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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Faço o que me dizem e como o que me dão!!

A crença de que a natureza feminina implica uma componente masoquista, ainda hoje amplamente difundida, parte do pressuposto de que as mulheres têm uma predisposição biológica para o masoquismo.

Comportar-se passivamente, todavia, não é de modo algum sinónimo de felicidade ou sequer de prazer; qualquer ser humano, em princípio, aprecia a atividade, aprecia poder dispor de si, tomar iniciativas, etc. etc. Esta caraterística, visível nas crianças desde os primeiros anos do seu desenvolvimento, é frequentemente contrariada pelos adultos a pretexto de perigos vários e neste particular caso as meninas e as jovens são muitas vezes fortemente condicionadas a aceitarem um amplo leque de limitações; temos assim que em boa verdade são socialmente predispostas desde a mais tenra infância para o masoquismo.

A ideia de que o masoquismo é inerente à natureza feminina ganhou força no século XIX e contou com a autoridade de Freud que lhe forneceu a respetiva formulação teórica. Recorria-se então a essa predisposição para explicar a passividade das mulheres tanto nas relações sexuais como nas relações sociais. O masoquismo seria a causa e a passividade o efeito, mas podemos bem perguntar se esta relação não estaria equivocada no sentido e se não se estaria a pôr o carro à frente dos bois, confusão afinal mais frequente do que se pode imaginar. De qualquer modo, por motivos de pura conveniência pragmática, importava convencer as mulheres de que adoravam a passividade, adoravam ser dominadas, apreciavam ser tratadas como coisas, sobretudo se essas coisas fossem consideradas valiosas.

Mas como todos os seres humanos e também todos os mamíferos, pelo menos os que nos são mais próximos, gostam de ação, de domínio, de poder, quando se diz que alguns não gostam, o melhor é tentar descobrir a quem é que esse não gosto aproveita. Ora não é preciso escavar muito para descobrir que esse não gosto das mulheres pelo exercício do poder convém, e muito, aos homens. Por isso, não é de estranhar que, quando a partir do século XIX a relação de forças se começou a alterar, com a industrialização e o acesso das mulheres a postos de trabalho remunerados, se procurasse conferir um estatuto científico a essa crença. Afinal se até era científico, a partir daí o que é que as mulheres poderiam fazer? Podiam apenas fazer como o D. João VI da nossa história pátria que à pergunta: Juraste a Constituição, que fazes agora João? Respondeu com bonomia e sentido crítico: faço o que me dizem e como o que me dão!

Resumindo, as mulheres perceberam que o melhor seria fazer da necessidade virtude; como não podiam dominar e tinham de se submeter, como não podiam ser ativas e tinham de ser passivas, então, seria "mais sensato"apreciarem a submissão, amarem a passividade e a orientação de outrem, aceitarem “livremente” a escravidão!

O curioso é que ainda hoje, jovens, pretensamente evoluídas, saem a terreiro para defender este papelão que a sociedade lhes reservou e falam em companheiros dominadores aos quais gostam de se submeter.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ser sexy - projeto de vida


No meu último texto, abordei o tema da alienação feminina, considerando que a objetificação sexual era um dos fatores que exprimia e contribuía para essa alienação. Um estudo recente fornece evidência empírica neste mesmo sentido.

Nas nossas sociedades, o que é natural, porque habitual, é que as jovens se percebam a elas mesmas como objetos sexuais. Continuam a ser estimuladas a preocuparem-se excessivamente com a aparência física como se o seu valor residisse precisamente em serem bonitas, atraentes e sobretudo sexy. Os modelos que os media lhes apresentam são sobretudo de cantoras, atrizes e manequins, nada de cientistas, muito menos astronautas ou sequer simples técnicas em qualquer campo profissional. Aparentemente ninguém vê nada de mal nem de mais nisso e, desse modo tão simples, tão natural e “inevitável”, sem qualquer intervenção direta ou proibição, o futuro continua eternamente adiado.

O mais espantoso ainda é observar-se como a idade em que as mulheres são convidadas a objetificarem-se tem recuado espantosamente. Investigações recentes mostram que desde os seis anos a maior parte das meninas tendem a pensar-se a si mesmas como objetos sexuais. Um estudo levado a cabo em Galesburg, no Knox College, revelou que, confrontadas com dois modelos de bonecas, uma, vestida com mini-saia, decote, sapatos altos e outros adereços, era preferida pela larga maioria das inquiridas a outra boneca vestida bem mais simplesmente com jeans e sapatos confortáveis. Na maioria dos casos, as meninas tendiam a identificar-se com a boneca sexy, aquela com a qual gostariam de parecer-se. É de supor que essa identificação era motivada pela crença de que ser sexy as tornaria mais populares, com as vantagens sociais que daí adviriam.

Ser popular é desejo de meninas, mas também de meninos; todavia, enquanto o caminho aberto às meninas para atingir esse objetivo passa por ser sexy, o mesmo não acontece com os meninos, para os quais ser popular é ser bom jogador, atleta, ou brilhante em outra qualquer atividade.

Neste mesmo estudo, composto por três amostras de meninas, duas recrutadas em escolas públicas e outra num estúdio de dança local, verificou-se que, para as meninas deste terceiro subgrupo, a boneca não sexy era a mais frequentemente escolhida; Como hipótese explicativa apontava-se o facto de que o dedicarem-se a uma atividade física, no caso a dança, estimulava uma maior apreciação pelo próprio corpo e uma autoimagem mais positiva, com a perceção de que ser sexy não é a única função do corpo e, porventura, não é a função mais importante.

