domingo, 30 de agosto de 2009

Sexo e amor em Sartre - uma paixão inútil

Para se compreender melhor a teoria do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980) sobre sexo e amor, convém recordarmos alguns aspectos mais gerais do seu pensamento.
Sartre entende o ser humano como um ser contingente, que existe no mundo, mas que poderia não existir, que tem portanto a noção de que não é um ser necessário. Por outro lado, esse ser contingente sabe que está entregue a si mesmo, e que não tem, nem dentro nem fora de si, nenhum quadro de valores pré-estabelecido que lhe diga como agir e como moldar a sua conduta. É um ser totalmente livre que, se não usar aquilo que Sartre designa de má fé – uma espécie de processo de auto-mistificação, terá de assumir essa liberdade. Tal situação explica o sentimento de abandono, de vazio e de estranheza que o ser humano experimenta e também o terrível desafio que encontra pela frente. Só o amor, enquanto ponte entre o eu e o outro, parece permitir eliminar esse sentimento de contingência intrínseco à existência humana.

Para Sartre, o propósito daquele que ama é ser amado, porque só aquele/a que o ama resgata a contingência do seu ser no mundo, onde não encontra razão para a existência, dando-lhe um sentido, tornando-o único, necessário, absoluto. Mas como se apresenta o desejo sexual, o que se encontra na relação amorosa?

Como Sartre não separa o corpo da mente, a pessoa é para ele uma totalidade - não há de um lado um corpo e de outro uma inteligência ou um espírito. Do mesmo modo, ele também não dissocia nunca o sexo do amor. Por isso, Sartre diz que, quando há atracção sexual, quando se deseja sexualmente, não se deseja um corpo, deseja-se uma pessoa, e uma pessoa é uma subjectividade livre com a qual a minha subjectividade se confronta. O amor do outro assegura a minha identidade, protege-me da indiferença do olhar dos outros, dos que não me amam, justifica a minha existência. Desse modo, a relação amorosa ideal implica reciprocidade e nela dois sujeitos livres e iguais reforçam mutuamente as suas identidades e procuram possuir-se enquanto objectos. Mas este desejo, o desejo amoroso, é uma paixão inútil:

“O homem que quer ser amado não deseja realmente a escravização da amada … A total escravização da amada mata o amor do amante. Se a amada se transforma num autómato, o amante reencontra-se a si mesmo sozinho. Por isso, o amante não deseja possuir a amada como se possui um carro. Ele exige um tipo especial de apropriação. Ele quer possuir uma liberdade, enquanto liberdade, ele quer ser amado por uma liberdade, mas exige que esta liberdade deixe de ser livre.” (1)

Desta caracterização decorre que o desejo sexual tem um objecto impossível porque o que ele quer possuir, aquilo que o satisfaz, assim que for possuído deixa de existir enquanto tal: uma vontade livre, uma vez possuída, deixa de ser vontade e deixa de ser livre e aquele que ama não pode querer que tal aconteça. Assim, nem mesmo o amor permite eliminar a contingência de se ser no mundo.
(1) Jen-Paul Sartre: L´Etre et le Néant

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