segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Sexualidade e Ética

2 - Sexualidade e ética
Estabelecida a distinção entre sexo e sexualidade, no texto anteriormente publicado, cumpre agora chamar a atenção para a dimensão ética da sexualidade, o que significa dizer que ela não é neutra em relação a valores de bem e de mal, que é suscetível de avaliação ética.
A sexualidade, sempre que implique relação interpessoal, (e há casos em que isso não acontece, estou a pensar, por exemplo, na masturbação), supõe a preocupação com o próprio e com o outro, enquanto pessoas que se devem respeito recíproco. O sexo, na medida em que implica entrar em relação com o outro, como qualquer atividade interpessoal, não pode ignorar os legítimos interesses deste, isto é os seus direitos, simétricos dos nossos. As pessoas são agentes racionais capazes de se auto-determinarem livremente e, por isso, tem uma dignidade que os objetos não revestem. Decorrem daqui certas condições que a sexualidade humana pressupõe:

(1) Desde logo o consentimento: não é eticamente aceitável uma relação sexual em que uma das partes não consinta. Hoje defende-se mesmo que o consentimento não deve ser presumido pelo facto de a mulher não dizer “não”, ela tem de ser afirmativa e não apenas reativa.

(2) Um outro aspeto tem a ver com certas formas de coerção exercidas sub-repticiamente pelo parceiro sexual com o objetivo de “obrigar” a companheira a alinhar em práticas sexuais em que ela se sente desconfortável e que só aceita para lhe ser agradável, ou para não parecer antiquada ou puritana. (estou a pensar no sexo anal que foi objeto de um estudo recente que revelou níveis preocupantes de coerção na população adolescente feminina).

(3) Por último, mas não menos importante, o princípio da reciprocidade deve ser sempre reconhecido e estar sempre presente; apenas para dar um exemplo dessa reciprocidade, lembremos que o sexo oral não pode ser entendido como “feito” pela mulher ao homem. Parafraseando Linda LeMonchek, que não queria discutir o dualismo cartesiano na cama, ninguém quer discutir reciprocidade na cama, mas não pode sentir, nem de perto nem de longe, que ela está em falta, porque, se isso acontecer, pura e simplesmente não alinha, ou não deve alinhar.

Em síntese, podemos dizer que o respeito pelas pessoas tem de estar implícito na relação sexual. Mas temos de lembrar que a pornografia por um lado e a prostituição por outro dificultam a interiorização deste princípio e, infelizmente, são essas as duas vias através das quais os jovens aprendem a sexualidade que depois ensinam às companheiras.
Prostituição e pornografia objetificam a mulher e promovem e divulgam estereótipos de papeis sexuais que a desvalorizam enquanto pessoa. Ora, sendo a sexualidade aprendida fundamentalmente por estes dois meios, temos todos os motivos para recear que ela continue a ser um instrumento para manter o statu quo e a assimetria de género.
A revolução sexual não consiste apenas nem principalmente na maior liberdade das mulheres para se entregarem a atividades sexuais, embora este aspeto seja importante. Em certo sentido, e numa apreciação um tanto cínica, poderíamos dizer que esse tipo de revolução interessa sobretudo aos homens porque assim encontram um maior número de mulheres disponíveis. A verdadeira revolução sexual só será alcançada quando houver real capacidade de autodeterminação sexual tanto de mulheres como de homens e esta está decididamente por fazer.


sábado, 30 de Agosto de 2014

Sexo é inato, sexualidade é aprendida

Resolvi iniciar a partir de hoje um mini curso sobre educação sexual e assumi que a primeira lição vai ser àcerca da distinção entre sexo e sexualidade. Comecemos pois pela clarificação destes dois conceitos.

