quinta-feira, 30 de julho de 2009

A relação domínio/submissão, inata ?? – Mais um episódio da Sociobiologia

Como vimos, a Sociobiologia não reconhece uma natureza humana comum a homens e a mulheres que, segundo defende, diferem em aspectos essenciais e estes remetem para traços inatos, determinados geneticamente.

Os homens são agressivos e dominadores, as mulheres dóceis e submissas; isto é, a agressividade é um atributo masculino e a docilidade um atributo feminino; ser homem é ser agressivo; ser mulher é ser dócil. Mas estas afirmações são isso, afirmações, e estão longe de ser consensuais .
Considerando, por exemplo, a agressividade, podemos dizer que esta, ao invés de ser um atributo masculino é um atributo da espécie humana, imprescindível, até um certo grau, para a sua subsistência, que tanto se encontra em homens como em mulheres. A agressividade pode exprimir-se sob diversas formas que vão desde a violência física até à violência simbólica; as mulheres, menos fortes fisicamente, não serão tão propensas a manifestar agressividade através da violência física, mas recorrerão a outras estratégias; poderão até adoptar a estratégia da submissão perante o mais forte, se tal for necessário em termos de sobrevivência, mas dizer que são passivas e não são agressivas é um flagrante mal entendido ou prova de má fé.

Por outro lado, a dominância masculina e a submissão feminina, que a teoria também explica por determinismo genético, podem perfeitamente ser explicadas pela superioridade física do macho e por falta de outra opção por parte da fêmea, tudo isto reforçado por um poderoso processo de aculturação e por mecanismos adequados que tem funcionado ao longo dos séculos. Esta explicação, parece mesmo bastante mais lógica, pois não se encontra nenhum animal que goste de ser submisso ou mostre propensão para a submissão, o que acontece é que às vezes não resta alternativa e então... faz-se da necessidade virtude!

A conclusão que podemos tirar é que tanto para a «dominância» masculina quanto para a «submissão» feminina existe explicação alternativa e não é de modo nenhum imperativo supor que se trata de atributos inatos e excludentes. Uma certa dose de agressividade existe em todos os seres humanos; vontade de domínio é provavelmente também uma característica do mundo humano e até também do mundo animal; necessidade de se submeter ao mais forte é algo perfeitamente contingente, não há aí nada de inato, de universal ou de necessário. Mas pretender que os homens são geneticamente dominadores e que as mulheres são naturalmente submissas pode vir muito a jeito quando se pretende perpetuar a supremacia masculina.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A sociobiologia faz o sexismo parecer inevitável

Depois do 1º episódio, apresentado a 26 do corrente, em que se introduzia o tema da sociobiologia e sua utilidade para os nossos dias, aqui vai o guião do 2º episódio: como tudo começou e por que razão é o sexismo inevitável; nem sei porque é que continuamos a teimar numa luta sem sentido ...

A sociobiologia humana, também conhecida por psicologia evolucionista, (1) parte do pressuposto de que a evolução reteve, e constituiu em padrões, os comportamentos cujos resultados melhor respondiam ao objectivo de cada um dos sexos, sendo esse objectivo o sucesso reprodutivo.

(2) Constata que o modo como a reprodução se processa em cada um dos sexos é muito diferente: os homens não precisam de investir muito no processo reprodutivo; diferentemente, as mulheres precisam dedicar-lhe enorme quantidade de tempo e de energia: nove meses de gestação e alguns anos de amamentação.

(3) Destes dados, conclui que as estratégias para garantir o sucesso reprodutivo terão de ser diferentes: um homem procurará sexualmente o maior número de mulheres disponíveis e assim estará como que geneticamente programado para a promiscuidade sexual; como parte do seu impulso para procriar, não hesitará perante a violação, pois é um predador sexual nato. A mulher, dependente do macho para ajudar na protecção das crias, estará programada geneticamente para a monogamia e assumirá o estatuto de presa de um só predador.

(4) Destes papéis irão derivar características psicológicas e comportamentais de um e de outro sexo, os homens tenderão a ser agressivos e dominantes, as mulheres, dóceis e submissas. Homens e mulheres são radical e essencialmente diferentes; (5) essas diferenças, geneticamente determinadas pelas histórias - diferentes, da evolução de cada um dos sexos, não permitem aceitar a ideia de uma natureza humana que homens e mulheres partilhem.

