terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Anti-feminismo - a ciência também dá uma ajuda

Nas últimas décadas do século XIX, os Estados Unidos, bem como os países desenvolvidos da Europa, passaram por um período de turbulência social que prenunciava transformações profundas: vagas de emigrantes de várias proveniências, agitação de trabalhadores na esfera industrial, reivindicações das mulheres pela igualdade de direitos criavam nas elites estabelecidas ansiedade e receio de alterações que lhes seriam desfavoráveis; por tudo isso, não é de surpreneder que a ciência e os cientistas que pertenciam a essas elites, se esforçassem por justificar a hierarquia classista, racial e também de género. No que às mulheres dizia respeito, o pano de fundo científico que veio a fornecer o racional para explicar e justificar o seu estatuto na sociedade da época foi a teoria de Darwin, um gigante dos tempos modernos, mas um gigante com pés de barro no que às mulheres diz respeito.

Na campanha contra o sufrágio feminino - que precisamente visava manter o status quo e garantir a estratificação social hierárquica, era necessário justificar o afastamento das mulheres da esfera pública mantendo a separação entre esta e a esfera privada. Invocava-se como argumento o próprio bem-estar das mulheres e o bem-estar da sociedade; isto é, de forma algo bizarra, a contestação do direito de voto para as mulheres era feita em nome dos «direitos das mulheres» que seriam, dizia-se, diferentes dos direitos dos homens. Mas, para dar força ao argumento, nada melhor do que avocar para a causa os préstimos de cientistas de nomeada.

Foram sobretudo homens de ciência ligados à anatomia, sociobiologia, psicologia e medicina que entraram na arena para mostrar quão equivocadas estavam as mulheres que exigiam o direito de voto e a participação na vida política. Vejamos alguns desses arautos dos «direitos das mulheres».

Edward Drinker Cope, (1840-1897), anatomista e paleontologista da Universidade de Pensilvânia, líder de uma escola neo-lamarkiana, defendeu que os caracteres adquiridos eram transmissíveis; essa teoria, que posteriormente veio a ser rebatida e desclassificada, serviu, no momento, para aconselhar as mulheres a não se imiscuírem em actividades masculinas, como as implícitas no voto e na participação política, porque, asseveravam, iriam adquirir traços masculinos e iriam transmitir esses traços às suas filhas. Tratava-se de uma autêntica campanha de terrorismo mental levada a cabo pela própria ciência o que lhe conferia força e credibilidade, sobretudo junto de populações menos esclarecidas. Assustar as mulheres com a perda da sua feminilidade pelo facto de votarem ou participarem em actividades políticos hoje parece apenas tolo e ridículo, mas temos de nos situar na época e no contexto em que o argumento foi utilizado para percebermos o seu alcance.

Herbert Spencer (1820- 1903), filósofo e sociólogo britânico, muito querido das elites, seguidor de Darwin e defensor da corrente que ficou conhecido por darwinismo social, defendia a ideia de que os ricos eram aqueles que se tinham mostrado mais aptos e que revelavam portanto superioridade intelectual e moral. Considerava ainda que era inútil alargar a educação para a saúde, segurança e bem-estar das populações porque essas medidas iriam aumentar a taxa de emigrantes pobres no país; se calhar pensaria que o melhor seria deixar que a «selecção natural exercesse a sua acção», eliminando aqueles que não se mostrassem aptos! De qualquer modo, estas teses serviam na perfeição para justificar a estratificação social; tudo muito vantajoso para a elite masculina branca de ascendência anglo-saxónica que detinha o poder económico, politico e cultural.
Em relação às mulheres, Spencer, colaborador da revista Popular Science Monthly, explicava, nos artigos aí publicados, que a participação na vida política não convinha às mulheres, com o argumento de que, dada a divisão e especialização dos papéis, a natureza teria suspendido o desenvolvimento mental das mulheres para preservar a sua energia para a reprodução. Spencer partia da analogia entre o corpo humano e uma máquina e enfatizava a importância da conservação de energia o que no nosso caso implicava a ideia de que as mulheres deviam limitar as suas actividades à vida doméstica para assim guardarem energias para a tarefa reprodutiva. Este era um argumento, e um argumento «científico» a favor da separação das esferas, ficando as mulheres restringidas à esfera privada da família, enquanto os homens se integrariam naturalmente na esfera pública que ficaria exclusivamente a seu cargo. Spencer ainda defendia que a especialização sexual - leia-se a diferenciação de papéis entre homens e mulheres, implicando a reclusão das mulheres na esfera doméstica, correspondia a um estádio mais avançado de civilização. Como podemos ver, uma posição muito consentânea com as propostas anti-sufragistas que consideravam que o voto seria mais um fardo para as mulheres e que por isso deviam rejeitar esse «presente envenenado».

