domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sexo, poder e agressividade


De Flávio Gikovate parece-me interessante o livro: “A Libertação Sexual: rompendo o elo entre o sexo, o poder e a agressividade”. De entre aqueles que recentemente têm refletido sobre sexo, eis-nos perante um dos poucos que abandona o tipo de análise politicamente correta para ir ao cerne das questões, mostrando que, afinal, como diz o ditado, “o rei vai nu” e que a tão propalada revolução/emancipação sexual está muito perto de mais uma mistificação, cujo propósito terá sido o de “mudar alguma coisa para que tudo pudesse ficar na mesma. 

A ligação sexo, poder e agressividade continua presente na relação heterossexual, genericamente falando, e sobretudo nas práticas sadomasoquistas que “alguém” parece querer revitalizar, vide a publicidade do filme mais recentemente badalado.

Diz Gikovate, citando Ortega y Gasset, que, sendo uma das capacidades mais importantes da inteligência humana a de dissociar, está mais que na hora de dissociar sexo de agressividade. Todavia essa dissociação só será possível a partir do momento em que os justos, que constituem uma minoria de pessoas, se sobrepuserem aos generosos e aos egoístas. Repare-se que Flávio Gikovate está a ir contra o senso comum que tem a tendência a associar generosidade a justiça; ora não é preciso nem desejável que haja generosos porque são estes que alimentam os egoístas; o que é preciso é que haja pessoas justas e um princípio básico de justiça é o de respeitar a autonomia, logo a liberdade de cada um. Deste modo, a velha, consolidada e alimentada propensão das mulheres para serem generosas – masoquistas - (a fim de agradarem aos mais poderosos: pais, irmãos, filhos, maridos), é aquilo que alimenta o egoísmo dos sádicos que tiram prazer do domínio que têm sobre elas, julgando-se fortes na justa medida em que conseguem exercer esse poder.

Por tudo isto, as mulheres precisam começar a gostar de si mesmas, a satisfazerem os seus legítimos direitos, nomeadamente o direito a serem autónomas, nos vários domínios das suas vidas e, particularmente, no domínio da autonomia sexual.


Será importante que não deixem que as coisas lhes aconteçam. Mas que façam as coisas acontecerem! Todavia, não esqueçam que, embora a liberdade seja poder para se autodeterminarem, as escolhas que venham a fazer não são neutras, não têm todas o mesmo valor pois há escolhas que podem limitar a  liberdade da pessoa humana.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sexo e agressividade

Acabei de assistir a um vídeo muito interessante em que Flávio Gikovate discorre sobre amor e sexo e vou tentar dar conta de algumas das ideias que retive e de outras que desenvolvi a partir das que aí são expressas.

A primeira constatação a que se chega quando se reflete sobre sexo é que existe uma ligação entre sexo e agressividade tão antiga quanto a própria humanidade; essa ligação é comprovada, entre outras coisas, pela matriz sexual da linguagem do insulto e pela própria linguagem que descreve comummente o ato sexual em termos de violência e de conflito. Por outro lado, embora possa envolver duas ou mais pessoas, o sexo é egoísta e visa à gratificação de um instinto que é do indivíduo; implica um estado de excitação e de inquietação que se procura acima de tudo apaziguar, alcançando uma gratificação pessoal.

Dada a constatação acima referida entre sexo e agressividade e sexo e egoísmo, tem de aceitar-se que o sexo não só não é parte do amor como desrespeita o sentimento amoroso; este, resultando e acompanhando uma relação interpessoal, implica cuidado com o outro, respeito pelo outro.
Também, dada a ligação entre sexo e agressividade, fica meio difícil falar, como se fala, em libertação sexual. A emancipação sexual, para ser autêntica tem de pressupor a capacidade de dissociar sexo de agressividade; mas essa dissociação só será possível se se der uma mudança cultural ou, como também se diz, uma mudança das mentalidades. Como ainda não se deu, o sexo continua a ser uma questão muito mal resolvida e por isso é que se fala tanto dele.