Deste modo, a hierarquia de género está inscrita no código genético e o sexismo parece ser inevitável.

Os pontos 1 e 2 acima assinalados não irão merecer reparo, já os pontos 3 , 4 e 5 serão objecto de escrutínio, mas isso fica para o próximo episódio.
  • Por hoje, convém reter:
    A hierarquia de género está inscrita no código genético - determinismo.
    A agressividade é uma característica masculina inata; a submissão é uma característica feminina igualmente inata.
    Não há uma natureza humana comum a homens e a mulheres - são radical e essencialmente diferentes.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Violência doméstica - problema de homens

Seleccionei hoje um excerto de um artigo de José Saramago que, com palavras fortes e expressivas, mostra como a violência doméstica é um problema de homens:

«De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. »

Mas a violência doméstica é também uma doença da sociedade que só será curada quando se anular o poder absurdo que os homens têm sobre as mulheres, poder esse que, além do mais, se exerce «longe de olhares estranhos».
Sobre o tema da violência doméstica leia também: «Quem bate na mulher... machuca a família inteira »

domingo, 26 de julho de 2009

Ciúmes, adultério, violência, violações ... Tudo por uma boa causa!

Meninas, parem de reclamar! Está tudo geneticamente determinado e é tudo por uma boa causa, como a Sociobiologia[1] o comprova.

O seu namorado faz-lhe terríveis cenas de ciúmes, mesmo sem qualquer motivo, completamente a despropósito? Pois! O pobre rapaz teme que você procure outro geneticamente mais forte e adopta a estratégia do mais vale prevenir do que remediar.

O seu marido não para de a enganar? Bem, releve, é que ele está geneticamente programado para ser promíscuo, é a melhor estratégia para propagar os seus (dele) genes.

É vítima de violência doméstica? Mas trata-se apenas e tão-somente de mais uma estratégia ao serviço da expansão do património genético do macho.

Foi violada por um sujeito horrível, nojento e mal cheiroso? Mas qual a admiração? Como é que machos desprovidos de atractivos físicos poderiam de outro modo reproduzir os seus genes? Sabe, a evolução não brinca em serviço, tem de tomar conta de tudo e fornecer os recursos suplementares, quando os normais não se encontram à disposição.

E olhe lá, você aí, pare de enaltecer a fidelidade do seu companheiro. O que acontece é que ele é desprovido de recursos económicos e de poder e por isso tem de se contentar com o lote que lhe coube em sorte - você, no caso em apreço.

PS. Se quiser saber mais não perca o próximo episódio.

[1] Esta breve apresentação da Sociobiologia Humana, também conhecida por Psicologia Evolucionista, é caricatural, mas não menos verdadeira.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Longe do olhar de estranhos …

Que os homens sempre tiveram e continuam a ter em muitos lugares e em diferentes circunstâncias poder sobre as mulheres, enquanto mulheres, é demasiado óbvio para ser negado. Que hoje esse poder começa a ser questionado em nome de um estatuto mais igualitário, é igualmente uma asserção factual. Que importa conhecer as raízes, a natureza e as razões da persistência desse poder é algo que será igualmente aceite, desde que se dediquem a este problema alguns momentos de reflexão.

John Stuart Mill em The Subjection of Women (1869) fez uma descrição muito lúcida e esclarecedora do modo como é exercido o poder dos homens sobre as mulheres e destacou algumas características que permitem compreender melhor as razões da persistência deste poder, através dos tempos, e da dificuldade em o erradicar.

Em primeiro lugar, o poder dos homens sobre as mulheres perpassa todas as classes sociais e é por todas ciosamente guardado. Do palácio à choupana, o marido, pai e chefe da família, exige e espera obediência e submissão da mulher. Há apenas ligeiras diferenças, enquanto nas classes possidentes, as esposas são encaradas como objectos de adorno que reconfirmam a posição social dos maridos, nas classes destituídas de propriedade, as mulheres têm uma utilidade imediatamente prática, servindo directamente os homens; mas, do ponto de vista psicológico e emocional, os machos das classes trabalhadoras continuam a ver a mulher como propriedade, e, não podendo aspirar a uma posição de estatus social, tendem a impor-se e a brutalizar as mulheres ainda mais do que os ricos.

