quarta-feira, 11 de maio de 2016

MISOGINIA - o mais velho preconceito do mundo


Diferentemente do racismo, a misoginia não é percebida pelos homens como um preconceito, mas como algo quasi inevitável. … A misoginia tem sido parte do que o historiador do holocausto, Daniel Goldhagen, designou de ‘senso comum’ da sociedade. Foi um preconceito demasiado óbvio para ser percebido. 

Em diferentes civilizações, em diferentes tempos, o registo histórico é claro: sempre se considerou como perfeitamente normal que os homens condenassem as mulheres ou expressassem diretamente desgosto por elas, simplesmente por serem mulheres. Todas as maiores religiões do mundo e os mais renomados filósofos mundiais olharam para as mulheres com desprezo.
[Nos nossos dias] no vocabulário corrente do rap as mulheres são ‘cadelas’ e ‘putas’.  (mas não é só o rap). Grupos como os Rolling Stones [por exemplo] em 1976 publicitavam um album ‘Black and Blue’, com a imagem de uma mulher violentamente agredida, amarrada a uma cadeira. Embora o flagrante desprezo do rap pelas mulheres tenha vindo a ser atacado tanto por mulheres negras como por outros movimentos, é claramente um produto da cultura de alienação e frustração no qual a misoginia ainda prevalece como parte do ‘senso comum’ da sociedade. “

Texto adaptado de Jack Holland. “A Brief History of Misogyny: The World's Oldest Prejudice.” 

sábado, 9 de abril de 2016

Misoginia na Grécia antiga e em Roma


No mundo grego, a misoginia era de tal modo intensa e pervasiva que excluía completamente as mulheres da vida pública. Péricles, o maior estadista ateniense  do século V a. C. resumiu de forma exemplar essa atitude; segundo palavras suas, uma boa mulher era  aquela de que não se falava, nem sequer para elogiar. Por isso, não é de estranhar que não tenham chegado até nós quaisquer nomes de mulheres da época; pura e simplesmente foram ignoradas e não lhes conhecemos qualquer protagonismo. O gineceu era o seu espaço  e a sua prisão.
Já no mundo romano, o panorama é algo diferente, conhecemos, embora normalmente pelos ‘piores’ motivos, os nomes de várias mulheres, de entre as quais se destacaram: Messalina, lembrada pelos excessos sexuais; Agripina, ambiciosa e sedenta de poder; Semprónia, prostituta de alto gabarito, conspiradora e revolucionária; Cleópatra, sedutora e política hábil. Claro que estas memórias foram transmitidas por homens que nem sequer se deram ao trabalho de esconder a flagrante misoginia que estas mulheres, no mínimo corajosas, tiveram de desafiar. 
As mulheres romanas tinham de vencer vários obstáculos, desde logo, o infanticídio feminino, que, tal como acontecia na Grécia, era permitido. Depois as leis do casamento que as colocavam na completa sujeição de seus maridos e senhores, com poder de vida e de morte sobre as suas pessoas.
O adultério e o consumo de vinho eram crimes suscetíveis de serem  punido com a pena de morte.
O historiador Valerius Maximus elogia o aristocrata Metellus, que matou a mulher ao surpreendê-la a beber vinho - provavelmente sem qualquer moderação - nos seguintes termos: 

“Não apenas ninguém o acusou de crime como nem sequer o censurou. Todos consideraram tratar-se de um exemplo excelente de uma pessoa que tinha punido justamente alguém que violava as leis da sobriedade. Na verdade, qualquer mulher que procura imoderadamente o consumo de vinho fecha a porta a todas as virtudes e abre-a a todos os vícios.”

O mesmo historiador louva Gaius Sulpicius Gallus por se ter divorciado da mulher por esta expor os seus cabelos em público, mostrando assim falta de decoro, ao  não reservar as suas belezas para o marido (resta dizer que só os homens tinham o poder e o direito de se divorciarem das respetivas mulheres).


Estas duas breves histórias documentam a misoginia romana de que, como é sabido, ainda hoje remanescem práticas em países de tradição muçulmana, tais como o apedrejamento das mulheres até à morte por adultério e o uso do véu islâmico.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Feministas são pessoas ...