Muitos fatores parecem explicar a tendência das meninas a valorizarem o corpo enquanto objeto sexual. Para começar os media e os modelos que propõem, mas também o exemplo das próprias mães. Em qualquer dos casos, um contexto extremamente difícil de mudar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Mulheres e criação artística

Para Camille Paglia, antifeminista contemporânea norte-americana, a produção cultural e a criação artística são prerrogativa masculina, são o símbolo de uma sexualidade agressiva e isso explica por que razão o número de mulheres que se tem destacado nestes domínios é irrisório com a consequente assunção de que essas mesmas mulheres seriam de alguma maneira pouco femininas porque a natureza feminina teria implicações completamente diferentes.

A tese de Camille Paglia repousa num determinismo biológico incompatível com um programa feminista progressista que vise o progresso no sentido de uma maior igualdade de oportunidades entre os sexos e se as coisas se passassem naturalmente dessa maneira, então o melhor seria desistir. Todavia, o que esta e outras explicações essencialistas têm em comum é que os factos que elas explicam podem ser explicados de maneira completamente diferente, isto é, há explicações concorrentes, porventura bem mais plausíveis. O que é facto é que as mulheres foram marginalizadas do domínio da criação artística como o foram de outras esferas de poder e tal marginalização não teve a ver com motivos de natureza biológica mas tão somente com a preocupação de as afastar de qualquer esfera da ação humana que lhes garantisse independência e desenvolvimento. Os exemplos são tantos e tão variados que dificilmente se pode negar esta afirmação; mesmo recentemente conhecemos casos de mulheres praticamente impedidas de desenvolverem os seus talentos por razões de imposição social e cultural e remetidas para a esfera doméstica de serviço à família, maridos e filhos incluídos.

Em reforço desta explicação há o facto de pelo menos a partir de certa altura, séculos XVIII e XIX, terem começado a surgir grandes escritoras (embora muitas usassem pseudónimos masculinos) enquanto as mulheres continuavam ausentes nos domínios da pintura, escultura, música ou arquitetura. Como explicar esta diferença a não ser pelo facto da escrita se poder processar no remanso do lar, na esfera da vida privada onde as mulheres encontravam obstáculos superáveis, enquanto os outros domínios artísticos implicavam incursão na esfera pública que lhes estava vedada?

Como poderia a sociedade encarar uma pintora que, como era frequente com os pintores, utilizasse modelos nus e frequentasse as academias e o convívio com os colegas masculinos? Ou como poderia uma mulher aprender a arte da arquitetura, dirigir os operários de uma obra, negociar com os proprietários, etc. etc?

A divisão social do trabalho sempre tem desfavorecido as mulheres no sentido destas poderem dar vazão à sua criatividade. Resta ainda dizer que os modelos que ainda hoje são propostos às meninas e mulheres continuam a procurar distraí-las de outro tipo de realizações que não sejam as ligadas aos tradicionais papéis femininos. Portanto, não surpreende que haja tão poucas mulheres nos campos da criação artística, o que surpreende é que ainda apareçam algumas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Suécia – política sexual e nova moralidade


Nas últimas décadas, o Estado sueco adoptou um determinado número de medidas de política sexual que têm vindo a contribuir para alterar profundamente o modo como se encara a moralidade sexual.
Na Suécia a educação sexual da população adolescente é há bastante tempo uma realidade incontroversa; as relações sexuais antes do casamento são encaradas com enorme naturalidade e os contraceptivos encontram-se facilmente disponíveis. A gravidez na adolescência tem um índice diminuto e o número de abortos também é muito baixo.
As despesas com a maternidade e com as crianças são suportadas pelo Estado que desse modo se substitui aos companheiros ou maridos provedores. Um outro pormenor importante é que essas ajudas estatais encontram-se ligadas à ocupação profissional da mulher pelo que a maternidade só é incentivada quando a mulher já se encontra no mercado de trabalho. Ter filhos fora de uma relação estável é uma opção, não um acidente.
Este enquadramento político cria condições objetivas para a emancipação das mulheres e altera completamente a moralidade sexual. Assim, determinadas virtudes, que durante milénios foram particularmente enaltecidas, deixaram de fazer sentido, caso da virgindade feminina antes do casamento ou da castidade. Tanto uma como outra foram impostas pela sociedade dominada pelos homens e iam ao encontro do interesse destes no sentido de garantirem a paternidade legítima dos seus filhos.
Como as mulheres não precisam do dinheiro de companheiros provedores para se sustentarem e sustentarem os seus filhos também não precisam de condescender em relação ao comportamento de castidade que tantos homens apreciam nas mulheres. Têm assim uma vida sexual mais ativa e livre pois por esse estilo de vida não pagam o preço que pagariam se dependessem economicamente dos homens.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mulheres e lugares de liderança