De modo que, da tão apregoada revolução sexual, cujo início se reporta aos anos sessenta, como diz Flávio Gikovate, e eu não podia estar mais de acordo, o que sobrou foi o direito de as mulheres se exibirem mais. Eu acrescentaria que foi também o “direito”, altamente duvidoso, se entendermos o direito como um determinado tipo de interesse, de as mulheres alinharem em práticas sexuais, que até nem lhes agradam, pela necessidade que ainda sentem de agradarem aos homens e pelo receio de serem apodadas de puritanas e de antiquadas se o não fizerem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O sexo mais seguro do mundo

“Eis a coisa mais natural do mundo - a nossa própria mão nos nossos genitais, fazendo algo que nos dá prazer e não prejudica ninguém, praticando o sexo mais seguro no mundo – no entanto sentimo-nos culpadas como se fossemos ladras, o nosso sentido do eu diminuído quando deveria sentir-se elevado pelo controlo e amor-próprio.
A masturbação não é, apesar de tudo, uma habilidade difícil, como aprender a tocar violino. A mão move-se automaticamente entre as nossas pernas a partir do primeiro ano de vida. Algo, alguém ‘se colocou’ entre ela e os nossos genitais tão cedo que a maior parte de nós nem consegue lembrar-se.
Uma mensagem foi impressa no nosso cérebro, um aviso tão impregnado de medo que, muito tempo depois de sermos crescidas, mesmo depois de termos permitido que um homem introduzisse um pénis dentro de nós, para tocar os nossos genitais, experimentamos sentimentos de ambivalência acerca de nos tocarmos a nós próprias. Podemos fazê-lo, mas é um ato físico contra uma pressão mental - esse delicado movimento dos nossos dedos apenas é efetivo quando a mente nos liberta. Doce como o orgasmo é, nós não ficamos com um sentido fortalecido de feminilidade. Ganhamos a batalha, mas perdemos o estatuto de Boas Raparigas.
Costumava considerar-se a masturbação o grande tabu para as mulheres porque representava satisfação sexual fora de uma relação. A masturbação significava uma medida de autonomia e ninguém queria que as mulheres tivessem demasio controlo sobre si próprias.”
Nancy Friday: Women on Top: How real Life has Changed Women´s Sexual Fantasies, p. 19.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Exibicionismo sexual ou emancipação sexual?!

  Os pensadores que, por um lado, constroem o discurso na base de metáforas, aforismas, declarações enfáticas e expressões pregnantes e, por outro, descuram a vertente racional/argumentativa exercem normalmente enorme fascínio sobre os leitores. Prestam-se obviamente a interpretações diferentes e até divergentes, pois cada um apropria-se à sua maneira do pensamento do autor e “afeiçoa-o” aos seus objetivos; por isso é que vemos conservadores e progressistas, setores de esquerda e de direita tecerem encómios a pensadores que corporizam esse modelo, como por exemplo Nietzsche, um dos que, em decorrência, defendia que não há verdade, só interpretações. Um fenómeno paralelo ocorreu e ocorre com Sade.

    Sade encontra os maiores defensores em certa intelectualidade de esquerda e, pasme-se, até recolhe alguma benevolência da parte de feministas como Simone de Beauvoir e Ângela Carter que realçam aquilo que pode ter havido de ‘revolucionário’ no pensamento de Sade relativamente à sexualidade, em particular à sexualidade feminina. Ora a este propósito ocorre-nos perguntar como é que o defensor entusiasta de um certo tipo de terrorismo sexual, exercido preferencialmente contra as mulheres, pode ter dado qualquer contributo para qualquer revolução sexual.

    Vejamos o argumento dos admiradores do “divino marquês”. Dizem que dessacralizou o sexo, ao ignorar ostensivamente e mesmo ao desprezar a sua vertente reprodutiva, ao serviço da vida. Bem o argumento parece frágil porque, embora se possa reconhecer que foi positivo, sobretudo para as mulheres, o enfraquecimento do vínculo entre sexo e reprodução, tal não se deveu a qualquer putativa dessacralização, mas a eventos técnicos que dão liberdade de escolha às pessoas e que não implicam qualquer diabolização da reprodução e da maternidade. 

