domingo, 26 de Outubro de 2014

Amor e Intimidade

Antony Gidden escreveu em The Transformation of Intimacy que "a intimidade pode ser opressiva... se for encarada como uma exigência de constante proximidade emocional." Esta afirmação sugere-me algumas considerações que quero partilhar com quem me lê.

Em relação à intimidade, considerada hoje uma componente imprescindível do amor, o que se passa é que os homens, por questões educacionais e culturais, não têm grande dificuldade em revelar experiências sexuais ou desejos “proibidos”; por vezes, até parece que têm prazer nessas revelações - uma espécie de maneira indireta, embora nem sempre consciente, de se valorizarem. Em flagrante contraste, as mulheres têm sempre a sensação de que poderão ser “punidas” pelos parceiros e, por isso, mesmo se não mentem objetivamente, têm tendência a omitir ou a só responder quando questionadas e sempre, e em qualquer dos casos, experimentam desconforto e insegurança nessa situação. Os parceiros poderiam atenuar esse desconforto, se nunca lhes cobrassem nada, mas normalmente não é isso que ocorre e a intimidade acaba por funcionar como mais um mecanismo que permite aos homens, de alguma maneira, controlarem as mulheres.

É permitido, é suposto, que os homens tenham um passado; já as mulheres, mesmo nos dias de hoje, se o têm, precisam de se explicar, de se justificar. Não nos iludamos, as mentalidades continuam persistentemente conservadoras e até reacionárias em relação a este e a muitos outros tópicos. Basta lembrar os exemplos, sobejamente conhecidos, de violência doméstica, os maus tratos e assassínios passionais; mas é preciso perceber que a violência doméstica pode assumir formas muito mais subtis e aqui a exigência de intimidade pode ser uma delas.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

O QUE É O EROTISMO

Erotismo, erótico e erotizar são termos que tem um origem etimológica comum e essa origem radica em “eros”, termo que designa o deus grego do amor e do prazer sexual.

Podemos dizer que o erotismo é a exploração, normalmente através da imagem e da palavra, de sentimentos e desejos despertados pelo sexo, e funciona como reforço desses sentimentos e desejos. Assim, por exemplo, um objeto ou uma situação revestem-se de erotismo - assumem uma dimensão erótica – se estimularem o desejo sexual.

Um pouco de atenção aos vários exemplos de expressão de erotismo divulgados e apresentados na literatura, cinema, publicidade, pornografia e muitas outras formas difusas de transmitir e comunicar mensagens, revela que o alvo privilegiado dessas expressões eróticas é o homem, não a mulher. E digo isto porque nessas expressões o objeto erótico visa a atenção dos homens aos quais é oferecido um estereótipo: o da mulher normalmente jovem e bela, mas também lânguida, passiva e expectante, cuja postura revela sex appeal - que suscita o desejo do homem.
Logo aqui se define e constrói a sexualidade masculina e a sexualidade feminina, o homem sujeito sexual, a mulher objeto sexual; o homem ativo, a mulher passiva, ou seja define-se e constrói-se modelos de comportamento masculino e de comportamento feminino.

Não há um erotismo dirigido diretamente para a mulher, provavelmente porque os criadores de literatura, cinematografia, publicidade, pornografia ainda são, em números avassaladores, homens; provavelmente porque o mundo ainda é o lugar dos homens e são eles que definem a “porção” que as mulheres podem ocupar.
Não tendo acesso a um erotismo que se lhes dirija que podem fazer as mulheres? Nelas, como nos homens, o desejo sexual é forte e, por isso, é apenas natural que sintam prazer não em desejar os homens – não é esse o modelo que lhes fornecem – mas em serem desejadas pelos homens. A partir daí, também naturalmente vão investir na sua aparência física, vão exacerbar se possível aquelas caraterísticas que sentem que os homens valorizam, vão colaborar na sua própria objetificação, sem perceberem bem o que lhes está a acontecer e, sobretudo, sem perceberem que estão a “apostar no cavalo errado”.