Excerto de uma conferência proferida por Sheryl Sandberg, na Universidade de Barnard em Agosto de 2011, onde se constata, através de números, como as mulheres continuam afastadas de lugares de direcção e se deduz que em boa parte este fenómeno tem as suas origens na desigual distribuição das tarefas e responsabilidades domésticas.
“As mulheres não estão a atingir lugares de topo nas suas profissões em nenhum lugar do mundo. Os números são bastante eloquentes: de 190 chefes de Estado apenas 9 são mulheres. De entre os lugares nos parlamentos apenas 13% são ocupados por mulheres. No sector empresarial as mulheres que se encontram em lugares de direcção são apenas de 15 ou 16%. Os números não se modificaram desde 2002 e vão no sentido errado. Inclusivamente em instituições sem fins lucrativos, um mundo que por vezes supomos governado por mulheres, apenas 20% ocupam lugares de direcção..
Como vamos resolver este problema? Como mudaremos estes números? …
Fazer com que as pessoas de ambos os sexos se encarreguem das tarefas domésticas é fundamental, se queremos que aja paralelismo e que as mulheres trabalhem fora.
Os estudos mostram que os lares com salários semelhantes e iguais responsabilidades têm metade dos divórcios. (…) Mas também mostram que se uma mulher e um homem trabalham a tempo inteiro e têm uma criança a mulher faz o dobro do trabalho em casa e dedica três vezes mais tempo a cuidar da criança do que o homem. De modo que ela tem três empregos ou dois e ele só tem um.”
Pode ler o texto na íntegra aqui

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mulheres e liderança



“A Drª Alice Eagly, especialista em género e liderança, declarou recentemente que os seus estudos mostram que as mulheres têm mais probabilidades do que os homens de possuírem capacidades de liderança associadas ao sucesso. Isto é, as mulheres são mais dispostas para a mudança do que os homens – preocupam-se mais com o desenvolvimento dos colaboradores, ouvem-nos e estimulam-nos a pensar «fora da caixa», são mais inspiradoras e mais éticas.
Assim, pode perguntar-se porque é que são os homens que dominam posições de liderança e porque é que mulheres altamente qualificadas não chegam ao topo? Como a dr. Eagly refere, as mulheres têm de ultrapassar obstáculos para atingirem posições de liderança enquanto aos homens é oferecido «livre trânsito”. A nossa imagem de líder é “masculina” e por isso mais frequentemente selecionamos ou promovemos homens. Os homens controlam a contratação e favorecem homens em relação a mulheres. E temos relutância em modificar o statu quo.” *

*Texto traduzido do blog Psychology Today.

sábado, 6 de agosto de 2011

O feminismo e a melindrosa questão do aborto


Em Alas, a blog, coloca-se a questão de decidir se pode considerar-se feminista alguém que, na questão do aborto, adere à posição pró-vida. Pelo interesse do tema, resolvi fazer uma tradução livre do texto aí apresentado:


“Não tenho problema em aceitar que mulheres «que genuinamente acreditam que o aborto implica eliminar uma vida humana, também podem ser feministas. Mas ao mesmo tempo, ser uma feminista, implica opor-se com consistência a políticas que prejudicam o bem-estar, autonomia e igualdade das mulheres. De outro modo, ser feminista perderia o sentido.
Pode alguém pró-vida ser feminista? Penso que sim, se «pró-vida» for definido como alguém que acredita que preservar a vida fetal é essencial. Se as ‘feministas pró-vida’ forem pessoas que consideram essencial tanto o preservar a autonomia das mulheres como a vida fetal, essas pessoas deverão dedicar-se a procurar baixar o índice de aborto – mas quererão fazer isso através de meios que valorizam a autonomia das mulheres, usando meios não coercivos para reduzir a procura por aborto. Isso não significa que elas tenham de aceitar índices de aborto elevados. No mundo real, os países que praticam tais políticas, Bélgica e Suíça, por exemplo, têm níveis de aborto incrivelmente baixos. Não há conflito entre querer liberdade para as mulheres e querer preservar a vida fetal.
Em contraste, uma feminista pró-vida que é a favor da proibição do aborto – com o enorme prejuízo que essa proibição implica para autonomia, liberdade e igualdade das mulheres e a despeito do facto de que essa proibição não preserva a vida fetal melhor do que outras políticas – está a tratar a autonomia das mulheres como se fosse algo não essencial. (…) Se pessoas que atiram pela janela a autonomia e a igualdade das mulheres são feministas então o termo perdeu todo o sentido.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Educação e estereótipos de gênero


A experiência sueca de educação pré-escolar que se propõe atingir uma educação neutral do ponto de vista de gênero tem levantado alguma celeuma no país e mesmo no estrangeiro por parte de pessoas que se mostram muito preocupadas com eventuais prejuízos que pode provocar nas crianças face à definição/indefinição de papéis de gênero.
Um dos argumentos invocado por quem se opõe à experiência insiste em que a diferenciação de papéis não precisa de ser acompanhada de inferiorização do papel feminino em relação ao masculino; assim por exemplo, brincar com bonecas ou brincar com carrinhos, diz-se, é igualmente valioso. Mas, se refletirmos um pouco, percebemos a fragilidade do argumento: veremos que estas brincadeiras só aparentemente são igualmente avaliadas porque enquanto a primeira apenas prepara e condiciona a menina para um papel, considerado natural, a outra antecipa um percurso de vida que nada terá de natural, orientado para eventuais profissões e intervenção no espaço público. Parece necessário e importante preparar as meninas para o seu futuro papel de mães mas não se considera que uma preparação equivalente deva ser ministrada aos meninos.
O que se verifica é que a diferenciação de papéis tem sido acompanhada da desvalorização do papel feminino e é preciso romper este ciclo, que toda a nossa cultura favorece; se uma mulher se limita ao papel de esposa e de mãe encontra-se automaticamente em desvantagem em relação ao homem porque, ao não transcender essa condição, não se afirma como um ser autónomo e criativo.
Outros acusam os métodos pedagógicos utilizados na Egalia e em outros-jardins-de infância suecos de visarem condicionar mentalmente as crianças, como se só aí existisse condicionamento mental. Esquecem que todas as sociedades ensinam relações de género só que o fazem seguindo o modelo de dominância masculina que nunca perturbou essa ‘boa gente’, agora tão incomodada quando se procura ensinar igualdade nas relações de género.
Jay Belsky, especialista em psicologia infantil na Universidade da California, mostrou-se muito preocupado com a eventualidade de os meninos, impedidos de correrem e de brincarem com paus, que imaginam serem espadas, perderem características masculinas. Este psicólogo ignora que educar os jovens para serem ’verdadeiros homens’ de acordo com um padrão de masculinidade que valoriza não apenas a assertividade, mas também a agressividade, é prepará-los para serem agentes de violência doméstica e social, para engrossarem a população prisional e para virem a ter pela frente uma baixa perspetiva em termos de longevidade. Ignora que as sociedades em que as relações de género são mais igualitárias não só apresentam melhores índices de saúde física e mental como vivem relações familiares menos conflituosas e mais compreensivas.
Tudo leva a crer que o condicionamento mental só é bem aceite e não levanta qualquer problema quando é aquele que a sociedade patriarcal realiza com enorme sucesso através de uma panóplia de instrumentos educativos formais e informais que moldam rapazes e raparigas no decurso do processo de aculturação. Tentar interferir com a norma de dominação masculina ainda vigente na sociedade patriarcal, esse parece ser o crime da Egalia e dos outros jardins-de-infância que seguem o novo modelo educativo.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Suécia - estereótipos de género e educação



