sábado, 26 de novembro de 2011

Shulamith Firestone – perigosamente à frente do seu tempo

Shulamith Firestone foi um ícone do movimento feminista dos anos sessenta/setenta que surpreendentemente desapareceu de cena logo após a publicação de A Dialética do Sexo em 1970, na altura um enorme sucesso comercial, mas só reeditada mais de vinte anos depois. Muito pouco se tem escrito sobre Firestone e em certo sentido ela transformou-se numa relíquia do passado, o que, para alguém que teve uma visão tão premonitória do futuro, não deixa de provocar estranheza.

A visão que expõe nessa obra é verdadeiramente utópica e, embora inspirada em Engels e Marx, vai contra a corrente, não só porque coloca na origem do processo histórico a diferença de sexo - não os antagonismos de classe - como também porque considera prioritária a luta pela libertação das mulheres; Firestone, embora consciente da desigualdade económica e racial, não assumiu a tese, cara à intelectualidade de esquerda da época, de que era prioritária a luta de classes, na suposição de que com a abolição das classes se eliminaria a opressão das mulheres.

A experiência pessoal de Firestone, bem como a experiência histórica vivida pela União Soviética, não lhe permitiam alimentar muitas ilusões quanto à bondade dessa tese. De facto, ela própria tivera oportunidade de apreciar como os colegas reagiam às propostas que apresentava para se debaterem as questões das mulheres, não as considerando oportunas e como presumiam que o papel das participantes femininas nas reuniões políticas deveria ser o de coadjuvarem os homens, secretariando e distribuindo “cafezinhos”. Na época, ao participar em Chicago na National Convention for a New Politics, redigira com outras mulheres uma resolução na qual se criticavam os media pela divulgação de estereótipos sobre as mulheres enquanto simples auxiliares dos homens e meros objetos sexuais e se exigia o controlo completo das mulheres dos seus próprios corpos, a divulgação de informação sobre o controlo de natalidade a todas as mulheres independentemente do seu estado civil e a remoção de todas as proibições contra o aborto; mas quando chegou a altura de apresentar a proposta de resolução o presidente da reunião retirou-a da pauta com o argumento de que havia assuntos mais importantes a debater. Essa foi a gota que fez transbordar o copo, na semana seguinte formava-se o primeiro grupo de mulheres. Também na União Soviética se persistia na diferenciação de papéis com uma participação mínima das mulheres na esfera pública.

Neste contexto, começa a perceber-se por que é que as propostas verdadeiramente subversivas de S. encontraram tanta resistência e anticorpos. Tinha contra ela a massa de mulheres e de homens antifeministas; era vista com desconfiança pela intelectualidade de esquerda de formação marxista; as feministas liberais consideravam que ela estava a fazer um mau serviço ao movimento ao alienar a simpatia de muitas mulheres e homens, em virtude do radicalismo das suas propostas; e mesmo no seio do movimento feminista radical, estava longe de gerar consensos; numa época em que a pílula anticoncepcional ainda era acessível a um número restrito de mulheres, as suas ideias sobre gravidez e maternidade não eram aceites por muitas. Mas o facto é que, apesar de tantas e tão poderosas resistências, a leitura de A Dialética do Sexo, quatro décadas depois, revela como se caminhou em vários aspetos no sentido preconizado pela autora.

9 comentários:

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  2. Boa Tarde, Adília!
    Td bem?

    Poxa, parabéns por este texto e blog maravilhosos!

    Me considero feminista, embora seja homem, e me sinto feminista, mais para o feminismo radical do que para os pós modernistas e correntes afins!

    Adoro Shulamith Firestone, acredito que ela falou e divulgou de fato o verdadeiro Feminismo.

    Forte abraço!
    Profe.

    PS- Por gentileza, quando puder, Adília, dá uma forcinha para nossa comunidade e blog. Seria uma honra tê-la como participante deste nosso trabalho que se inicia!
    Muito obrigado por vc existir! Sua participação é muito importante pra nós!

    Fernando e Fox

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    Somos uma Comunidade Feminista e curtimos Rock feito por Mulheres. Somos simpatizantes do "Movimento Riot Grrrls" e defendemos a igualdade dos sexos.

    Sweet Rock'n'Roll- O Blog:
    http://sweetrockandnroll.blogspot.com.br/

    “Não será com algumas mulheres no poder que resolveremos o problema das que estão no tanque, nas ruas, na cozinha!”

    Maria Lacerda de Moura

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Me parece que o silenciamento a obra da autora se deve a algumas extremas suposições com o o fim do incesto, e a volta a uma suposta sexualidade livre anterior a civilização, mas tenho em conhecer autores autoras que falem sobre ela. Comecei a ler a dialética do sexo para entender as prosotas da Firestone.

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  5. O silenciamento da obra da autora deve se ao facto de ela ser mesmo radical nas suas propostas e não dourar a pílula e a maior parte das pessoas o que gosta mesmo é de xaropadas

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  6. Onde é que voce leu isso? E o que ela diz mesmo sobre esse assunto?
    Não acha que é pouco sério lançar assim uma atoarda, sem documentar?

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  7. Na página 73 -74 da dialética do sexo, a autora diz o seguinte, ao discutir a teoria de Freud sobre o tabu do incesto: "se admitimos que o impulso sexual é, desde o nascimento, difuso e indiferenciado da personalidade global, e como vimos, só se torna diferenciado em resposta ao tabu do incesto; e se, além disso, admitimos que o tabu do incesto é hoje necessário apenas para preservar a família; então, se destruirmos a família, estaremos, na verdade, destruindo as repressões que moldam a sexualidade em estruturas específicas. Sendo iguais todos os tipos de sexualidade, as pessoas poderão ainda preferir indivíduos do sexo oposto, simplesmente porque isto é fisicamente mais conveniente. Mas até isso ñ passa de uma enorme suposição" p. 73, logo, ela tinha posições utópicas bem complicadas

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  8. Caro Nataniel, obrigada pelo seu contributo. Lamento não ter comigo atualmente o livro para poder contextualizar a citação que apresenta. Mas penso que não se trata de ser a favor do incesto, trata-se sim de procurar perceber a razão desse tabu. Se for consultar Levi-Strauss verifica que ele estabelece uma relação entre a proibição do incesto e o domínio dos homens sobre as mulheres, na medida em que os homens transferem o direito que na família tem sobre as (suas) mulheres concordando em cedê-las através da instituição do casamento a outros homens. Seria assim um principio necessário à preservação das sociedades humanas (dominadas é claro pelos homens). Quer dizer, em termos um pouco brutais, em vez de usufruírem desse bem, proíbem-no a si mesmos a fim de o transformarem de 'valor de uso' em 'valor de troca'. Se reparar, o casamento através dos tempos e em relação à família exerceu efetivamente essa função.
    Se calhar não estou a ser muito clara, por isso nada melhor do que ir à fonte. Consulte Levy-Strauss.
    Adília

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