(para continuar)

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

sexualidade e feminismo

A sexualidade é um tema que precisa de ser debatido num enquadramento feminista. Dado que raramente o é, acontece que ninguém percebe como é que ela tem funcionado, enquanto instrumento que paralisa as mulheres nas suas justas reivindicações e as mantém no lugar que o statu quo lhes reserva.

É certo que violência doméstica, violência sexual, prostituição, pornografia e até práticas sadomasoquistas têm merecido alguma atenção, mas esquece-se ou não se percebe que afinal estas situações são simplesmente casos extremos que decorrem da própria estrutura da sexualidade, isto é, do modo como homens e mulheres vivem o sexo, ou melhor, aprendem e são condicionados/as a viver o sexo.

Há um número incalculável de mulheres que julgam que serem liberadas é concordarem e aceitarem alegremente práticas sexuais que não lhes dão qualquer tipo de prazer ou que lhes dão prazer à maneira pavloviana (toda a gente, presumo, conhece a história do cão que saliva ao som da campainha sem precisar do cheiro da comida e toda a gente percebe que se pode passar algo equivalente com certas práticas sexuais). Ora a liberdade, sexual ou outra, passa sempre pela capacidade de autodeterminação e ninguém desenvolve essa capacidade quando alinha só para não ser mal vista, para não desagradar a um parceiro, para não parecer puritana etc. etc. As mulheres têm de aprender a dizer não quando não querem, aprender a gostar de si mesmas e a deixar de se preocuparem com os melindres dos outros.

Mas o que é então a liberdade sexual? Que condições têm as mulheres para gozarem dela?

É muito difícil responder a estas questões, todavia, começo por chamar a atenção para um facto: para uma mulher ser sexualmente livre, nem mesmo basta fazer - na melhor das hipóteses - o que lhe apetece, porque os próprios desejos sexuais são socialmente construídos através de estímulos de vária ordem nos quais os filmes, a publicidade, os romances, as revistas chamadas cor-de-rosa etc. têm uma enorme importância e exercem um terrível condicionamento. Daí que a mulher precise de “policiar” o próprio desejo, pela simples razão de que afinal não se trata do “próprio desejo”.

Por vezes, as mulheres sentem que a conduta sexual a que “livremente”  se entregam lhes transmite uma auto imagem negativa; sempre que isso acontecer, precisam de perceber o que se está a passar, precisam de explicar essa “dissonância cognitiva”.

Isto que até ao momento referi, nada tem a ver com os preconceitos de uma moral sexual repressora que advoga pureza e castidade para as mulheres; bem pelo contrário, penso que a experiência de separar o sexo do comprometimento amoroso é tão importante para mulheres como o tem sido para homens. Tem a ver sim com assertividade, com autodeterminação, com atividade e procura.

Se os homens - que me perdoem porque a culpa não é toda deles - não fossem tão tontos, já teriam percebido que o que lhes dá prazer a eles não é necessariamente o que nos dá prazer a nós. Já teriam percebido o porquê das dores de cabeça das “esposas” (que já “laçaram” o seu homem). Por seu lado, as mulheres, porque não têm poder negocial, em vez de enfrentarem o problema enveredam por estratégias manhosas de manipulação. No fim ficam todos/as a perder.

O sexo pode ser bom, mas, muitas vezes, para as mulheres, mesmo para as tais liberadas ou que se julgam liberadas, não é! Porquê? Será porque não têm controlo sobre o seu próprio corpo e estão condenadas a “viver” uma sexualidade falocêntrica?