Na Suécia, o currículo nacional para o pré-escolar tem como objetivo básico ultrapassar os estereótipos de género. A Suécia reconhece que, mesmo numa sociedade que de há muito se preocupa com a igualdade, os rapazes ainda continuam a usufruir de um tratamento de favor que não é justo.
Assim, em Estocolmo, no Egalia (Igualdade), jardim-de-infância de referência, o pessoal é ajudado por especialistas em psicologia de género a fim de identificar e evitar vocabulário e comportamentos que reforçam estereótipos. Os jogos Lego e outros blocos de construções estão intencionalmente colocados perto da cozinha, para assegurar que crianças não estabelecem barreiras mentais entre cozinhar e construir.
A diretora do Egalia, Lotta Rajalin, preocupda em favorecer um clima de tolerância em relação a gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais, tira de uma estante uma história de duas girafas-macho que estão tristes por não terem crias – até que encontram um ovo de crocodilo abandonado… Em quase todos os livros de histórias para crianças entram casais homossexuais, pais solteiros ou crianças adotadas. Não há nada parecido com a Branca de Neve, Cinderela ou outras clássicas histórias de fadas percebidas como tendentes a cimentar estereótipos. (notícia aqui)

Qualquer semelhança com o que se passa no nosso país (ainda) é pura coincidência.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Para uma interpretação de Sade


Simone de Beauvoir em Faut-il Brûler Sade, publicado em 1951, fornece uma interpretação da vida e obra de Sade que merece alguma reflexão.

Na vida sexual de Sade encontramos o desejo de dominar e violentar mulheres e de procurar exercer sobre elas diversas formas de tortura e de humilhação. No sentido de procurar compreender este tipo de comportamento, aquilo que Simone de Beauvoir pergunta é qual é o objetivo de Sade? O que é que ele pretende alcançar, onde quer chegar?
Segundo Beauvoir, em Sade, a sexualidade não é a chave para se compreender o seu comportamento pois esta precisa de ser explicada e é já algo secundário. Beauvoir vai interpretar a vida de Sade, considerando o que ele fez dela, na assunção de que tal reflexão projeta luz sobre a condição humana.
De acordo com Beauvoir, embora pareça problemático, porque estamos habituados a pensar em sexo em termos de força instintiva, para além do nosso controlo, a sexualidade é uma expressão de liberdade; isto não quer dizer que podemos decidir ou escolher a nossa sexualidade, mas que, ao vivê-la, exprimimos a nossa liberdade, nos afirmamos como sujeitos que tentam escapar à contingência e à faticidade. Através do sexo, Sade afirma-se contra a lei, recorrendo a uma justificação ética cuidadosamente elaborada, numa palavra, realiza-se; luta contra uma ordem social e política que considera injusta e hipócrita, através de um comportamento de rebelião individual que lhe permita restaurar a sua autenticidade.
Beauvoir explica. Sade pertence a uma aristocracia decadente que perdeu real poder; na época, o privilégio de classe de que a aristocracia gozava deixa de ser possível e Sade ressente-se com essa perda; no mundo burguês em que é obrigado a viver nada o distingue dos demais cidadãos, nada permite garantir-lhe um destino singular; mas na sua vida sexual e no imaginário que constrói ele pode ser um déspota feudal, e pode encontrar aí um mecanismo de compensação para a deterioração da sua condição social. As suas raízes de classe predispõem-no contra a Revolução (1789) em curso com as terríveis perseguições políticas que, sobretudo no período do Terror, justificou; claro que ele não se opôs ao Terror em nome de valores aristocráticos, ele opôs-se em nome da natureza e da liberdade, mas isso não significa que na raiz não esteja o ressentimento pela perda dos privilégios da classe de que ele ainda fazia parte.
Beauvoir defende que as práticas sexuais a que Sade se entregava funcionavam como um mecanismo de recuperação de um poder que ele enquanto membro de uma classe privilegiada tinha perdido. Vivendo num meio burguês ao qual tinha de se adaptar, perdido na multidão de outros cidadãos, um dos meios de recuperar a sua individualidade, a sua subjetividade, seria na vida sexual. Com uma vida social pautada pelo conformismo e pela obediência às normas, ao frequentar os bordéis negava esse mesmo conformismo e exigia, no domínio sexual, a obediência a que tinha de se submeter no domínio social. Como Beauvoir escreve, Sade e outros seus contemporâneos igualmente bem-nascidos, “herdeiros de um nome em declínio (a aristocracia) que uma vez tinha exercido um poder concreto, mas que não mais detinha qualquer poder sobre o mundo, tentavam reviver simbolicamente, na privacidade da alcova, o estatuto de que tinham nostalgia, aquele do déspota feudal, soberano e solitário.” MBS 15
A sexualidade teria sido o caminho escolhido por Sade para reviver simbolicamente a privação de poder e de estatuto que o mundo burguês lhe retirara; poderia ter escolhido outro, mas preferiu fazer «da sua sexualidade uma ética» e erigir «gostos em princípios». MBS 15.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Sade, um herói! Como? Ouvi bem?