“Feminismos não são isentos de relações de poder, e do atrito entre essas relações costumam sair faíscas de tretas. Mas me parece que o incêndio se dá porque o feminismo, infelizmente, também não está livre da monolética. (E a monolética vem a ser um neobobismo meu, para significar a anti-dialética, ou seja: dois monólogos concomitantes, sem que uma interlocutora escute, de fato, a outra.)

Feministas discordam umas das outras o tempo todo, e na maioria das vezes tudo corre bem: o discurso até progride por conta dessas divergências. Mas algumas feministas se digladiam por causa de suas divergências. Eu gostaria muito que não fosse assim, mas é. Feministas são – imagine você – pessoas.

Algumas pessoas são maravilhosas: divertidas, inteligentes, generosas. Outras pessoas são horrorosas: agressivas, bitoladas, egoístas. No entanto a maioria das pessoas não é nenhuma coisa nem outra, mas sim uma combinação do que é bom, ruim, belo e feio. Feministas são seres humanos, com defeitos e qualidades, que erram e acertam.
(…)
Mas estar cansada de algumas atitudes demonstradas por algumas feministas não invalida o movimento. Vou te contar um segredo: as feministas não precisam ser perfeitas. (Eu especulo, inclusive, que a expectativa pela “feminista perfeita” não passe de uma extensão da ideia machistinha de que as mulheres tenham que ser perfeitas. Mas essa é outra conversa.)

Seria bacana se sempre nos respeitássemos entre nós? Certamente. O patriarcado já gosta bastante de nos silenciar, de tornar nossa fala abjeta, ou nos condenar quando pisamos na bola e nos engasgamos com um conceito mal-articulado.

Mas o feminismo sempre vai ser um lugar de problematização, questionamento, desconstrução de privilégios e insights dolorosos. Seria lindo se conseguíssemos, sempre, discordar com elegância e seguir adiante. Mas é inevitável que, às vezes, uma problematização seja feita de forma agressiva. Algumas pessoas são agressivas. E feministas – já sabe – são pessoas.”

Excerto de um artigo publicado  na CartaCapital, 11-02-2016, de Joana Burigo


sábado, 23 de janeiro de 2016

Misoginia nos nossos dias

A misoginia só pode ser inteiramente entendida se for entendida enquanto fenómeno político; perde conteúdo quando reduzida ao domínio de relações individuais porque, mais uma vez, estamos perante uma situação em que é o macro fenómeno que permite elucidar o micro fenómeno, não o contrário. 

Assim como os conflitos laborais são conflitos de classe - não se trata do fulano B, trabalhador individual, ter alguma coisa contra o fulano A (dono da empresa) - também a misoginia tem de ser entendida no mesmo sentido; na misoginia também não é um indivíduo C que odeia em geral as mulheres (as mulheres enquanto classe); mas é o sistema social e político que está todo ‘armadilhado’ para desvalorizar as mulheres em geral, as mulheres enquanto classe.

O sistema funciona de modo a mascarar formas não institucionais de dominação dos homens sobre as mulheres, funciona de modo a tornar as mulheres deferentes e submissas em relação aos homens, sem que elas mesmas se dêem conta dessa subserviência. Consegue ainda mostrar as relações entre homens e mulheres como amigáveis e como relações entre iguais.

A hostilidade só é patenteada em determinadas situações, na maioria dos casos há apenas opiniões menos favoráveis às capacidades das mulheres, pelo menos em domínios preponderantemente masculinos. Todavia, alguma atenção à publicidade e ao entretenimento, por exemplo, mostra como são mantidos os estereótipos e permite compreender por que é que, quando ‘o leite azeda’, o ódio aparece em todo o seu esplendor.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

SEXO E MORALIDADE


A história de Lucrécia, contada pelo historiador romano Tito Lívio, ilustra de modo flagrante a íntima ligação entre sexo e moralidade. Lucrécia, esposa de reconhecida virtude, foi violada por Tarquínio, o último rei de Roma, que exerceu pressão direta (força física) ou ameaçou matá-la e de seguida encenar o envolvimento dela com um escravo. Lucrécia acabou por se suicidar tendo proclamado: “como pode uma mulher viver bem se perdeu a sua castidade?” A família vingou-se e Traquínio viu-se obrigado a fugir.