Começar a debater seria e serenamente estas questões, em vez de pensar que são apenas os velhos tabus moralistas que afastam as mulheres de uma vida sexual gratificante seria uma boa opção. Até lá, a tão propalada revolução sexual não passará de mais um mito. Claro que há sempre gente que gosta de acreditar em mitos; é mesmo para isso que eles existem.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Sexo anal - coerção e pornografia

“Um estudo sobre as razões que levam casais adolescentes heterossexuais a envolverem-se em sexo anal veio a revelar um clima de coerção, em que nem sempre o consentimento e a mutualidade constituem prioridade para os rapazes que tentam persuadir as raparigas a experimentá-lo.
Investigadores da London School of Hygiene and Tropical Medicine entrevistaram 130 adolescentes com idades entre os 16 e os 18 em três regiões diferentes do país para “explorar as expectativas, experiências e circunstâncias do sexo anal entre pessoas jovens".
O estudo qualitativo constatou que o sexo anal hetero apareceu como ”doloroso, arriscado e coercivo, particularmente para as mulheres”  enquanto os homens falaram em ser espectável que persuadissem ou coagissem as suas relutantes parceiras.
O estudo publicado no BMJ Open diz “A prevalência do sexo anal está a aumentar entre os jovens, todavia as relações anais entre homens e mulheres – embora vulgarmente descritas nos media sexualmente explícitos – estão normalmente ausentes da educação sexual mainstream e em muitos contextos sociais nem sequer são mencionadas.”
Considera-se que o sexo anal coercivo, doloroso e não seguro, normalizado por alguns pessoas jovens, é um assunto que precisa de ser objeto de atenção por trabalhadores da área da saúde e das escolas na educação sexual.
(…) As pessoas entrevistadas raramente falam de sexo anal em termos de exploração mútua do prazer sexual, e os preservativos são raramente usados.
Parece haver competição entre os rapazes para terem sexo anal com as raparigas, ao mesmo tempo que a principal razão citada pelos jovens para praticarem sexo anal é que os rapazes querem copiar o que vêem na pornografia e é “mais apertado”.

Destes considerandos podem tirar-se algumas conclusões:

  • Está aumentar a prevalência do sexo anal nos casais hétero adolescentes e jovens;
  • As raparigas são “persuadidas” ou mesmo “coagidas” pelos companheiros;
  • Os jovens são persuadidos ou “coagidos” pela pornografia.
  • Está a pretender-se normalizar o sexo anal quando de facto se tata de uma prática dolorosa e pouco segura para as raparigas.
  • As raparigas parece não terem poder “negocial” nem opções, por isso pergunto: Onde está a revolução sexual? Onde está a capacidade das jovens e das mulheres se auto determinarem sexualmente?

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

A sexualidade não corresponde a espontaneidade, a sexualidade é aprendida

3.a 
Voltei a reler o último texto que escrevi e resolvi hoje salientar aquelas que considero serem as ideias chave que precisamos de ter presentes:

·         A sexualidade não corresponde a espontaneidade; a sexualidade é aprendida.

·         O modelo que as mulheres aprendem é o da submissão, da objetificação e da passividade; o  erotismo nas mulheres não consiste em desejar, mas em serem desejadas.

·         Esse modelo ajuda a perpetuar a sociedade patriarcal porque não só define o estatuto sexual das mulheres como define também o seu estatuto enquanto pessoas - o seu lugar no mundo.

·         As mulheres, na sua generalidade, não só não têm consciência de que aprendem a sexualidade como ainda menos têm consciência de que o modelo que aprendem e interiorizam se reveste de consequências devastadoras para a sua autonomia pessoal.

·         Serem “sexy” é a única maneira que as mulheres têm de exprimirem a sua sexualidade; mas é uma maneira passiva, transitória e contingente.

·         Muitas mulheres, particularmente as jovens centram-se na tarefa de serem “sexy” e esquecem que deveriam procurar outras formas de poder e outros lugares no mundo.


Em síntese: a sexualidade é a forma de cada pessoa viver o sexo, mas essa forma de viver o sexo não foi criada por ela própria, e aqui é que está o paradoxo, parece que estamos a falar de uma coisa íntima e pessoal e afinal estamos a falar de uma realidade política (como as feministas da década de setenta descobriram, o pessoal é sempre político).