    Dizem ainda que certas heroínas sadianas, como por exemplo a Julieta da novela do mesmo nome, são personagens femininas que se assumem como autênticos símbolos da mulher sexualmente emancipada. Mas quem profere este tipo de afirmações esquece que essas “heroínas” aceitam e procuram alegremente todas as práticas sexuais que os homens apreciam. Ao fim ao cabo lembram as personagens femininas da pornografia mainstream, muito entusiasmadas com práticas que, temos boas razões para supor, não lhes dão qualquer prazer, embora finjam esse mesmo prazer para inglês ver, isto é, para consumo masculino.

    Esta tese  da revolução sexual e das mulheres sexualmente emancipadas parece muito cara a certos homens, mas estes dão pouca atenção ao que seja a emancipação sexual. O objetivo desses homens, embora não declarado, e às vezes não consciente, é o de terem um número cada vez maior de mulheres recetivas às práticas sexuais que eles apreciam. Ora, se as palavras são para terem algum sentido, as mulheres emancipadas são as que manifestam capacidade de se autodeterminarem sexualmente, decidindo o que querem ou não fazer, não são as que dizem sempre sim a tudo, fingindo que é tudo muito gostoso e que estão a ter um grande e fabuloso sexo, para depois contarem às amigas. 

   Quem fala nestes termos em emancipação sexual feminina ainda não percebeu que a sexualidade feminina continua confiscada porque sujeita a um modelo masculino e a um erotismo masculino, construídos e reforçados social e culturalmente. Hoje, mais do que nunca há muito exibicionismo sexual feminino, mas continua a não haver liberdade sexual feminina. É bom que nos entendamos e nos deixemos de mistificações.


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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sexualidade e cultura


Quanto mais não seja, por uma questão cultural, a relação heterossexual continua a ser uma relação de domínio/submissão; é assim que é percebida e é assim que é referida através do tipo de linguagem usada para a exprimir que, como bem sabemos, é uma linguagem de violência, de domínio e de humilhação; por isso é que é utilizada quando se quer insultar/agredir alguém. 


Se calhar não é pois por acaso que mulheres solteiras (desacompanhadas e autosuficientes), divorciadas ou viúvas são normalmente muito mais assertivas, livres e autónomas, o que pode estar relacionado com o facto de não terem um macho/guardião que as coloca na sombra. Penso que um homem, a partir do momento em que tem relações sexuais com uma mulher, sobretudo se não forem apenas casuais, começa lenta e paulatinamente a sentir que pode/deve controlá-la e a controlá-la efetivamente, não só nos seus passos, mas até no seu pensamento e então lá se vai a reciprocidade e o respeito que devia caraterizar a relação. Este percurso é quase inevitável e poucos conseguem resistir a esse apelo em que as fronteiras entre o natural e o cultural se encontram esbatidas. Portanto parece haver ligação entre a secundarização e inferiorização das mulheres e o modelo de sexualidade prevalecente.

(A utilização da linguagem sexual para insultar pessoas é tão óbvio que deveria merecer a atenção dos estudiosos da linguagem, mas de facto não conheço nenhum estudo sobre o assunto.)

domingo, 30 de novembro de 2014

Sexo anal - o que muitas mulheres pensam a respeito do assunto

Este post: Sexo Anal – o que muitas mulheres pensam a respeito do assunto está em linha de continuidade com um outro que publiquei em 10 de Setembro, com o título: Sexo anal – coerção e pornografia - e basicamente é constituído por um comentário que uma leitora Rosalinda Ramos escreveu a propósito e que me pareceu de tal modo lúcido e pertinente que decidi utilizá-lo, dando-lhe os devidos créditos. Sugiro que outr@s leitor@s deste blog o repliquem nos seus para fazer passar a mensagem. Aqui vai o comentário da Rosalinda Ramos, seguido de alguns considerandos meus:

