx vale para intelectuais politicamente progressistas, mas socialmente conservadores, com horizontes tacanhos no que as mulheres diz respeito e aplica-se como uma luva a homens considerados na época tais como Pierre Joseph Proudhon (1809-1875).
Proudhon, o fundador do anarquismo francês, expôs com minúcia e sem qualquer rebuço ideias profundamente reaccionárias em relação as mulheres, mesmo se levarmos em conta as coordenadas da época.
As mulheres, dizia, eram fisicamente inferiores aos homens e sexualmente passivas. Os seus atributos físicos, ancas largas e seios volumosos, predestinavam-nas para a tarefa da procriação que seria definidora da sua identidade e função social. O cérebro menos volumoso demonstraria inferioridade intelectual; por isso, tudo apontava para a necessidade de protecção e, consequentemente, de obediência ao homem: “ O génio “é virilidade” de espírito acompanhada de poder de abstracção, generalização, criatividade e capacidade de formar conceitos; a criança, o eunuco e a mulher são carentes destes dotes em igual medida.”

Segundo Proudhon, o papel da mulher esgota-se na função reprodutiva, ela é o instrumento de que a natureza se serve para preservar a espécie; socialmente a sua responsabilidade é cuidar da saúde e do bem estar das crianças e essa é a razão de ser da sua existência, o homem tem de se sacrificar para a manter e fá-lo apenas para assegurar essa função que ela deve cumprir.

Para qualquer mulher apenas se apresentam duas opções: ou mãe ou prostituta: “Qualquer mulher que sonha com a emancipação perdeu por esse facto a saúde da sua alma, a lucidez do seu intelecto, a virgindade do seu coração.”
Assim Proudhon reconhece ao marido o direito de matar a esposa em determinadas circunstâncias que podiam incluir adultério, impudência, traição, alcoolismo ou devassidão, gastos perdulários, furto e persistente insubordinação.” Como se vê um leque de tal modo amplo que parece dar carta branca ao marido para dispor a seu bel prazer da vida da esposa.
Àqueles que defendiam os direitos das mulheres, Proudhon chamava “eunucos literários” e dizia que: “as consequências inevitáveis (da emancipação das mulheres) são o amor livre, a condenação do casamento e da feminilidade, inveja e ódio secreto aos homens e, para coroar o sistema, inextinguível lascívia: tal é invariavelmente a filosofia da emancipação da mulher.”

Estas observações foram proferidas por alguém que aprendemos a estimar a partir dos bancos da escola como um benfeitor da humanidade, só se esqueceram de nos dizer que nós, mulheres, não estávamos incluídas nessa humanidade!!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Opressão das mulheres: quando a Natureza substituiu a Teologia

A partir do século XVIII, com a secularização da sociedade e sua progressiva libertação da esfera de influência religiosa, poderia parecer que, a nível do discurso filosófico, deixariam de se utilizar argumentos religiosos para justificar a subordinação da mulher ao homem e a manutenção do status quo; e efectivamente foi isso que aconteceu. Todavia, não se conseguiram progressos significativos porque o que antes se justificava a partir da vontade divina passou a justificar-se com base na natureza, uma natureza que muito «natural» e convenientemente confinava a mulher aos papéis tradicionais e deixava inalterado o seu estatuto de menoridade intelectual e ética.

No Iluminismo, os argumentos bíblicos, com citações da Queda e do Pecado Original, foram substituídos por argumentos fundados na natureza: dizia-se que o facto de desde sempre, em todas as épocas e em todas as sociedades, se verificar a submissão das mulheres provava que essa situação, enquanto constante universal, decorria de uma lei da natureza. Desse modo, a substituição de Deus pela Natureza serviu às mil maravilhas para continuar a justificar a opressão das mulheres, sendo ainda por cima essa nova justificação dotada de uma base pretensamente científica de que os argumentos teológicos careciam. Por outro lado, os pensadores iluministas, embora enaltecessem a razão, tiveram o cuidado de dizer mais ou menos declaradamente que nesta capacidade as mulheres eram deficientes e, desta maneira, podiam alegremente defender a igualdade de direitos de todos os homens, excluindo de uma assentada metade da humanidade do usufruto desses direitos.


