sábado, 11 de março de 2017

MISOGINIA E CONTROLO DA NATALIDADE

No século XX, mesmo após a conquista do direito de voto, nas sociedades mais avançadas do Ocidente, uma outra batalha teve de ser travada que implicou a mobilização das mulheres e encontrou resistência feroz por parte de muitos sectores da sociedade (não so da maioria dos homens).

Com essa batalha, pretendeu-se libertar as mulheres do risco de gravidez indesejada, permitindo-lhes o controlo sobre a sua própria capacidade reprodutiva. Nessa conjuntura, o movimento feminista foi indispensável.

Mais uma vez, aqueles que se opunham a essa libertação puderam contar com a ajuda preciosa da ideologia judaico-cristã. Mesmo na Inglaterra a igreja anglicana denunciou o facto como uma profunda heresia. Nos Estados Unidos, quando no principio do século XX uma mulher tinha em média 3 filhos contra a média de 7 no inicio do século XIX, muitos e muitas sentiam-se  assustados e temiam a degenerescência da sociedade e da família. As próprias mulheres alinhavam nessa reação  e por exemplo, Elizabeth Blackwell, a primeira mulher norte-americana a obter o grau de médica percebia as práticas de controlo da natalidade como algo contra natura. e portanto desaconselhável.
O presidente Roosevelt considerava decadente o uso de preservativos e, antecipando o nazismo, apodava as mulheres que a eles recorriam de “criminosas contra a raça e objeto de desprezo pelas pessoas saudáveis.”

Com tudo isto, o que estava em causa era manter as mulheres dependentes e mesmo à mercê dos homens. Era impensável que a mulher pudesse, contrariando as Escrituras e o destino que estas lhe reservavam, controlar o seu corpo e entregar-se à atividade sexual sem receio de gravidez. Isso era sinónimo de autonomia e embora todos dissessem adorar as mulheres, pretendiam que elas continuassem no lugar que lhes cabia. 


Todavia, quando em 1955 foi descoberta a pílula anticoncepcional, apesar de todos os entraves que então se colocaram, ameaçando-se as mulheres com doenças graves, percebeu-se que era uma questão de tempo, mas esta batalha já tinha tido o seu desfecho.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MISOGINIA e MASSACRE EM CAMPINAS


Nos primeiros minutos de 2017, o massacre cometido em Campinas ceifou brutalmente 12 vidas humanas , das quais nove eram de mulheres.
Márcia Tiburci reflete sobre o acontecido na entrevista que a seguir transcrevemos e que foi publicada por BBC Brasil, 05-01-2017. 


- Nas cartas que o autor da chacina deixou, há um discurso repleto de ódio contra as mulheres, chamando todas elas de "vadias". Dos 12 mortos, 9 eram mulheres. O que isso representa?

Esse elemento no discurso do assassino faz parte de um contexto mais geral, a meu ver. A gente chama isso de misoginia. Esse discurso não é novo: ele só nos choca no fato de ser tão declarado e de aparecer numa maneira tão tosca.
O caráter brusco desse discurso, que tem autorização para dizer tudo isso sem preocupação, isso é o que o torna mais chocante. Mas se você for ler discursos mais rebuscados na mídia tradicional, na Bíblia, nos textos clássicos da História, você encontra o mesmo tipo de conteúdo, a mesma estrutura simbólica de ódio às mulheres. Como há um ódio histórico aos judeus, aos negros.
O ódio no contexto do machismo é estrutural. Não tem machismo sem ódio. Todo machismo carrega em si um afeto odiento. Seja como repulsa, como inveja, como necessidade de fazer calar.

Muitos estão tratando o assassino como psicopata. O que acha disso?

Ele poderia ser, de fato, a partir de um ponto de vista psiquiátrico, medido como um psicopata. Mas não temos esse registro comprovado. A gente tem que tomar muito cuidado com isso, com esse diagnóstico que surge no senso comum.
O importante aqui é que do ponto de vista sociológico, filosófico, a gente não vive sozinho, a gente tem influência do meio em que vivemos. Eu diria que esse cidadão seria, no nível do senso comum, apenas um pobre coitado que realiza algo que é da ordem do desejo coletivo. É um desejo forjado por uma estrutura social machista e que nesse momento perde seu freio.
Um dos exemplos que perde o freio social, a noção da lei. Ele confronta a lei de uma maneira jocosa, interpreta a lei à luz da sua própria ignorância e usa essa ignorância como um aval, uma justificativa.
Mas ele não inventou essa matança sozinho. Ele pode ter maquinado essa chacina sozinho, mas não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave.
Podemos analisar esse lugar do encontro entre a atitude particular e um contexto percebendo a semelhança entre o discurso que ele profere e o discurso que a gente vê no senso comum. Esse indivíduo pensa a partir do senso comum. É importante perceber que as ideias não são nossas, eu tenho ideias com relação ao mundo, eu absorvo os conceitos do mundo, as ideias do mundo, e nós vivemos em um mundo machista, misógino.
Ele, em que pese sua culpa, é mais um cidadão que foi destruído pelo machismo. Não é mais vítima do que as vítimas que ele causou, mas ele é também vítima de um sistema dos quais todos nós somos vítimas. A gente não deve colocar a culpa no indivíduo, a culpa é de um sistema de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados.
Esse cidadão rompeu com o bom senso, com a racionalidade, mas ele estava buscando a compensação.
Eu, como professora de Filosofia, acho que as pessoas não devem nesse momento achar que elas não têm nada a ver com isso. Elas têm algo a ver com isso, nós todos temos, porque todos nós participamos de uma cultura assim. Onde nós como cidadãos estamos errando? Esse cidadão pode fazer o que fez? Ele achou que estava acima da lei.


Muitas pessoas comentaram que o autor da chacina seria uma personificação dos comentários que se lê nas redes sociais - o discurso dele traz esses elementos de ódio que encontramos nas redes. Qual é o perigo de tornar "naturais" esses discursos?

A naturalização faz parte da história da cultura. O feminismo irrita porque ele é um questionamento do machismo naturalizado, estrutural. Então todo o questionamento relativo àquilo que foi naturalizado incomoda.
As naturalizações servem pra acobertar alguma coisa. Nesse caso, um sistema de privilégios dos homens. Nesse sistema de privilégios, os homens não querem olhar para uma mulher como alguém de igual para igual. Então esse indivíduo assassino olhava para mãe do seu filho como uma pessoa que não tinha direito nenhum, a reduzia a uma vadia. Ele se colocava como cidadão de bem, correto, de tão correto acima da lei.
A grande questão pra se colocar hoje é: como nós chegamos a essa ideia de que nós podemos fazer tudo o que a gente achar certo. Ele rebaixa a cidadã, mas rebaixa (também) a lei.

Mas ele não inventou isso sozinho. Ele é uma evidenciação, uma metonímia da sociedade nesse momento. É a parte que fala pelo todo.