quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MISOGINIA e MASSACRE EM CAMPINAS


Nos primeiros minutos de 2017, o massacre cometido em Campinas ceifou brutalmente 12 vidas humanas , das quais nove eram de mulheres.
Márcia Tiburci reflete sobre o acontecido na entrevista que a seguir transcrevemos e que foi publicada por BBC Brasil, 05-01-2017. 


- Nas cartas que o autor da chacina deixou, há um discurso repleto de ódio contra as mulheres, chamando todas elas de "vadias". Dos 12 mortos, 9 eram mulheres. O que isso representa?

Esse elemento no discurso do assassino faz parte de um contexto mais geral, a meu ver. A gente chama isso de misoginia. Esse discurso não é novo: ele só nos choca no fato de ser tão declarado e de aparecer numa maneira tão tosca.
O caráter brusco desse discurso, que tem autorização para dizer tudo isso sem preocupação, isso é o que o torna mais chocante. Mas se você for ler discursos mais rebuscados na mídia tradicional, na Bíblia, nos textos clássicos da História, você encontra o mesmo tipo de conteúdo, a mesma estrutura simbólica de ódio às mulheres. Como há um ódio histórico aos judeus, aos negros.
O ódio no contexto do machismo é estrutural. Não tem machismo sem ódio. Todo machismo carrega em si um afeto odiento. Seja como repulsa, como inveja, como necessidade de fazer calar.

Muitos estão tratando o assassino como psicopata. O que acha disso?

Ele poderia ser, de fato, a partir de um ponto de vista psiquiátrico, medido como um psicopata. Mas não temos esse registro comprovado. A gente tem que tomar muito cuidado com isso, com esse diagnóstico que surge no senso comum.
O importante aqui é que do ponto de vista sociológico, filosófico, a gente não vive sozinho, a gente tem influência do meio em que vivemos. Eu diria que esse cidadão seria, no nível do senso comum, apenas um pobre coitado que realiza algo que é da ordem do desejo coletivo. É um desejo forjado por uma estrutura social machista e que nesse momento perde seu freio.
Um dos exemplos que perde o freio social, a noção da lei. Ele confronta a lei de uma maneira jocosa, interpreta a lei à luz da sua própria ignorância e usa essa ignorância como um aval, uma justificativa.
Mas ele não inventou essa matança sozinho. Ele pode ter maquinado essa chacina sozinho, mas não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave.
Podemos analisar esse lugar do encontro entre a atitude particular e um contexto percebendo a semelhança entre o discurso que ele profere e o discurso que a gente vê no senso comum. Esse indivíduo pensa a partir do senso comum. É importante perceber que as ideias não são nossas, eu tenho ideias com relação ao mundo, eu absorvo os conceitos do mundo, as ideias do mundo, e nós vivemos em um mundo machista, misógino.
Ele, em que pese sua culpa, é mais um cidadão que foi destruído pelo machismo. Não é mais vítima do que as vítimas que ele causou, mas ele é também vítima de um sistema dos quais todos nós somos vítimas. A gente não deve colocar a culpa no indivíduo, a culpa é de um sistema de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados.
Esse cidadão rompeu com o bom senso, com a racionalidade, mas ele estava buscando a compensação.
Eu, como professora de Filosofia, acho que as pessoas não devem nesse momento achar que elas não têm nada a ver com isso. Elas têm algo a ver com isso, nós todos temos, porque todos nós participamos de uma cultura assim. Onde nós como cidadãos estamos errando? Esse cidadão pode fazer o que fez? Ele achou que estava acima da lei.


Muitas pessoas comentaram que o autor da chacina seria uma personificação dos comentários que se lê nas redes sociais - o discurso dele traz esses elementos de ódio que encontramos nas redes. Qual é o perigo de tornar "naturais" esses discursos?

A naturalização faz parte da história da cultura. O feminismo irrita porque ele é um questionamento do machismo naturalizado, estrutural. Então todo o questionamento relativo àquilo que foi naturalizado incomoda.
As naturalizações servem pra acobertar alguma coisa. Nesse caso, um sistema de privilégios dos homens. Nesse sistema de privilégios, os homens não querem olhar para uma mulher como alguém de igual para igual. Então esse indivíduo assassino olhava para mãe do seu filho como uma pessoa que não tinha direito nenhum, a reduzia a uma vadia. Ele se colocava como cidadão de bem, correto, de tão correto acima da lei.
A grande questão pra se colocar hoje é: como nós chegamos a essa ideia de que nós podemos fazer tudo o que a gente achar certo. Ele rebaixa a cidadã, mas rebaixa (também) a lei.