O sexo é da ordem do instinto, existe nos seres humanos e nos animais, enquanto pulsão e enquanto saber fazer inato; o sexo é, se quisermos, da ordem do natural, não pressupõe aprendizagem e é um instinto que se encontra ao serviço da perpetuação da espécie que, sem ele, estaria condenada a perecer.  Diferentemente de outros instintos, como por exemplo, a fome e a sede, se não for satisfeito, pode ocorrer frustração, ansiedade ou mesmo contrariedade, mas não ocorre a morte do indivíduo, já que neste particular é apenas a sobrevivência da espécie que é posta em causa.

Devemos realçar, todavia, que os seres humanos, diferentemente de outros animais, possuem um número muito reduzido de instintos, embora, em contrapartida, possuam múltiplas potencialidades comportamentais, sendo extremamente moldáveis e dotados de enorme plasticidade. É aqui que entra a sexualidade.

A sexualidade é o modo como os humanos vivenciam o sexo, como satisfazem o instinto, podendo inclusive sublimá-lo ou orientá-lo para outros objetivos que não a reprodução. É óbvio que a sexualidade, enquanto expressão do sexo, depende da cultura e da sociedade em que as pessoas vivem; assim por exemplo, durante muito tempo, especificamente na Idade Média de matriz cristã, era impensável separar o sexo da reprodução até porque se considerava que só esta o legitimava porque correspondia à vontade divina. Este exemplo mostra porque dizemos que a sexualidade, diferentemente do sexo, é aprendida; ora, sendo os humanos extremamente moldáveis podem aprender um número imenso de comportamentos em vários domínios e, de entre estes, no domínio sexual.

Assim, hoje, o sexo é entendido não só enquanto capacidade procriativa,  mas também tem uma dimensão recreativa iniludível, ou pode ser ocasião de união entre pessoas, de procura recíproca de prazer, de procura do restabelecimento de unidade. Lembremos o mito dos andróginos, contado por Aristófanes, no Banquete, de Platão, no qual o dramaturgo vê o sexo como tendo por função unir aquilo que os deuses tinham separado num passado longínquo, reconstituindo assim uma totalidade perdida.
Para além desta visão romântica, todavia, há outras maneiras de viver o sexo, e, de entre estas, a mais perturbadora é a vivência do sexo enquanto meio de dominar o outro, enquanto exercício de poder; esta é a sexualidade que designamos de domínio/submissão que a todos/as é familiar.
Essa vivência do sexo como domínio/submissão está profundamente enraizada porque reflete a estrutura da sociedade e as assimetrias de poder que, particularmente nas relações entre homens e mulheres, têm sido mais do que evidentes. Num passado muito presente ainda, o filósofo alemão Nietzche definia o homem como vontade de poder que se reconheceria através da fórmula: “eu quero” e, paralelamente, destinava à mulher um papel de submissão, reconhecido através da fórmula “ele quer”.
Entretanto algumas coisas mudaram, algumas assimetrias esbateram-se, mas a um nível mais profundo, particularmente ao nível do psiquismo, muita coisa continua por fazer.

Posta esta diferença entre sexo e sexualidade, o que pretendo que se retenha é que a sexualidade é aprendida, é um fenómeno condicionado pela cultura, pela economia, é um fenómeno social, que consequentemente pode alterar-se, se as condições económicas, sociais e culturais também se alterarem.
Um outro aspeto que distingue o sexo da sexualidade é que esta tem sempre uma dimensão ética, mas ficará para a próxima “lição” a exploração deste aspeto.

P.S. Gostaria de lembrar que a educação sexual é um tema particularmente complexo e difícil; se calhar é por isso que ela não é implementada, como se pretendia, nas escolas e os adolescentes ficam à mercê de circunstâncias de vária ordem, nem sempre as mais consentâneas com uma aprendizagem que conduza a uma verdadeira e autêntica autodeterminação sexual.
Decidi dar o meu contributo para o tema e espero que estes textos venham a ser lidos não só por adultos mas também por adolescentes. Peço desde já desculpa pelas minhas insuficiências:
·         Se calhar vou dizer asneiras, só espero que não sejam muitas;
·         Se calhar vou dizer coisas com pouco interesso, só espero que as trivialidades não sejam muito frequentes.
·         De qualquer modo, estou aberta à crítica e sinceramente espero que as pessoas, por vergonha ou outros motivos, não se retraiam de exprimir os seus pontos de vista.