Várias pessoas, alguma intelectualidade de esquerda incluída, admiram o Marquês de Sade. Provavelmente, ou não conhecem a história toda, ou não se deram ao trabalho de analisar as reais implicações das ‘propostas’ por ele apresentadas.
Nascido em 1740, ainda no período do Antigo Regime, viveu na França da Revolução (1789); assistiu ao período do Terror, ao consulado napoleónico e ainda à restauração do Império. Foi preso pela primeira vez em 1767; mais tarde, entre 1778 e 1789, conheceu um longo encarceramento. Acabou por morrer em 1814, internado num asilo. As acusações que sob ele impenderam foram sobretudo ligadas a crimes de natureza sexual, mas também a rapto, escrita pornográfica e ainda ao não pagamento de dívidas. As suas vítimas mais frequentes, empregadas domésticas, prostitutas e atrizes, eram ‘subornadas’ ou de alguma maneira atraídas com promessas de recompensas futuras.
O facto de ter pago um preço muito alto pelo tipo de vida que escolheu e de ter denunciado com veemência a hipocrisia dos costumes - para ele, a virtude não tem nada de admirável porque não passa de uma fachada, é pura hipocrisia - conferiu-lhe uma aura de herói e de incompreendido.
Ademais, Sade não reduz a sexualidade à reprodução o que também soa bem às mentalidades mais desempoeiradas e permitiu a Simone de Beauvoir chamar a tenção para o facto de que para ele: «a sexualidade não é uma questão biológica mas um facto social».
A sua insistência nos mandatos da natureza, na força dos instintos e a denúncia da repressão à vida sexual a pretexto de propósitos civilizacionais prenunciam Freud. Sade critica na civilização a repressão do instinto sexual que considera perniciosa para o ser humano e por isso advoga a liberdade, ou como se dizia na altura o libertinismo, como compensação para contrabalançar essa opressão; defende a luta contra a repressão do instinto; proibir para ele é sempre um ato que, estando sob suspeição, não é natural.
Até aqui tudo muito bonito mas, bem, há sempre um mas e neste caso ele é francamente adversativo. Embora Sade tenha justificado os seus escritos e a sua vida em nome da liberdade, se lermos o que escreveu, verificamos que a liberdade de que ele fala é a do homem que exerce o seu poder discricionário, e mesmo torcionário, sobre a mulher. Afinal, cooptando o conceito de liberdade, ele acabou por se transformar num representante do sistema patriarcal que foi sempre opressor das mulheres; as suas detenções apenas ocorreram porque ele levou demasiado longe o modelo e retirou a cortina de hipocrisia que era fundamental à subsistência do sistema. É que mesmo a opressão, para ser suportável, não pode revestir a brutalidade que o Marquês reverenciava.
Numa perspetiva mais ampla, podemos reconhecer que a liberdade que Sade defendia só podia existir a expensas da liberdade dos outros, era a opressão dos outros. Sade insurgia-se frequentemente contra a universalidade dos princípios éticos abstratos que, em sua opinião, abafam o indivíduo e não lhe permitem realizar-se. Mas Simone de Beauvoir, na análise que nos deixou, mostra que é precisamente em nome do indivíduo que se pode criticar Sade, porque o indivíduo que se afirma afirma-se sobre outros indivíduos aos quais pode provocar reais danos, não pode pois fazê-lo de qualquer maneira, sem admitir para si mesmo certos limites.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Esposa ou prostituta honoris causa?!


A história recente do escândalo sexual que envolveu o diretor do FMI Dominique Strauss Kahn é uma boa oportunidade para mostrar mais uma vez como o papel da mulher no casamento a «obriga» a alimentar o ego do marido e a sarar as suas feridas, muitas vezes com graves prejuízos dos seus (dela) legítimos interesses. Neste caso concreto, logo após a detenção do marido por alegada violação da camareira do hotel em que se hospedara, a esposa deslocou-se para os Estados Unidos e colocou-se incondicionalmente ao seu lado, prestando-lhe apoio e solidariedade, num contexto em que o ego dela estava a sair bastante maltratado.
Se repararmos, este caso ilustra de forma exemplar os três perigos que espreitam as mulheres no desempenho do papel de curadoras de maridos e família, como referimos no texto atrás publicado, «Alimentar egos e sarar feridas». Esses perigos são: (1) o desempoderamento epistémico, (2) o desempoderamento ético e (3)a mistificação da real situação da mulher. Vejamos cada um destes aspetos nesta concreta situação.


(1)A senhora em questão viu-se obrigada a perceber a situação de acordo com a perspetiva que o marido forneceu; a isso a obrigava o papel que tinha de desempenhar. Qualquer atitude crítica e de dúvida estava completamente vedada e a sua autonomia intelectual seriamente comprometida.