“Penso que podemos extrair um outro significado deste verdadeiro culto ao sexo anal que atualmente vemos na midia, que inclusive vem pregando até a aceitação de um 'novo' padrão de beleza, o das mulheres curvilíneas, como a celebridade americana Kim Kardashia.
Durante as décadas em que o feminismo implementou várias conquistas de direitos para as mulheres, duas reacões do status quo patriarcal se tornaram evidentes: uma foi a imposição do corpo magro e a obcessão de obtê-lo através de dietas e exercícios, significando que as mulheres, enquanto ocupavam e reivindicavam mais espaço na sociedade, deveriam ter esse mesmo espaço reduzido no seu corpo; e a outra reação foi a pornografia que se tornou mainstream e impôs um modelo de sexualidade aviltante para as mulheres, reduzidas a buracos e submetidas a todo tipo de humilhações e torturas, sendo a submissão seu traço naturalizado.
O sexo anal me parece não só uma maneira mais contundente de naturalizar a submissão, como também a dor, o sofrimento. Explico: se não se tomar cuidados e às vezes, até tomando, a prática sexual anal deriva em dor e também em ferimentos, então o estímulo a essa prática significa que as mulheres tem que se submeter ao sofrimento para o prazer masculino (submissão + masoquismo) para com isso, moldar o psiquismo feminino a internalizar que os homens sempre mandam e as mulheres sempre obedecem, mesmo que isso lhes cause desconforto, que é claro, deve ser ignorado, pois o que o homem quer deve ser sempre mais importante para a mulher. Outro significado é desvalorizar o órgão sexual feminino, sempre invisibilizado e tratado como esquisito e possuindo odores estranhos.
O culto ao sexo anal se presta a muitos significados, preconizando a submissão e o masoquismo nas mulheres, o sadismo nos homens e a inadequação do órgão sexual feminino ao ato sexual por não ser tão apertado quanto o ânus. Inclusive existem práticas na pornografia mainstream que servem até ao racismo sexista, pois colocam em cena homens negros de grandes pénis penetrando mulheres brancas com violência no ânus....
Hoje sexo anal virou uma obrigação e tenho certeza que a maioria das mulheres o têm praticado sob coação,  para atender às expectativas sádicas dos homens que querem “arrombar” (uma expressão muito usada para se referir ao ato sexual no ânus, por causa da dificuldade de penetração), as mulheres, para exercerem seu poder, mostrar o lugar de submissão que elas devem internalizar, e manter as divisões sexuais patriarcais intocáveis.”

Este comentário, em minha opinião, é um contributo valioso para se perceber a mensagem que tenho tentado passar de que o modelo de sexualidade é aprendido e de que aquele que continua a ser dominante, apesar de todas as conquistas obtidas pelas mulheres, é o modelo domínio/ submissão. A adoção deste modelo pelas mulheres, quase inevitável dado o contexto, deixa marcas indeléveis na estrutura do seu psiquismo e tem consequências desastrosas a todos os níveis, nomeadamente a nível da sua autonomia sexual, tornando-as coniventes com formas de opressão que agora tem de ser mais sofisticadas, pois não podem ser abertamente declaradas.

Por tudo isto, considero que a tão propalada revolução sexual, que teria libertado homens e mulheres das peias do puritanismo, foi completamente curto-circuitada pela pornografia mainstream e não passa de mais uma balela com que se enganam @s tol@s e se mantém o statu quo, mudando alguma coisa para ver se se consegue que tudo fique na mesma. Acontece, que tanto quanto temos visto, esta estratégia resulta, pelo menos no curto prazo.

domingo, 26 de outubro de 2014

Amor e Intimidade

Antony Gidden escreveu em The Transformation of Intimacy que "a intimidade pode ser opressiva... se for encarada como uma exigência de constante proximidade emocional." Esta afirmação sugere-me algumas considerações que quero partilhar com quem me lê.