Mas ele não inventou isso sozinho. Ele é uma evidenciação, uma metonímia da sociedade nesse momento. É a parte que fala pelo todo.

6 comentários:

  1. Adília, por favor, gostaria muito seu email para contato. Pode me informar? Obrigada. O meu é kellykss2011@hotmail.com

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  2. Adília, não vou fazer uma crítica a essa publicação, em particular, mas sim a maneira por meio da qual você vem abordando o problema da mulher em seu blog.
    Penso que você consegue refutar cabalmente os mitos engendrados pela mentalidade machista, mas, ao se deparar com a necessidade de propor uma saída para esse problema, acaba revelando a natureza pequeno-burguesa do seu pensamento.
    A título ilustrativo, cito o fato de você ter, recentemente, lamentado a derrota eleitoral da Sra. Clinton, sob o argumento de que a falta de mulheres em posições de comando seria uma derrota para as mulheres de conjunto.
    Ora, esse raciocínio coloca o problema da mulher sob uma perspetiva individual, o que é completamente errado. Quem costuma fazer isso é a elite dos EUA, ao dizerem, demagogicamente, é claro, que as mulheres precisam se " empoderar " .
    Nenhum setor oprimido vai se " empoderar " enquanto vivermos num mundo que produz opressão incessantemente, a menos que se conceba uma solução para a questão da mulher, em apartado, o que seria absurdo.
    Devemos , portanto, dizer que a luta da mulher, em última instância, é uma luta contra o capitalismo. Isso porque, apesar de o capitalismo não ter inventado o machismo, ele o assimilou, porque tira proveito da opressão da mulher, outorgando ao homem um título de " sócio minoritário " do capital.
    Assim sendo, euquanto as mulheres mais conscientes não mudaram o caráter da luta de vocês ( de pequeno-burguês para revolucionário ou classista ) , essa luta será inócua, pois não existe revolução de pensamento. O que existe é revolução social, mudança nas estruturas de poder e no modo de produção de riquezas, que faz com que surja uma nova forma de consciência. Como disse Marx, não é a consciência do homem que condiciona a realidade, mas sim o seu ser social que molda a sua consciência, as suas ideias.

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  3. A sua critica é interessante e por ventura correta pelo menos parcialmente e eu também tenho a noção de que a solução não consiste em eleger esta ou aquela mulher, normalmente até mulheres que são eleitas porque assim podem fazer um trabalho sujo que em principio os homens fariam. Mas é algo do domínio do simbólico, como por exemplo foi eleger Obama e, sabe, o caminho da história não é linear, há constantes interações, contradições, perversões até e essas criam conflitos. Depois me desculpe mas voce incorre no erro que me aponta, é igualmente pequeno burguês pensar que as mulheres mais conscientes tem de mudar o caráter da luta; luta é luta e qualquer pequena vitória pode fortificar um movimento, criar um novo elan, nunca podemos saber antecipadamente. Estamos no século XXI e temos de abandonar cartilhas. A eleição de Clinton seria um sinal e a sua não eleição também foi um sinal do estado em que o mundo está. Afinal está pior do que imaginávamos.

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  4. Adília, com o devido respeito, mas vou divergir, mais uma vez.
    Domínio simbólico é exatamente isso, algo meramente simbólico.
    Durante o governo do negro Obama, o imperialismo estadunidense continuou a matar inúmeros negros dentro e fora de casa.
    Esse " domínio simbólico " só serve para uma coisa : fazer demagogia. A luta contra a opressão também é uma luta contra a demagogia.
    Em relação sobre o caminho da história, sinceramente, não entendi a qual parte da minha análise se aplica. Se existe algo que combato é o esquematismo.
    outra questão, dizer que o caráter da luta das mulheres tem de mudar faz de mim um pequeno-burguês ou releva um traço pequeno-burguês em mim ?
    Me desculpe, mas sua asserção é infundada, Adília. Eu apenas acho que a luta das mulheres têm de ser uma luta, sobretudo, classista, ou seja, contra o capitalismo. Isso pode fazer de mim o diabo que for, menos um pequeno-burguês ou seguidor de cartilhas.
    Na verdade, busco apenas dar uma orientação correta, de modo a tornar essa luta consequente e não simbólica, na sua visão, e inócua, na minha.
    Perdoe-me se fui ácido nas críticas, mas digo isso com profundo respeito a você.
    Abraço!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Oi, Adília!

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