Este acontecimento foi objeto de numerosas pinturas e narrativas dramáticas, e até mesmo de comentários filosóficos. Kant, pr exemplo, já em fins do século XVIII, um filosofo tão reto e irrepreensível teve o 'descaramento' de reprovar Lucrécia por não ter resistido antes de se sucidar.

A história de Lucrécia ilustra a ligação intima que a sociedade e também os seus mentores têm estabelecido entre comportamento sexual e valor ético da pessoa, sobretudo no que às mulheres diz respeito. Hoje temos dificuldade em ver, ou pelo menos em justificar, esta ligação que se manteve, pelo menos no nosso país, até aos fins do seculo XX e que execrava a mulher solteira não virgem ou a mulher casada adúltera, consideradas não dignas de respeito social e moral. Aqui no ocidente, particularmente nos países de tradição latina como Portugal, uma jovem que tivesse tido relações sexuais com o namorado era considerada desonrada; era assim que as pessoas se lhe referiam. A mulher honesta devia ser casta e tal significava ter relações só com o marido. Para a mulher a “pureza sexual” era condição sine qua non para ser considerada uma “pessoa” honesta.
 
 Ainda hoje, malgrado alguns avanços, esta mentalidade está presente bastando para tal lembrar o assassínio frequente de mulheres pelos seus companheiros.
Erradicar esta mentalidade é tarefa complicada, mas podemos sempre perguntar:
O que é que uma determinada prática sexual ou o que é que um determinado comportamento sexual têm a ver com a bondade ou maldade, com a generosidade ou com a lealdade ou com a probidade da pessoa humana?
 

 



domingo, 31 de maio de 2015

Da natureza do desejo sexual


Continuo a explorar ideias sugeridas pelo vídeo de Flávio Gikovate a que assisti há tempos.

Não o acompanho na tese que defende acerca do desejo sexual. Gikovate distingue o desejo sexual masculino do desejo sexual feminino, dizendo, entre outras coisas, que o desejo sexual masculino é visual, isto é, que é despertado pelas caraterísticas visuais do objeto e que o desejo sexual feminino não tem essa componente visual pois a mulher excita-se por se sentir desejada, quer dizer, não deseja ativamente.
Eu não nego que isto seja verdade, só defendo que é assim porque foi, e continua a ser, construído assim. Se dermos atenção aos estímulos eróticos, na publicidade, filmes e outros meios de veicular mensagens, verificamos que têm como público-alvo os homens e são constituídos por mulheres, ou partes de mulheres (estranho, não é?!) apresentadas como lânguidas, recetivas, expectantes, numa palavra passivas. Em contrapartida, não existe (ainda) um erotismo cujo público-alvo sejam as mulheres. Se calhar isso acontece porque os donos da comunicação social são, na sua esmagadora maioria, homens, preocupados muito naturalmente com os seus interesses, não com os interesses das mulheres.
Enquanto mulher, não só não aprecio homens feios, mal cuidados e barrigudos, como aprecio homens bonitos, com corpos bem desenhados e atitude sensual; mas também devo lembrar que sempre ouvi dizer que os homens não precisam de ser bonitos, foi essa a mensagem que me chegou quando era adolescente e jovem e penso que ainda hoje é dominante.

Claro que esta mensagem é muito confortável para os homens que precisam de perder muito pouco tempo com aparências e que desse modo se podem concentrar em adquirir outros bens mais duradouros e eficientes. Só é pena que as mulheres, bloqueadas e manipuladas por mecanismos de vária ordem, não percebam que deviam preocupar-se mais em desenvolver a sua inteligência e em adquirir saberes do que em gastar tempo e energia com ninharias que apenas lhes conferem, quando conferem, um poder efémero.

domingo, 15 de março de 2015

Sadomasoquismo e ética

Quando se defende que nada há de errado nas práticas sadomasoquistas desde que pressuponham consentimento e correspondam ao desejo da pessoa que vai estar no lugar de ‘vítima’, esquece-se que de facto essas práticas são eticamente condenáveis, pelo menos à luz de duas das mais consideradas teorias éticas, a utilitarista e a rawlsiana, pois estas duas teorias, embora divergentes em muitos aspetos, concordam na consideração de que “o bem é a satisfação de um desejo racional” e que qualquer comportamento eticamente valioso tem de perseguir o bem.