domingo, 7 de Setembro de 2014

3. O modelo de sexualidade que aprendemos não é indiferente para o nosso lugar no mundo

Sexo e sexualidade revestem-se da maior importância na vida das pessoas.O sexo, fonte de prazer, de proibições e de excessos, está associado a poder e poder implica a estrutura hierárquica de domínio/submissão.
No campo da vida sexual, às mulheres, historicamente, foi reservado o estatuto de submissão, mitigado é certo, porque se lhes deixou a possibilidade de serem “sexy”, possibilidade essa encorajada culturalmente.
Ser sexy é ser desejável e quem é desejável sente que tem algum poder, como o sente quem é inteligente, culto ou simplesmente rico, só que estas três fontes de poder, durante milénios reservadas exclusivamente aos homens, são estáveis e permanentes, ao passo que ser sexy é transitório, fugaz e extremamente contingente.
Hoje, que essas outras fontes de poder - inteligência, que pressupõe desenvolvimento intelectual, cultura e riqueza - já estão abertas às mulheres, particularmente no mundo ocidental, continua a encorajar-se as jovens a centrarem-se apenas na exploração da vertente sexual, dos seus atributos físicos, da sua aparência, e elas deixam-se tentar facilmente já que não é preciso grande esforço para ser sexy, ao passo que para ser culto, rico ou perito em alguma coisa é bem mais problemático; assim, tendem a enveredar pelo caminho mais fácil, com a pressão acrescida de ser esse o modelo que constantemente lhes vendem, quando, numa sociedade que quisesse favorecer a autonomia sexual de mulheres e de homens, se devia proceder exatamente ao contrário.
Assim, o primeiro preconceito que temos de combater é o de que a sexualidade é espontaneidade; a sexualidade é aprendida culturalmente e as consequências dessa aprendizagem podem ser desastrosa para a autonomia e capacidade de autodeterminação sexual das mulheres.
Dado o modelo aprendido, as mulheres vivem a sexualidade de forma passiva; a cultura em geral e a religião em particular tudo fazem para o promover, ao valorizarem a castidade sexual, a virgindade e a pureza (para as mulheres) e ao criarem obstáculos para um acesso eficiente a mecanismos contracetivos e, em muitos lugares, ao diabolizarem o aborto, mesmo quando este se encontra enquadrado pela legislação.
São óbvios os interesses das sociedades patriarcais neste tipo de sexualidade feminina e desde muito cedo as meninas aprendem que devem ser recatadas, não promíscuas, e que devem associar o sexo a casamento ou a uma relação estável. O modelo fornecido aos meninos é exatamente o oposto deste.
Esta aprendizagem da sexualidade pelas mulheres é mais importante do que podemos pensar, devo mesmo dizer que a maior parte das mulheres nem sequer se apercebe da sua importância e, por isso, não se rebela, tornando-se inconscientemente cúmplice de um sistema que aliás seria muito difícil de vencer porque tudo se conjuga para ajudar a mantê-lo.
Ora a aprendizagem deste tipo de sexualidade pelas mulheres é muito importante porque através da adopção  desse tipo de sexualidade é definido o seu lugar no mundo. Esta implicação têm-lhes escapado e por isso nunca será de mais chamar a atenção para este fenómeno.
Aliás é tão importante para a sociedade patriarcal reforçar e manter este modelo que, no preciso momento em que a religião começou a perder a força cultural que durante tempos imemoriais possuiu - estou a pensar no século XIX- logo, as ciências em geral, e particularmente, a medicina, a psicologia e a sexologia começaram ativamente a prescrever comportamentos apropriados para as mulheres e estes muito pouco se afastavam daqueles que a religião sempre preconizava (claro que era preciso mudar alguma coisa para manter tudo na mesma). Quer dizer, numa altura em que a influência religiosa parecia declinar, apareceram logo outros prosélitos da moralidade sexual, aplicada sobretudo às mulheres.
A partir da segunda metade do século XX, com a chamada revolução sexual, parecia que se ia assistir a uma modificação substancial no modelo de sexualidade proposto para as mulheres e de facto avançou-se alguma coisa, mas temo bem que esse avanço não esteja a dar-se no sentido da verdadeira autodeterminação sexual das mulheres e que mais uma vez, como ocorreu no século XIX, se esteja a vender gato por lebre (a mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma. Na próxima "lição" vou tentar clarificar estas minha safirmações. 


segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Sexualidade e Ética

2 - Sexualidade e ética
Estabelecida a distinção entre sexo e sexualidade, no texto anteriormente publicado, cumpre agora chamar a atenção para a dimensão ética da sexualidade, o que significa dizer que ela não é neutra em relação a valores de bem e de mal, que é suscetível de avaliação ética.
A sexualidade, sempre que implique relação interpessoal, (e há casos em que isso não acontece, estou a pensar, por exemplo, na masturbação), supõe a preocupação com o próprio e com o outro, enquanto pessoas que se devem respeito recíproco. O sexo, na medida em que implica entrar em relação com o outro, como qualquer atividade interpessoal, não pode ignorar os legítimos interesses deste, isto é os seus direitos, simétricos dos nossos. As pessoas são agentes racionais capazes de se auto-determinarem livremente e, por isso, tem uma dignidade que os objetos não revestem. Decorrem daqui certas condições que a sexualidade humana pressupõe:

(1) Desde logo o consentimento: não é eticamente aceitável uma relação sexual em que uma das partes não consinta. Hoje defende-se mesmo que o consentimento não deve ser presumido pelo facto de a mulher não dizer “não”, ela tem de ser afirmativa e não apenas reativa.

(2) Um outro aspeto tem a ver com certas formas de coerção exercidas sub-repticiamente pelo parceiro sexual com o objetivo de “obrigar” a companheira a alinhar em práticas sexuais em que ela se sente desconfortável e que só aceita para lhe ser agradável, ou para não parecer antiquada ou puritana. (estou a pensar no sexo anal que foi objeto de um estudo recente que revelou níveis preocupantes de coerção na população adolescente feminina).

(3) Por último, mas não menos importante, o princípio da reciprocidade deve ser sempre reconhecido e estar sempre presente; apenas para dar um exemplo dessa reciprocidade, lembremos que o sexo oral não pode ser entendido como “feito” pela mulher ao homem. Parafraseando Linda LeMonchek, que não queria discutir o dualismo cartesiano na cama, ninguém quer discutir reciprocidade na cama, mas não pode sentir, nem de perto nem de longe, que ela está em falta, porque, se isso acontecer, pura e simplesmente não alinha, ou não deve alinhar.

Em síntese, podemos dizer que o respeito pelas pessoas tem de estar implícito na relação sexual. Mas temos de lembrar que a pornografia por um lado e a prostituição por outro dificultam a interiorização deste princípio e, infelizmente, são essas as duas vias através das quais os jovens aprendem a sexualidade que depois ensinam às companheiras.
Prostituição e pornografia objetificam a mulher e promovem e divulgam estereótipos de papeis sexuais que a desvalorizam enquanto pessoa. Ora, sendo a sexualidade aprendida fundamentalmente por estes dois meios, temos todos os motivos para recear que ela continue a ser um instrumento para manter o statu quo e a assimetria de género.
A revolução sexual não consiste apenas nem principalmente na maior liberdade das mulheres para se entregarem a atividades sexuais, embora este aspeto seja importante. Em certo sentido, e numa apreciação um tanto cínica, poderíamos dizer que esse tipo de revolução interessa sobretudo aos homens porque assim encontram um maior número de mulheres disponíveis. A verdadeira revolução sexual só será alcançada quando houver real capacidade de autodeterminação sexual tanto de mulheres como de homens e esta está decididamente por fazer.


sábado, 30 de Agosto de 2014

Sexo é inato, sexualidade é aprendida

Resolvi iniciar a partir de hoje um mini curso sobre educação sexual e assumi que a primeira lição vai ser àcerca da distinção entre sexo e sexualidade. Comecemos pois pela clarificação destes dois conceitos.