sábado, 21 de Dezembro de 2013

Sade e o sado masoquismo


O Marquês de Sade, tão exaltado por intelectuais ilustres, apodado por alguns como o divino marquês, em “Os 120 dias de Sodoma”, num discurso proferido pelo Duque de Blanchis, que se supõe ser a personagem com a qual Sade mais se identifica, refere-se às mulheres nestes termos:

“Frágeis e agrilhoadas criaturas destinadas exclusivamente a nossos prazeres, creio que não vos iludistes supondo que a ascendência igualmente absoluta e ridícula que vos é dada no mundo exterior vos seria concedida neste lugar; mil vezes mais subjugadas do que os possíveis escravos, só deveis esperar humilhação, e a obediência é a única virtude cujo uso vos recomendo: ela, e nenhuma outra, serve ao vosso estado presente. Acima de tudo, não vos entre na cabeça depender do mínimo de vossos encantos; somos completamente indiferentes a essas armadilhas e, podeis acreditar, tais engodos não dão resultado connosco. Tende incessantemente em mente que faremos uso de vós todas, mas que nem uma única de vós necessita de se iludir imaginando que é capaz de nos inspirar qualquer sentimento de piedade. Levantados em fúria contra os altares que nos conseguiram arrebatar alguns grãos de incenso, nosso orgulho e nossa libertinagem estilhaçam-nos assim que a ilusão satisfaz nossos sentidos, e o desprezo quase sempre seguido do ódio assume instantaneamente a preeminência até então ocupada pela nossa imaginação. O quê, alem disso, nos poderíeis oferecer que não conheçamos já de cor, que nos ofertareis que não esmaguemos sob nossos calcanhares, muitas vezes no próprio momento em que o delírio nos transporta?

Inútil escondê-lo de vós: vosso serviço será árduo, será doloroso, e rigoroso, e as menores delinquências serão imediatamente retribuídas com punições corporais e angustiantes; por isso, devo recomendar-vos pronta obediência, submissão, e uma total auto abnegação que vos permita satisfazer apenas nossos desejos; deixai que eles sejam vossas únicas leis, correi ao encontro deles, antecipai-vos, provocai-os. Não que tenhais muito a lucrar com essa conduta, mas simplesmente porque, não a observando, muito tereis a perder.”

Sade: Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, Hemus, 1969, pp. 56-57

Resumindo, o programa sadomasoquista tem as seguintes implicações

·         As mulheres apenas existem para o prazer dos homens: satisfazer os seus desejos e serem usadas por eles;

·         A única virtude que devem cultivar é a obediência e a auto abnegação;

·         Não vale a pena tentarem tirar partido dos seus encantos pois estes, uma vez saciado o desejo, nada representam para os homens;

·         Depois de satisfeito o desejo, para as mulheres só resta desprezo e ódio de que pode mesmo resultar a sua aniquilação no momento em que o macho atinge o orgasmo.

·         O melhor que podem fazer é adivinhar os desejos do homem, estarem sempre de prontidão para evitarem outras punições mais graves.

quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

Sadomasoquismo e ética


Para muitas pessoas, desde que exista consenso genuíno entre as partes, as práticas sadomasoquistas não levantam qualquer problema ético. Argumenta-se que o desejo sexual é virtuoso por si mesmo, é bom, e tudo o que o satisfaça, desde que não haja o recurso à coação ou à fraude, é legítimo.

Aqueles que se colocam nesta posição estão a dar uma resposta liberal a este problema; mas este tipo de resposta, considerando o estado atual dos nossos conhecimentos, pode não ser o mais correto. Em boa verdade, essas pessoas assumem uma visão liberal da teoria do contrato social, considerando que este é legítimo desde que as partes estejam de acordo, desde que não exista coação, desde que não haja logro. Mas esquecem que esta versão pressupõe algo que está longe de se verificar: que os indivíduos contratantes têm plena autonomia e estão completamente desinseridos do contexto social e político em que as suas vidas decorrem.