Se nós acordarmos em que o ser humano é um agente racional e é capaz de escolhas racionais, temos de aceitar que não é racional alguém desejar sofrer violência física ou violência simbólica, por exemplo, querer ser degradado e humilhado; portanto, as práticas sado masoquistas, independentemente do consentimento e do desejo, têm de ser avaliadas negativamente do ponto de vista ético.

Um outro aspeto tem a ver com o desejo e com o facto dele nem sempre ser racional porque pode acontecer que decorra de uma construção social, conseguida através de mecanismos subtis e com objetivos que nos escapam. Corremos sempre o risco de formarmos desejos que só aparentemente são nossos, se estivermos desatentos e não exercermos uma atitude crítica/racional. Ora, se temos desejos irracionais é nossa obrigação moral combatê-los em vez de tentar satisfazê-los sob a alegação de que são nossos, gostamos e não prejudicam ninguém, porque de facto prejudicam e nós somos a primeira vítima pois a nossa autoestima vai ser duramente atingida.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sexo, poder e agressividade


De Flávio Gikovate parece-me interessante o livro: “A Libertação Sexual: rompendo o elo entre o sexo, o poder e a agressividade”. De entre aqueles que recentemente têm refletido sobre sexo, eis-nos perante um dos poucos que abandona o tipo de análise politicamente correta para ir ao cerne das questões, mostrando que, afinal, como diz o ditado, “o rei vai nu” e que a tão propalada revolução/emancipação sexual está muito perto de mais uma mistificação, cujo propósito terá sido o de “mudar alguma coisa para que tudo pudesse ficar na mesma. 

A ligação sexo, poder e agressividade continua presente na relação heterossexual, genericamente falando, e sobretudo nas práticas sadomasoquistas que “alguém” parece querer revitalizar, vide a publicidade do filme mais recentemente badalado.

Diz Gikovate, citando Ortega y Gasset, que, sendo uma das capacidades mais importantes da inteligência humana a de dissociar, está mais que na hora de dissociar sexo de agressividade. Todavia essa dissociação só será possível a partir do momento em que os justos, que constituem uma minoria de pessoas, se sobrepuserem aos generosos e aos egoístas. Repare-se que Flávio Gikovate está a ir contra o senso comum que tem a tendência a associar generosidade a justiça; ora não é preciso nem desejável que haja generosos porque são estes que alimentam os egoístas; o que é preciso é que haja pessoas justas e um princípio básico de justiça é o de respeitar a autonomia, logo a liberdade de cada um. Deste modo, a velha, consolidada e alimentada propensão das mulheres para serem generosas – masoquistas - (a fim de agradarem aos mais poderosos: pais, irmãos, filhos, maridos), é aquilo que alimenta o egoísmo dos sádicos que tiram prazer do domínio que têm sobre elas, julgando-se fortes na justa medida em que conseguem exercer esse poder.

Por tudo isto, as mulheres precisam começar a gostar de si mesmas, a satisfazerem os seus legítimos direitos, nomeadamente o direito a serem autónomas, nos vários domínios das suas vidas e, particularmente, no domínio da autonomia sexual.


Será importante que não deixem que as coisas lhes aconteçam. Mas que façam as coisas acontecerem! Todavia, não esqueçam que, embora a liberdade seja poder para se autodeterminarem, as escolhas que venham a fazer não são neutras, não têm todas o mesmo valor pois há escolhas que podem limitar a  liberdade da pessoa humana.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sexo e agressividade

Acabei de assistir a um vídeo muito interessante em que Flávio Gikovate discorre sobre amor e sexo e vou tentar dar conta de algumas das ideias que retive e de outras que desenvolvi a partir das que aí são expressas.