O sexo é da ordem do instinto, existe nos seres humanos e nos animais, enquanto pulsão e enquanto saber fazer inato; o sexo é, se quisermos, da ordem do natural, não pressupõe aprendizagem e é um instinto que se encontra ao serviço da perpetuação da espécie que, sem ele, estaria condenada a perecer.  Diferentemente de outros instintos, como por exemplo, a fome e a sede, se não for satisfeito, pode ocorrer frustração, ansiedade ou mesmo contrariedade, mas não ocorre a morte do indivíduo, já que neste particular é apenas a sobrevivência da espécie que é posta em causa.

Devemos realçar, todavia, que os seres humanos, diferentemente de outros animais, possuem um número muito reduzido de instintos, embora, em contrapartida, possuam múltiplas potencialidades comportamentais, sendo extremamente moldáveis e dotados de enorme plasticidade. É aqui que entra a sexualidade.

A sexualidade é o modo como os humanos vivenciam o sexo, como satisfazem o instinto, podendo inclusive sublimá-lo ou orientá-lo para outros objetivos que não a reprodução. É óbvio que a sexualidade, enquanto expressão do sexo, depende da cultura e da sociedade em que as pessoas vivem; assim por exemplo, durante muito tempo, especificamente na Idade Média de matriz cristã, era impensável separar o sexo da reprodução até porque se considerava que só esta o legitimava porque correspondia à vontade divina. Este exemplo mostra porque dizemos que a sexualidade, diferentemente do sexo, é aprendida; ora, sendo os humanos extremamente moldáveis podem aprender um número imenso de comportamentos em vários domínios e, de entre estes, no domínio sexual.

Assim, hoje, o sexo é entendido não só enquanto capacidade procriativa,  mas também tem uma dimensão recreativa iniludível, ou pode ser ocasião de união entre pessoas, de procura recíproca de prazer, de procura do restabelecimento de unidade. Lembremos o mito dos andróginos, contado por Aristófanes, no Banquete, de Platão, no qual o dramaturgo vê o sexo como tendo por função unir aquilo que os deuses tinham separado num passado longínquo, reconstituindo assim uma totalidade perdida.
Para além desta visão romântica, todavia, há outras maneiras de viver o sexo, e, de entre estas, a mais perturbadora é a vivência do sexo enquanto meio de dominar o outro, enquanto exercício de poder; esta é a sexualidade que designamos de domínio/submissão que a todos/as é familiar.
Essa vivência do sexo como domínio/submissão está profundamente enraizada porque reflete a estrutura da sociedade e as assimetrias de poder que, particularmente nas relações entre homens e mulheres, têm sido mais do que evidentes. Num passado muito presente ainda, o filósofo alemão Nietzche definia o homem como vontade de poder que se reconheceria através da fórmula: “eu quero” e, paralelamente, destinava à mulher um papel de submissão, reconhecido através da fórmula “ele quer”.
Entretanto algumas coisas mudaram, algumas assimetrias esbateram-se, mas a um nível mais profundo, particularmente ao nível do psiquismo, muita coisa continua por fazer.

Posta esta diferença entre sexo e sexualidade, o que pretendo que se retenha é que a sexualidade é aprendida, é um fenómeno condicionado pela cultura, pela economia, é um fenómeno social, que consequentemente pode alterar-se, se as condições económicas, sociais e culturais também se alterarem.
Um outro aspeto que distingue o sexo da sexualidade é que esta tem sempre uma dimensão ética, mas ficará para a próxima “lição” a exploração deste aspeto.

P.S. Gostaria de lembrar que a educação sexual é um tema particularmente complexo e difícil; se calhar é por isso que ela não é implementada, como se pretendia, nas escolas e os adolescentes ficam à mercê de circunstâncias de vária ordem, nem sempre as mais consentâneas com uma aprendizagem que conduza a uma verdadeira e autêntica autodeterminação sexual.
Decidi dar o meu contributo para o tema e espero que estes textos venham a ser lidos não só por adultos mas também por adolescentes. Peço desde já desculpa pelas minhas insuficiências:
·         Se calhar vou dizer asneiras, só espero que não sejam muitas;
·         Se calhar vou dizer coisas com pouco interesso, só espero que as trivialidades não sejam muito frequentes.
·         De qualquer modo, estou aberta à crítica e sinceramente espero que as pessoas, por vergonha ou outros motivos, não se retraiam de exprimir os seus pontos de vista.




