quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sadomasoquismo e ética


Para muitas pessoas, desde que exista consenso genuíno entre as partes, as práticas sadomasoquistas não levantam qualquer problema ético. Argumenta-se que o desejo sexual é virtuoso por si mesmo, é bom, e tudo o que o satisfaça, desde que não haja o recurso à coação ou à fraude, é legítimo.

Aqueles que se colocam nesta posição estão a dar uma resposta liberal a este problema; mas este tipo de resposta, considerando o estado atual dos nossos conhecimentos, pode não ser o mais correto. Em boa verdade, essas pessoas assumem uma visão liberal da teoria do contrato social, considerando que este é legítimo desde que as partes estejam de acordo, desde que não exista coação, desde que não haja logro. Mas esquecem que esta versão pressupõe algo que está longe de se verificar: que os indivíduos contratantes têm plena autonomia e estão completamente desinseridos do contexto social e político em que as suas vidas decorrem.

A teoria do contrato, aparentemente parece salvaguardar tudo, mas de facto tal não acontece. Porque se houver assimetria flagrante entre as partes – se entrarmos em linha de conta com o contexto - se uma das partes precisar da outra para sobreviver, ela até pode dar a sua adesão, mas tratar-se-á sempre daquilo que Pierre Bourdieu subsumiu no conceito de “adesão extorquida”.

Voltando ao sadomasoquismo, não basta sabermos que as pessoas querem, precisamos de perguntar em que moldes o seu querer foi construído, como é que o seu desejo sexual foi condicionado/manipulado pelo contexto em que decorre as suas vidas. E não basta porque parece largamente insuficiente argumentar que as pessoas gostam de sofrer, de ser humilhadas, de ser reduzidas, por vontade própria, à escravatura, e depois pensar que isso, esses tipos de desejo, não tem importância nenhuma, está tudo certo, e não tem qualquer repercussão nem em outras facetas da sua vida, nem na vida das outras pessoas.

 Seria como se aceitássemos a escravatura desde que os escravos gostassem e quisessem ficar na dependência dos seus senhores, seria como se não percebêssemos que a indignidade se manteria e que a humanidade sairia diminuída enquanto tal.

13 comentários:

  1. Estou com as feministas radicais que veem no BDSM uma prática que fetichiza as hierarquias e relações de poder e a violência que sempre permeou e ainda permeiam as relações entre os seres humanos, entre homens e mulheres.

    Há também, a questão das pessoas que realmente são e foram torturadas em regimes de exceção com as mesmas práticas dos adeptos do BDSM. Lembro-me dos torturados da Argentina, Brasil, Chile e etc e penso que quando reproduzem essas violências 'por prazer', por 'liberdade de expressão', na verdade estão debochando e banalizando a violência que essas pessoas que lutavam e lutam contra governos anti-democráticos e fascistas, sofreram. E o pior é que os praticantes do BDSM, acham que estão sendo vanguardistas, libertários e eu penso que não, apenas estão fazendo mais do mesmo que sempre existiu no violento patriarcado.

    E ainda existe o problema do consentimento, que nesse meio é uma questão delicada e ainda não resolvida entre os próprios praticantes. Há muito tempo atrás, li num famoso blog BDSM do Brasil, o seu dono declarar que em sendo ele o dominador, a palavra de segurança (a palavra de segurança, é combinada antes entre os participantes, para que o masoguista possa se defender se uma prática estiver ultrapassando seus limites) não existia, pois ele é quem tinha autoridade para impor os limites.

    E num blogue de uma masoquista americana, li uma grave denuncia feita por ela, da enorme quantidade de estupros que ocorrem dentro do meio BDSM, mas que não são sequer denunciados, porque os adeptos entendem que estupro entre eles não existe; ou porque se confunde com as próprias práticas sadomasoquistas ou porque a palavra de segurança, quando proferida pela mulher é ignorada.

    Concordo muito com seu parágrafo final, aceitar sem questionar o BDSM, é fingir que que não percebemos que a indignidade da violência está sendo glamourizada e que nós estamos aceitando e validando que violar, machucar, humilhar, destruir, vilipendiar outro ser humano por simples prazer não nos diminui enquanto seres humanos, enquanto humanidade.

