segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Shulamith Firestone e a psicanálise

Nas décadas de sessenta e setenta do século XX usar Freud para desconstruir o sistema patriarcal deveria parecer uma missão impossível, mas foi precisamente o que Shulamith Firestone intentou fazer.

Nessa época, a divulgação das teorias freudianas conhecia enorme sucesso e a princípio as feministas tinham recebido de braços abertos o que parecia ser um aliado contra os constrangimentos e tabus sexuais. Todavia, como em breve perceberam o potencial sexista que essas teorias também comportavam - já que forneciam justificativos para a manutenção dos papéis tradicionais - não é de estranhar que tenham experimentado as maiores suspeitas face à recuperação que Firestone decidiu fazer de Freud.

F. pensou, e não podemos negar pertinência a esse pensamento, que não se deveria dispensar Freud só por virtude do potencial sexista contido nas suas teorias, porque elas também explicavam o sexismo, ou melhor, forneciam instrumentos conceptuais que permitiam compreendê-lo, atingindo-se assim a raiz psicológica da opressão das mulheres. Para ela, Freud limitara-se a refletir sobre uma realidade já existente - a patriarcal - que vê como tendo origem na biologia. Não considera a psicanálise uma ideologia opressiva porque diz que esta se limita a analisar as condições em que homens e mulheres vivem e estruturam o seu psiquismo e nesse aspeto constitui até um roteiro útil para quem quiser empreender a crítica do sistema e sua superação. Não contesta a teoria freudiana da sexualidade, antes se serve dela para perceber como se vão constituir duas classes sexuais e suas diferenças. Para ela, a teoria é verdadeira desde que interpretada como uma explicação sociológica e não essencialista e uma vez filtrada pela interpretação feminista; utiliza-a assim para conseguir aquilo que muitas feministas ambicionavam: encontrar as raízes da opressão das mulheres no sistema patriarcal.

Vai procurar provar que de facto nas circunstâncias em que as crianças são criadas no seio da família biológica nuclear, o sistema só pode ser reforçado e replicado; para o evitar é preciso mudar essas circunstâncias, assumir uma atitude radical, anulando as causas porque só anulando as causas se conseguem evitar os efeitos. Considera que o que está na base da opressão das mulheres é a família nuclear na qual decorre o processo de construção das estruturas da psique infantil, construção diferente consoante se trate dos meninos ou das meninas - crianças do sexo masculino ou do sexo feminino. De Freud, retém a explicação que este dá do desenvolvimento infantil e aproveita para mostrar por que é que as mulheres são “femininas” e os homens “masculinos”, isto é, mostra como se constrói o género masculino e o género feminino.

Na família nuclear a figura de poder é a do pai e nela processa-se a separação entre emoção e sexualidade porque a criança aprende que certas intimidades com a mãe são permitidas enquanto outras são reprimidas, sob o estigma de sexuais. Desse modo, o sexo enquanto experiência emocional de um certo tipo é reprimido com o poder do pai que interdita a mãe ao filho.

Nesse quadro teórico, o fulcro da sua análise vai ser o construto conceptual que Freud designou de Complexo de Édipo. Quando na família biológica as crianças crescem e se desenvolvem, é central a ansiedade que sentem em relação à mãe, temendo perder o amor desse ser tão próximo do qual dependem directamente. Estabelece-se assim uma relação complexa entre a criança e a mãe. Mas essa relação vai ser diferente, consoante se trate dos filhos ou das filhas e vai acabar por se tornar responsável pela desigualdade de condição e de estatuto entre homens e mulheres, interiorizada desde a mais tenra infância.

Nesta fase do desenvolvimento psíquico da criança, o menino deseja a mãe, objecto do seu amor, mas dada a existência do pai, que pressente como um rival, vê esse amor rejeitado; é assim obrigado, a fim de resolver esta situação complexa – amor à mãe e ódio ao pai – a recorrer a um processo de sublimação do desejo e a procurar reconhecimento diferido através das suas realizações futuras. De qualquer modo, embora a repressão do desejo sexual ocorra, o menino posteriormente vai amar uma mulher, isto é, o desejo vai acabar por ser satisfeito numa pessoa do sexo feminino. Quer dizer, no longo prazo esta expressão da sua sexualidade não será reprimida.

Também para a menina, a mãe surge como o primeiro objeto de desejo; mas nunca terá oportunidade de transferir esse desejo para outra mulher, a heterosexualidade ser-lhe-á imposta como tipo de sexualidade normal e normativa. A menina não sublima o desejo, mas como quer ser reconhecida, vai procurar a aprovação direta, em primeiro lugar da mãe e depois das outras pessoas, como se bastasse existir e nada mais tivesse de fazer; não procede ao tipo de sublimação que ocorrerá com o rapaz, desse modo, na menina, a rejeição da mãe tem outros contornos e reveste-se de outras consequências:

“Na menina, a rejeição da mãe, ocorrendo por razões diferentes, produz insegurança acerca da sua identidade em geral, criando-lhe pela vida fora constante necessidade de aprovação (mais tarde, o amante substitui o pai como garante da necessária identidade de substituição – ela vê tudo através dos seus olhos).”[1]

Temos assim que o facto da família apresentar uma estrutura patriarcal - na qual a autoridade dominante é a do pai e a mãe é praticamente o único elo de ligação dos filhos à figura paternal - tem como consequência que a primeira expressão do desejo sexual seja dirigida à mãe tanto nos meninos como nas meninas. Mas, dada a necessidade de o reprimir, vai ser imposta a heterossexualidade como forma correta de comportamento sexual. Uma heterossexualidade opressiva vai encontrar-se assim na fundação de uma ordem social, ela também opressiva. A heterossexualidade surge como uma identidade que tem a sua raiz nas relações desiguais entre homens e mulheres que, com origem em diferenças biológicas, são consolidadas na família patriarcal.

É o próprio facto de a família biológica revestir uma forma patriarcal que leva a criança, rapaz ou rapariga, a desejar (sexualmente) a mãe porque esta é o objeto de amor que lhe está mais próximo. O filho é obrigado a reprimir violentamente esse desejo, por receio da castração, explica Freud; mas sublima-o, obtendo reconhecimento através das suas realizações e mais tarde satisfá-lo de forma vicariante, amando outra mulher.

Na menina, a questão não se coloca com a mesma premência – não teme a castração porque não possui o respetivo apêndice mas também – é o que Freud nos diz - nunca desenvolverá a capacidade de sublimar:

“As filhas resolvem este complexo de Édipo renunciando às suas mães, partilhando com elas esta “falta”. [Mas] porque procuram superar a deficiência dando nascimento a um bebe com pénis, as mulheres permanecem sempre psicologicamente centradas na esfera do Eros. Isto é, segundo Freud, as mulheres nunca desenvolvem os poderes de sublimação que os homens adquirem e por isso ficam não apenas fora da civilização mas contra a civilização.” [2]



[1] S. Firestone, The Dialectic of Sex

[2] Feminism and its Discontents, pp 17/18

2 comentários:

  1. La verdad es que a mí Freud me desespera un poco. Pero sí, es cierto que es interesante leerlo para poder hacer un análisis social.

    Por cierto, no sabía que habías escrito libros. ¡Qué guay! Me alegro. :)

    Saludos.

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  2. Oi, Enrique
    Obrigada pelo comentário e pela gentileza.
    De facto, resolvi "sair do armário".
    Bjs, Adília

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