(2) A mesma senhora tornou-se necessariamente cúmplice dos atos dele pela aprovação tácita que teve de lhes dar.

(3) No fim ainda vai ficar convencida de que cumpriu o seu dever e que prestou um serviço muito meritório ao esposo e à sociedade, não percebendo como está a ser manipulada e encerrada numa autêntica ratoeira.

Claro que se não tivesse procedido da maneira esperada, teria sido alvo de críticas da parte não só da generalidade dos homens como de muitas mulheres, assim evitou o embaraço e tornou-se o exemplo da esposa abnegada; mas ao fim ao cabo ela está a usar a categoria de má fé para não assumir uma posição crítica ou pelo menos para não se remeter ao silêncio e afastamento temporário, e está a cair na inautenticidade.
O problema desta mulher, como de um número incalculável de outras é que, de demissão em demissão, acabou por ver-se confrontada com uma situação limite da qual só conseguiria sair com um ato de extraordinária coragem. Mas desta particular mulher, que conhecia provavelmente melhor do que ninguém a «folha de serviço» do marido, rotulado publicamente pelo eufemismo de mulherengo e referido como consumidor frequente de prostitutas, se calhar era impensável esperar sequer outro comportamento, habituada como estaria a ser uma espécie de prostituta honoris causa.

domingo, 20 de março de 2011

A ditadura da beleza

O tema do modo como as mulheres se apresentam ou devem apresentar, isto é, a questão da aparência, é espinhoso porque se presta a confusões e a conotações que eu gostaria de evitar. Posto o assunto cruamente: será que as mulheres devem procurar pelo vestuário e comportamento que assumem em público passar uma imagem de discrição e recato ou, se fugirem completamente a este padrão, nada haverá a criticar e a objectar?
De uma perspectiva feminista, defendo que não é indiferente o modo como as mulheres se apresentam aos olhares da sociedade e nesta aos olhares dos homens. A minha postura sobre este assunto não significa que eu comungue os valores da direita religiosa, nem reflecte falsos pudores ou puritanismo. O que acontece é que percebo o que está em jogo e gostaria de evitar que outras mulheres, sob o simulacro de uma falsa liberdade de escolha sejam joguetes da sociedade sexista que entretanto se modernizou e cooptou o vocabulário do feminismo para se manter.
Parto do princípio de que aquilo que uma pessoa veste, como veste e «está» em público, envia sinais para os outros e diz alguma coisa sobre a própria pessoa e por isso não é de menor importância abordar este tema com total franqueza embora nesse percurso, me possa afastar do politicamente correcto. Hoje não é politicamente correcto criticar uma mulher porque veste, por exemplo, saias demasiado curtas, calças muito justas, sapatos de saltos muito altos, mostra a barriga ou os seios exuberantemente; nem tão pouco parece correcto criticar aquelas que decidem submeter-se a intervenções cirúrgicas para dar maior relevo a determinadas características corporais, entendidas como femininas. Admite-se implicitamente que nada temos a ver com isso e cada um/a faz aquilo de que gosta. Mas esquecemos que nestas situações as mulheres estão a enviar sinais que facilitam serem percebidas como objectos sexuais ou como objectos decorativos e assim reforçam um estereótipo secular, no qual desde sempre se tentou encerrá-las, que é extremamente nocivo para a sua realização enquanto pessoas. Se uma mulher não se importa de passar a mensagem de que é uma bunda ou um par de mamas, temos de convir que aceita ou parece aceitar reduzir-se a essa condição, que aceita ser encerrada num corpo e ser valorizada enquanto corpo. De facto não vemos os homens a explorarem os seus próprios corpos dessa maneira e alguns até o poderiam fazer, porque têm belos corpos, mas não o fazem porque não são culturalmente estimulados nesse sentido e porque o seu valor reside no que são e não no que aparentam.
Convém perceber que a moda actualmente exerce a função que antes cabia a outros institutos no sentido de manter as mulheres presas a estereótipos de beleza que só as podem prejudicar; estereótipos que as levam a investir na aparência física acima de qualquer outro aspecto como se o seu destino continuasse a ser pensado única e exclusivamente em termos de acasalamento e da capacidade que possam ter de atrair os machos.
Eu percebo como deve ser difícil para uma mulher, sobretudo se for jovem e atraente, resistir aos apelos constantes da moda e da publicidade, mas lembro-lhe que, para além de outros aspectos, a beleza física é efémera e se tudo lhe sacrificar vai acabar por concluir que fez um péssimo negócio, pois não investiu em si mesma, investiu apenas num simulacro de poder.
Lembro que a ditadura da beleza serve um objectivo e esse é o de escravizar as mulheres e de as obrigar a perseguirem um ideal não só superficial como inatingível; por outro lado, ao estipular que o valor de uma mulher reside na sua beleza e na sua juventude, carreia consequências terríveis porque significa que, enquanto os homens podem envelhecer tranquilamente, para as mulheres o envelhecimento é o pânico já que o seu valor foi construído à volta da sua aparência e não da sua personalidade, conhecimento e cultura; numa palavra, valorizaram-se como objectos e não como pessoas. O facto, por exemplo, de as actrizes de Hollywood terem dificuldade em encontrar trabalho depois dos trinta, enquanto os seus colegas continuam a ser requisitados para os mais diversos desempenhos, nas diferentes fases das suas vidas, mostra bem como esta ditadura da beleza e da juventude atinge as mulheres e trucida as suas vidas.
Claro que é muito difícil inverter este panorama, chega mesmo a ser desesperante, porque toda a nossa cultura, televisão, filmes e publicidade, consumida acriticamente, o favorece. As mulheres que triunfam, na grande maioria dos casos, têm o seu sucesso ligado à beleza, à juventude e exploração do corpo e são esses os modelos apresentados às jovens; em contrapartida, as desportistas, jovens cientistas, artistas, escritoras, ou outras profissionais competentes têm uma exposição mediática reduzida. Também é preciso dizer que ser cientista, ou tão-somente uma profissional competente, exige estudo, esforço, perseverança, isto é, exige o cultivo de qualidades que não nos são dadas de bandeja e parece sempre mais apelativo tirar partido de atributos naturais, mas também aqui se está a esquecer o prazer que podemos encontrar no estudo e como é gratificante crescer intelectualmente.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Como Hollywood replica e reforça a sociedade de supremacia masculina