Hugo Munsterberg (1863-1916), psicólogo da Universidade de Harvard, defendia nos seus escritos que «o movimento das mulheres» causaria o suicídio da raça, por minar a atracção pelo casamento, a feminização da alta cultura, e por tornar as mulheres, «patologicamente tensas», mães inadequadas.

Sobre a neurastenia, uma doença nervosa diagnosticada e identificada no século XIX caracterizada por sintomas vários tais como fadiga extrema, irritabilidade e dificuldade de concentração, a interpretação que os médicos lhe davam não podia ser mais favorável à separação das esferas e respectivos papeis. Nas mulheres, a doença seria provocada por actividade social intensa e pelo desejo (inadequado à sua natureza) de quererem competir com os homens; tal ambição arruinaria a sua saúde e o remédio consistiria no retorno à tranquilidade do lar doméstico[1]; nos homens as coisas passavam-se exactamente ao contrário, a doença seria provocada por excesso de trabalho intelectual e o remédio aconselhado era o exercício físico para «remasculinizar o eu». Deste modo, também a interpretação desta doença e o tratamento preconizado acabava por funcionar como um mecanismo de reforço dos papéis e das actividades consideradas apropriadas respectivamente para homens e mulheres.

Claro que, como não podia deixar de ser, as próprias mulheres colaboravam com os seus «benfeitores» masculinos e por isso não surpreende que Mary K. Sedgwick, publicasse no Gunton’s Magazine um artigo intitulado «Some scientific aspects of the woman suffrage question» que funcionava como autêntica propaganda «científica» na campanha contra o sufrágio feminino.
Resumindo, podemos dizer que a ciência da época proclamava a natural inferioridade das mulheres que precisavam ser protegidas de si mesmas, contra a ambição de desempenharem papéis masculinos; procurava aterrorizá-las com o risco da masculinização, isto é, com a perda dos traços da «verdadeira mulher». Nada podia ser mais conveniente para manter o status quo; e, mais uma vez, um número muito significativo de mulheres engoliu a pílula dourada que tão generosamente lhe ofereciam.

[1] Esta famosa «cura» para a neurastenia das mulheres ficou documentada num conto famoso de Charlotte Perkins Gilman, «The Yellow Paper» publicado em 1892 no The New England Magazine que descreve a situação vivida por uma mulher da classe alta que, diagnosticada com a doença, foi confinada ao quarto de uma casa de verão alugada pelo marido com paredes forradas a papel amarelo.

5 comentários:

  1. Adília,

    Continua a trazer-nos textos muito bons sobre o anti-feminismo.

    É através de contribuições lúcidas e desinteressadas como a sua que nós, as mulheres,
    temos conseguido defender a dignidade do género e espaço para podermos provar a qualidade da nossa prestação.

    Já conhecia o conto "The Yellow Paper" de Charlotte Perkins, não me lembro quando é que o li (já lá vão sessenta...) mas impressionou-me imenso. São situações que não podemos deixar que se repitam.

    Bom trabalho, Adília, um abraço.

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  2. De facto, sábia coruja, como deve calcular ando a estudar o movimento feminista e não deixo de me surpreender com as descobertas que vou fazendo.
    Fico feliz por ter alguém que aprecia o meu trabalho e que mo diz directamente.
    Um abraço, Adília

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  3. Adília,

    Eu não sou nada sábia, sou até diletante, mas isto de ser capaz ver no escuro com um ângulo de visão tão amplo sempre tem as suas vantagens...

    Mas mulheres com coragem de dizer o que os outros não gostam de ouvir, não há muitas... e homens, isso então, ainda menos !!!

    É por esse seu remar teimoso e laborioso contra a corrente que eu lhe tenho muito apreço. Não quer dizer que tenha de ser sempre assim...

    Um abraço. Eu vou passando.

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  4. Eu (todas nós) é que temos de agradecer-lhe.

    E... vai-me desculpar não se sinta mal por não receber muitos comentários... eu acho que a Adília nem iria gostar. Os temas aqui tratados são ainda um pouco incómodos para muitos... requerem uma leitura mínima... Mas decerto que a respeitam!

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  5. Bem, Coruja, vou deixar cair o sábia, mas há-de convir que o diletantismo também é uma forma de sabedoria.
    De facto como diz, os meus textos não são propriamente populares, mas não desisto porque sempre há-de haver alguém que passe a perceber melhor o que acontece com a questão das mulheres, infelizmente graças à ignorancia generalizada sobre estas questões corremos o risco de ver a historia repetir-se no mau sentido.
    Abraço adília

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