Em relação à intimidade, considerada hoje uma componente imprescindível do amor, o que se passa é que os homens, por questões educacionais e culturais, não têm grande dificuldade em revelar experiências sexuais ou desejos “proibidos”; por vezes, até parece que têm prazer nessas revelações - uma espécie de maneira indireta, embora nem sempre consciente, de se valorizarem. Em flagrante contraste, as mulheres têm sempre a sensação de que poderão ser “punidas” pelos parceiros e, por isso, mesmo se não mentem objetivamente, têm tendência a omitir ou a só responder quando questionadas e sempre, e em qualquer dos casos, experimentam desconforto e insegurança nessa situação. Os parceiros poderiam atenuar esse desconforto, se nunca lhes cobrassem nada, mas normalmente não é isso que ocorre e a intimidade acaba por funcionar como mais um mecanismo que permite aos homens, de alguma maneira, controlarem as mulheres.

É permitido, é suposto, que os homens tenham um passado; já as mulheres, mesmo nos dias de hoje, se o têm, precisam de se explicar, de se justificar. Não nos iludamos, as mentalidades continuam persistentemente conservadoras e até reacionárias em relação a este e a muitos outros tópicos. Basta lembrar os exemplos, sobejamente conhecidos, de violência doméstica, os maus tratos e assassínios passionais; mas é preciso perceber que a violência doméstica pode assumir formas muito mais subtis e aqui a exigência de intimidade pode ser uma delas.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O QUE É O EROTISMO

Erotismo, erótico e erotizar são termos que tem um origem etimológica comum e essa origem radica em “eros”, termo que designa o deus grego do amor e do prazer sexual.

Podemos dizer que o erotismo é a exploração, normalmente através da imagem e da palavra, de sentimentos e desejos despertados pelo sexo, e funciona como reforço desses sentimentos e desejos. Assim, por exemplo, um objeto ou uma situação revestem-se de erotismo - assumem uma dimensão erótica – se estimularem o desejo sexual.

Um pouco de atenção aos vários exemplos de expressão de erotismo divulgados e apresentados na literatura, cinema, publicidade, pornografia e muitas outras formas difusas de transmitir e comunicar mensagens, revela que o alvo privilegiado dessas expressões eróticas é o homem, não a mulher. E digo isto porque nessas expressões o objeto erótico visa a atenção dos homens aos quais é oferecido um estereótipo: o da mulher normalmente jovem e bela, mas também lânguida, passiva e expectante, cuja postura revela sex appeal - que suscita o desejo do homem.
Logo aqui se define e constrói a sexualidade masculina e a sexualidade feminina, o homem sujeito sexual, a mulher objeto sexual; o homem ativo, a mulher passiva, ou seja define-se e constrói-se modelos de comportamento masculino e de comportamento feminino.

Não há um erotismo dirigido diretamente para a mulher, provavelmente porque os criadores de literatura, cinematografia, publicidade, pornografia ainda são, em números avassaladores, homens; provavelmente porque o mundo ainda é o lugar dos homens e são eles que definem a “porção” que as mulheres podem ocupar.
Não tendo acesso a um erotismo que se lhes dirija que podem fazer as mulheres? Nelas, como nos homens, o desejo sexual é forte e, por isso, é apenas natural que sintam prazer não em desejar os homens – não é esse o modelo que lhes fornecem – mas em serem desejadas pelos homens. A partir daí, também naturalmente vão investir na sua aparência física, vão exacerbar se possível aquelas caraterísticas que sentem que os homens valorizam, vão colaborar na sua própria objetificação, sem perceberem bem o que lhes está a acontecer e, sobretudo, sem perceberem que estão a “apostar no cavalo errado”.

(para continuar)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

sexualidade e feminismo

A sexualidade é um tema que precisa de ser debatido num enquadramento feminista. Dado que raramente o é, acontece que ninguém percebe como é que ela tem funcionado, enquanto instrumento que paralisa as mulheres nas suas justas reivindicações e as mantém no lugar que o statu quo lhes reserva.