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  2. Obrigada pelo seu comentário que vem complementar e enriquecer o meu texto.
    abraço, Adília

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  3. La verdad, Adilia, es que con respecto al tema del sadomasoquismo no sé muy bien qué pensar.

    Antes opinaba que no era correcto, porque sometía a una persona a un rol de "ente dominado" mientras que la otra parte es el "ente dominador" y ningún tipo de jerarquía me gusta.

    Pero últimamente estoy dándole vueltas a la cabeza gracias a un blog de "Mosca Cojonera", que narra qué es y qué no es el sadomasoquismo, cómo se da el mutuo acuerdo, etc.

    Y la verdad es que, por lo visto, el sadomasoquismo solo se da en el acto sexual. No es más que un juego, un teatro, un rol. No se extiende más allá, en la vida diaria. Por lo tanto, si no es más que un rol ejercido en un momento de la vida, ¿qué problema hay con eso? Habríamos de prohibir, entonces, las obras de teatro en la cual una parte ejerce un rol de figura dominada, ¿no crees?

    Además, según ese autor, tiene cosas buenas. Como bien ha dicho la persona anónima que ha comentado, mucha gente cede a estas prácticas por haber sido maltratada, torturada, etc. Y al parecer el sadomasoquismo, al asociar el sexo (esto es, algo placentero) con un trauma de su vida, ayuda a las personas que han padecido determinados problemas a seguir adelante.

    No sé, ¿tú qué opinas con respecto a lo que te comento?

    Un abrazo.

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  4. Olá Enrique
    Julgo que a nossa tendência para o pensamento liberal e para o individualismo nos predispõe a considerar que o sadomasoquismo deve ser “tolerado”, se houver liberdade da parte de quem se entrega à prática; mas também julgo, como digo no meu texto, que é preciso fazer uma abordagem radical e entre outras coisas, perguntar que fins serve essa prática. Tudo indica que ela reforça, porque inscreve no mais profundo da personalidade, relações hierárquicas de poder. E não acredito que essas práticas sejam meros jogos, pela simples razão de que não há meros jogos, os jogos têm uma simbologia, estão ao serviço de qualquer coisa.
    Todavia, concordo que é muito importante estudar este fenómeno, nos seus componentes, nomeadamente o masoquismo que, segundo algumas autoras feminista, é um instrumento económico e fundamental para manter as estruturas patriarcais e por tal motivo é tão estimulado e reforçado; se as pessoas forem masoquistas aceitarão muito melhor a submissão e a obediência e não vão recalcitrar.
    Um abraço e votos de bom 2014, de que tão precisados estamos.
    Adília

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  5. Hola. Les recomiendo leer mi articulo varonista sobre las jerarquías y dominación en las relaciones sexuales entre el hombre y la mujer. Su titulo es:

    El sexo anal y la jerarquía natural entre el hombre y la mujer.

    http://larebeliondelvaron.blogspot.com.ar/2013/10/el-sexo-anal-y-la-jerarquia-natural.html?showComment=1392443052087#c6649360897800304591

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Olá! (ficou longo, mas é que o assunto me é apaixonante)

    Comento o seu texto como adepta do BDSM além de escritora sobre o tema tendo livro e alguns artigos publicados, um deles inclusive sobre o SSC (uma espécie de doutrina seguida pela maioria dos adeptos que garante a segurança da parte bottom, o nome correto para quem recebe as práticas em seu corpo feitas pelo Top).

    Eu senti no artigo um temor e uma verdadeira tentativa de proteção às mulheres que se colocam em posição de submissão - e toda força em prol de proteger, instruir e retirar quaisquer pessoas que encontrem-se em tal posição, sejam elas de que gênero forem, é louvável.

    Entretanto, há alguns detalhes a serem levados em consideração. Em seu terceiro parágrafo, quando fala de que contratos sociais são válidos apenas quando os indivíduos estão fora do ambiente em que este acordo foi firmado isto torna absolutamente impossível o estabelecimento de qq contrato social que seja. Desde o mais simples ao mais complexo pelo simples fato de que todos estamos inseridos em sociedades que nos influenciam e são influenciadas por nós.

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  8. Há algo que talvez por ignorar os trâmites do estabelecimento de uma relação BDSM você não leva em consideração. A negociação. Toda e qualquer relação BDSM estabelece-se mediante uma negociação entre todas as partes envolvidas. E nesta negociação não há Tops ou bottoms. Há indivíduos adultos e independentes falando de seus desejos e fantasias - e em especial sobre seus limites.

