terça-feira, 16 de março de 2010

Revolução industrial, feminismo e anti-feminismo

O anti-feminismo, fenómeno que me tem vindo a preocupar e que procuro entender, surgiu em força no século XIX, paralelamente à emergência do movimento que vai lutar pela libertação da mulher. Para compreendermos este movimento e aquele contra-movimento, temos de conhecer algumas referências relativas às condições económicas, sociais e culturais dos países do Ocidente, onde eles ocorreram.

A partir dos inícios do século XIX, nos países do Ocidente, a revolução industrial em curso provocou profundas transformações económicas e sociais. Antes da revolução industrial, o modo de vida da generalidade dos homens e das mulheres implicava frequentemente trabalho conjunto na agricultura e alguma partilha de tarefas; nesta situação, as mulheres conseguiam conjugar com relativa facilidade o trabalho fora de casa com as actividades domésticas e com cuidados com as crianças. Para termos uma noção mais clara desta situação, basta lembrarmos que, por exemplo, num país como os Estados Unidos, no início do século, 90% da população vivia do trabalho agrícola em quintas privadas, e grande parte dos artigos necessários era produzido em casa pelas próprias mulheres; mas, a revolução industrial, não só veio mobilizar os homens nas manufacturas e nas fábricas, como permitiu produzir em larga escala muitos dos produtos que antes resultavam do trabalho das mulheres em casa.

A industrialização criou novas oportunidades de trabalho para os homens, que foram acompanhadas, embora em muito menor escala, de oportunidades para as mulheres, muitas das quais passaram a trabalhar em fábricas e em outros serviços de apoio às novas indústrias e às necessidades emergentes. Com o trabalho fora de casa, começou a surgir um clima mais favorável a um movimento de libertação das mulheres, o qual, alimentado pelo ambiente cultural criado do humanismo dos fins do século XVIII, ligado às revoluções francesa e norte-americana, as levava a colocar a inevitável pergunta: afinal porque é que não temos direitos iguais aos homens?
As mulheres começavam a antever novas perspectivas de autonomia e de afirmação individual que o salário auferido pelo trabalho fora de casa lhes podia propiciar; claro que tinham sempre baixos salários e normalmente os seus postos de trabalho eram conotados com a esfera feminina e por isso desvalorizados: secretárias, empregadas domésticas, professoras, enfermeiras, e obviamente operárias, etc.
Inicialmente foram as mulheres solteiras as primeiras candidatas ao trabalho fora de casa já que as casadas teriam de enfrentar a dupla jornada pois os maridos não se dignavam ajudar em casa, e ainda, cúmulo dos cúmulos, os seus salários seriam por eles controlados; de qualquer forma, mesmo com todas estas desvantagens, o número de mulheres que passaram a trabalhar fora de casa foi sempre aumentando e o número de mulheres casadas nessa situação também aumentou significativamente.

No mesmo século XIX, em flagrante contraste com a classe mais popular, começou a formar-se uma classe média e média/alta, relativamente abastada, na qual maridos provedores das necessidades da família e mulheres domésticas, atentas às mínimas necessidades de esposos e filhos, era sinal seguro de elevação no estatuto social. As mulheres desta classe social supostamente deviam continuar em casa, enquanto símbolos decorativos do sucesso económico dos seus maridos, mas o facto de muitas das tarefas, anteriormente assumidas pelas esposas, serem agora entregues a empregadas domésticas - que não escasseavam dado constituírem mão-de-obra barata, tinha de criar em pessoas, dotadas de energia, mas votadas à inactividade, uma sensação de vazio e de mal-estar difuso que ajudava a alimentar a expectativa por voos de outra natureza.

Todas estas transformações na vida económica e social foram favoráveis à emergência do movimento feminista que vai lutar perla libertação das mulheres exigindo que lhes sejam reconhecidos os direitos de que até aí apenas os homens gozavam, como será o caso do direito de voto.
Para quem está de fora, pareceria que essa libertação, aparentemente mais do que justa, e só pecando por tardia, apenas se poderia defrontar com obstáculos decorrentes da esfera masculina, pouco interessada em perder ancestrais privilégios. E, de facto, na retaguarda do contra-ataque estiveram homens cultos, poderosos e influentes, mas quem deu a cara foram mulheres profundamente convencidas de que estavam a empreender uma luta justa contra algumas outras, desprovidas de pudor ou vergonha, que queriam desvirtuar o seu próprio sexo.

