sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Inveja do pénis ... ou egocentrismo masculino?!

Já abordei aqui várias vezes a famigerada teoria freudiana da inveja do pénis, mas hoje não resisto a referir a percepção que Kate Millet nos dá dela.

Millet considerou o conceito freudiano de “inveja do pénis” como um caso flagrante de egocentrismo masculino: os homens, em vez de celebrarem o poder feminino de dar à luz uma criança, interpretaram-no como uma tentativa patética de possuir um pénis de substituição. De facto, Freud, acima de tudo um “maravilhoso “ contador de histórias, afirmava que a mulher tinha inveja do pénis e só conseguiria ultrapassar esse sentimento de frustração quando desse à luz uma criança … do sexo masculino.

Quer dizer, um evento tão importante, até socialmente, como é o de dar à luz uma criança, transforma-se numa coisa bem mais comezinha: a procura do órgão sexual masculino.

Decididamente uma fantasia bem contada que, consciente ou inconscientemente - e aqui Freud fazia bem em se psicanalisar - servia às mil maravilhas para manter as mulheres acantonadas nos seus papeis tradicionais de esposas e de mães, considerados desse modo imprescindíveis para se realizarem como pessoas.

5 comentários:

  1. Adília,

    É a primeira vez que leio o seu blog e este post me chamou a atenção. Sou grande entusiasta do ideário feminista (mas não de todos) e das idéias que propõem um contraponto às misoginias, inclusive quanto às discussões de gênero e sexualidade. Além disso, também me cabe um grande apreço teórico e pessoal sobre a Psicanálise, inclusive às teorias freudianas. Não tenho, ainda, o conhecimento desejado sobre Freud e Psicanálise que gostaria, mas ainda assim acho que cabe uma discussão quanto ao que você diz. A sua análise quanto à teoria da inveja do Pênis e o machismo que supostamente impregnou o pensamento de Freud me parece muito semelhante àquela proposta por Simone de Beuvoir em "O Segundo Sexo". Mas tenho um contraponto quanto á sua conclusão: Freud, em plena era vitoriana, inserido na tradição da religião judaica (ainda que demonstrasse grande ateísmo), revolucionou boa parte do tratamento vulgar dado pela Psiquiatria às pacientes histéricas. Quando por séculos essas foram consideradas como bruxas, loucas ou dissimuladas (entregues ao imenso machismo e misoginia que a Igreja católica lhes incumbiu na história), Freud surge com uma proposta de grande libertação SIM para as mulheres, mas é claro, parcial para o que podemos considerar como aceitável hoje (em 2012, Freud escrevia no século XIX). Essas mulheres puderam passar a fazer análise, foram retiradas do sanatório por terem tido o seu inconsciente, assim, em parte, libertas de uma tradição paternalismo. A livre-associação que Freud propunha em suas sessões deixava livre a mulher para FALAR e expor o que quer que fosse, mas não para ser julgada. O desenvolvimento da teoria freudiana em alguns pontos se forja dentro do que hoje consideramos machista, mas Freud nunca findou ou concluiu que seu pensamento fosse a última palavra sobre nada, muito pelo contrário! Ele disse, afinal, que não foi capaz de desvendar o enigma feminino, as mulheres...e isso é muito!

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  2. *terem tido o seu inconsciente LIBERTO (desculpe)

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  3. Cara Gabriela
    Obrigada pelo seu comentário.
    Devo dizer-lhe que durante muitos anos Freud exerceu sobre mim um enorme fascínio, afinal, como refiro, ele é um grande contador de histórias e quem não gosta de uma boa história?!
    Concordo com Shulamith Firestone quando ela considera que em alguns aspetos ele fez uma análise correta da forma como o psiquismo humano, masculino e feminino, se estrutura, só que o que ele diz não pode ser interpretado numa perspetiva essencialista pois, se o for, falseia completamente a questão.
    Além disso Freud, ou a vulgata freudiana, provocou imensos estragos de que ainda hoje temos dificuldade em nos libertar. Você já pensou, por exemplo, que, se formos consequentes com a sua teoria sobre o orgasmo feminino, deveríamos aceitar a ablação genital feminina? Quanto a mim, isto é mais do que suficiente para tentar desconstruir Freud e dar o meu modesto contributo para uma outra percepção dos problemas.
    Abraço, Adília

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  4. Gabriela toda mulher que não tem problemas em ser mulher sabe perfeitamente que Freud é um misógino, o que mais impressiona é que a maioria dos seguidores de Freud são mulheres, para você ter uma ideia da baixa auto estima que as mulheres tem nessa sociedade e se conformam com uma teoria misógina e sexista dessa que diz que o psiquismo nas crianças se forma a partir do masculino, contrariando a biologia onde o masculino primeiro é feminino.

    Para Freud a feminilidade é fruto de uma frustração porque a mulher não tem pênis e fica chocada quando descobre isso (pro Freud a vagina não é nada é só uma falta, muito parecido com o pensamento de Aristóteles), quando a menina descobre que é "castrada" ou ela fica psicótica ou neurótica ou assume a feminilidade normal.

    Lembro da minha professora de psicologia do desenvolvimento que disse que nós mulheres nascemos com um "defeito de fábrica", lembro de como fiquei indignada, mas fiquei mais indignada ainda porque quase todas as minhas amigas concordaram com esse absurdo.

    Fico indignada que uma teoria misógina dessa seja tão popular ainda hoje em pleno século XXI e que muitas mulheres aceitam isso.

    Freud sem dúvida contribuiu com a libertação sexual da mulher sim, no século XIX, mas...como homem fez questão de colocar as mulheres em seu devido "lugar".

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  5. Nossa! Quantas mulheres confirmando em suas negações o quê freud disse: o complexo de castração é inconsciente, a pessoa o afirma negando-o.

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