    Assim em uma mesa de negociação, qualquer das partes pode e deve colocar quais práticas estariam fora de cogitação, quais práticas experimentariam no clima certo, quais práticas gostariam de experimentar regularmente. Eles discutem de igual para igual.

    E o contrato, da maneira como o vejo e defendo, é dinâmico. Pode e deve ser reaberto e renegociado a qualquer momento da relação e que seja preferencialmente escrito. Na palavra escrita não sobra espaço para questionamentos ou esquecimentos. No Brasil não há qualquer valor em um papel como este, entretanto ele é válido entre as duas partes pois demonstra a expressão de suas vontades discutidas detalhadamente na negociação.

    Outro detalhe interessante em seu texto é a questão da "adesão extorquida". Ora, se o relacionamento inicia-se apenas na discussão dos termos da negociação, não há como uma parte depender da outra - não existe relacionamento. E mais. Mesmo que uma parte passe a depender da outra, se tal for negociado no contrato, não estarão eles aderindo a esta condição de livre vontade?

    Na maior parte dos casos não é isto que acontece. Poucos hoje, pelo menos no Brasil, conseguem manter uma casa e seus gastos unilateralmente. Assim vêm-se poucos relacionamentos em que os bottoms vivem por conta do Top. Lembro-me de um caso assim - o Top, no caso, era empresário, mas ao negociar com sua bottom ela permanecia em casa. Como contrapartida ele depositava para ela um fundo de pensão que poderia ser acessado em caso de separação. Sim, o BDSM é isto: é zelo e cuidado por parte do Top em relação ao seu bottom. Ele é sua responsabilidade acima de tudo - seu bem estar psíquico, social, físico e financeiro também.

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  9. Eu, pessoalmente, enquanto hedonista que sou, defendo que cada indivíduo deve embarcar na viagem sexual, pessoal, religiosa, que lhe agrada. Ora, não vemos relatos de pessoas da Opus Dei, organização religiosa, que usam cilícios em suas coxas? Como negar que haveria prazer religioso em tal ação?

    E mais. No primeiro comentário percebi algumas incorreções talvez por desconhecimento. Quando um Dono fala que não há safe porque ele determina o limite isto significa que isto foio previamente acordado quando da negociação. E mais, não significa que não há limites - apenas significa que estes limites são pré-estabelecidos. E veja - nenhum bottom é obrigado a aceitar isto. Lembre-se que na negociação ambos têm poder igual. Se não lhe agrada o prpoposto e não há abertura para negociação é simplesmente "tchau e bença" - como dizemos em Minas.

    Outra coisa. A questão dos estupros. Quem sequer lhe informou que entre adeptos nao existe o conceito de estupro falou uma baita MERDA. (Desculpe-me, mas este é um assunto que me deixa bem nervosa). Gastamos artigos e artigos, comentários e comentários em sites especializados e em grupos fechados no facebook explicando com todas as letras quais são as diferenças entre um relacionamento BDSM e violência doméstica. Como reconhecer um do outro - e como perceber se seu relacionamento idealizado não passou do limite de um para o outro. Nenhum tipo de violência é aceito por qualquer adepto sério. Inclusive o estupro.

    Há uma prática que algumas vezes, por ignorância é confundida com o estupro é algo que se chama fake rape. Mas veja bem a tradução do termo. Fake = falso. Ou seja, é uma simulação de estupro que normalmente é discutida no contrato e o bottom relata como sendo sua fantasia. O fake rape somente é feito sob consentimento claro e expresso e mais: respeita todos os limites negociados.

    Inclusive entre os mais experientes é uma experiência conduzida com cuidado e respeito pelo bottom que, muitas vezes deseja sentir a adrenalina do ato sabendo-se seguro. É mais ou menos como entrar em um trem fantasma ou assistir a um bom e assustador filme de terror - você sente o medo, a adrenalina, mas sabe que é tudo encenação.

    Qualquer coisa diferente disto é vista por nós, adeptos, como abominação e caso de polícia.

    Agora, talvez o maior erro o mais crasso está no tratamento do tema como misoginia e sexismo (é o assunto do blog, certo?). Primeiramente - é interessante que se diga que um Dominador preocupa-se com sua bottom. Tem a ela como parte de uma de suas obrigações enquanto homem/mulher: cuida do bottom, dá-lhe prazer, está atento aos seus desejos etc.Isto é o oposto da misoginia.