A teoria do contrato, aparentemente parece salvaguardar tudo, mas de facto tal não acontece. Porque se houver assimetria flagrante entre as partes – se entrarmos em linha de conta com o contexto - se uma das partes precisar da outra para sobreviver, ela até pode dar a sua adesão, mas tratar-se-á sempre daquilo que Pierre Bourdieu subsumiu no conceito de “adesão extorquida”.

Voltando ao sadomasoquismo, não basta sabermos que as pessoas querem, precisamos de perguntar em que moldes o seu querer foi construído, como é que o seu desejo sexual foi condicionado/manipulado pelo contexto em que decorre as suas vidas. E não basta porque parece largamente insuficiente argumentar que as pessoas gostam de sofrer, de ser humilhadas, de ser reduzidas, por vontade própria, à escravatura, e depois pensar que isso, esses tipos de desejo, não tem importância nenhuma, está tudo certo, e não tem qualquer repercussão nem em outras facetas da sua vida, nem na vida das outras pessoas.

 Seria como se aceitássemos a escravatura desde que os escravos gostassem e quisessem ficar na dependência dos seus senhores, seria como se não percebêssemos que a indignidade se manteria e que a humanidade sairia diminuída enquanto tal.

quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Amor heterossexual e vivência democrática


Na relação amorosa heterossexual cria-se uma dinâmica que não é favorável a uma “vivência democrática” da relação, se pretendermos que esta implique igualdade entre os parceiros e respeito pelos seus legítimos interesses. E isto acontece, não por quaisquer situações conjunturais, mas pela própria estrutura da relação amorosa com as suas exigências de abdicação recíproca, fusão de almas, perda de individualidade e desejo de assimilar o outro, exigências que como que fazem parte do próprio ideal amoroso.

Como estes “elevados” objetivos não são realistas, pois colidem com interesses básicos e fundamentais de qualquer pessoa, o que vai acontecer é que a assimetria de poder existente entre as partes vai jogar a favor da mais forte, obrigando a outra a capitular. Claro que essa capitulação poderá ser cumprida em nome do amor, mas não deixará de ser capitulação, bem nos antípodas do ideal democrático. E aí renasce, como que das próprias cinzas, o velho modelo de domínio/submissão que se encontra na base das estruturas sociais patriarcais com a inerentes reprodução das hierarquias de poder. Deste modo, o amor romântico, porque gera frustração e alimenta sentimentos de hostilidade, revela o seu potencial destrutivo.

Há quem reconheça esse potencial destrutivo do amor romântico, mas mesmo assim defenda que ele precisa de evoluir no sentido da democratização. Todavia, se aceitarmos esta tese, temos de perguntar como deve o amor lidar com o poder de modo a não se deixar corromper; temos de perguntar como são construídas as relações de poder e se há alguma hipótese de pôr um termo às relações de dominação. Se não conseguirmos responder a estas questões, a tese fica sem base de sustentação.

segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

Quando o casamento se desmorona!


Da leitura de “Love, sex and intimacy”, (Elaine Hatfield e Richard L. Rapson) recolho esta interessante reflexão sobre o que frequentemente acontece quando há rutura numa relação conjugal:

“Quando o casamento fracassa, as mulheres reportam frequentemente que os problemas há muito existiam, enquanto os homens percebem a rutura como abrupta e inesperada. Os investigadores sugerem uma razão explicativa. Nas discussões conjugais, os homens podem perceber-se a eles mesmos como vitoriosos e em controlo quando pela sua fúria levam as companheiras a ceder. Estas, contudo, sentindo-se magoadas e frustradas, podem não ter cedido de bom grado: elas podem ir acumulando e guardando memória das injúrias por um período de tempo muito extenso. Quando finalmente os seus sentimentos as levam a desistir da relação, a proposta de rutura chega como uma surpresa para os seus repetidamente “vitoriosos “ companheiros. Afinal, uma vitória com um preço elevado!