A primeira constatação a que se chega quando se reflete sobre sexo é que existe uma ligação entre sexo e agressividade tão antiga quanto a própria humanidade; essa ligação é comprovada, entre outras coisas, pela matriz sexual da linguagem do insulto e pela própria linguagem que descreve comummente o ato sexual em termos de violência e de conflito. Por outro lado, embora possa envolver duas ou mais pessoas, o sexo é egoísta e visa à gratificação de um instinto que é do indivíduo; implica um estado de excitação e de inquietação que se procura acima de tudo apaziguar, alcançando uma gratificação pessoal.

Dada a constatação acima referida entre sexo e agressividade e sexo e egoísmo, tem de aceitar-se que o sexo não só não é parte do amor como desrespeita o sentimento amoroso; este, resultando e acompanhando uma relação interpessoal, implica cuidado com o outro, respeito pelo outro.
Também, dada a ligação entre sexo e agressividade, fica meio difícil falar, como se fala, em libertação sexual. A emancipação sexual, para ser autêntica tem de pressupor a capacidade de dissociar sexo de agressividade; mas essa dissociação só será possível se se der uma mudança cultural ou, como também se diz, uma mudança das mentalidades. Como ainda não se deu, o sexo continua a ser uma questão muito mal resolvida e por isso é que se fala tanto dele.


De modo que, da tão apregoada revolução sexual, cujo início se reporta aos anos sessenta, como diz Flávio Gikovate, e eu não podia estar mais de acordo, o que sobrou foi o direito de as mulheres se exibirem mais. Eu acrescentaria que foi também o “direito”, altamente duvidoso, se entendermos o direito como um determinado tipo de interesse, de as mulheres alinharem em práticas sexuais, que até nem lhes agradam, pela necessidade que ainda sentem de agradarem aos homens e pelo receio de serem apodadas de puritanas e de antiquadas se o não fizerem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O sexo mais seguro do mundo

“Eis a coisa mais natural do mundo - a nossa própria mão nos nossos genitais, fazendo algo que nos dá prazer e não prejudica ninguém, praticando o sexo mais seguro no mundo – no entanto sentimo-nos culpadas como se fossemos ladras, o nosso sentido do eu diminuído quando deveria sentir-se elevado pelo controlo e amor-próprio.
A masturbação não é, apesar de tudo, uma habilidade difícil, como aprender a tocar violino. A mão move-se automaticamente entre as nossas pernas a partir do primeiro ano de vida. Algo, alguém ‘se colocou’ entre ela e os nossos genitais tão cedo que a maior parte de nós nem consegue lembrar-se.
Uma mensagem foi impressa no nosso cérebro, um aviso tão impregnado de medo que, muito tempo depois de sermos crescidas, mesmo depois de termos permitido que um homem introduzisse um pénis dentro de nós, para tocar os nossos genitais, experimentamos sentimentos de ambivalência acerca de nos tocarmos a nós próprias. Podemos fazê-lo, mas é um ato físico contra uma pressão mental - esse delicado movimento dos nossos dedos apenas é efetivo quando a mente nos liberta. Doce como o orgasmo é, nós não ficamos com um sentido fortalecido de feminilidade. Ganhamos a batalha, mas perdemos o estatuto de Boas Raparigas.
Costumava considerar-se a masturbação o grande tabu para as mulheres porque representava satisfação sexual fora de uma relação. A masturbação significava uma medida de autonomia e ninguém queria que as mulheres tivessem demasio controlo sobre si próprias.”
Nancy Friday: Women on Top: How real Life has Changed Women´s Sexual Fantasies, p. 19.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Exibicionismo sexual ou emancipação sexual?!

  Os pensadores que, por um lado, constroem o discurso na base de metáforas, aforismas, declarações enfáticas e expressões pregnantes e, por outro, descuram a vertente racional/argumentativa exercem normalmente enorme fascínio sobre os leitores. Prestam-se obviamente a interpretações diferentes e até divergentes, pois cada um apropria-se à sua maneira do pensamento do autor e “afeiçoa-o” aos seus objetivos; por isso é que vemos conservadores e progressistas, setores de esquerda e de direita tecerem encómios a pensadores que corporizam esse modelo, como por exemplo Nietzsche, um dos que, em decorrência, defendia que não há verdade, só interpretações. Um fenómeno paralelo ocorreu e ocorre com Sade.