É certo que violência doméstica, violência sexual, prostituição, pornografia e até práticas sadomasoquistas têm merecido alguma atenção, mas esquece-se ou não se percebe que afinal estas situações são simplesmente casos extremos que decorrem da própria estrutura da sexualidade, isto é, do modo como homens e mulheres vivem o sexo, ou melhor, aprendem e são condicionados/as a viver o sexo.

Há um número incalculável de mulheres que julgam que serem liberadas é concordarem e aceitarem alegremente práticas sexuais que não lhes dão qualquer tipo de prazer ou que lhes dão prazer à maneira pavloviana (toda a gente, presumo, conhece a história do cão que saliva ao som da campainha sem precisar do cheiro da comida e toda a gente percebe que se pode passar algo equivalente com certas práticas sexuais). Ora a liberdade, sexual ou outra, passa sempre pela capacidade de autodeterminação e ninguém desenvolve essa capacidade quando alinha só para não ser mal vista, para não desagradar a um parceiro, para não parecer puritana etc. etc. As mulheres têm de aprender a dizer não quando não querem, aprender a gostar de si mesmas e a deixar de se preocuparem com os melindres dos outros.

Mas o que é então a liberdade sexual? Que condições têm as mulheres para gozarem dela?

É muito difícil responder a estas questões, todavia, começo por chamar a atenção para um facto: para uma mulher ser sexualmente livre, nem mesmo basta fazer - na melhor das hipóteses - o que lhe apetece, porque os próprios desejos sexuais são socialmente construídos através de estímulos de vária ordem nos quais os filmes, a publicidade, os romances, as revistas chamadas cor-de-rosa etc. têm uma enorme importância e exercem um terrível condicionamento. Daí que a mulher precise de “policiar” o próprio desejo, pela simples razão de que afinal não se trata do “próprio desejo”.

Por vezes, as mulheres sentem que a conduta sexual a que “livremente”  se entregam lhes transmite uma auto imagem negativa; sempre que isso acontecer, precisam de perceber o que se está a passar, precisam de explicar essa “dissonância cognitiva”.

Isto que até ao momento referi, nada tem a ver com os preconceitos de uma moral sexual repressora que advoga pureza e castidade para as mulheres; bem pelo contrário, penso que a experiência de separar o sexo do comprometimento amoroso é tão importante para mulheres como o tem sido para homens. Tem a ver sim com assertividade, com autodeterminação, com atividade e procura.

Se os homens - que me perdoem porque a culpa não é toda deles - não fossem tão tontos, já teriam percebido que o que lhes dá prazer a eles não é necessariamente o que nos dá prazer a nós. Já teriam percebido o porquê das dores de cabeça das “esposas” (que já “laçaram” o seu homem). Por seu lado, as mulheres, porque não têm poder negocial, em vez de enfrentarem o problema enveredam por estratégias manhosas de manipulação. No fim ficam todos/as a perder.

O sexo pode ser bom, mas, muitas vezes, para as mulheres, mesmo para as tais liberadas ou que se julgam liberadas, não é! Porquê? Será porque não têm controlo sobre o seu próprio corpo e estão condenadas a “viver” uma sexualidade falocêntrica?


Começar a debater seria e serenamente estas questões, em vez de pensar que são apenas os velhos tabus moralistas que afastam as mulheres de uma vida sexual gratificante seria uma boa opção. Até lá, a tão propalada revolução sexual não passará de mais um mito. Claro que há sempre gente que gosta de acreditar em mitos; é mesmo para isso que eles existem.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sexo anal - coerção e pornografia