quinta-feira, 25 de Julho de 2013

Sexo, amor e casamento

Sexo, amor e casamento conviveram mal durante boa parte da vida da humanidade; bem vistas as coisas, só a partir dos fins do século XVIII, na antecâmara da época romântica, é que se começou a aceitar que amor e sexo coexistissem na relação conjugal; se recuarmos no tempo, constatamos que, por exemplo, nos gregos, o amor erótico é entre homens e na Idade Média, uma mulher que apreciasse o sexo, mesmo se com o marido, era considerada uma prostituta.
Todavia, a partir do século XVIII encontramos um registo diferente; com Kant, sexo e amor, ou seja o amor sexual, é aceitável no quadro do casamento monogâmico heterossexual, através de contrato de casamento. Hoje, amor e sexo são ingredientes imprescindíveis de um casamento que se quer bem sucedido.

Na visão negativa da sexualidade que as pessoas interiorizaram, a influência do cristianismo foi determinante, mas não podemos esquecer que o próprio cristianismo já herdou uma perceção negativa do sexo do próprio Platão e uma visão reprodutiva do mesmo de Aristóteles - os dois maiores filósofos da antiguidade clássica.
No cristianismo, tanto na versão católica como na protestante, o sexo é associado a lascívia e entendido como um pecado só redimível se for orientado para a procriação. Precisamente, o mito central da cultura ocidental, o mito de Adão e Eva, exprime o caráter pecaminoso do sexo e remete a culpa para a mulher, apresentada como a tentadora do homem. A partir daí as mulheres têm acima de tudo de ser castas e o mito mariano mostra bem a força da proibição do sexo, sobretudo para as mulheres. O culto da virgem é afinal também o culto da virgindade. Para o cristianismo a sexualidade é uma realidade desgostante e negativa.

No século XIX, era colonial, a ideologia dominante ainda justificava o sexo em termos de reprodução e considerava que só no casamento ele era legitimável; mas também nessa época, com transformações profundas a nível económico e social, o individualismo triunfante permitiu a valorização de uma outra dimensão do sexo, enquanto intimidade emocional e fonte de prazer.
A valorização do indivíduo e do individualismo, bem como os progressos no controlo da natalidade, vieram romper com a visão negativa do sexo. O individualismo é a crença de que o ser humano está sozinho, é um indivíduo e, enquanto tal, é-lhe permitido procurar a felicidade pessoal, entendendo que esta também tem a ver com a obtenção de prazer, nomeadamente prazer sexual – se afinal se está inelutavelmente só, se afinal apenas se vive uma vez, então é mandatório que se procure ser feliz, que se procure obter o máximo de prazer possível. Assim, a mentalidade individualista, o ideal de liberdade pessoal, o controlo da natalidade combinaram-se para valorizar o sexo e retirar-lhe, pelo menos ao nível do consciente, a carga pecaminosa com que a tradição ocidental o investiu.

Todavia, em certo sentido, do oito passou-se ao oitenta; a partir do momento em que o marketing e a publicidade descobriram que o sexo vende, multiplicaram-se as mensagens eróticas, enfatizou-se o seu valor e assistiu-se a uma curiosa evolução: agora já não se trata de integrar amor e sexo, mas de valorizar o sexo per si, independentemente do amor. Onde nos vai conduzir esta evolução é uma questão ainda em aberto. 