Numa sociedade patriarcal, os interesses e necessidades dos homens encontram-se no centro da cena, por isso não surpreende que os filmes produzidos por Hollywood, na sua avassaladora maioria, sejam histórias sobre homens, como a lista abaixo apresentada comprova; mas o pior é que estes filmes não só reflectem como reforçam este tipo de sociedade e tornam muito difícil a ultrapassagem do statu quo; e é por isso que, por exemplo, a história do movimento das mulheres no sentido da emancipação está toda por explorar, o que não acontece por acaso, acontece porque quem tem competência e recursos para fazer filmes não está nem um bocadinho interessada em contá-la.

Anita Sarkeesian no blog sociological images fornece a lista dos filmes premiados nos últimos 50 anos e outras informações importantes para percebermos porque é que a replicação da sociedade patriarcal é «quase» uma inevitabilidade.

Lista de filmes que ganharam o prémio da Academia nos últimos cinquenta anos
The Hurt Locker - embora dirigido por uma mulher é acerca de homens.
Slumdog Millionaire – homens
No Country for Old Men – o titulo diz tudo
The Departed – homens
Crash – conjunto
Million Dollar Baby – foge a regra, é uma história equilibrada acerca de um homem e de uma mulher
Lord of the Rings – homens
Chicago – centrado numa mulher
A Beautiful Mind – homens
Gladiator – homens
American Beauty – um homem
Shakespeare in Love – homem
Titanic – contado a partir de uma perspectiva masculina
The English Patient – homem
Braveheart – homem
Forrest Gump – homem
Schindler’s List – homem
The Unforgiven – homens e cavalos
The Silence of the Lambs – homem
Dances with Wolves – homem
Driving Miss Daisy – é acerca de um homem e de uma mulher Rain Man – homem
The Last Emperor – homem
Platoon – homem
Out of Africa – centrado numa mulher
Amadeus – homem
Terms of Endearment – centrado numa mulher
Gandhi – homem
Chariots of Fire – homens
Ordinary People – acerca de uma família
Kramer vs Kramer – acerca de um casal
The Deer Hunter – homens
Annie Hall – é acerca de um homem e sua vida amorosa
Rocky – homem
One Flew Over the Cuckoo’s Nest – homem
The Godfather, Part II – homens
The Sting – homens
The Godfather, Part I – homens
The French Connection – homens
Patton – homens
Midnight Cowboy – homem
Oliver! – rapaaz
In the Heat of the Night – homens
A Man for All Seasons – homem
The Sound of Music – centrado numa mulher
My Fair Lady – equilibrio entre homem e mulher
Tom Jones – homem
Lawrence of Arabia – homem
West Side Story – homem e mulher
The Apartment - história contada de um ponto de vista masculine.

Apenas 4 dos filmes premiados em 50 anos são centrados exclusivamente em vidas de mulheres.
Numa história de 83 anos, apenas 4 mulheres receberam nomeações para o prémio de melhor realizador. A última Kathryn Bigelow ganhou o prémio, mas o filme The Hurt Locker, 2009 é nitidamente centrado numa perspectiva masculina.
Actualmente em Hollywood há apenas 7% de mulheres realizadoras e praticamente todo o circuito de produção de filmes se encontra nas mãos de homens.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Discriminação com base na idade

Miriam O'Reilley apresentadora da BBC, substituida em 2009 quando tinha 51 anos de idade, moveu um processo a esta estação televisiva alegando discriminação de género e de idade. O tribunal não deu por provada a discriminação de género mas reconheceu a discriminação com base na idadede; a BBC já se desculpou e reintegrou-a.

As implicações deste caso são importantes pois abre-se um precedente e de agora em diante será mais dificil decidir que quem ocupa um lugar não é a pessoa mais qualificada mas a mais jovem.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Mães solteiras



(Tentei comentar um post da Nana Odara, como não consegui, resolvi publicar aqui o meu texto)