A ideologia do contra-ataque anti-feminista incidiu na diferenciação das esferas feminina e masculina e insistiu na exaltação do papel da mulher como esposa e mãe, responsável pela saúde física e mental das futuras gerações, reserva do progresso das nações e do bem-estar das sociedades. Este contra-ataque, preocupado sobretudo com as mulheres da classe média e média alta, muitas das quais começavam a aspirar a uma educação académica que até então lhes fora recusada, revitalizava velhos chavões que inculcavam a ideia de que o trabalho fora de casa e o estudo tornavam as mulheres masculinizadas e egoístas, culpabilizava as mulheres pelo que se entendia serem os desmandos sociais, acusando-as de fugirem aos seus deveres familiares, esgrimia contra elas argumentos científicos e também argumentos bíblicos, incutindo-lhes os velhos temores pelas consequências da transgressão dos mandamentos divinos.

À «nova mulher» - que se começava a emancipar, moderna, letrada e consciente de si mesma, os e as anti-feministas opunham a «verdadeira mulher», tradicional, submissa, despreocupada com estudos e abnegada até à auto-imolação, esquecendo-se de si mesma para se preocupar sempre em primeiro e fundamental lugar com os outros: um anjo no lar, um anjo fora de casa e a salvadora do homem. «Clara e confidentemente as autoridades (Igreja e Sociedade) identificavam a verdadeira mulher do século XIX com a mulher valente da Bíblia no coração da qual o marido regozijava e cujo preço valia mais do que rubis»[1].

Três aspectos identificavam a «verdadeira mulher»:
A verdadeira mulher chegava pura ao casamento, a abstinência sexual antes do casamento era para ela um imperativo moral e social;
A verdadeira mulher era submissa e obediente ao seu marido, nunca se lembrando de desacatar nem o seu «destino biológico», nem o mandamento divino;
A verdadeira mulher era um poço de virtudes e devia sentir-se enobrecida pela função que lhe era conferida de salvar o homem, mais naturalmente inclinado ao pecado.

Claro que este mito da «verdadeira mulher» poderia e deveria levar a perguntar: se essas «verdadeiras mulheres» eram moralmente tão superiores aos homens: puras, virtuosas, altruístas, redentoras, porque é que então não tinham um papel mais activo no governo de um mundo que, tanto quanto se podia constatar, continuava a ser caótico, violento e desgovernado? Mas, realmente o que se pretendia com toda esta retórica era prender a mulher aos seus papéis tradicionais, colocando-a num altar, identificando-a com tudo o que era nobre e sagrado, fazendo-lhe supor que a ela cabia o melhor dos dois mundo, poder e virtude, quando de facto apenas a virtude lhe era exigida, porque do poder restava apenas o simulacro.

Não tenhamos, todavia, ilusões; a mudança assusta sempre as pessoas e, neste caso, muitas mulheres, sentindo-se confortáveis numa vida limitada, mas sem grandes percalços, preferiam dar a sua aquiescência silenciosa ou mesmo o seu apoio declarado ao anti-feminismo, a cometer a ousadia de desafiar Deus, pátria e família - essa velha e sedutora tríade que ainda hoje balança tantos corações. Assim, começa a perceber-se porque é que o feminismo, ontem como hoje, continua a fazer espécie a tanta gente, nomeadamente a tantas mulheres, as tais que costumam afirmar: «eu não sou feminista mas…» tornando-se implícito que não assumem o feminismo, mas não desdenham todas as vantagens - e foram muitas, que com ele as mulheres alcançaram.

[1] Bárbara Welter: Dimity Convictions The American Woman in the Nineteenth Century.

1 comentário:

  1. Na minha infância, conheci várias mulheres que são o espelho desta conclusão. Penso nelas com ternura. Eram mulheres frustradas.

    'Mas, realmente o que se pretendia com toda esta retórica era prender a mulher aos seus papéis tradicionais, colocando-a num altar, identificando-a com tudo o que era nobre e sagrado, fazendo-lhe supor que a ela cabia o melhor dos dois mundo, poder e virtude, quando de facto apenas a virtude lhe era exigida, porque do poder restava apenas o simulacro.'

    Obrigada Adilia.

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