sábado, 6 de Julho de 2013

Sado- masoquismo - caraterísticas e função

 Qualquer prática sexual que envolva a erotização da relação de domínio/submissão pode designar-se, com propriedade, de “sadomasoquista”.
O sadomasoquismo puro e duro não é, nos nossos dias, politicamente correto pois, ao nível da consciência, as mulheres têm dificuldade em aceitar que retiram prazer de serem dominadas sexualmente pelos homens. Mas uma análise crítica da questão revela que o sadomasoquismo é mais pervasivo do que queremos reconhecer; as investigações neste domínio mostram que as fantasias sexuais de muitas mulheres envolvem humilhação, degradação e violência sexual e há mesmo estudos que referem que 25% das mulheres têm fantasias de violação.
Cumpre, todavia, referir que, embora o instinto sexual seja inato, o desejo sexual e a forma como se expressa é socialmente construído e resulta do processo como mulheres e homens são educados; por exemplo, o cinema veicula constantemente modelos de homens dominadores e de mulheres submissas; o padrão mais típico foi fornecido já há bastantes anos por um clássico do cinema: “E tudo o vento levou”. Neste filme, que encantou gerações de mulheres jovens e menos jovens, no casal constituído por Scarlett O’ Hara e Rhet Butler, o sex-appeal do protagonista reside na sua brutalidade, Butler, como se diz na cultura brasileira, é um “pegador”, é aquele que se apropria da mulher, como alguém que se apropria de um bem apreciado.
Por outro lado, o sadomasoquismo é a expressão, ao nível da vida sexual, de uma cultura misógina que reforça poderosamente, isto é, decorre dessa cultura e ao mesmo tempo reforça-a, pois liga as estruturas de domínio social às estruturas do desejo sexual, mostrando quão poderosas e inevitáveis elas são. Esse desejo, identificado com o instinto, parece natural e, portanto, inevitável e aceitável.
Quando uma mulher aceita este modelo sexual - culturalmente o único que está à sua disposição - passa a ser conivente com a sua própria subordinação; pode estrebuchar, rebelar-se, mas na estrutura profunda ela está lá e se é profunda há-de manifestar-se em níveis mais superficiais. Sandra Lee Bartky em Feminism and Domination resume exemplarmente esta ideia: “ A estrutura do desejo sexual amarra a mulher ao seu opressor.”
O sadomasoquismo puro e duro só é estigmatizado socialmente e considerado politicamente incorreto porque rasga o véu e mostra quanto o modelo heterossexual prevalecente é realmente pouco respeitável. Ora a sociedade, nomeadamente os homens não gostam de reconhecer que no fundo, bem no fundo não respeitam as mulheres e estas também não gostam de reconhecer que no fundo bem no fundo até “gostam” que os homens não as respeitem.
A partir do momento em que se reconhece que o desejo sexual é culturalmente construído e um produto do condicionamento social poderia dizer-se que a sexualidade feminina também poderia ser substituída por outro tipo de sexualidade recondicionada e reprogramada. Mas ocorre perguntar: qual é a mulher que isolada e contra ventos e marés é capaz de empreender tal tarefa?
De acordo com uma posição idealista e voluntarista, norteada pelo simpático mas ilusório mote de que querer é poder, qualquer mulher, uma vez consciente do caráter construído de uma sexualidade que a envergonha poderia lutar e reprogramar-se. Mas é caso para perguntar: como é que uma mulher sozinha e isolada é capaz de desfazer o que a cultura levou séculos, milénios, a construir?

Assim, as mulheres podem ter vergonha das suas fantasias sexuais porque aos seus próprios olhos elas lhes mostram que são pessoas de menor valor, mas nem sempre, quase nunca, lhes conseguem resistir, isto é, não conseguem deixar de as ter porque foram interiorizadas numa fase, diríamos, em que prevalecia o cérebro primitivo e depois, na fase do cérebro evoluído, não as conseguem desalojar. Além disso, os modelos que lhes servem de suporte estão constantemente a ser reforçados, através dos mais variados instrumentos culturais. Portanto tudo se conjuga para a manutenção do status quo.