    Sade encontra os maiores defensores em certa intelectualidade de esquerda e, pasme-se, até recolhe alguma benevolência da parte de feministas como Simone de Beauvoir e Ângela Carter que realçam aquilo que pode ter havido de ‘revolucionário’ no pensamento de Sade relativamente à sexualidade, em particular à sexualidade feminina. Ora a este propósito ocorre-nos perguntar como é que o defensor entusiasta de um certo tipo de terrorismo sexual, exercido preferencialmente contra as mulheres, pode ter dado qualquer contributo para qualquer revolução sexual.

    Vejamos o argumento dos admiradores do “divino marquês”. Dizem que dessacralizou o sexo, ao ignorar ostensivamente e mesmo ao desprezar a sua vertente reprodutiva, ao serviço da vida. Bem o argumento parece frágil porque, embora se possa reconhecer que foi positivo, sobretudo para as mulheres, o enfraquecimento do vínculo entre sexo e reprodução, tal não se deveu a qualquer putativa dessacralização, mas a eventos técnicos que dão liberdade de escolha às pessoas e que não implicam qualquer diabolização da reprodução e da maternidade. 

    Dizem ainda que certas heroínas sadianas, como por exemplo a Julieta da novela do mesmo nome, são personagens femininas que se assumem como autênticos símbolos da mulher sexualmente emancipada. Mas quem profere este tipo de afirmações esquece que essas “heroínas” aceitam e procuram alegremente todas as práticas sexuais que os homens apreciam. Ao fim ao cabo lembram as personagens femininas da pornografia mainstream, muito entusiasmadas com práticas que, temos boas razões para supor, não lhes dão qualquer prazer, embora finjam esse mesmo prazer para inglês ver, isto é, para consumo masculino.

    Esta tese  da revolução sexual e das mulheres sexualmente emancipadas parece muito cara a certos homens, mas estes dão pouca atenção ao que seja a emancipação sexual. O objetivo desses homens, embora não declarado, e às vezes não consciente, é o de terem um número cada vez maior de mulheres recetivas às práticas sexuais que eles apreciam. Ora, se as palavras são para terem algum sentido, as mulheres emancipadas são as que manifestam capacidade de se autodeterminarem sexualmente, decidindo o que querem ou não fazer, não são as que dizem sempre sim a tudo, fingindo que é tudo muito gostoso e que estão a ter um grande e fabuloso sexo, para depois contarem às amigas. 

   Quem fala nestes termos em emancipação sexual feminina ainda não percebeu que a sexualidade feminina continua confiscada porque sujeita a um modelo masculino e a um erotismo masculino, construídos e reforçados social e culturalmente. Hoje, mais do que nunca há muito exibicionismo sexual feminino, mas continua a não haver liberdade sexual feminina. É bom que nos entendamos e nos deixemos de mistificações.


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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sexualidade e cultura


Quanto mais não seja, por uma questão cultural, a relação heterossexual continua a ser uma relação de domínio/submissão; é assim que é percebida e é assim que é referida através do tipo de linguagem usada para a exprimir que, como bem sabemos, é uma linguagem de violência, de domínio e de humilhação; por isso é que é utilizada quando se quer insultar/agredir alguém. 


Se calhar não é pois por acaso que mulheres solteiras (desacompanhadas e autosuficientes), divorciadas ou viúvas são normalmente muito mais assertivas, livres e autónomas, o que pode estar relacionado com o facto de não terem um macho/guardião que as coloca na sombra. Penso que um homem, a partir do momento em que tem relações sexuais com uma mulher, sobretudo se não forem apenas casuais, começa lenta e paulatinamente a sentir que pode/deve controlá-la e a controlá-la efetivamente, não só nos seus passos, mas até no seu pensamento e então lá se vai a reciprocidade e o respeito que devia caraterizar a relação. Este percurso é quase inevitável e poucos conseguem resistir a esse apelo em que as fronteiras entre o natural e o cultural se encontram esbatidas. Portanto parece haver ligação entre a secundarização e inferiorização das mulheres e o modelo de sexualidade prevalecente.

(A utilização da linguagem sexual para insultar pessoas é tão óbvio que deveria merecer a atenção dos estudiosos da linguagem, mas de facto não conheço nenhum estudo sobre o assunto.)