sábado, 21 de Dezembro de 2013

Sade e o sado masoquismo


O Marquês de Sade, tão exaltado por intelectuais ilustres, apodado por alguns como o divino marquês, em “Os 120 dias de Sodoma”, num discurso proferido pelo Duque de Blanchis, que se supõe ser a personagem com a qual Sade mais se identifica, refere-se às mulheres nestes termos:

“Frágeis e agrilhoadas criaturas destinadas exclusivamente a nossos prazeres, creio que não vos iludistes supondo que a ascendência igualmente absoluta e ridícula que vos é dada no mundo exterior vos seria concedida neste lugar; mil vezes mais subjugadas do que os possíveis escravos, só deveis esperar humilhação, e a obediência é a única virtude cujo uso vos recomendo: ela, e nenhuma outra, serve ao vosso estado presente. Acima de tudo, não vos entre na cabeça depender do mínimo de vossos encantos; somos completamente indiferentes a essas armadilhas e, podeis acreditar, tais engodos não dão resultado connosco. Tende incessantemente em mente que faremos uso de vós todas, mas que nem uma única de vós necessita de se iludir imaginando que é capaz de nos inspirar qualquer sentimento de piedade. Levantados em fúria contra os altares que nos conseguiram arrebatar alguns grãos de incenso, nosso orgulho e nossa libertinagem estilhaçam-nos assim que a ilusão satisfaz nossos sentidos, e o desprezo quase sempre seguido do ódio assume instantaneamente a preeminência até então ocupada pela nossa imaginação. O quê, alem disso, nos poderíeis oferecer que não conheçamos já de cor, que nos ofertareis que não esmaguemos sob nossos calcanhares, muitas vezes no próprio momento em que o delírio nos transporta?

Inútil escondê-lo de vós: vosso serviço será árduo, será doloroso, e rigoroso, e as menores delinquências serão imediatamente retribuídas com punições corporais e angustiantes; por isso, devo recomendar-vos pronta obediência, submissão, e uma total auto abnegação que vos permita satisfazer apenas nossos desejos; deixai que eles sejam vossas únicas leis, correi ao encontro deles, antecipai-vos, provocai-os. Não que tenhais muito a lucrar com essa conduta, mas simplesmente porque, não a observando, muito tereis a perder.”

Sade: Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, Hemus, 1969, pp. 56-57

Resumindo, o programa sadomasoquista tem as seguintes implicações

·         As mulheres apenas existem para o prazer dos homens: satisfazer os seus desejos e serem usadas por eles;

·         A única virtude que devem cultivar é a obediência e a auto abnegação;

·         Não vale a pena tentarem tirar partido dos seus encantos pois estes, uma vez saciado o desejo, nada representam para os homens;

·         Depois de satisfeito o desejo, para as mulheres só resta desprezo e ódio de que pode mesmo resultar a sua aniquilação no momento em que o macho atinge o orgasmo.

·         O melhor que podem fazer é adivinhar os desejos do homem, estarem sempre de prontidão para evitarem outras punições mais graves.

quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

Sadomasoquismo e ética


Para muitas pessoas, desde que exista consenso genuíno entre as partes, as práticas sadomasoquistas não levantam qualquer problema ético. Argumenta-se que o desejo sexual é virtuoso por si mesmo, é bom, e tudo o que o satisfaça, desde que não haja o recurso à coação ou à fraude, é legítimo.

Aqueles que se colocam nesta posição estão a dar uma resposta liberal a este problema; mas este tipo de resposta, considerando o estado atual dos nossos conhecimentos, pode não ser o mais correto. Em boa verdade, essas pessoas assumem uma visão liberal da teoria do contrato social, considerando que este é legítimo desde que as partes estejam de acordo, desde que não exista coação, desde que não haja logro. Mas esquecem que esta versão pressupõe algo que está longe de se verificar: que os indivíduos contratantes têm plena autonomia e estão completamente desinseridos do contexto social e político em que as suas vidas decorrem.