domingo, 30 de Junho de 2013

A vulnerabilidade das mulheres na Turquia
Há sempre algo de arriscado mas ao mesmo tempo de verdadeiro ao proclamar que as mulheres são particularmente vulneráveis. A proclamação pode ser tomada como significando que as mulheres têm uma vulnerabilidade definidora e imutável, e esse tipo de argumento pavimenta o caminho para a proteção paternalista. […]
E no entanto há boas razões para argumentar pela vulnerabilidade diferencial das mulheres, elas sofrem desproporcionalmente de pobreza e de literacia, duas dimensões muito importantes para qualquer análise global da condição das mulheres.
As mulheres têm estado extremamente ativas nos protestos do passado mês como se pode ver nas imagens tomadas no parque Gezi, na praça de Taksim em Istanbul, Kizilay or no parque Kuglu em Ankara, Eskisehir, Antalya, apenas para nomear alguns locais em que a polícia atacou os manifestantes. […]
A vulnerabilidade nos dois sentidos acima identificados tem estado sempre muito presente. A degradação da situação das mulheres na Turquia, desde que o A.K.P. tomou o poder, tem sido um dos principais temas na retaguarda dos protestos: aumento na violência doméstica, movimentações para ilegalizar o aborto (e as cesarianas!), relaxe nos esforços para assegurar que todas as raparigas frequentem as escolas. E obviamente isto colocou o governo na posição de emitir editais paternalistas: “Mães, levem os vossos filhos para casa”, ao qual as mulheres no parque Gezi responderam fazendo uma cadeia humana para proteger os jovens no seu interior.
Certamente que, mesmo na perspetiva dos manifestantes, é difícil evitar todos os preconceitos de género, e as mulheres são ainda referidas com muita frequência como mães, tias, irmãs, mais do que como manifestantes. Mas, fundamentalmente, as pessoas lá são pessoas que querem ter alguma coisa a dizer sobre o modo como devem ser governadas, e que querem proteger os seus espaços verdes e, apesar de tudo, as barricadas parecem bem mais equilibradas em termos de representação de género, do que pareciam no quadro de Delacroix do século XIX em França.”

Texto publicado no blog Feminist Philosophers, em 29 de Junho de 2013, (tradução de Adília)

terça-feira, 28 de Maio de 2013

Sexualidade e supremacia masculina

“Os homens têm e mantém poder sobre as mulheres de modos muito diferentes e a diferentes níveis: no trabalho, em casa, através de legislação, etc. Mas o aspeto mais crucial na explicação da opressão das mulheres e do domínio masculino é a análise da sexualidade, porque é dentro dos construtos das sexualidades masculina e feminina que podemos observar a dinâmica central da dominação masculina sobre as mulheres.
No contexto da supremacia masculina, as sexualidades masculina e feminina são construídas como especificamente diferentes e desiguais. Isto levou Mackinnon, por exemplo, a argumentar que “o masculino e o feminino são criados através da erotização da submissão e do domínio”. Por outras palavras, o poder dos homens e a inferioridade social das mulheres tornam-se “sexy”. O processo de construçãs das mulheres como eróticas ou sexy objetifica-as, colocando as mulheres como subordinadas e os homens como dominantes. Podemos ver este processo particularmente óbvio na pornografia e implementado dentro das relações heterossexuais: onde a sexualidade masculina objetifica  o objecto feminino de desejo, enquanto a sexualidade feminina é objectificada pelo desejado sujeito masculino. Mas este processo é ainda mais generalizado do que o exemplo sugere, é integral a todas as relações masculino/feminino dentro da supremacia masculina. Sobretudo, é aquilo que torna a supremacia masculina um caso único  e especialmente persistente.”
Marianne Hester: Lewd Women and Wicked Witches

sábado, 20 de Abril de 2013

Será eticamente admissivel legalizar a prostituição?

Do blog mulheresemluta transcrevo parte de um artigo de Ana Pagu sobre uma projeto/ lei para a legalização da prostituição no Brasil.

“O projeto … define as atividades da profissional do sexo da seguinte maneira: “Art. 1º: Considera-se profissional do sexo toda pessoa maior de dezoito anos e absolutamente capaz que voluntariamente presta serviços sexuais mediante remuneração. § 1º É juridicamente exigível o pagamento pela prestação de serviços de natureza sexual a quem os contrata.§ 2º A obrigação de prestação de serviço sexual é pessoal e intransferível”.