Por outro lado, este poder exerce-se normalmente na intimidade do lar, longe do olhar de estranhos que não podem presenciar eventuais excessos ou abusos e, sobretudo, onde as mulheres, vivendo isoladas das outras mulheres e estando afectivamente ligadas ao opressor, não são capazes de articular e de objectivar as experiências comuns da sua submissão e de assim tomarem consciência real da situação em que se encontram; esta característica é garantia certa da persistência deste poder que, não sendo objectivado através das palavras e da comunicação discursiva, é encarado como normal e aceite passivamente. O modo como este poder é exercido é muito diferente do poder do senhor sobre os escravos, porque estes podem objectivar e tomar consciência da opressão a que são sujeitos e aproveitar o ódio que alimentam como combustível para se revoltarem quando a oportunidade se oferecer.

É ainda um poder que resulta de uma relação de desigualdade entre homens e mulheres que é apresentada como natural. Sempre que existe uma relação de domínio, este aparece como algo que para o dominador é natural e que o dominado, até certo ponto aceita, só se queixando quando o exercício desse poder é excessivo e comporta abuso nítido. O dominador procura criar condições para que o dominado aceite a relação sem recalcitrar e, no caso das mulheres, os homens esmeraram-se porque, dada a situação de proximidade física e afectiva que mantém com as mulheres, como diz Stuart Mill, eles não querem apenas escravas, querem escravas voluntárias, dóceis e submissas; não querem apenas os corpos e os serviços das mulheres, querem também os seus sentimentos. Desse modo, foi muito importante «educar» as mulheres para que acreditassem que têm um carácter muito diferente do dos homens, que não têm vontade própria nem capacidade de domínio e auto-controlo, que são naturalmente frágeis e dependentes e anseiam ser governadas. Foi ainda necessário que interiorizassem uma imagem delas próprias enquanto seres vocacionados para viverem para os outros, abnegadas, dotadas de espírito de sacrifício; numa palavra, foram ensinadas a viver para os homens e pelos homens, desistindo de uma vida própria, desistindo da sua autonomia e identidade individual. Este condicionamento foi tão forte que ainda hoje estes são traços de carácter que muitas mulheres gostam de reconhecer como seus e que acabam por constituir um entrave à sua afirmação e realizações pessoais.

Assim, dadas as circunstâncias em que o poder dos homens se exerce, conseguiu-se que as mulheres, ou pelo menos muitas delas, aceitassem voluntariamente o estatuto de inferioridade que a sociedade lhes reservava, sem reconhecerem a existência de qualquer coerção, pois julgam estar a exercer a sua liberdade de escolha; mas isto não impede, como lucidamente Stuart Mill acentuou, que não exista coerção, ela existe e é mesmo pior do que aquela que subjaz à escravatura, pois resulta de uma relação de profunda desigualdade que foi mascarada para parecer consensual e que se torna muito difícil de erradicar porque não é reconhecida enquanto tal.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Direitos do indivíduo e feminismo

É ao pensamento liberal que devemos a noção de direitos do indivíduo. O liberalismo parte do princípio de que o indivíduo, enquanto indivíduo, e não enquanto homem ou mulher, rico ou pobre, ignorante ou instruído, membro desta ou daquela família, desta ou daquela religião, ou mesmo sem religião, tem valor intrínseco, enquanto ser dotado de razão e de autonomia, e é portador de direitos inalienáveis que o Estado deve garantir e proteger.
Considerando como as comunidades, e nestas as próprias famílias, funcionaram e funcionam enquanto mecanismos opressores e repressores dos elementos femininos, insistir nos direitos do indivíduo, defender que a identidade do indivíduo não é anulável pela sua pertença a uma comunidade, representa um valor inestimável, uma conquista da humanidade e para as mulheres algo de que não podem desistir sob pena de se regressar à idade das trevas. O conceito de direitos do indivíduo revelou-se assim um instrumento poderoso na luta das mulheres contra a opressão de que têm sido vítimas e permitiu-lhes reivindicar com sucesso o direito a tomarem decisões acerca da sua própria vida.
Por outro lado, a linguagem dos direitos é uma que todos compreendem, não requer explicações adicionais e permite que se percebam rapidamente as injustiças de que as mulheres têm sido o alvo preferencial, pois que se os seres racionais merecem respeito e reconhecimento dos seus direitos, então, se as mulheres são seres racionais, elas também merecem o mesmo respeito e reconhecimento dos mesmo direitos e, se tal não acontece, algo está errado e é moralmente repreensível. Como se pode ver, uma argumentação clara, consistente e … irrespondível.