“Um estudo sobre as razões que levam casais adolescentes heterossexuais a envolverem-se em sexo anal veio a revelar um clima de coerção, em que nem sempre o consentimento e a mutualidade constituem prioridade para os rapazes que tentam persuadir as raparigas a experimentá-lo.
Investigadores da London School of Hygiene and Tropical Medicine entrevistaram 130 adolescentes com idades entre os 16 e os 18 em três regiões diferentes do país para “explorar as expectativas, experiências e circunstâncias do sexo anal entre pessoas jovens".
O estudo qualitativo constatou que o sexo anal hetero apareceu como ”doloroso, arriscado e coercivo, particularmente para as mulheres”  enquanto os homens falaram em ser espectável que persuadissem ou coagissem as suas relutantes parceiras.
O estudo publicado no BMJ Open diz “A prevalência do sexo anal está a aumentar entre os jovens, todavia as relações anais entre homens e mulheres – embora vulgarmente descritas nos media sexualmente explícitos – estão normalmente ausentes da educação sexual mainstream e em muitos contextos sociais nem sequer são mencionadas.”
Considera-se que o sexo anal coercivo, doloroso e não seguro, normalizado por alguns pessoas jovens, é um assunto que precisa de ser objeto de atenção por trabalhadores da área da saúde e das escolas na educação sexual.
(…) As pessoas entrevistadas raramente falam de sexo anal em termos de exploração mútua do prazer sexual, e os preservativos são raramente usados.
Parece haver competição entre os rapazes para terem sexo anal com as raparigas, ao mesmo tempo que a principal razão citada pelos jovens para praticarem sexo anal é que os rapazes querem copiar o que vêem na pornografia e é “mais apertado”.

Destes considerandos podem tirar-se algumas conclusões:

  • Está aumentar a prevalência do sexo anal nos casais hétero adolescentes e jovens;
  • As raparigas são “persuadidas” ou mesmo “coagidas” pelos companheiros;
  • Os jovens são persuadidos ou “coagidos” pela pornografia.
  • Está a pretender-se normalizar o sexo anal quando de facto se tata de uma prática dolorosa e pouco segura para as raparigas.
  • As raparigas parece não terem poder “negocial” nem opções, por isso pergunto: Onde está a revolução sexual? Onde está a capacidade das jovens e das mulheres se auto determinarem sexualmente?

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A sexualidade não corresponde a espontaneidade, a sexualidade é aprendida

3.a 
Voltei a reler o último texto que escrevi e resolvi hoje salientar aquelas que considero serem as ideias chave que precisamos de ter presentes:

·         A sexualidade não corresponde a espontaneidade; a sexualidade é aprendida.

·         O modelo que as mulheres aprendem é o da submissão, da objetificação e da passividade; o  erotismo nas mulheres não consiste em desejar, mas em serem desejadas.

·         Esse modelo ajuda a perpetuar a sociedade patriarcal porque não só define o estatuto sexual das mulheres como define também o seu estatuto enquanto pessoas - o seu lugar no mundo.

·         As mulheres, na sua generalidade, não só não têm consciência de que aprendem a sexualidade como ainda menos têm consciência de que o modelo que aprendem e interiorizam se reveste de consequências devastadoras para a sua autonomia pessoal.

·         Serem “sexy” é a única maneira que as mulheres têm de exprimirem a sua sexualidade; mas é uma maneira passiva, transitória e contingente.

·         Muitas mulheres, particularmente as jovens centram-se na tarefa de serem “sexy” e esquecem que deveriam procurar outras formas de poder e outros lugares no mundo.


Em síntese: a sexualidade é a forma de cada pessoa viver o sexo, mas essa forma de viver o sexo não foi criada por ela própria, e aqui é que está o paradoxo, parece que estamos a falar de uma coisa íntima e pessoal e afinal estamos a falar de uma realidade política (como as feministas da década de setenta descobriram, o pessoal é sempre político).

