Os contos de fadas atravessam as gerações e são transversais a todos os extractos da sociedade; contados às crianças desde a mais tenra infância, servem a dupla função de divertir e ensinar, transmitindo modelos de comportamento e normativos sociais.Sem qualquer esforço e com perfeita naturalidade, as crianças identificam-se com os caracteres que lhes são apresentados a uma luz favorável e distanciam-se e repelem os outros, aprendendo assim por impregnação cultural os papéis que se espera venham a desempenhar. Pode falar-se em autêntica lavagem ao cérebro que garante a prevalência do grupo socialmente dominante.
Como o grupo dominante tem todo o interesse em que as mulheres continuem no lugar subordinado e secundarizado que desde sempre lhes tem sido destinado, as personagens femininas que correspondem às futuras boas mulheres apresentam certos atributos que são especialmente valorizados, destes destacam-se três extremamente importantes: o silêncio, a passividade e a beleza. Vamos ver cada um destes atributos de per si.
Nos contos de fadas as boas meninas são caladas e pacatas: fazerem-se ouvir, manifestar opiniões ou expressar desejos é mostrado como algo pouco apropriado; implicitamente supõe-se que não tem nada de importante a dizer e que assim devem continuar. Esta valorização do silêncio feminino, embora desconcertante, tem uma explicação bastante óbvia. Há uma relação profunda entre palavra e poder, quem tem o dom da primeira pode vir a conseguir o segundo. Saber verbalizar, saber exprimir, é um instrumento poderoso para influenciar os outros e os levar a cursos de acção que podem ser os desejados por aquele que verbaliza. Normalmente associa-se a capacidade verbal a pessoas que ocupam lugares de autoridade, ora não interessa nada que as mulheres sequer pensem em conquistá-los, por isso, nos contos de fadas só as mulheres más, as bruxas é que detém este poder, mas para praticar aquilo que é apresentado como mau, rogar pragas às boas personagens da história. Por isso, manter as mulheres silenciosas é um meio de as dominar.
Nos contos de fadas, um atributo muito inculcado nas mulheres é a passividade; sempre que são colocadas em situações de perigo, não fazem nada, não tomam qualquer iniciativa, apenas esperam pelo «cavaleiro andante» que, arrostando todos os perigos, as virá salvar. A mensagem subliminar que passa é a de que as mulheres são fracas, indefesas e incapazes de tomarem iniciativas e decisões apropriadas pelo que devem deixar esse papel aos homens, pois só eles as podem proteger. É caso para perguntar de quem têm elas de ser protegidas? De qualquer modo, a passividade das mulheres serve para justificar a dominância dos homens.
Por último, mas não menos importante, nos contos de fadas, a beleza é extremamente reverenciada, é a porta da felicidade entendida em termos do perfeito casamento que finalizará a história. As mulheres são amadas porque são belas, não porque são inteligentes ou têm uma personalidade interessante, isso nunca importa. Avaliar um ser humano com base num atributo completamente superficial é extremamente injusto, mas os contos de fadas preocupam-se pouco com a justiça ou com a injustiça, não é para isso que servem.
Estas três características: silêncio, passividade e beleza ainda hoje são muito valorizadas, por isso não surpreende que tantas mulheres as endossem; por isso também quebrar esta corrente que nos subjuga constitui uma tarefa prioritária. Se começarmos por quebrar o silêncio, se nos atrevermos a falar o que até hoje calamos, o resto virá por arrastamento.