    E mais - muitas das mulheres que se colocam em posição de submissão possuem posição de gerência ou comando em suas vidas fora do BDSM. Elas relatam sentir alívio ao simplesmente entregarem o Poder a outro.

    Agora vocês observaram que eu sempre disse bottom e não submissa a maior parte do tempo?

    Por que?

    Pelo simples fato de que não são apenas mulheres que colocam-se na posição de servir ou de serem as receptoras das técnicas BDSM (sejam as de bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo).

    Há muitos homens que também colocam-se nesta posição de servir mulheres Dominadoras, como eu mesma. E eles relatam a mesma sensação de alívio de não terem mais que ser os grandes, os sabedores, os donos da verdade, os comandantes - de poderem se entregar para quem confiam.



    .

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  10. Quanto a mim - não - ninguém JAMAIS me verá de livre vontade agindo servilmente em relação a um homem. (Se virem considerem duas opções polícia ou manicômio). E sou fruto da mesma sociedade patriarcal, criada com os mesmos valores religiosos que muitos (em uma família evangélica) etc etc etc. Fui ensinada que mulher boa é mulher para casar. É mulher casta. É mulher que mete de luz apagada. E quem sou eu?

    Uma hedonista, muito prazer. Livre para fazer as escolhas que eu quero - viver o BDSM em seu esplendor como fiz, e depois de anos assumir um casamento "tradicional" e com um filho de 14 anos. Um marido, sim, que me acompanha em todas as festas, que conhece meus gostos e que me respeita como indivíduo. Sorte minha? Não - nós atraímos exatamente o tipo de gente que exalamos.

    Quanto a se eles, os submissos, são em menor ou maior número - depende muito de onde se procura. Obviamente, eu tenho uma visão distorcida do assunto pela obviedade de minha posição Dominadora. E como sou vista pelos demais? Com respeito - sejam bottoms meninos ou meninas, sejam Tops homens ou mulheres, porque demonstro respeito e educação no trato com todos eles. Recebo o mesmo em troca.

    É claro que não quero dizer que o BDSM está cheio de santos. Que não há predadores entre nós. O que tem que ficar claro na verdade, é que a comunidade como um TODO se posiciona claramente contra tais incentivando vítimas (homens ou mulheres) a procurarem a polícia e excluindo os tais de nosso meio. Em casos extremos inclusive divulgando nomes e nicks para a proteção de todos.

    (E sim, agora foi o fim. Desculpem-me a longa dissertação - é que eu e alguns amigos achamos que é nosso dever desfazer enganos e mostrar a faceta real e aceita pela comunidade do que é BDSM e do que é ser adepto).

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  11. Deixo um link que pode ser instrutivo - é o depoimento de uma submissa e feminista.

    http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/04/guest-post-sou-feminista-e-submissa-no.html

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  12. O contrato social liberal já pressupõe a autonomia dos indivíduos, de maneira que a sua crítica é: "como saber que a escolha foi livre se pensamos no contexto social e histórico da formação da sexualidade?". Nesse caso, a resposta também não fica fácil de ser respondida. Como saber se o desejo de ser humilhado no ato sexual é autodeterminado ou não? E se for?

    É dificil pensar também como ficaria essa questão em termos legais e institucionais. Vamos proibir o BDSM como a escravidão é proibida, mesmo que o sujeito diga "eu quero isso, eu gosto disso e não estou maluco"?

    Creio que no BDSM a máxima é: "aceito de livre vontade ser submisso e objetificado até certo grau, desde que eu possa sair dessa condição a no momento que eu quiser". No fundo, ainda que se aceite um grau de objetificação, a ultima palavra deve ser sempre do sujeito.

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  13. Pois, mas estes comentários parece não levarem em conta que o desejo sexual é socialmente construído, sob uma base instintiva é certo, mas entre o inato e o adquirido a fronteira está longe de ser simples. Aqui as coisas parece passarem-se do seguinte modo, aprendida a submissão o melhor, pelo menos para algumas, é fazer da necessidade virtude e "fingir" que se ama a submissão. Coloco fingir entre aspas porque de facto as pórprias não se percebem a si mesmas como autoras de qualquer fingimento

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