quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A prostituição não é degradante apenas para as prostitutas, é degradante para todas as mulheres

Às voltas com o complexo problema da prostituição, não resisto a transcrever um texto que li recentemente e que me parece explicar o mal-estar que eu própria sinto em relação às prostitutas e à prostituição. Sempre intui que este não era apenas um problema que dissesse respeito às prostitutas, pelo qual eu poderia sentir simples preocupação social e intelectual; algo me dizia que havia mais qualquer coisa e essa qualquer coisa foi o que agora descobri : a prostituição não degrada apenas a prostituta, degrada-me também a mim enquanto mulher.

«A prostituição[1] é degradante porque a prostituta trata-se a si mesma e permite que outros a tratem como uma mercadoria a ser comprada e vendida no mercado livre. Evelyne Giobbe caracteriza a indústria do sexo como aquela na qual «os corpos das mulheres e das crianças» são comprados, vendidos ou negociados para uso e abuso sexual. Diana Russell e Lauda Ledere fazem notar que «mesmo a pornografia mais banal objectifica os corpos das mulheres». De acordo com este ponto de vista, a prostituta não se trata a si mesma como uma pessoa cujos sentimentos, interesses e necessidades são dignos de respeito, como os de qualquer outra pessoa. Ela é tratada como um simples corpo, brinquedo, instrumento, propriedade ou animal doméstico para ser usada e abusada pelos homens que a compram. Não apenas o seu trabalho a define como subordinada sexual do homem, mas o seu trabalho, na medida em que parece que ela o escolheu, encoraja e reforça a ideia de que o seu maior prazer é estar ao serviço do homem e de que o que ela quer e precisa dos homens é que eles a usem e dela abusem.
A partir desta perspectiva, porque a prostituição está inserida num contexto patriarcal cuja ideologia sexual é já à partida a que define as mulheres em termos da sua disponibilidade em relação aos homens, a prostituição reforça simplesmente a visão de que todas as mulheres, mesmo aquelas que não a escolheram, desejam dedicar a sua vida ao serviço sexual do homem.
As feministas argumentam que estas falsas crenças acerca das mulheres não apenas são degradantes em si mesmas, mas também resultam inevitavelmente na exploração sexual e na violação das mulheres percebidas como objectos sexuais colocados incondicionalmente ao serviço dos homens. … A prostituição encoraja a exploração das mulheres e promove a tolerância e o exercício da violência contra as mulheres.”[2]

[1] No original o termo é “sex work” que envolve também pornografia e outras práticas afins
[2] Linda Le Moncheck: Loose Women, Lecherous Men

8 comentários:

  1. fora os comentário que este pagão lhe escreveu sobre o assunto. };)

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  2. Em Amsterdã, onde a prostituição é livre, só as prostitutas não são, pois 85% delas são agenciadas por cafetões e sofrem todo tipo de agressões físicas e morais. Ninguém denuncia isso, pois os que querem a legalização da prostituição, preferem fingir que legalizar protege a prostituta dos abusos e exploração.

    Se expõe em gaiolas como bichos nas lojas de animais e são compradas, usadas e depois deixadas para que o próximo visitante as use. Em série. Imagine uma mulher sendo penetrada em todos os seus orifícios e por diferentes homens no mínimo 5, 10 vezes por dia!

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  3. Prostituição e pornografia são os dois lados da mesma moeda: estigmatização, submissão, exploração, discriminação e objetificação da mulher e de todas as mulheres.
    Enquanto a pornografia inscreve à esfera da inferioridade e objetificação no âmbito do público, explicita a condição de mulher e não deixa dúvida sobre qual o lugar a mulher ocupa e deve ocupar no patriarcado; a prostituição escondida em bordéis , gaiolas, quartos e etc, nos condena e realiza no âmbito do privado ao papel de objeto dos homens.
    Ambas são o sinal, a cicatriz que toda mulher carrega durante a vida, desde que nasce para que o domínio dos homens nunca seja esquecido e sempre renovado nos nossos corpos, individualidade e afetividade. Marcadas para sempre.
    Legalizar a prostituição, tolerar a pornografia, que não é outra coisa do que a prostituição traduzida em imagens, livres para o acesso de todos, para que todos aprendam e apreendam, só torna esse lugar da mulher , um lugar inalienável e inevitável.