Por último, mas não menos importante, o pensamento liberal repousa no conceito de indivíduo enquanto capaz não só de razão, mas também de reflexão e de auto-reflexão e não puramente determinado por forças biológicas e sociais que escapem completamente ao seu controlo. Este conceito é importante pois que, se aceitássemos, como pretende a sociobiologia, a noção de que o indivíduo é determinado, então poderíamos perguntar onde é que, nesse contexto, fica a ética, pois deixaríamos de poder julgar os comportamentos como certos ou errados, e nesse caso a opressão das mulheres surgiria como algo inevitável e não susceptível de apreciação moral.

Por todas estas razões, penso que o pensamento liberal continua a ser um aliado poderoso do feminismo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Salvar a Religião sacrificando a Igreja??

No último post divulguei a notícia sobre Jimmy Carter e o seu abandono da Igreja Baptista de que foi membro durante mais de sessenta anos. Com este gesto, o ex-presidente parece querer salvar as religiões, sacrificando as Igrejas. Mas não sei se as coisas serão assim tão simples porque muitos dos textos (ditos) sagrados em que as religiões se fundam - e o cristianismo está longe de ser excepção, fornecem combustível mais do que suficiente para inflamar os ânimos de todos aqueles que tem propensões misóginas, e são muitos.

Carter cita, entre outros, o apóstolo Paulo; mas aqui temos de lembrar os inúmeros escritos nos quais este invectiva as mulheres e as culpa por todos os males de que a humanidade padece; também não podemos esquecer que ele foi o primeiro a enfatizar as implicações misóginas da história bíblica da criação. Pode ter sido mais complacente em um ou outro momento, mas com isso não apagou a intensa carga misógina que os textos que lhe são atribuídos contem. E o apóstolo Paulo é apenas um exemplo de muitos outros.

Por outro lado, apelar para que se fundem doutrinação e ensinamentos em textos religiosos mais clementes e consentâneos com a sensibilidade contemporânea, fazendo uma espécie de branqueamento de todos os outros que até à data tem sido os dominantes, parece ser uma estratégia bem intencionada, mas condenada ao fracasso, porque, impiedosos ou clementes, esses são textos escritos há milhares de anos por homens necessariamente pouco esclarecidos e de uma maneira geral propensos à credulidade e ao preconceito e por isso a dissonância cognitiva será insuperável: como se pode consultar a vontade de Deus dando crédito total e absoluto a tais documentos?

sábado, 18 de julho de 2009

Se as religiões vão continuar, as Igrejas têm de mudar

No passado domingo, 12 de Julho, Jimmy Carter, antigo Presidente dos Estados Unidos e Prémio Nobel da Paz, declarou publicamente que iria abandonar a Igreja Baptista, a que pertenceu durante mais de sessenta anos, por divergência relativamente ao modo como esta continua a justificar a subordinação das mulheres, através de uma interpretação distorcida da palavra de Deus.

Nessa declaração, Carter pediu «a todos os lideres que desafiem e mudem os ensinamentos e práticas, não importa quão entranhadas elas possam estar, que justificam a discriminação contra as mulheres.»

A declaração que aqui transcrevo do texto de Carter não deixa margem para qualquer ambiguidade de interpretação:

«At their most repugnant, the belief that women must be subjugated to the wishes of men excuses slavery, violence, forced prostitution, genital mutilation and national laws that omit rape as a crime. But it also costs many millions of girls and women control over their own bodies and lives, and continues to deny them fair access to education, health, employment and influence within their own communities...

The impact of these religious beliefs touches every aspect of our lives. They help explain why in many countries boys are educated before girls; why girls are told when and whom they must marry; and why many face enormous and unacceptable risks in pregnancy and childbirth because their basic health needs are not met....

The truth is that male religious leaders have had - and still have - an option to interpret holy teachings either to exalt or subjugate women. They have, for their own selfish ends, overwhelmingly chosen the latter. Their continuing choice provides the foundation or justification for much of the pervasive persecution and abuse of women throughout the world. This is in clear violation not just of the Universal Declaration of Human Rights but also the teachings of Jesus Christ, the Apostle Paul, Moses and the prophets, Muhammad, and founders of other great religions - all of whom have called for proper and equitable treatment of all the children of God. It is time we had the courage to challenge these views. »

Um acto corajoso que outros lideres políticos deviam tomar como modelo.