Toda esta história prova como a razão, aparentemente tão pura e imparcial, é capaz de nos ludibriar e até pode permitir defender o indefensável.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Pérolas de misoginia

Dou hoje a palavra a Hegel que fornece mais um argumento às autoras feministas que subscrevem a tese de que o canon filosófico é misógino:

«As mulheres são susceptíveis de ser educadas, mas não são feitas para actividades que exigem uma faculdade universal como as ciências mais avançadas, a filosofia e certas formas de criação artística … As mulheres regulam as suas acções não por exigências de universalidade, mas por opiniões e inclinações arbitrárias.»[1]

Repare-se no tom condescendente: as mulheres não são destituídas de todo, até podem ser educadas, mas há domínios - os domínios mais nobres da cultura humana, que lhes estão completamente vedados. Estruturalmente não são capazes de agir segundo princípios racionais (aqui Hegel concorda em absoluto com Kant) e os motivos das suas acções são arbitrários, isto é, são movidas por caprichos.

Será preciso dizer mais??

[1] Hegel: The Philosophy of Right

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rousseau e a família patriarcal

Li no Feminist Philosophers um post com o sugestivo título «Perfect Recipe for Sustaining the Patriarchy, Compliments of God» que descreve uma comunidade religiosa dos Estados Unidos na qual as mulheres não usam qualquer tipo de controlo de nascimentos e têm tantos filhos quantos «Deus quer», preferencialmente em casa e sem assistência médica, entregues à guarda da divina providência. Essa comunidade orgulha-se de promover a família patriarcal ideal, com a clausura das mulheres na esfera privada e a obediência total aos maridos. O artigo é muito sugestivo e os comentários são numerosos, diversos, interessantes.

Parece que tudo se passa noutro planeta quando confrontamos com as sociedades modernas tais como as conhecemos. Mas, se lembrarmos que, ainda há dois séculos, Rousseau e outros filósofos faziam a apologia da família patriarcal e do confinamento da mulher à esfera doméstica considerando que o lar era o seu lugar natural e a maternidade o seu exclusivo destino, já não nos espantamos tanto. Contudo, é caso para ficarmos ainda mais preocupadas pois afinal não são só pessoas, que supomos pouco instruídas e educadas, que perfilham estes valores.

Rousseau viveu no período do Iluminismo e defendeu uma democracia radical mas, em relação às mulheres, não podia ser mais conservador. Deixo-vos com um excerto do Livro V do Emílio ou da Educação, pouco conhecido, conquanto esclarecedor desta postura:

«As mulheres, direis, nem sempre tem crianças! Não, mas o destino que lhes é próprio é esse. O quê? Porque há no universo uma centena de grandes cidades onde as mulheres, vivendo em licenciosidade, têm poucos filhos, pretendeis que esse é o estado das mulheres? E que aconteceria às vossas cidades se as vilórias afastadas onde as mulheres vivem mais simples e castamente não reparassem a esterilidade das damas? Em quantas províncias as mulheres que não têm mais do que quatro ou cinco filhos são consideradas pouco férteis? Enfim que importa que esta ou aquela mulher tenha poucos filhos. O papel da mulher não continua a ser o de mãe? E não é por leis gerais que a natureza e os costumes devem regular esse papel?»

quinta-feira, 12 de março de 2009

Kant e o infanticídio

Não são só as autoridades eclesiásticas que do alto dos seus princípios puros e etéreos fulminam os pobres mortais quando descem ao povoado; infelizmente não são detentoras do monopólio da tolice. Também os filósofos, dos quais se esperaria maior capacidade crítica e contenção, cometem o mesmo «pecado». Isso mesmo aconteceu com Immanuel Kant, monstro sagrado da filosofia ocidental, que, malgrado a sua escassa experiência em relação às mulheres e à vida sexual, não se coibiu de proferir os maiores impropérios. Na Metafísica dos Costumes, (e passo a transcrever de Alan Soble: Kant and Sexual Perversion) refere um crime sobre o qual tem dúvidas se mereceria a pena de morte: o crime de infantícidio, de uma mãe que mata um filho fruto de uma relação sexual ilegítima, isto é, de uma relação adúltera. Kant escreveu:

«A legislação não pode remover a desgraça de um nascimento ilegítimo ... Uma criança que vem ao mundo fora do casamento nasce fora da lei e consequentemente fora da protecção da lei. É como se fosse um roubo à comunidade (como mercadoria de contrabando) assim a comunidade pode ignorar a sua existência (já que não foi correcto que tivesse vindo à existência desse modo) e, portanto, também pode ignorar o seu aniquilamento.»


Cá estão novamente presentes os princípios abstractos e ausentes o bom senso, a benevolência e a compaixão. E assim, embora em campos opostos, podem verificar-se os efeitos perniciosos de se seguirem princípios morais rigidos, completamente desligados do mais elementar bom senso.