O sexo e a mulher são mercadorias. Rompe-se a ideia da mulher como sujeito social, substituindo-a por uma mercadoria exposta ao comércio sexual, cujo valor é resultante de uma relação desigual entre quem consome a prostituição e a quem a ela tem de se submeter, permeada por uma naturalização do machismo e da submissão. O que não é o mesmo de uma relação entre o patrão que explora a força de trabalho do empregado para produzir uma mercadoria ou um serviço.

Isso porque é impossível comercializar o sexo sem comercializar a pessoa. A própria mercadoria (corpo) é o meio de produção (corpo). Então, não se trata da venda da força de trabalho, mas da escravização do corpo da mulher que se transforma em próprio objeto mediante pagamento. A regulamentação da prostituição como profissão corrobora com a degradação do capitalismo, na busca desenfreada para explorar e obter lucros, onde tudo possa ser comercializado, inclusive, as relações sociais. Neste caso, na ampla maioria das vezes, as mulheres sequer têm o direito de escolher, já que a necessidade de sobrevivência se impõe ao desejo de se prostituir.

Não se trata de uma posição moralista contra quem assim o deseje. Trata-se de ser contra um sistema que exclui as mulheres, que as joga em uma situação de pobreza extrema e que, diante da ausência de condições de vida, escraviza seu corpo, naturaliza o machismo e faz desse comércio um negócio lucrativo para os grandes capitalistas.

Em um contexto de violência cotidiana a que as mulheres estão submetidas, o que está colocado é a necessidade de mecanismos de proteção e defesa das mulheres que estão em situação de prostituição. A solidariedade de todas as entidades da classe trabalhadora e a luta contra a violência policial a que estão submetidas são fundamentais. Assim como a cobrança dos governos de medidas que deem condições reais a estas mulheres de decidirem sobre a sua própria vida. Isso só é possível com alternativas que lhes assegurem condições de emprego e renda, educação, saúde, moradia e proteção social.”

 

 

 

quarta-feira, 27 de Março de 2013

Sadismo na perspetiva de Sartre


Se aceitarmos que a relação sexual é, como todas as relações interpessoais, uma relação de conflito, na qual o Eu, embora precise do Outro para ser confirmado na sua identidade, também o procura objetificar para não ser ele próprio objetificado, percebemos facilmente a estratégia sexual do  sádico.

Cada ser humano é corpo e consciência, “ser em si” e  “ser para si”, na terminologia sartriana. O corpo pode ser facilmente dominado, mas a consciência resiste à dominação e aquele que pretende dominar não se consegue dar por satisfeito. Ele quer também vergar aquela consciência qe se rebela.

Temos então que o sádico não quer apenas apropriar-se do corpo, quer também dominar a consciência que habita esse corpo; mas a consciência só poderá ser dominada se ela própria for reduzida ao corpo - o que acontece quando o corpo experimenta dor e sofrimento intenso; nesse caso, dor e sofrimento impõem-se de tal maneira que “a faticidade invade a consciência” e esta, enquanto consciência reflexiva, é anulada.

O que isto significa é que aquele que sofre não consegue pensar em mais nada senão no sofrimento físico ou psíquico que lhe está a ser inflingido; esse sofrimento absorve de tal maneira a sua atenção que a sua capacidade reflexiva desaparece e com ela a possibilidade de se afirmar perante o outro que, aparentemente, sai vitorioso; e dizemos aparentemente, porque o que ele queria era apropriar-se da consciência do outro, mas a estratégia usada levou à destruição do “bem” perseguido com tanto afinco.

Por tudo isto, deve entender-se o sadismo como a consequência necessária de uma percepção das relações sexuais como relações de domínio/submissão, que numa forma mais ou menos mitigada é a que se encontra presente no ainda atual paradigma sexual.