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  4. Car@ anónim@
    Os seus comentários vêm ao encontro do que penso sobre este assunto e tiveram a vantagem de aduzir um exemplo importante no sentido de se rejeitar a legalização da prostituição, o da Holanda que é bastante revelador.
    Concordo também com a ligação que estabelece entre prostituição e pornografia que muit@s não aceitam ainda.
    O que é lamentável é que muitas mulheres, cuja sexualidade é condicionada pelas fantasias dos seus companheiros, não se apercebem de que, embora o sexo suponha uma dimensão manipulativa do ser humano, só elas é que estão a ser manipuladas; no meio destes sordidos negócios o que mais me magoa é que muitas mulheres que não tem nada a ver com eles estão a ser prejudicadas e quando tem a coragem de protestar são de imediato silenciadas com o argumento de que são frígidas ou mal f... a velha falácia ad hominem que consiste em descredibilizar quem argumenta sem analisar a consistência do argumento.
    abraço, adília

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  5. Toda as vezes que uma mulher protesta contra o papel que nos é designado dentro do patriarcado, a primeira providência que tomam é desqualificar a nossa fala nos chamando de burras, mal informadas, feias, histéricas, moralistas ou mal amadas. Não há como escapar disso, se nós não aceitamos o silêncio e a submissão como norma de nossa conduta dentro da sociedade.

    Mas nós mulheres resistimos e lutamos!!!

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  6. Mesmo assim, apesar de todos os insultos que nos dirigem, o importante é não desitir de denunciar as situações, verbalizar os problemas, utilizar o discurso como uma arma e como sabemos uma arma muito poderosa que explica por que nos querem reduzir ao silêncio. Essa redução ao silêncio não é de agora, já vem de muito muito longe, e desgraçadamente muitas mulheres sentem-se intimidadas e tem dificuldade em objectivar por meio da palvra o que as preocupa.

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  7. Francamente,poderiam começar a deixar de se fazerem de vítimas.Se nós já vamos com este tipo de pensamento,então estamos aceitando o que os falocratas nos chamam.Manter-se na luta mas sem ficar se remoendo...se estão se remoendo,estão dando razão para eles.Pior é o que as mulheres falam,defendendo estas maldições machistas!
    Existem várias organizações que lutam contra a prostituiçãoe pornografia,o que tenho notado em minhas anadanças de internete é que em países como Portugal e Brasil,estas formas de violência são consideradas tabus,mas é culpa das proprias mulheres,apesar de muitas feministas alegarem que não.Se não é,então como é que em diversos países estaslutas existem e nestes outros não? Isos devia ser mais discutido e mais trabalhado ao invés de ficarmso nessa de reclamar que somos pobres vítimas e não resolver nada.

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  8. As mulheres têm sido e em muitas circunstancias continuam a ser vítimas mas também cumplices da situação existente. Em minha opinião o paradoxo mais gritante dessa cumplicidade ocorreu quando mulheres se organizaram nos E.U. para lutarem contra o direito de voto para as próprias mulheres. Quanto à vitimização essa é tão flagrante que parece normativa, por isso penso que deve ser sempre denunciada. E sobretudo deve fazer-se o que, mal ou bem, eu procuro fazer, que é mostrar as raizes da opressão e denunciar os mecanismos mais ou menos subtis que são usados para manter as mulheres num estatuto de nítida inferioridade. Falar, objectivar, denunciar, intervir, isso é que me parece que tem de ser feito e infelizmente ainda não vejo muitas iniciativas neste sentido, em Portugal são mais que modestas, no Brasil, conheço pior.
    Denunciar a vitimização também é uma forma de luta sobretudo quando ela aparece como algo perfceitamente normal e aceitável. Quanto a colocar a culpa nas feministas, embora elas tenham as costas largas, é preciso saber de que estamos a falar porque a maior parte dos avanços na situação das mulheres deveu-se às feministas e sua capacidade de tirarem partido de condições objectivas que foram surgindo e em Portugal e Brasil que eu saiba o movimento nem sequer é significativo, é-o sim nos paises que refere, nomeadamente Reino Unido e E.U. Mas por exemplo, não esqueça que precisamente no Reino Unido existe actualmente um contra-movimento que integra prostitutas e que luta pela legalização.
    Saudações, Adília
    Os comentários continuam a ser anónimos, não sei se é por impedimento do blog, mas gostaria de conhecer o nome das pessoas que estão a intervir.

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