Uma estranha no mundo da cultura!!


As imagens (que se integram para formar um único quadro) recriam a ambiência de uma pintura do século XVIII: homens jovens e austeros, vestidos de couro, rodeados por objectos que celebram a ciência, a arte e a história ocidentais, tudo enquadrado por uma arquitectura opulenta, quase majestática. Neste cenário, choca, pelo contraste, a figura de uma mulher que timidamente procura esconder a sua nudez, transmitindo um sensação de fragilidade e vulnerabilidade e que é representada imóvel, como um objecto, decorativo e luxuoso, entre outros objectos.

Mensagem subliminar? A mulher está fora de contexto na história da cultura ocidental.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Má reputação

O inefável Rousseau, pseudo-feminista, sexista benevolente, e às vezes nem tanto, a quem Voltaire chamava, com propriedade, amigo ingrato, pai desnaturado e hipócrita, afirmava que a opinião pública era o túmulo da virtude do homem e o trono da virtude da mulher, querendo significar com esta bombástica frase, tão ao jeito da sua persuasiva retórica, que os homens podiam e deviam ignorá-la, mostrando assim a sua autonomia e assertividade, mas as mulheres tinham a estrita obrigação de se lhe submeterem sem darem azo a que a sua reputação fosse minimamente beliscada.

Rousseau limitava-se a dar voz a um preconceito antiquíssimo que muitas mulheres, a maioria, ainda não se atrevem a questionar. Nos nossos dias, é altamente improvável que qualquer mulher em situação de poder, independentemente do seu comportamento sexual, não tenha sido mimoseada com o adjectivo de «puta», pronunciado mais ou menos enfaticamente. Ainda hoje, «filho da puta» ou «bastardo» como eufemísticamente dizem os ingleses, continua a ser um grave insulto, mesmo que a «puta» em questão se tenha limitado a parir um filho fora de uma relação convencional. Isto para não falar das mulheres que decidem assumir a sua liberdade sexual; para estas, o duplo padrão de conduta, que permite aos homens o que proíbe às mulheres, continua a ser implacável como a imagem sarcasticamente sugere.

Resumindo, continua a presidir às nossas vidas uma moral sexual hipócrita para a qual as virtudes femininas são as de um comportamento sexual de acordo com os «bons costumes» que, além disso, não deve ameaçar a hegemonia masculina.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Compreendo, mas não gosto!

Que Michell Obama, na audiência concedida pelo papa ao casal presidencial, tenha decidido usar o véu, em sinal de respeito pelo lugar e pela situação, compreendo. Mas não gosto!

Estamos habituados a ligar o véu aos costumes religiosos islâmicos e esquecemos que ele também corresponde a uma tradição cristã e que nesta têm exactamente o mesmo significado. Essa tradição está hoje em desuso, mas tal não implica que o referido adereço tenha perdido a simbologia que esteve na sua origem. Nos textos bíblicos há várias referências ao dever da mulher cobrir a cabeça quando no templo, dever esse que não atinge o homem porque é à mulher que é exigido recato, modéstia e subserviência.

Voltando a Michelle. Usar um véu perante o papa, e não é por acaso que ele é um homem, significa assumir, perante ele (homem) e enquanto mulher uma atitude de subserviência e submissão, significa pactuar com os valores patriarcais.
Claro que se não o fizesse, Michelle seria massacrada pelos Media. Por isso, compreendo. Mas não gosto!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Evitar o aborto ou controlar a sexualidade feminina!?

Gosto quando as pessoas têm a coragem de pôr o dedo na ferida e chamar os bois pelos nomes. Foi assim, hoje, com o congressista norte – americano Tim Ryan que abandonou a sua posição pelo «Democrats For Life of America».

Nos Estados Unidos, algumas organizações Pró-Vida, democratas e republicanas, não só se opõem à legalização do aborto, como também contestam o controlo de nascimentos pelo uso de contraceptivos, único meio seguro de evitar uma gravidez indesejada e de, desse modo, reduzir significativamente o número de abortos.
Ora, o congressista Tim Ryan chegou à conclusão óbvio: estas organizações não querem pôr termo ao aborto, querem controlar o corpo da mulher e a sexualidade feminina.

São os novos cruzados dos tempos modernos. Mais um quotidiano da misoginia!