quarta-feira, 6 de julho de 2011

Educação e estereótipos de gênero


A experiência sueca de educação pré-escolar que se propõe atingir uma educação neutral do ponto de vista de gênero tem levantado alguma celeuma no país e mesmo no estrangeiro por parte de pessoas que se mostram muito preocupadas com eventuais prejuízos que pode provocar nas crianças face à definição/indefinição de papéis de gênero.
Um dos argumentos invocado por quem se opõe à experiência insiste em que a diferenciação de papéis não precisa de ser acompanhada de inferiorização do papel feminino em relação ao masculino; assim por exemplo, brincar com bonecas ou brincar com carrinhos, diz-se, é igualmente valioso. Mas, se refletirmos um pouco, percebemos a fragilidade do argumento: veremos que estas brincadeiras só aparentemente são igualmente avaliadas porque enquanto a primeira apenas prepara e condiciona a menina para um papel, considerado natural, a outra antecipa um percurso de vida que nada terá de natural, orientado para eventuais profissões e intervenção no espaço público. Parece necessário e importante preparar as meninas para o seu futuro papel de mães mas não se considera que uma preparação equivalente deva ser ministrada aos meninos.
O que se verifica é que a diferenciação de papéis tem sido acompanhada da desvalorização do papel feminino e é preciso romper este ciclo, que toda a nossa cultura favorece; se uma mulher se limita ao papel de esposa e de mãe encontra-se automaticamente em desvantagem em relação ao homem porque, ao não transcender essa condição, não se afirma como um ser autónomo e criativo.
Outros acusam os métodos pedagógicos utilizados na Egalia e em outros-jardins-de infância suecos de visarem condicionar mentalmente as crianças, como se só aí existisse condicionamento mental. Esquecem que todas as sociedades ensinam relações de género só que o fazem seguindo o modelo de dominância masculina que nunca perturbou essa ‘boa gente’, agora tão incomodada quando se procura ensinar igualdade nas relações de género.
Jay Belsky, especialista em psicologia infantil na Universidade da California, mostrou-se muito preocupado com a eventualidade de os meninos, impedidos de correrem e de brincarem com paus, que imaginam serem espadas, perderem características masculinas. Este psicólogo ignora que educar os jovens para serem ’verdadeiros homens’ de acordo com um padrão de masculinidade que valoriza não apenas a assertividade, mas também a agressividade, é prepará-los para serem agentes de violência doméstica e social, para engrossarem a população prisional e para virem a ter pela frente uma baixa perspetiva em termos de longevidade. Ignora que as sociedades em que as relações de género são mais igualitárias não só apresentam melhores índices de saúde física e mental como vivem relações familiares menos conflituosas e mais compreensivas.
Tudo leva a crer que o condicionamento mental só é bem aceite e não levanta qualquer problema quando é aquele que a sociedade patriarcal realiza com enorme sucesso através de uma panóplia de instrumentos educativos formais e informais que moldam rapazes e raparigas no decurso do processo de aculturação. Tentar interferir com a norma de dominação masculina ainda vigente na sociedade patriarcal, esse parece ser o crime da Egalia e dos outros jardins-de-infância que seguem o novo modelo educativo.

5 comentários:

  1. Tienes muchísima razón, Adilia. La educación no sexista en absoluto es un condicionamiento, mental, sino todo lo contrario: es la apertura de puertas hacia la libre elección de niños y niñas. Permite que cada ser humano, sin importar si es varón o mujer, pueda decidir verdaderamente de forma libre, qué quiere hacer y cuáles son sus gustos.

    Besos.

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  2. Adília (que nome lindo!!), concordo principalmente com o último parágrafo do seu post. Li em vários lugares sobre esse novo sistema que a Suécia, quase todos de certa forma, desaprovando a iniciativa. Dizem que isso "confunde" a cabeca das criancas e que elas nao mais vao entender seus "papéis". Ora, e que papéis sao esses?? O de suserano e vassalo??
    Nao temos inúmeros exemplos do quanto a sociedade patriarcal tem sido nocíva e de quanto os papéis engessados de "homem" e "mulher" tem feito mal a ambos? Que mal adviria de um novo sistema educacional que ensina respeito e consideracao pelo próximo???

    Um grande Abraco e parabéns pelo blog!! É lindíssimo!!
    Fran

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  3. De fato, concordo 100%, e este é o mesmo caso dos discursos de condicionamento da criança à homossexualidade caso ela seja abordada em sala de aula; como se o discurso heteronormativo não fosse condicionante também. A ideologia tem esse poder, de dar às construções sociais nocivas o caráter de normal e coerente, e tudo o que for subversivo é anormal e incoerente.

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  4. Enrique, de facto a ideia de que as pessoas possam ser simplesmente pessoas com autonomia e capacidade de opção continua a incomodar muita gente.
    Fran, obrigada pelo comentário e pelo elogio. Concordo em absoluto que já era altura de rever o estereotipo masculino com a componente forte de agressividade que está na origem de tantos comportamentos antisociais.
    Subsersive, o modelo sueco contraria fortemente a ideologia dominante que é a patriarcal e por isso não surpreendem as críticas que recebe de vários quadrantes.
    Abraço, Adilia

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