domingo, 7 de setembro de 2014

3. O modelo de sexualidade que aprendemos não é indiferente para o nosso lugar no mundo

Sexo e sexualidade revestem-se da maior importância na vida das pessoas.O sexo, fonte de prazer, de proibições e de excessos, está associado a poder e poder implica a estrutura hierárquica de domínio/submissão.
No campo da vida sexual, às mulheres, historicamente, foi reservado o estatuto de submissão, mitigado é certo, porque se lhes deixou a possibilidade de serem “sexy”, possibilidade essa encorajada culturalmente.
Ser sexy é ser desejável e quem é desejável sente que tem algum poder, como o sente quem é inteligente, culto ou simplesmente rico, só que estas três fontes de poder, durante milénios reservadas exclusivamente aos homens, são estáveis e permanentes, ao passo que ser sexy é transitório, fugaz e extremamente contingente.
Hoje, que essas outras fontes de poder - inteligência, que pressupõe desenvolvimento intelectual, cultura e riqueza - já estão abertas às mulheres, particularmente no mundo ocidental, continua a encorajar-se as jovens a centrarem-se apenas na exploração da vertente sexual, dos seus atributos físicos, da sua aparência, e elas deixam-se tentar facilmente já que não é preciso grande esforço para ser sexy, ao passo que para ser culto, rico ou perito em alguma coisa é bem mais problemático; assim, tendem a enveredar pelo caminho mais fácil, com a pressão acrescida de ser esse o modelo que constantemente lhes vendem, quando, numa sociedade que quisesse favorecer a autonomia sexual de mulheres e de homens, se devia proceder exatamente ao contrário.
Assim, o primeiro preconceito que temos de combater é o de que a sexualidade é espontaneidade; a sexualidade é aprendida culturalmente e as consequências dessa aprendizagem podem ser desastrosa para a autonomia e capacidade de autodeterminação sexual das mulheres.
Dado o modelo aprendido, as mulheres vivem a sexualidade de forma passiva; a cultura em geral e a religião em particular tudo fazem para o promover, ao valorizarem a castidade sexual, a virgindade e a pureza (para as mulheres) e ao criarem obstáculos para um acesso eficiente a mecanismos contracetivos e, em muitos lugares, ao diabolizarem o aborto, mesmo quando este se encontra enquadrado pela legislação.
São óbvios os interesses das sociedades patriarcais neste tipo de sexualidade feminina e desde muito cedo as meninas aprendem que devem ser recatadas, não promíscuas, e que devem associar o sexo a casamento ou a uma relação estável. O modelo fornecido aos meninos é exatamente o oposto deste.
Esta aprendizagem da sexualidade pelas mulheres é mais importante do que podemos pensar, devo mesmo dizer que a maior parte das mulheres nem sequer se apercebe da sua importância e, por isso, não se rebela, tornando-se inconscientemente cúmplice de um sistema que aliás seria muito difícil de vencer porque tudo se conjuga para ajudar a mantê-lo.
Ora a aprendizagem deste tipo de sexualidade pelas mulheres é muito importante porque através da adopção  desse tipo de sexualidade é definido o seu lugar no mundo. Esta implicação têm-lhes escapado e por isso nunca será de mais chamar a atenção para este fenómeno.
Aliás é tão importante para a sociedade patriarcal reforçar e manter este modelo que, no preciso momento em que a religião começou a perder a força cultural que durante tempos imemoriais possuiu - estou a pensar no século XIX- logo, as ciências em geral, e particularmente, a medicina, a psicologia e a sexologia começaram ativamente a prescrever comportamentos apropriados para as mulheres e estes muito pouco se afastavam daqueles que a religião sempre preconizava (claro que era preciso mudar alguma coisa para manter tudo na mesma). Quer dizer, numa altura em que a influência religiosa parecia declinar, apareceram logo outros prosélitos da moralidade sexual, aplicada sobretudo às mulheres.
A partir da segunda metade do século XX, com a chamada revolução sexual, parecia que se ia assistir a uma modificação substancial no modelo de sexualidade proposto para as mulheres e de facto avançou-se alguma coisa, mas temo bem que esse avanço não esteja a dar-se no sentido da verdadeira autodeterminação sexual das mulheres e que mais uma vez, como ocorreu no século XIX, se esteja a vender gato por lebre (a mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma. Na próxima "lição" vou tentar clarificar estas minha safirmações.