Em relação à maternidade, e sobretudo em relação às mães solteiras – questão que a preocupa - a Nana deveria saber que quem as hostiliza não são as feministas, mas sim as anti-feministas. O caso que conheço razoavelmente é o dos Estados Unidos, que tenho vindo a estudar, e aí são as anti-feministas que têm conseguido através da intervenção política (de direita, é claro) retirar apoios estatais às mães em geral e particularmente às mães solteiras com o argumento de que colocam em perigo a família (patriarcal, claro). Portanto, gostaria de dizer que ela está a ser injusta para com as feministas e está a confundir as feministas com as anti-feministas, o que até é compreensível porque actualmente estas procuram cooptar o feminismo para as suas causas que são tudo menos feministas.
Agora outra coisa, como é que se pode proteger as mães solteiras e tratá-las com justiça se as mulheres se demitirem de intervir politicamente? Se as mulheres não tiverem poder para pressionar? E o poder, tanto quanto eu sei, no mundo em que vivemos, é económico, político e cultural: se você não tiver dinheiro, não ocupar cargos de decisão social, se não estudar e produzir conhecimento, você não tem poder nenhum e não consegue alterar a sociedade. Deveria pensar nisto quando «ataca» as feministas carreiristas de que tanto gosta de falar. Em minha opinião, a Nana é voluntarista e às vezes parece fazer uma análise idealista do mundo e da vida que considero incorrecta porque, embora as ideias sejam importantes, não vingam sem condições materiais, sem condições objectivas que tornem possíveis as mudanças; é pois preciso criar essas condições e só o acesso das mulheres ao poder, mesmo nas circunstâncias actuais, as pode criar .

Embora não me pareça ser a situação ideal para educar uma criança, eu apoio as mães solteiras porque penso que essa pode ser uma opção legítima. Continuo a apoiá-las quando a situação resulta de contingências que não controlaram, mas aí lamento a situação pois considero que de alguma maneira falharam em conseguirem controlar a sua própria vida e em garantirem a sua autonomia enquanto pessoas.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Igualdade e desfasamento salarial

Hoje, quando se comemora o 90º aniversário do sufrágio feminino nos Estados Unidos, algumas pessoas, como por exemplo, Brad Peck, director da Câmara de Comércio, continuam a insistir em que a diferença salarial, bem documentada, entre homens e mulheres com o mesmo nível de experiência e de educação, se deve principalmente à “escolha individual”. B. P. in “Equality, Suffrage and a fetish for Money” vai mais longe e acusa as mulheres que exigem igual pagamento de terem um “fetish” por dinheiro.

O que as estatísticas revelam é que as mães ganham normalmente menos do que as mulheres sem filhos, acontecendo exactamente o contrário com os homens. Como se estima que cerca de 80% das mulheres acabarão por ter filhos, podemos imaginar o que isso irá representar no seu estatuto económico. Com tudo isto, continuar a defender a tese de que as mulheres já conseguiram o que queriam e que a luta feminista não faz mais sentido só pode derivar de má fé, ignorância ou estupidez.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Eva e Prometeu ou o que distingue um homem de uma mulher

Se compararmos o mito de Prometeu com o mito de Eva, no episódio bíblico do pecado original, e se extrairmos o respectivo significado destes mitos, podemos verificar o desigual tratamento dado a homens e a mulheres, quando a sua atitude é similar.
Prometeu atreveu-se a desafiar os deuses, roubando o fogo sagrado para o entregar aos homens, mas é apresentado como um herói: o criador e benfeitor da humanidade. Eva, tentada pelo fruto da àrvore do conhecimento, ousou desobedecer ao mandamento divino e é apresentada como a personificação da maldade e da vilania, responsabilizada pelos infortúnios da humanidade.
A conclusão que se pode tirar é que ser audacioso quando se é homem compensa, pode-se ser castigado no imediato, mas a memória que fica é grandiosa e a dimensão do personagem ganha brilho com o decorrer do tempo. Ser audaciosa quando se é mulher, é algo ignóbil, uma mancha que só se adensa e intensifica com o passar do tempo.
Com histórias deste tipo se socializam meninos e meninas e se lhes diz o caminho que devem percorrer: comprometer-se, correr riscos, triunfar, num caso, secundarizar-se, comportar-se passivamente, ser comedida nas suas ambições, no outro.
De resto, não deixa de ser curioso o resultado da pesquisa de imagens que leitores/as podem fazer. Procurem «Prometeu» e procurem «Eva», no primeiro caso encontram uma figura tratada pela Arte de várias épocas, uma das imagens é mesmo a de uma estátua moderna que assinala uma barragem, símbolo de energia e de poder. No segundo caso … vá, experimentem ... sabem o que vão encontrar? Garotas de programa em posições mais ou menos ousadas, pensar que são poderosas?! Só a brincar.

domingo, 13 de junho de 2010

O combate pela igualdade das mulheres - um imperativo do século XXI

Hillary Clinton proferiu na ONU, em 12/3/10, um excelente discurso sobre o Estatuto da Mulher que pode ser ouvido e lido na íntegra neste sítio. Do discurso destaco:

«O estatuto das mulheres não é apenas uma questão de moralidade e de justiça. È também um imperativo político, económico e social; dito de modo simples, o mundo não pode fazer progressos duradouros se às mulheres e às jovens forem negados os seus direitos e se forem abandonadas. […]
A evidência é irrefutável: quando as mulheres são livres para desenvolver os seus talentos, todos beneficiam, mulheres e homens, rapazes e raparigas. Quando as mulheres são livres para votar e concorrer a cargos políticos, os governos são mais efectivos e respondem melhor às necessidades dos povos. Quando as mulheres são livres para ganhar a vida e iniciar pequenos negócios, os dados são claros, elas tornam-se factores nevrálgicos do crescimento económico nas diferentes regiões e sectores. Quando às mulheres são dadas oportunidades de educação e acesso aos cuidados de saúde, as suas famílias e comunidades prosperam. E quando as mulheres têm direitos iguais, as nações são mais estáveis, pacíficas e seguras.»
Citando o jornalista, Nicholas Christof, Clinton lembrou que, se, no século XIX, o grande imperativo moral foi o combate contra a escravatura; se, no século XX, foi o combate contra os totalitarismos, no século XXI, o grande princípio norteador deverá ser o combate pela igualdade das mulheres.