A teoria do contrato, aparentemente parece salvaguardar tudo, mas de facto tal não acontece. Porque se houver assimetria flagrante entre as partes – se entrarmos em linha de conta com o contexto - se uma das partes precisar da outra para sobreviver, ela até pode dar a sua adesão, mas tratar-se-á sempre daquilo que Pierre Bourdieu subsumiu no conceito de “adesão extorquida”.

Voltando ao sadomasoquismo, não basta sabermos que as pessoas querem, precisamos de perguntar em que moldes o seu querer foi construído, como é que o seu desejo sexual foi condicionado/manipulado pelo contexto em que decorre as suas vidas. E não basta porque parece largamente insuficiente argumentar que as pessoas gostam de sofrer, de ser humilhadas, de ser reduzidas, por vontade própria, à escravatura, e depois pensar que isso, esses tipos de desejo, não tem importância nenhuma, está tudo certo, e não tem qualquer repercussão nem em outras facetas da sua vida, nem na vida das outras pessoas.

 Seria como se aceitássemos a escravatura desde que os escravos gostassem e quisessem ficar na dependência dos seus senhores, seria como se não percebêssemos que a indignidade se manteria e que a humanidade sairia diminuída enquanto tal.

quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Amor heterossexual e vivência democrática


Na relação amorosa heterossexual cria-se uma dinâmica que não é favorável a uma “vivência democrática” da relação, se pretendermos que esta implique igualdade entre os parceiros e respeito pelos seus legítimos interesses. E isto acontece, não por quaisquer situações conjunturais, mas pela própria estrutura da relação amorosa com as suas exigências de abdicação recíproca, fusão de almas, perda de individualidade e desejo de assimilar o outro, exigências que como que fazem parte do próprio ideal amoroso.

Como estes “elevados” objetivos não são realistas, pois colidem com interesses básicos e fundamentais de qualquer pessoa, o que vai acontecer é que a assimetria de poder existente entre as partes vai jogar a favor da mais forte, obrigando a outra a capitular. Claro que essa capitulação poderá ser cumprida em nome do amor, mas não deixará de ser capitulação, bem nos antípodas do ideal democrático. E aí renasce, como que das próprias cinzas, o velho modelo de domínio/submissão que se encontra na base das estruturas sociais patriarcais com a inerentes reprodução das hierarquias de poder. Deste modo, o amor romântico, porque gera frustração e alimenta sentimentos de hostilidade, revela o seu potencial destrutivo.

Há quem reconheça esse potencial destrutivo do amor romântico, mas mesmo assim defenda que ele precisa de evoluir no sentido da democratização. Todavia, se aceitarmos esta tese, temos de perguntar como deve o amor lidar com o poder de modo a não se deixar corromper; temos de perguntar como são construídas as relações de poder e se há alguma hipótese de pôr um termo às relações de dominação. Se não conseguirmos responder a estas questões, a tese fica sem base de sustentação.

segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

Quando o casamento se desmorona!


Da leitura de “Love, sex and intimacy”, (Elaine Hatfield e Richard L. Rapson) recolho esta interessante reflexão sobre o que frequentemente acontece quando há rutura numa relação conjugal:

“Quando o casamento fracassa, as mulheres reportam frequentemente que os problemas há muito existiam, enquanto os homens percebem a rutura como abrupta e inesperada. Os investigadores sugerem uma razão explicativa. Nas discussões conjugais, os homens podem perceber-se a eles mesmos como vitoriosos e em controlo quando pela sua fúria levam as companheiras a ceder. Estas, contudo, sentindo-se magoadas e frustradas, podem não ter cedido de bom grado: elas podem ir acumulando e guardando memória das injúrias por um período de tempo muito extenso. Quando finalmente os seus sentimentos as levam a desistir da relação, a proposta de rutura chega como uma surpresa para os seus repetidamente “vitoriosos “ companheiros. Afinal, uma vitória com um preço elevado!